A alienação política não começa quando alguém deixa de votar, abandona uma reunião sindical ou diz que política não serve para nada. Ela começa antes, no modo como a sociedade capitalista separa a vida concreta das pessoas das decisões que organizam essa vida. O entregador submetido ao algoritmo, a professora sem tempo para preparar aulas, o trabalhador de call center controlado por metas e o morador da periferia que enfrenta transporte precário experimentam diariamente decisões políticas, mas são levados a interpretá-las como fatalidades individuais. A política aparece como um espetáculo distante, ocupado por profissionais, especialistas, juízes, influenciadores e líderes providenciais. O resultado não é a ausência de política, mas a presença de uma política que se realiza sem a participação consciente daqueles que mais sofrem seus efeitos.
O caso brasileiro oferece uma imagem brutal dessa separação. Em 8 de janeiro de 2023, milhares de pessoas invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília, convencidas de que uma mobilização convocada por redes bolsonaristas poderia substituir o processo eleitoral e produzir uma intervenção autoritária. Não se trata de reduzir cada participante a uma caricatura de ignorância, nem de transformar o episódio em desvio psicológico de indivíduos fanatizados. O ataque expôs uma forma particular de alienação: pessoas excluídas do poder real foram mobilizadas para defender o poder de uma fração política, acreditando agir em nome da própria liberdade enquanto atacavam as condições mínimas da decisão coletiva.
A alienação política não é desinteresse, mas separação
Na tradição marxista, alienação não significa apenas confusão mental ou falta de informação. O conceito descreve uma relação social na qual a atividade humana se volta contra os próprios seres humanos, aparecendo como força estranha e independente. No trabalho, o trabalhador produz riqueza, mas não controla o produto, o ritmo nem a finalidade de sua atividade. Na política, algo semelhante ocorre: a maioria sustenta materialmente a sociedade, mas as decisões sobre orçamento, propriedade, emprego, cidade, comunicação e segurança aparecem como assunto de uma esfera separada, administrada por representantes e instituições que não respondem diretamente à vida cotidiana.
Essa separação não é um acidente provocado por maus políticos. Ela é produzida por uma sociedade que organiza a existência em torno da propriedade privada, da concorrência e da acumulação. O trabalhador depende de vender sua força de trabalho; a empresa depende de reduzir custos; o Estado depende de preservar as condições gerais da valorização do capital. A cidadania formal proclama igualdade, mas a vida social permanece atravessada por desigualdades materiais. O voto igual não elimina o poder desigual de quem financia campanhas, controla meios de comunicação, possui grandes plataformas, influencia decisões econômicas ou pode contratar equipes jurídicas e lobby.
É por isso que a alienação política não desaparece quando as pessoas recebem mais notícias ou quando um aplicativo oferece ferramentas de participação. A informação pode circular sem produzir poder. O sujeito pode acompanhar dezenas de comentaristas, compartilhar vídeos e discutir diariamente a conjuntura sem adquirir qualquer controle sobre seu trabalho, seu território ou as decisões que determinam sua sobrevivência. A atividade política é convertida em consumo de opiniões. O cidadão sente que participa porque reage, comenta e escolhe um lado, mas sua ação permanece confinada aos circuitos desenhados por empresas privadas de comunicação.
Do trabalhador exausto ao eleitor capturado
O entregador de aplicativo é um exemplo decisivo. Ele pode acompanhar a política pelo celular entre uma entrega e outra, mas o mesmo aparelho que oferece notícias e vídeos também calcula sua rota, registra sua localização, distribui pedidos e condiciona sua renda a avaliações. O trabalhador não controla o algoritmo, não conhece integralmente seus critérios e não negocia em igualdade com a empresa. Ainda assim, a ideologia da autonomia o apresenta como empreendedor individual. Se a renda cai, o problema parece ser sua performance; se a jornada se estende, a escolha parece sua; se adoece, a responsabilidade é remetida à sua falta de planejamento.
A forma política correspondente a essa experiência é a responsabilização individual. O trabalhador aprende a imaginar que está sozinho diante de forças que não controla. O Estado aparece ora como obstáculo burocrático, ora como ameaça à liberdade de empreender, mas raramente como campo de disputa coletiva. A empresa desaparece por trás do aplicativo, a classe desaparece por trás da narrativa do mérito e o conflito social desaparece por trás da linguagem da escolha. A alienação política se alimenta dessa mesma operação: aquilo que é produzido por relações sociais é apresentado como destino pessoal.
