O estado de anomia não descreve apenas uma sociedade sem regras. No Brasil, ele nomeia uma forma de ordem em que as normas continuam existindo, mas são aplicadas de maneira desigual, seletiva e conveniente aos interesses dominantes. O trabalhador submetido ao algoritmo precisa cumprir horários, metas e avaliações para não perder sua renda; a empresa que organiza esse trabalho afirma não ter responsabilidade sobre ele. O professor é cobrado por resultados, presença e controle da sala, enquanto trabalha sob falta de estrutura e ameaça permanente. A lei permanece de pé, mas sua força se distribui conforme a classe, o território e a posição política de cada indivíduo.

Essa contradição costuma ser apresentada como desorganização moral ou falha cultural. A explicação conservadora diz que faltam disciplina, família, autoridade ou patriotismo. A explicação liberal reduz tudo a instituições ineficientes e sugere mais gestão. Nenhuma delas alcança o núcleo do problema: a anomia contemporânea é produzida por uma sociedade que dissolveu vínculos coletivos, transformou direitos em serviços e subordinou a vida inteira à concorrência. Não é o vazio deixado pela ausência do Estado. É o Estado capitalista funcionando por meio de regras que protegem a propriedade e abandonam quem depende do trabalho para sobreviver.

O estado de anomia não é ausência de lei

Na formulação clássica de Durkheim, a anomia aparece quando as normas que regulam desejos e expectativas perdem eficácia. A questão brasileira exige uma inflexão materialista. Aqui, a desregulação não ocorre porque a sociedade deixou de produzir normas, mas porque o capitalismo produz normas incompatíveis com a experiência concreta da maioria. O trabalhador é convocado a ser empreendedor de si mesmo, embora não controle o preço de seu trabalho, a plataforma, o mercado ou o tempo necessário para viver. É responsabilizado individualmente por uma insegurança que tem origem social.

Um entregador de aplicativo não vive fora das regras. Ele obedece à lógica de aceitação de pedidos, às avaliações dos clientes, às zonas de circulação e aos critérios opacos de ranqueamento. A plataforma pode não reconhecê-lo como empregado, mas exerce comando material sobre seu corpo e seu tempo. A norma não desapareceu: foi deslocada para o código, para a avaliação e para a ameaça de bloqueio. A anomia está na distância entre a aparência jurídica de autonomia e a dependência real que organiza a jornada.

O mesmo mecanismo aparece no call center e na escola. O operador tem cada minuto monitorado, mas não possui estabilidade suficiente para contestar metas abusivas. O professor é transformado em gestor de desempenho, pressionado por indicadores que ignoram desigualdade, fome, violência e abandono. Em todos esses casos, a sociedade exige responsabilidade individual enquanto retira os meios materiais para exercê-la. A regra se conserva como cobrança; o direito desaparece como proteção.

A anomia social como método de governo

O Estado não observa passivamente esse processo. Como mostra Alysson Mascaro, o Estado moderno não é uma entidade neutra situada acima das classes: ele organiza juridicamente as relações capitalistas e garante sua reprodução. Isso significa que a instabilidade do trabalho pode coexistir com a estabilidade da propriedade. A lei trabalhista é flexibilizada, a negociação individual é exaltada e a proteção social é tratada como obstáculo à competitividade. O resultado não é ausência de governança, mas governança pela insegurança.

Essa insegurança cumpre uma função política. Quem teme perder a renda aceita jornadas maiores, salários menores e humilhações que antes seriam reconhecidas como abuso. Quem está endividado tende a interpretar o colega como concorrente, não como aliado. O trabalhador precarizado passa a buscar, em vez de organização coletiva, uma saída individual: fazer mais entregas, vender mais cursos, produzir mais conteúdo, manter-se sempre disponível. A exploração deixa de aparecer como relação entre classes e retorna como suposta insuficiência pessoal.

A ideologia do mérito administra essa fratura. Ela afirma que cada um recebe o que merece, embora as oportunidades sejam distribuídas por classe, raça, gênero e território. Quando a promessa fracassa, o indivíduo é levado a concluir que não foi disciplinado, resiliente ou qualificado o bastante. A anomia, então, não produz somente desordem; produz culpa. O sujeito não identifica a contradição social que o atravessa e transforma a própria derrota em prova de incapacidade.

