Hegemonia de poder é a capacidade de uma classe social dirigir a sociedade fazendo seus interesses particulares parecerem interesses de todos. Ela não se sustenta apenas pela força policial ou pela propriedade dos meios de produção: opera também pelo consenso fabricado na escola, na mídia, na religião, no direito, nas empresas e nas plataformas digitais. No capitalismo brasileiro, a burguesia conserva sua direção combinando salários pressionados, endividamento, espetáculo, abandono estatal e promessas de ascensão individual. Quando o trabalhador passa a interpretar a própria exploração como fracasso pessoal, a hegemonia alcançou uma de suas formas mais eficazes.
A expressão costuma ser usada de maneira vaga, como sinônimo de domínio, liderança ou superioridade. Essa redução perde o núcleo político do conceito. Dominar é poder impor uma decisão; exercer hegemonia é fazer com que a ordem que beneficia os dominantes seja reconhecida como natural, racional e inevitável até por aqueles que sofrem com ela. A coerção permanece disponível, mas o sistema prefere que seus comandos sejam incorporados como hábitos, expectativas e critérios de julgamento. O poder não precisa aparecer o tempo todo como proibição, porque se torna uma espécie de bom senso social.
Hegemonia de poder e a fabricação do senso comum
Antonio Gramsci, ao formular o conceito de hegemonia, mostrou que a classe dominante não governa apenas por controlar o Estado. Ela dirige também a sociedade civil, isto é, o conjunto de instituições e relações nas quais valores, crenças e comportamentos são produzidos. A escola, a imprensa, as igrejas, os partidos, as associações e os locais de trabalho participam dessa disputa. O senso comum não é uma opinião espontânea que brota da experiência individual; é uma composição contraditória de ideias sedimentadas historicamente, entre as quais podem coexistir a revolta contra a injustiça e a crença de que nada pode mudar.
É por isso que a ideologia não depende de uma mentira isolada. Ela funciona quando uma relação social concreta é apresentada como se fosse uma característica da natureza humana. A desigualdade aparece como diferença de mérito; a exploração, como oportunidade; o desemprego, como falta de qualificação; a submissão ao chefe, como profissionalismo; a vigilância, como segurança; a competição entre trabalhadores, como liberdade de escolha. A hegemonia transforma uma estrutura histórica em destino individual. Seu êxito não está em convencer todos de tudo, mas em limitar aquilo que parece pensável e praticável.
Marx ajuda a compreender a base material desse processo. A sociedade capitalista separa os trabalhadores dos meios de produzir sua existência e os obriga a vender sua força de trabalho para sobreviver. O contrato de trabalho aparece como uma troca entre sujeitos livres, mas a liberdade formal encobre uma dependência concreta: quem não possui meios de produção precisa aceitar as condições impostas por quem os controla. O direito igual entre comprador e vendedor da força de trabalho convive, assim, com uma relação desigual de classe. A hegemonia nasce também dessa aparência de igualdade, que transforma uma relação de exploração em acordo entre indivíduos equivalentes.
O Estado, o direito e a organização da desigualdade
O Estado não é um árbitro exterior às classes que distribui poder de maneira neutra. Como explica Alysson Mascaro, a forma política estatal está ligada à forma mercantil e às relações capitalistas: o Estado apresenta os indivíduos como cidadãos juridicamente iguais enquanto garante as condições gerais de reprodução da acumulação. Isso não significa que cada decisão estatal seja uma ordem direta da burguesia, nem que políticas públicas sejam irrelevantes. Significa que a própria estrutura estatal opera dentro de limites definidos pela propriedade privada, pela valorização do capital e pela necessidade de preservar a ordem social que os sustenta.
O direito participa dessa hegemonia ao converter conflitos sociais em relações jurídicas entre pessoas abstratamente iguais. O entregador e a plataforma podem aparecer como parceiros; a empresa e o empregado, como contratantes livres; o proprietário e a família despejada, como partes submetidas ao mesmo regime legal. A igualdade formal é real no plano jurídico, mas insuficiente para explicar a desigualdade material. Quando uma plataforma classifica o entregador como autônomo, essa classificação não apenas descreve o trabalho: ela organiza responsabilidades, transfere riscos e dificulta o reconhecimento de direitos. A linguagem jurídica torna a exploração administrativamente aceitável.
Nos momentos de crise, a hegemonia revela sua articulação com a coerção. A austeridade corta serviços e limita a proteção social, mas é apresentada como responsabilidade fiscal. A repressão a uma greve é descrita como defesa da liberdade de circulação. A criminalização da pobreza aparece como política de segurança. A violência policial nas periferias não é um desvio acidental da ordem; é uma de suas ferramentas permanentes. O consenso dirigido pelo Estado pode ser abandonado quando setores subalternos deixam de obedecer, mas a violência costuma ser empregada de maneira seletiva, atingindo com maior intensidade trabalhadores pobres, negros e moradores das periferias.