O professor submetido a contratos temporários e metas administrativas vive uma contradição semelhante. Sua atividade depende de uma política educacional, de orçamento, de decisões sobre currículo e de condições concretas de trabalho. Porém, quando o desempenho dos estudantes é convertido em indicador, a precariedade estrutural é devolvida ao indivíduo como culpa profissional. A professora é responsabilizada pelo fracasso de uma escola sem recursos; o entregador, pela renda insuficiente; o desempregado, pela ausência de qualificação. A política deixa de ser o conflito sobre a organização da sociedade e passa a ser um julgamento moral de indivíduos isolados.
O call center radicaliza essa lógica. Cada atendimento é cronometrado, cada pausa pode ser registrada, cada fala é submetida a protocolos. O trabalhador deve demonstrar cordialidade enquanto absorve a irritação de clientes e a pressão de supervisores. Fora do turno, encontra o mesmo vocabulário de desempenho nas redes sociais: vencer, crescer, otimizar, não reclamar. O cansaço não produz automaticamente consciência coletiva. Sem organização e tempo comum, ele tende a produzir retraimento, cinismo ou busca por uma explicação que ofereça identidade imediata. É nesse terreno que a política espetacular encontra sua força.
O espetáculo transforma impotência em pertencimento
Guy Debord descreveu a sociedade do espetáculo não como uma sociedade com muitas imagens, mas como uma relação social mediada por imagens. O espetáculo separa as pessoas da própria capacidade de agir e devolve a elas representações de uma vida comum que já não conseguem construir diretamente. Aplicada à política brasileira, essa formulação ajuda a entender por que a circulação incessante de vídeos, slogans e inimigos pode produzir a sensação de participação sem ampliar a força popular.
O bolsonarismo compreendeu essa engrenagem. Sua comunicação não depende apenas de convencer sobre fatos específicos. Ela fabrica uma comunidade afetiva permanente, com símbolos, gestos, inimigos e rituais. A pessoa que se sente abandonada no trabalho, insegura na cidade e impotente diante das instituições encontra uma explicação totalizante: o país teria sido sequestrado por uma conspiração, a imprensa seria inimiga, o Supremo seria um poder usurpador e o líder encarnaria a vontade verdadeira do povo. A complexidade social é reduzida a uma narrativa de combate. O sujeito deixa de ser um trabalhador sem poder e passa a se enxergar como soldado de uma guerra moral.
Essa transformação não emancipa. Ela desloca a frustração para alvos escolhidos e preserva as relações que produzem a impotência. O salário não aumenta porque um jornalista foi ameaçado; a jornada não diminui porque uma minoria é convertida em inimiga; o poder econômico não é desafiado porque um ministro é insultado. A energia social é capturada por uma dramaturgia que oferece antagonistas visíveis e poupa as estruturas invisíveis. O espetáculo político, nesse sentido, é uma tecnologia de desvio: mantém as pessoas mobilizadas justamente para que não construam um poder próprio.
Nas redes, cada usuário é incentivado a atuar como distribuidor de uma mensagem. Isso parece horizontal, mas a circulação obedece a plataformas privadas que ordenam a visibilidade por critérios opacos e comerciais. A indignação se torna dado, o conflito se torna retenção de atenção e a identidade política se torna um perfil permanentemente mensurável. O usuário acredita estar enfrentando o sistema ao compartilhar uma publicação, mas sua ação alimenta a infraestrutura econômica que transforma comportamento em mercadoria. A rebeldia é incorporada como tráfego.
Le Bon, a multidão e a obediência ao líder
Gustave Le Bon, embora marcado por uma visão elitista e conservadora das multidões, percebeu um mecanismo que continua útil para a crítica: em uma massa, a experiência individual pode ser absorvida por imagens, contágios emocionais e fórmulas repetidas. Sua teoria não deve ser usada para tratar o povo como irracional por natureza. O ponto relevante é outro: quando pessoas isoladas são reunidas sem organização autônoma, sem deliberação e sem projeto coletivo, sua energia pode ser dirigida por símbolos simplificadores e pela autoridade de um líder.
As concentrações bolsonaristas produziram esse tipo de unidade. A bandeira nacional, a linguagem religiosa, a suspeita permanente contra as instituições e a espera por uma intervenção militar funcionaram como elementos de uma comunidade imaginada. A multidão não discutia como reorganizar o trabalho, democratizar a comunicação ou enfrentar a desigualdade. Esperava uma decisão exterior que suspendesse o conflito social e entregasse a solução a uma autoridade salvadora. A massa se movimentava, mas não governava a própria movimentação.
