Alienada é a pessoa cuja relação consigo mesma, com os outros e com o mundo foi organizada por forças sociais que aparecem como naturais, inevitáveis ou puramente individuais. O termo não significa simplesmente distraída, ignorante ou incapaz de pensar: designa uma forma de consciência e de vida produzida pela alienação, isto é, pela separação entre os seres humanos e o controle sobre sua própria atividade, seu tempo, seus vínculos e suas decisões. Uma trabalhadora que passa o dia obedecendo a metas que não definiu, um entregador submetido a um aplicativo que calcula seu valor sem se revelar, ou um eleitor levado a odiar seus próprios interesses podem estar alienados não por uma falha pessoal, mas porque a sociedade capitalista converte relações históricas em aparentes escolhas privadas.
O que significa estar alienada
A palavra costuma ser usada no cotidiano como insulto. Diz-se que alguém está alienada quando não conhece política, não acompanha as notícias ou parece indiferente aos problemas coletivos. Esse uso capta uma consequência, mas perde a causa. A alienação não é apenas ausência de informação. Uma pessoa pode ler muito, dominar ferramentas digitais e acompanhar diariamente os acontecimentos sem compreender as relações que determinam sua vida. Também pode possuir opiniões políticas firmes e, ainda assim, defender estruturas que a prejudicam. O problema central não é a quantidade de dados disponíveis, mas a impossibilidade social de transformar conhecimento em poder sobre a própria existência.
Em Marx, a alienação aparece de modo decisivo na análise do trabalho assalariado. O trabalhador produz objetos, serviços e riqueza, mas o resultado de sua atividade não lhe pertence. Seu trabalho é vendido em troca de salário e subordinado à finalidade de outra classe: a valorização do capital. A atividade que poderia expressar capacidades humanas torna-se meio de sobrevivência. O indivíduo se reconhece menos no que faz porque aquilo que faz é comandado por uma necessidade externa. O produto, o processo de trabalho, as relações com os demais e a própria potência humana ficam separados do trabalhador.
Essa separação não desaparece quando o trabalho é apresentado como flexível, autônomo ou empreendedor. Pelo contrário: pode se tornar mais profunda quando a dominação é transferida para a consciência do indivíduo. A pessoa passa a interpretar a própria exploração como projeto pessoal, a insegurança como liberdade e a ausência de direitos como oportunidade. A ideologia funciona justamente quando não parece uma imposição. Ela convence o explorado de que sua situação resulta exclusivamente de seu mérito, sua disciplina ou sua incompetência.
Alienada no trabalho não é uma característica psicológica
Uma trabalhadora de call center pode ser avaliada por tempo médio de atendimento, número de chamadas encerradas, vendas realizadas e pausas permitidas. Não controla o produto da atividade, raramente decide como atender e frequentemente precisa esconder o cansaço diante de clientes agressivos. Ainda assim, a gestão pode descrever sua rotina como uma competição entre profissionais. O sofrimento aparece como falta de resiliência; a exaustão, como problema emocional; a demissão, como insuficiência de desempenho.
O mesmo ocorre com o professor submetido a plataformas, formulários, metas e avaliações padronizadas. A educação é reduzida a indicadores que não conseguem medir a complexidade de uma sala de aula, enquanto a responsabilidade por resultados desiguais é depositada sobre o indivíduo. Faltam profissionais, tempo, infraestrutura e políticas públicas, mas a narrativa dominante insiste em procurar o professor excepcional que deveria superar todas as condições materiais. A alienação aparece quando a estrutura desaparece e sobra apenas a culpa pessoal.
No trabalho por aplicativo, o entregador parece administrar seu próprio horário, mas essa autonomia é limitada pela necessidade de aceitar corridas, permanecer conectado e ajustar-se a um sistema de distribuição opaco. O algoritmo de trabalho define remuneração, prioridade, rotas e punições sem que o trabalhador tenha acesso às regras completas. A empresa pode afirmar que apenas oferece uma tecnologia de intermediação, embora controle aspectos fundamentais da atividade. A liberdade prometida é, muitas vezes, a liberdade de assumir sozinho os custos, os riscos e o tempo morto.
