Quando entregadores de aplicativos cruzaram os braços no Breque dos Apps, em abril de 2025, a reivindicação pública parecia elementar: remuneração mínima por entrega, aumento do valor por quilômetro, limite para a distância das rotas e condições menos brutais de trabalho. Mas a greve expôs uma questão maior do que a tabela de preços de uma corrida. O entregador não negocia apenas com uma empresa que paga pouco; ele trabalha sob um comando que se apresenta como cálculo impessoal. A tela oferece pedidos, estipula prazos, registra atrasos, mede deslocamentos, hierarquiza trabalhadores e pode reduzir o acesso às chamadas. A inteligência artificial entra nessa cena não como um robô futurista que ocupa a rua, mas como uma camada de gestão que torna o poder empresarial menos visível e, justamente por isso, mais difícil de enfrentar.

É conveniente para as plataformas chamar esse arranjo de tecnologia. A palavra sugere eficiência, modernização e inevitabilidade. Contudo, não há nada inevitável na decisão de organizar o trabalho por metas opacas, remuneração variável e avaliação contínua. Há uma escolha de classe. A empresa concentra os dados sobre demanda, trajetos, clientes, restaurantes, horários e desempenho; o trabalhador recebe somente a próxima ordem e uma promessa abstrata de que, se aceitar mais corridas e mantiver boa conduta, poderá ganhar melhor. A assimetria não é um defeito lateral do sistema. É o seu princípio de funcionamento.

O Breque dos Apps revelou o patrão escondido na interface

O discurso do empreendedorismo sempre foi essencial para a economia de plataformas. O motofretista é chamado de parceiro, embora não defina o preço de sua entrega; é chamado de autônomo, embora dependa das chamadas organizadas por um sistema que não controla; é tratado como dono de seu tempo, embora recusar pedidos, desligar o aplicativo ou demorar na rota possa custar renda e disponibilidade futura de trabalho. A linguagem empresarial troca a relação de exploração por uma ficção jurídica e moral: a de que cada indivíduo compete livremente no mercado com sua bicicleta, moto e disposição para o risco.

A inteligência artificial reforça essa ficção porque converte decisões patronais em resultados aparentemente técnicos. Se um entregador recebe menos pedidos em determinada região, se uma conta é bloqueada, se uma rota longa surge com pagamento baixo ou se uma promoção induz jornadas exaustivas, a resposta da empresa costuma se esconder atrás de regras internas, segurança, prevenção a fraudes ou funcionamento do sistema. O trabalhador vê o efeito, mas não acessa os critérios. Não sabe quais dados pesaram, qual regra foi acionada, quem pode rever a decisão nem de que modo contestá-la. A gerência, antes encarnada no supervisor de fábrica, aparece agora como notificação automática.

Isso não significa que o patrão tenha desaparecido. Significa que ele ganhou uma máscara mais eficiente. Marx mostrou que a exploração capitalista não depende da grosseria pessoal do proprietário: ela decorre de uma estrutura em que quem possui os meios de produção compra a força de trabalho e se apropria do excedente produzido. Nas plataformas, os meios de produção incluem também a infraestrutura digital, a marca, os dados acumulados e a capacidade de coordenar multidões de trabalhadores em tempo real. A moto pode ser do entregador, mas o mercado que dá utilidade econômica a ela pertence à plataforma. Ele arca com combustível, manutenção, acidente e desgaste; a empresa controla o fluxo que transforma seu deslocamento em valor.

Automatizar a gestão não é abolir a exploração

Há uma propaganda persistente segundo a qual a inteligência artificial libertará as pessoas das tarefas repetitivas. Em parte, máquinas de fato podem reduzir esforço e ampliar capacidades humanas. A questão decisiva, porém, é quem decide para quê essa capacidade será usada. Sob o capitalismo, ganhos técnicos não se convertem automaticamente em redução da jornada, estabilidade ou aumento salarial. Podem converter-se em mais desemprego, metas maiores, vigilância mais minuciosa e concentração de riqueza. A técnica não chega a uma sociedade vazia de conflitos; ela é incorporada a relações sociais já marcadas pela propriedade privada e pela desigualdade.

O call center brasileiro ajuda a enxergar essa passagem. Há anos, operadores trabalham com scripts, cronômetros, metas de atendimento e supervisão detalhada. Sistemas capazes de transcrever chamadas, resumir conversas, classificar emoções ou sugerir respostas prometem tornar esse trabalho mais eficiente. Mas eficiência para quem? Se a empresa usa a ferramenta para diminuir a jornada sem reduzir salário, eliminar constrangimentos e devolver autonomia ao operador, há uma mudança material favorável ao trabalho. Se a usa para exigir mais chamadas por hora, eliminar postos, padronizar ainda mais a fala e punir quem não acompanha a cadência, a inteligência artificial é uma nova forma de extrair mais valor no mesmo tempo de vida.