O espetáculo descrito por Guy Debord aprofunda essa operação. A vida social aparece como uma sucessão de imagens, opiniões e escândalos que substituem a experiência direta das relações materiais. A precarização é convertida em narrativa de superação; a violência de Estado vira disputa de versões; a indignação é capturada como conteúdo. A sociedade parece permanentemente mobilizada, mas sua mobilização raramente se transforma em poder coletivo. O indivíduo comenta tudo e decide quase nada.

Do trabalho precarizado ao bolsonarismo

O bolsonarismo soube converter a insegurança social em guerra cultural. Seu discurso não oferece uma reorganização das condições que produzem sofrimento. Oferece inimigos: professores, universidades, jornalistas, artistas, pobres, movimentos sociais, pessoas negras, mulheres e qualquer grupo apresentado como ameaça à ordem imaginária da família e da nação. A promessa de autoridade funciona porque muitos vivem a experiência real de um mundo sem proteção e procuram uma figura que encene controle.

A multidão bolsonarista não é irracional por natureza, como sugeriria uma leitura superficial de Le Bon. Ela é formada por sujeitos socialmente atomizados, submetidos à competição e privados de mediações coletivas capazes de interpretar sua situação. As redes digitais organizam ressentimentos dispersos em uma comunidade afetiva instantânea. O grupo oferece pertencimento, mas não solidariedade; oferece inimigos comuns, mas não transformação material. A pessoa que se sente descartável pode experimentar poder ao atacar quem foi definido como culpado.

Os ataques de 8 de janeiro de 2023 condensaram essa lógica. Não foram simplesmente um surto inexplicável de desordem, nem a expressão pura de uma revolta popular. Foram a manifestação política de uma massa mobilizada por mentiras, ressentimentos e uma concepção autoritária de pertencimento nacional. Ao mesmo tempo, a resposta institucional revelou que a legalidade não é indiferente às relações de força: a responsabilização avançou, mas a disputa sobre financiadores, agentes econômicos e redes de proteção mostrou que a aplicação da lei é atravessada por interesses e hierarquias.

O bolsonarismo cresce no terreno que o próprio neoliberalismo prepara. Quando sindicatos são enfraquecidos, serviços públicos são deteriorados e a vida coletiva é reduzida à capacidade de consumo, a extrema direita se apresenta como comunidade substituta. Seu autoritarismo promete acabar com a anomia pela força, mas apenas intensifica suas causas. Em vez de recompor direitos universais, impõe obediência aos de baixo e impunidade aos de cima.

Recompor a sociedade contra a ordem anômica

Combater o estado de anomia não significa pedir mais moralismo, punição ou vigilância. A sociedade brasileira já conhece o controle: câmeras, metas, policiamento seletivo, algoritmos, cadastros e avaliações permanentes. O que falta não é uma autoridade abstrata, mas poder social capaz de limitar a autoridade do capital. Sem essa distinção, a crítica à anomia termina defendendo exatamente o aparato que transforma insegurança em método de governo.

A resposta começa pela reconstrução das condições coletivas de existência. Reconhecer o vínculo empregatício de trabalhadores de plataforma, garantir jornada e proteção social, fortalecer sindicatos, financiar educação pública e assegurar moradia, saúde e transporte não são medidas laterais. São formas de devolver previsibilidade à vida daqueles que hoje carregam sozinhos os riscos produzidos pela economia. Direitos não eliminam conflitos, mas retiram da concorrência total o poder de organizar cada minuto da existência.

Há também uma disputa ideológica. A crítica precisa recusar tanto a nostalgia de uma ordem autoritária quanto a fantasia liberal de que indivíduos isolados podem se regular pelo mercado. A vida comum não será reconstruída por campanhas de comportamento, mas por organização coletiva e transformação das relações de propriedade. Onde o capitalismo oferece competição, é preciso construir solidariedade; onde oferece culpa, revelar exploração; onde oferece espetáculo, recuperar experiência e ação comum.

O estado de anomia é, assim, menos um diagnóstico de desintegração espontânea do que o nome de uma sociedade organizada para produzir sujeitos inseguros e governáveis. A barbárie parece normal porque suas causas foram naturalizadas: o aplicativo seria apenas tecnologia, o desemprego seria falta de mérito, a violência seria desvio individual e o autoritarismo seria resposta inevitável ao caos. Romper essa aparência exige reconhecer que existe uma ordem por trás da desordem. E que essa ordem tem classe, propriedade e projeto político.