Aquilo que a linguagem empresarial chama de flexibilidade pode significar disponibilidade permanente. O trabalhador não recebe necessariamente por todo o tempo em que aguarda uma chamada, mas precisa manter-se pronto para trabalhar. Essa espera é uma hora roubada: não é descanso livre, não é tempo de convivência e tampouco é plenamente remunerada. A fronteira entre jornada e vida se dissolve, enquanto a empresa preserva a aparência de que cada indivíduo administra sua própria agenda.
A alienação, assim, não consiste somente em não gostar do emprego. Uma pessoa pode gostar de sua profissão e ainda estar submetida a uma organização alienada do trabalho. A questão é quem decide o que será produzido, em que ritmo, com quais recursos, para qual finalidade e com que distribuição dos resultados. O prazer individual não elimina a relação social de dependência. Nem toda insatisfação é alienação, e nem toda satisfação prova que existe autonomia.
A alienada diante do algoritmo e da tecnologia
A tecnologia não é uma força neutra que cai sobre a sociedade pronta e acabada. Ela é projetada, financiada e utilizada dentro de relações sociais específicas. Um aplicativo de entrega pode facilitar uma tarefa, mas também pode organizar uma multidão de trabalhadores sem contrato estável. Um sistema de avaliação pode aparentar objetividade, embora reproduza preconceitos presentes nos dados, nas regras e nos interesses de quem o controla. A técnica torna-se mecanismo de dominação quando suas decisões são apresentadas como inevitáveis, matemáticas e acima do conflito social.
O trabalhador submetido à avaliação algorítmica recebe uma nota que parece resumir seu valor. O passageiro avalia o motorista; o consumidor avalia o entregador; a plataforma registra atrasos, recusas e deslocamentos. A nota se converte em reputação, acesso a corridas e possibilidade de renda. A empresa, porém, permanece muito menos exposta à avaliação de quem trabalha. A assimetria é essencial: o indivíduo é medido continuamente, enquanto o poder que o mede permanece protegido por segredo comercial e linguagem técnica.
Guy Debord descreveu a sociedade do espetáculo como uma forma de organização em que a relação entre pessoas é mediada por imagens. Nas plataformas, essa mediação assume uma forma ainda mais operacional: perfis, estrelas, rankings, notificações e painéis transformam a vida em sequência de sinais administráveis. A pessoa passa a olhar para si como uma marca em avaliação permanente. Não basta trabalhar; é preciso exibir disponibilidade, cordialidade, produtividade e entusiasmo. A subjetividade é incorporada ao desempenho.
O celular, então, não é apenas instrumento de comunicação. Para milhões de trabalhadores, é ponto de controle, relógio, chefe, caixa registradora e canal de punição. A conexão permanente não elimina a hierarquia; apenas a torna menos visível. Em vez de uma ordem direta de um supervisor, aparece uma notificação. Em vez de uma conversa sobre salário, aparece um valor calculado. Em vez de uma negociação, aparece o botão aceitar ou recusar, acompanhado da ameaça silenciosa de perder prioridade.
Martin Heidegger, ao pensar a essência da técnica moderna, mostrou que ela não deve ser entendida somente como conjunto de ferramentas. A técnica enquadra os seres como recursos disponíveis. No capitalismo digital, o entregador torna-se capacidade logística, o professor torna-se produtor de conteúdo mensurável, o consumidor torna-se fluxo de dados e o tempo torna-se oportunidade de monetização. Quando tudo é visto como recurso, até a atenção, a amizade e o descanso passam a ser avaliados pelo rendimento que podem gerar.
Alienação, consumo e a fabricação do desejo
A alienação também opera fora do local de trabalho. O indivíduo é convocado a consumir como se cada compra fosse uma declaração autêntica de identidade. O celular, a roupa, o bairro e a viagem prometem distinguir a pessoa, mas são vendidos por uma indústria que fabrica padrões de distinção em escala. A promessa é de singularidade; o resultado é a repetição de estilos produzidos pelo mercado. A liberdade de escolher entre mercadorias não equivale ao controle sobre as condições que tornam essas escolhas necessárias.
O consumo oferece compensações reais para uma vida empobrecida de tempo e de vínculos. Não se deve ridicularizar quem compra uma pequena recompensa depois de uma jornada brutal. O problema é a transformação dessa compensação em explicação geral da felicidade. A indústria cultural vende a ideia de que o sofrimento pode ser resolvido por aquisição, aparência ou experiência individual. Enquanto isso, questões como salário, moradia, transporte, saúde e jornada são deslocadas para o campo privado, como se cada pessoa devesse montar sozinha sua solução.