Trabalho, mérito e a obediência incorporada
A hegemonia capitalista se fortalece quando invade a maneira como o trabalhador interpreta a si mesmo. O professor submetido a metas, avaliações e plataformas de registro aprende a medir seu valor por indicadores que ignoram o tempo necessário para preparar aulas, acompanhar estudantes e lidar com desigualdades sociais. O operador de call center tem sua jornada fragmentada por métricas de duração, pausas e produtividade. O funcionário de um centro de distribuição é acompanhado por metas que convertem cada movimento em unidade mensurável. Em todos esses casos, a empresa transforma o tempo humano em dado comparável, e o trabalhador é pressionado a administrar o próprio corpo como se fosse uma pequena empresa.
Na uberização, a hegemonia assume uma forma ainda mais individualizada. O entregador não recebe uma ordem de um chefe visível a cada tarefa, mas depende de um aplicativo que distribui chamadas, calcula rotas, altera remunerações, registra avaliações e pode restringir seu acesso à renda. A plataforma afirma oferecer autonomia: o trabalhador escolheria quando e quanto trabalhar. Entretanto, a necessidade de pagar aluguel, combustível, alimentação, manutenção da motocicleta e dívidas reduz essa escolha a uma liberdade sob ameaça. O algoritmo não elimina o comando; torna o comando impessoal, opaco e difícil de contestar.
Essa gestão algorítmica produz uma disciplina que não precisa de supervisão constante. O trabalhador acompanha a taxa de aceitação, teme avaliações negativas e prolonga a jornada para alcançar uma renda incerta. A responsabilidade pelo risco é deslocada para o indivíduo: se a demanda cai, se a bicicleta quebra ou se a tarifa não compensa o trajeto, o problema aparece como sua decisão empresarial. A ideologia do empreendedor de si transforma a precariedade em identidade. O entregador é levado a imaginar que administra um negócio próprio quando, na prática, depende de uma infraestrutura privada que controla o acesso ao mercado e captura parte do valor produzido.
A meritocracia cumpre papel decisivo nesse mecanismo. Ela não afirma apenas que o esforço deve ser reconhecido; afirma que as posições sociais revelam o esforço e a capacidade de cada pessoa. O trabalhador bem-sucedido seria prova de que o sistema funciona, enquanto o pobre seria responsável por sua própria derrota. Essa narrativa apaga a herança patrimonial, a desigualdade racial, a qualidade desigual da educação, o território, a saúde e as redes de proteção. Mais do que justificar diferenças de renda, a meritocracia impede que os trabalhadores reconheçam sua experiência comum como problema político. Cada um passa a disputar individualmente contra todos os outros.
O espetáculo transforma poder em aparência
Guy Debord descreveu o espetáculo não como simples conjunto de imagens, mas como uma relação social mediada por imagens. Essa formulação é essencial para compreender a hegemonia contemporânea. O poder não apenas decide políticas; produz visibilidade, organiza atenção e define quais acontecimentos serão percebidos como urgentes. A exibição de empreendedores, vencedores e consumidores felizes convive com a ocultação do trabalho que sustenta essa aparência. A mercadoria surge como experiência desejável, enquanto as mãos, os corpos e o tempo que a produzem desaparecem.
Nas redes sociais, o espetáculo parece descentralizado porque qualquer pessoa pode publicar, comentar e alcançar audiência. Mas a circulação do conteúdo é ordenada por plataformas que classificam comportamentos, retêm atenção e transformam interação em valor econômico. A participação não equivale a poder sobre a infraestrutura. O usuário oferece dados, produz conteúdo e permanece exposto à publicidade e à disputa política, enquanto empresas privadas definem regras de alcance e moderação. A sensação de expressão permanente pode coexistir com uma concentração crescente dos meios de distribuir informação.
O bolsonarismo explorou essa estrutura ao converter ressentimentos reais em uma narrativa autoritária. O trabalhador precarizado, o pequeno comerciante endividado e a família abandonada por serviços públicos são convidados a identificar como inimigos professores, jornalistas, pessoas LGBTQIA+, movimentos sociais ou instituições democráticas. A indignação é deslocada de suas causas materiais para alvos convenientes. A desinformação não precisa convencer por meio de argumentos consistentes; basta produzir suspeita, exaustão e hostilidade. Quando todos os fatos parecem manipulados e toda mediação é tratada como conspiração, o líder se apresenta como única fonte de verdade.
Os atos de 8 de janeiro de 2023 mostraram a passagem da hegemonia ideológica para a tentativa de ruptura institucional. A mobilização bolsonarista não nasceu apenas de notícias falsas isoladas. Ela foi alimentada por uma visão de mundo que combina anticomunismo imaginário, culto à autoridade, militarização da política, ressentimento contra direitos sociais e desconfiança seletiva das instituições. A massa foi organizada por redes, igrejas, empresários, agentes políticos e circuitos digitais de propaganda. Le Bon percebeu, em sua análise das multidões, que a formação de uma massa reduz a força da reflexão individual e amplia o poder de imagens, palavras de ordem e identificações afetivas. No bolsonarismo, essa dinâmica foi potencializada por plataformas que recompensam indignação e simplificação.