O 8 de janeiro revela o limite dessa política. A ação direta contra prédios públicos não rompeu com a alienação porque não criou capacidade coletiva de decisão. Foi uma explosão de impotência organizada em torno da fantasia de que as Forças Armadas, o líder ausente ou algum poder oculto faria aquilo que os participantes não podiam fazer por si mesmos. A multidão ocupou o espaço físico do poder sem possuir poder político. Destruiu símbolos institucionais, mas não atacou as relações econômicas que subordinam a maioria. A violência não foi emancipatória; foi a forma desorientada de uma subjetividade incapaz de se reconhecer como sujeito histórico.
O Estado, a forma jurídica e a promessa de igualdade
A crítica de Alysson Mascaro ao Estado ajuda a evitar uma leitura superficial do problema. O Estado capitalista não é simplesmente um instrumento que qualquer grupo pode usar à vontade, nem uma entidade neutra colocada acima das classes. Ele apresenta os indivíduos como sujeitos juridicamente livres e iguais, enquanto organiza as condições gerais de uma sociedade fundada na exploração do trabalho e na propriedade privada. A igualdade perante a lei é real no plano formal, mas convive com desigualdades econômicas que definem quem possui tempo, recursos e capacidade efetiva de influenciar as decisões.
Essa forma estatal produz uma experiência política ambígua. O trabalhador é reconhecido como cidadão e, ao mesmo tempo, obrigado a vender sua força de trabalho para sobreviver. Pode votar, mas não decide a finalidade da empresa em que trabalha. Pode recorrer à Justiça, mas enfrenta custos, demora e assimetrias diante de grandes corporações. Pode reivindicar direitos, mas vê políticas públicas limitadas por compromissos com o pagamento da dívida, pela austeridade e pela necessidade de preservar a confiança dos mercados. A alienação política nasce também dessa discrepância entre a promessa de soberania popular e a experiência cotidiana de não controlar as condições da própria vida.
O bolsonarismo explora essa frustração sem questionar o fundamento social que a produz. Sua retórica contra o Estado seleciona alvos: condena políticas sociais, direitos trabalhistas, universidades e instituições de controle, mas não combate a concentração patrimonial nem o poder de grandes grupos econômicos. Quando fala em liberdade, geralmente defende a liberdade empresarial de contratar, demitir, explorar dados e operar sem regulação. A liberdade do trabalhador aparece como adaptação individual ao risco. Assim, uma crítica legítima à distância entre povo e instituições é capturada por um projeto que aprofunda essa distância.
A técnica administra a participação
Heidegger compreendeu a técnica moderna como mais do que um conjunto de ferramentas. Ela tende a enquadrar os seres e a natureza como recursos disponíveis, passíveis de cálculo, extração e ordenamento. No capitalismo digital, essa disposição alcança também a participação política. Atenção, emoção, deslocamento, opinião e vínculo social são convertidos em elementos mensuráveis e administráveis. A pessoa não é apenas espectadora de conteúdos; ela é continuamente analisada como fonte de dados e como alvo de intervenção.
O algoritmo não inventa sozinho o bolsonarismo, assim como a televisão não inventou a desigualdade ou o ressentimento. Mas as plataformas organizam a circulação daquilo que pode se tornar visível, repetível e rentável. Conteúdos capazes de provocar medo, indignação e pertencimento podem receber maior circulação porque mantêm o usuário conectado. A política é então submetida a uma gramática de desempenho: a mensagem precisa ser curta, o inimigo precisa ser reconhecível, a dúvida precisa ser convertida em suspeita e a complexidade precisa parecer covardia.
Essa administração tecnológica reforça a alienação porque substitui a experiência comum por uma sucessão de estímulos personalizados. Cada pessoa recebe um ambiente informacional diferente, embora pense estar participando de um debate coletivo. O vizinho deixa de ser alguém com quem se pode construir uma ação e passa a ser um perfil classificado como aliado ou inimigo. A esfera pública se fragmenta em comunidades de confirmação. O cidadão não perde apenas informação; perde a percepção das condições necessárias para produzir entendimento e organização.
A resposta não pode ser uma nostalgia de um passado sem mediação tecnológica. A técnica deve ser disputada socialmente. Plataformas que afetam eleições, trabalho e circulação de informação não podem permanecer submetidas apenas ao interesse privado de seus proprietários. Mas regulamentar plataformas, por si só, não dissolve a alienação política. Sem reduzir a jornada, garantir direitos, fortalecer sindicatos, democratizar a comunicação e ampliar o controle popular sobre o orçamento e os serviços públicos, a tecnologia apenas administrará uma população cansada com mais eficiência.