A publicidade não precisa ordenar diretamente: basta associar mercadorias a reconhecimento, desejo e pertencimento. O sujeito alienado não é aquele que não deseja, mas aquele que tem seus desejos organizados por estruturas que não consegue enxergar. Ele pode escolher livremente entre produtos e continuar sem poder escolher as condições de trabalho, a distribuição da riqueza ou a orientação das políticas públicas. A multiplicação de opções no mercado convive com a estreiteza das opções políticas e materiais.
Alienação política e bolsonarismo
Na política, a alienação ocorre quando pessoas são levadas a perceber a sociedade como disputa entre indivíduos moralmente bons e maus, enquanto as estruturas econômicas e institucionais permanecem fora de análise. O bolsonarismo explorou intensamente esse mecanismo. Transformou ressentimentos reais — desemprego, medo, violência, perda de renda e abandono estatal — em ódio contra professores, artistas, pobres, movimentos sociais, mulheres, pessoas LGBT e instituições democráticas. A insatisfação foi desviada de seus determinantes para inimigos fabricados ou ampliados pela desinformação.
Não é necessário tratar todo eleitor bolsonarista como incapaz ou irracional. Essa caricatura seria contraproducente. A adesão nasce também de experiências concretas, de redes religiosas e familiares, de desconfiança legítima em instituições e do fracasso de políticas que deixaram comunidades expostas. Mas a direita autoritária oferece uma resposta falsa a problemas verdadeiros. Promete ordem sem enfrentar a exploração, liberdade sem proteção social e autoridade sem responsabilidade pública. Sua força está em transformar precariedade em guerra cultural.
Le Bon, ao estudar a psicologia das multidões, observou como afetos, imagens e contágios coletivos podem substituir a deliberação cuidadosa. No ambiente digital, esse processo é acelerado por plataformas que recompensam indignação, simplificação e repetição. A multidão conectada não é uma reunião espontânea de consciências livres; é também um público disputado por empresas que lucram com atenção. O vídeo curto, a mensagem alarmista e a mentira emocionalmente eficaz circulam melhor do que a explicação paciente sobre orçamento, trabalho ou direitos.
É nesse ponto que a defesa da democracia precisa ir além da defesa abstrata das instituições. Uma pessoa exausta, endividada e sem horizonte pode ser formalmente livre para votar, mas encontra obstáculos concretos para participar da vida pública. A emancipação política exige tempo, educação, renda, acesso à informação e direitos sociais. Sem isso, o voto pode ser capturado por medo, dependência e propaganda. Combater a alienação política requer ampliar as condições materiais da autonomia.
O Estado pode combater a alienação sem abolir suas contradições
O Estado capitalista não está acima das classes. Como mostra Alysson Mascaro ao analisar a forma política do capitalismo, o Estado organiza relações sociais que permitem a reprodução do capital, ainda que também seja terreno de disputa e conquistas populares. Direitos trabalhistas, saúde pública, educação, previdência e proteção social não caíram do céu: foram arrancados por lutas. Ao mesmo tempo, sua existência dentro do capitalismo não elimina a exploração que os torna necessários.
Essa contradição impede duas conclusões igualmente equivocadas. A primeira é acreditar que qualquer política pública resolve a alienação. A segunda é concluir que, porque o Estado não supera o capitalismo sozinho, nenhuma conquista institucional importa. Importa, e muito. A recomposição de políticas sociais, a valorização do salário mínimo, a retomada de investimentos públicos, a defesa da democracia e o fortalecimento de direitos reduzem a vulnerabilidade que alimenta a submissão. Não são a emancipação final, mas ampliam a capacidade de organização e resistência.
Por isso, a defesa do governo Lula e de sua reeleição não precisa ser construída como culto ao governante. Deve ser feita a partir do contraste entre projetos. Um governo democrático e social, mesmo limitado pelas forças do capital, pode recuperar direitos, combater a fome, ampliar políticas públicas e abrir espaço para a ação coletiva. O bolsonarismo, ao contrário, combina autoritarismo, ataque à ciência, desprezo pelos pobres e desregulamentação em benefício dos mais fortes. A escolha eleitoral não encerra a luta de classes, mas pode fortalecer ou enfraquecer as condições em que essa luta ocorre.