O professor também conhece essa pressão. Plataformas educacionais, corretores automáticos e sistemas de geração de conteúdo são vendidos como apoio pedagógico. Na escola precarizada, porém, podem servir para ampliar turmas, reduzir tempo de preparação, substituir mediação humana por exercícios padronizados e submeter docentes a indicadores que ignoram a realidade dos alunos. Não é a máquina que deseja cortar custos: são administrações públicas ou privadas que escolhem tratar a educação como linha de produção. A ferramenta fornece a aparência racional de uma medida que continua sendo política.

Heidegger advertia que a técnica moderna tende a enquadrar o mundo como reserva disponível, algo a ser calculado e explorado. No capitalismo de plataforma, esse enquadramento alcança o próprio trabalhador com uma precisão cotidiana. Sua localização vira dado; sua velocidade, métrica; sua pausa, perda de produtividade; sua fala, material analisável; sua reputação, nota; sua necessidade de renda, disponibilidade para aceitar condições piores. A pessoa deixa de aparecer para o sistema como sujeito com direitos e limites. Torna-se um conjunto de sinais a otimizar.

A opacidade produz alienação e disciplina

Alienação não é apenas sentir-se distante do produto que se fabrica. É perder o controle sobre a atividade que ocupa a vida e vê-la retornar como força estranha que governa quem a realizou. O entregador ajuda a alimentar o banco de dados da plataforma a cada corrida. Seus trajetos, horários, recusas e avaliações tornam o sistema mais capaz de prever demanda e organizar o serviço. Mas esse conhecimento coletivo, produzido por milhões de atos de trabalho, volta para ele como instrumento de classificação e disciplina. Ele alimenta a inteligência da empresa, enquanto a empresa guarda essa inteligência como propriedade privada.

Debord descreveu uma sociedade em que as relações entre pessoas são mediadas por imagens e representações que se autonomizam. A plataforma leva essa mediação para o centro da jornada. O trabalhador não encontra um chefe que explique uma ordem, nem colegas com quem construa facilmente uma referência comum sobre salário e ritmo. Encontra mapas, medalhas, rankings, mensagens motivacionais e números que parecem descrever uma realidade objetiva. A exploração se apresenta como jogo: complete metas, mantenha sua taxa, destrave benefícios, seja mais eficiente. A linguagem lúdica transforma a necessidade de sobreviver em competição individual.

Essa arquitetura tem efeito político. Se cada trabalhador acredita que seu rendimento decorre exclusivamente de sua estratégia pessoal, a empresa consegue deslocar para o indivíduo a responsabilidade por uma remuneração insuficiente. Quem ganhou pouco teria escolhido mal o horário; quem foi bloqueado teria descumprido alguma regra; quem se acidentou teria administrado mal o risco. A meritocracia digital faz da desigualdade uma espécie de placar. E, ao separar trabalhadores por pontuações e incentivos personalizados, dificulta que reconheçam a experiência comum que poderia produzir organização coletiva.

O Breque dos Apps foi importante porque interrompeu essa individualização. Ao parar coletivamente, entregadores afirmaram uma verdade que o aplicativo tenta apagar: sem trabalho humano, não há conveniência, entrega rápida, dados valiosos nem lucro tecnológico. A greve devolve visibilidade à infraestrutura de carne, osso e combustível que sustenta a fantasia de um serviço automático. Também mostra que o problema não se resolve com uma empresa publicar princípios éticos vagos para sua inteligência artificial. Ética sem poder de fiscalização, transparência e organização trabalhista vira departamento de relações públicas.

Ver o sistema é mudar a pergunta

Depois de enxergar esse mecanismo, a pergunta deixa de ser se a inteligência artificial é boa ou má. Essa é uma formulação confortável para empresas que preferem discutir valores abstratos enquanto preservam seu controle sobre dados, contratos e decisões. A pergunta passa a ser: quem possui a infraestrutura, quem define os objetivos do sistema, quem pode contestar suas decisões e quem fica com os ganhos de produtividade?

Para quem pede comida, usa atendimento automatizado, estuda numa plataforma ou trabalha diante de uma tela que mede tudo, essa mudança de olhar impede a adesão fácil ao encantamento tecnológico. A conveniência não é neutra quando depende de remuneração rebaixada e jornadas submetidas a comandos opacos. Defender transparência nos critérios automatizados, direito de contestar bloqueios e avaliações, proteção trabalhista e redução da jornada não é nostalgia de um mundo sem máquinas. É recusar que máquinas sejam usadas para tornar a exploração mais silenciosa.

A inteligência artificial pode ampliar a capacidade social de planejar, criar e reduzir trabalho penoso. Mas isso exige retirar das plataformas o monopólio sobre as decisões que hoje governam a vida de quem trabalha. Enquanto o algoritmo responder antes ao lucro, sua inteligência será a inteligência do capital: rápida para calcular rotas, lenta ou cega para reconhecer direitos.