Técnica, vigilância e o poder que parece neutro
Heidegger advertiu que a técnica moderna não é apenas um conjunto de ferramentas disponíveis para qualquer finalidade. Ela enquadra o mundo como estoque calculável, como algo que deve estar pronto para ser medido, extraído e utilizado. No capitalismo digital, pessoas e relações de trabalho são convertidas em dados operacionais. O professor vira desempenho; o motorista vira disponibilidade; o consumidor vira perfil; o cidadão vira probabilidade de voto; o bairro vira conjunto de rotas rentáveis. Essa transformação parece objetiva porque é expressa em números, mas todo número depende de uma finalidade social e de uma relação de poder.
O problema não está em a tecnologia mediar atividades humanas. Está no fato de que a tecnologia dominante é propriedade de empresas orientadas pela valorização do capital. Um sistema de avaliação algorítmica pode ser apresentado como imparcial porque aplica a mesma regra a todos, mas a regra pode punir quem recusa corridas, quem trabalha em áreas de menor demanda ou quem não possui recursos para permanecer conectado o dia inteiro. A neutralidade do algoritmo esconde decisões sobre remuneração, risco e prioridade. O código faz parecer técnico aquilo que é uma escolha política.
A vigilância também muda de forma. No modelo clássico, o trabalhador era observado por um superior; agora, ele internaliza a avaliação permanente e antecipa a punição. A possibilidade de perder acesso ao aplicativo, receber menos chamadas ou ser mal avaliado reorganiza sua conduta antes mesmo de qualquer ordem explícita. Esse autocontrole é eficiente porque o indivíduo participa de sua própria submissão. A hegemonia não é apenas uma ideia na cabeça: está incorporada em rotinas, métricas, horários, trajetos e gestos.
Quando o senso comum entra em disputa
Reconhecer a hegemonia não significa afirmar que a classe dominante controla tudo sem resistência. A hegemonia é uma relação instável, constantemente disputada. Toda ordem precisa responder, ainda que parcialmente, às pressões dos grupos subalternos. Direitos trabalhistas, saúde pública, educação e liberdade sindical não foram presentes concedidos espontaneamente pelo capital; resultaram de lutas que alteraram os limites do aceitável. Mesmo quando uma conquista é incorporada pelo Estado, ela pode preservar a dominação em novos termos, mas também amplia a capacidade de organização e defesa dos trabalhadores.
A resistência começa quando experiências isoladas são ligadas por uma explicação comum. O entregador que percebe que sua tarifa não cobre os custos, o professor que identifica a falsa autonomia das plataformas e o trabalhador de call center que reconhece a violência das metas não estão diante de fracassos privados. Enfrentam formas diferentes de uma mesma relação: a apropriação do tempo e da capacidade de trabalho por empresas que controlam recursos, contratos e critérios de avaliação. Nomear essa relação rompe a narrativa de que cada indivíduo está sozinho diante de seu destino.
Essa elaboração não pode se limitar à denúncia moral. Dizer que um empresário é cruel ou que um político é mentiroso não explica a estrutura que permite a reprodução de sua posição. A crítica precisa mostrar como propriedade, Estado, direito, tecnologia e cultura se articulam. Também precisa distinguir o adversário principal dos efeitos secundários: a disputa entre trabalhadores não é a origem da exploração, ainda que seja frequentemente utilizada para administrá-la. O conflito racial, de gênero e territorial não é um desvio da luta de classes, mas parte da maneira concreta pela qual o capitalismo distribui trabalho, renda, risco e reconhecimento.
Disputar o senso comum exige construir formas coletivas de decisão e de produção, não apenas substituir uma mensagem por outra. Sindicatos renovados, cooperativas controladas pelos trabalhadores, movimentos de moradia, organizações periféricas e redes de solidariedade podem produzir experiências nas quais a dependência individual deixa de ser o horizonte inevitável. Uma cooperativa também pode reproduzir relações de mercado se não alterar o controle sobre o trabalho, mas a questão decisiva é quem decide, quem se apropria do resultado e quais necessidades orientam a produção. A emancipação não consiste em dar ao trabalhador a fantasia de ser empresário; consiste em superar a separação entre quem trabalha e quem controla.
A hegemonia de poder, enfim, não é uma propriedade abstrata de governos ou líderes. É uma arquitetura cotidiana que conecta a concentração econômica, a forma estatal, a linguagem jurídica, a indústria cultural, o algoritmo e a disciplina do trabalho. Ela se torna mais forte quando parece ausência de política: uma tarifa automática, uma avaliação objetiva, uma demissão por desempenho, uma notícia que viraliza sozinha, uma regra fiscal apresentada como necessidade técnica. O desafio anticapitalista é tornar visível a política escondida nessas aparentes neutralidades e transformar a experiência dispersa da exploração em consciência organizada. Sem essa passagem, o trabalhador continuará chamado a administrar individualmente uma vida produzida por relações que não controla.
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