A objeção mais forte é evidente: o governo Lula não rompeu com a exploração, não acabou com a precarização e não transformou trabalhadores de aplicativo em sujeitos plenamente protegidos. É verdade. Nenhum elogio sério deve esconder isso. Mas reconhecer limites não exige igualar projetos incompatíveis. Criticar o governo pela esquerda significa pressioná-lo por direitos, regulação das plataformas, empregos decentes e serviços públicos; não entregar o poder a quem deseja destruir os instrumentos mínimos de proteção e participação.
Outra crítica afirma que políticas sociais criam dependência. A ideia inverte a realidade. Dependência maior existe quando uma família depende do favor de um patrão, da renda irregular de um aplicativo ou da caridade de um político local. Um direito universal reduz a submissão porque permite recusar abusos e planejar a vida. A autonomia não nasce da retirada do Estado em uma sociedade desigual; nasce da construção de condições materiais para que as pessoas não precisem aceitar qualquer coisa para sobreviver.
Como deixar de ser alienada sem transformar a culpa em método
Não existe um exercício individual capaz de eliminar a alienação. Ler Marx, desligar o celular ou acompanhar notícias pode ajudar, mas não substitui organização coletiva. A própria recomendação de que cada pessoa deve “despertar” sozinha pode reproduzir a ideologia que pretende combater. Se o problema é social, a resposta precisa envolver sindicatos, movimentos de bairro, associações, partidos, cooperativas, escolas, universidades e espaços em que trabalhadores possam interpretar suas experiências em comum.
O primeiro passo é nomear o que a linguagem dominante esconde. A entrega atrasada não é apenas falha do entregador; pode resultar de uma remuneração que força a aceitação de muitas corridas. A ansiedade do professor não é apenas fraqueza emocional; pode expressar uma organização do trabalho sem tempo e suporte. A dívida não é simplesmente irresponsabilidade; pode estar ligada a salários baixos, crédito caro e custos indispensáveis. Dar nome às relações permite deslocar o sofrimento do isolamento para a análise coletiva.
O segundo passo é recuperar tempo e poder de decisão. Isso significa defender jornada menor, remuneração digna, direito à desconexão, transparência algorítmica, negociação coletiva e proteção previdenciária. Significa também disputar a finalidade da tecnologia: quem define os dados coletados, quem pode auditar os sistemas, quem se beneficia da automação e quem paga seus custos. Uma plataforma não deve ser julgada apenas por sua eficiência comercial, mas pelas relações de trabalho que produz.
O terceiro passo é recusar a confusão entre crítica e cinismo. A pessoa alienada pode concluir que nada muda porque toda política é manipulação, todo sindicato é burocrático e todo governo é igual. Essa descrença parece radical, mas frequentemente favorece os poderes já instalados. Quem abandona a disputa coletiva não elimina a dominação; apenas deixa que outros decidam. A política democrática é imperfeita, atravessada por interesses e conflitos, mas permanece um campo em que direitos podem ser ampliados e autoritarismos podem ser derrotados.
Deixar de estar alienada, nesse sentido, não é alcançar uma consciência pura, fora da sociedade. É participar da transformação das relações que produzem a separação. O trabalhador deixa de ser apenas recurso quando consegue intervir na organização do trabalho. O cidadão deixa de ser apenas espectador quando se organiza para disputar orçamento, direitos e decisões. A tecnologia deixa de ser destino quando seus usos são submetidos ao controle social. A consciência crítica não paira acima da realidade: nasce da ação coletiva dentro dela.
Chamar alguém de alienada como insulto encerra a conversa. Compreender a alienação abre a pergunta decisiva: quais relações fazem com que uma pessoa não reconheça em sua própria vida as forças que a governam? A resposta aponta para o trabalho subordinado, a mercadoria, a tecnologia opaca, a propaganda e a política autoritária. Também aponta para a possibilidade de romper essa aparência. Ninguém se emancipa sozinho de uma estrutura social, mas nenhuma estrutura se transforma sem pessoas que, juntas, passem a compreender e disputar o mundo que produzem.
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