Da falsa escolha à organização coletiva
Combater a alienação política exige rejeitar duas explicações igualmente pobres. A primeira culpa o eleitor, tratado como ignorante, manipulado ou moralmente inferior. A segunda transforma toda despolitização em inocência, como se a circulação de mentiras não tivesse responsabilidade nem efeitos. A classe trabalhadora não é culpada por viver em condições que dificultam sua organização, mas projetos autoritários devem ser enfrentados sem relativização. Compreender a alienação é explicar sua produção, não absolver quem mobiliza racismo, misoginia, violência política e destruição institucional.
Também é preciso abandonar a oposição entre participação eleitoral e ação social. Votar pode abrir ou fechar possibilidades, mas não substitui organização. Uma eleição não entrega automaticamente controle sobre o trabalho, a cidade ou a comunicação. Do mesmo modo, a indignação nas redes não equivale a mobilização. A política começa a deixar de ser alienada quando as pessoas conseguem transformar problemas privados em reivindicações comuns e construir instrumentos permanentes para defendê-las.
O entregador que individualmente reclama de uma tarifa pode continuar isolado; quando trabalhadores se reconhecem como categoria, formulam pautas e realizam um breque dos aplicativos, a experiência deixa de aparecer como fracasso pessoal. A professora que se culpa pelo esgotamento pode encontrar no coletivo de trabalho a possibilidade de disputar jornada, salário e condições pedagógicas. O operador de call center que sofre metas abusivas pode perceber que a pressão não é deficiência sua, mas método de gestão. A passagem decisiva é transformar sofrimento disperso em antagonismo organizado.
Essa organização não precisa assumir a forma de um partido único ou de uma identidade sem conflitos. Ela precisa produzir espaços em que os sujeitos possam deliberar sobre fins, meios e prioridades, em vez de apenas reagir aos estímulos do espetáculo. Sindicatos, movimentos de moradia, coletivos territoriais, associações comunitárias e organizações políticas são importantes quando ampliam a capacidade de decisão dos envolvidos, e não quando substituem sua voz por uma nova autoridade. A emancipação não consiste em trocar um líder por outro, mas em reduzir a distância entre quem age e quem decide.
A disputa é também cultural. O senso comum não é uma coleção fixa de preconceitos; é uma forma contraditória de compreender o mundo, formada por experiências reais e explicações oferecidas socialmente. A direita autoritária conquista espaço quando oferece uma linguagem simples para dores concretas que a esquerda muitas vezes responde com abstrações ou com a defesa burocrática do possível. A crítica anticapitalista precisa falar de aluguel, transporte, salário, violência, tempo, dívida, escola e dignidade. Não para abandonar a teoria, mas para mostrar como a teoria ilumina aquilo que a ideologia apresenta como destino.
A alienação política não será superada por uma campanha de conscientização individual. Nenhum vídeo explicativo pode compensar uma jornada exaustiva, uma cidade segregada ou uma comunicação concentrada. Consciência é inseparável de prática social. As pessoas aprendem a governar coletivamente quando participam de decisões reais e percebem que sua ação pode modificar relações, ainda que de modo parcial e conflituoso. A experiência de poder compartilhado é o oposto da espera pelo salvador.
O 8 de janeiro deve ser lembrado, assim, não apenas como ataque às instituições democráticas, mas como sintoma de uma sociedade em que a maioria é convocada a assistir à própria vida política. A democracia formal foi ameaçada por uma multidão que imaginava agir contra o sistema, mas que reproduzia a lógica mais profunda do sistema: indivíduos separados, conduzidos por imagens, dependentes de autoridades e incapazes de controlar as forças que os mobilizam. Derrotar o bolsonarismo exige responsabilizar seus agentes e defender as instituições contra a violência golpista. Exige também algo mais difícil: construir uma democracia material, na qual trabalhar, morar, estudar e decidir não sejam experiências submetidas a poderes estranhos.
A política deixa de ser alienada quando o cidadão não é reduzido a eleitor, consumidor de notícias ou soldado de uma guerra moral fabricada. Ela se torna prática de autogoverno quando aqueles que produzem a riqueza, sustentam os serviços e mantêm a sociedade em funcionamento podem interferir efetivamente em sua organização. Enquanto essa capacidade permanecer separada das pessoas, a frustração continuará disponível para o espetáculo, para o líder e para o autoritarismo. A tarefa da esquerda não é administrar essa impotência, mas convertê-la em força coletiva contra as relações que a produzem.
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