O que é hegemonia política? A pergunta não se resolve com a definição escolar de liderança de um grupo sobre os demais. Hegemonia é uma forma de poder mais profunda: a capacidade de apresentar interesses particulares como se fossem necessidades gerais, fazendo com que a ordem social pareça natural, inevitável e até desejável para aqueles que vivem sob ela. No capitalismo brasileiro, essa operação aparece quando o trabalhador aceita a precarização como liberdade, quando a pobreza é interpretada como fracasso individual e quando a defesa de privilégios é vendida como defesa da família, da moral ou da nação.
A hegemonia não substitui a violência, a polícia, o direito ou o controle econômico. Ela torna esses mecanismos mais eficientes porque reduz a necessidade de coerção permanente. Um entregador que pedala por horas para alcançar uma remuneração incerta não precisa ser ameaçado diretamente por um patrão visível: basta acreditar que seu desempenho depende exclusivamente de esforço, disciplina e capacidade de empreender. Uma professora submetida a metas, avaliações e contratos instáveis pode ser levada a interpretar o esgotamento como deficiência pessoal. A dominação se completa quando o explorado passa a explicar sua própria exploração com as palavras do explorador.
Hegemonia política não é apenas governo
O governo administra instituições, aprova leis e organiza políticas públicas. A hegemonia faz algo anterior e mais abrangente: define o horizonte do que parece pensável. Ela estabelece quais problemas merecem atenção, quais soluções são consideradas realistas e quais reivindicações são tratadas como ameaça à ordem. Um governo pode mudar sem que a hegemonia seja alterada. Partidos diferentes podem disputar eleições e, ainda assim, aceitar como intocáveis a propriedade privada dos grandes grupos econômicos, a austeridade fiscal, a centralidade do lucro e a transformação de direitos em serviços compráveis.
O conceito desenvolvido por Antonio Gramsci ajuda a entender essa articulação entre força e consentimento. Para Gramsci, uma classe não se mantém dominante somente porque controla os aparelhos coercitivos do Estado. Ela também precisa dirigir cultural e moralmente a sociedade, construindo uma visão de mundo que organize o senso comum. Isso não significa que as pessoas sejam enganadas de maneira simples, como se fossem recipientes vazios. O senso comum reúne experiências reais, crenças contraditórias, valores herdados e explicações produzidas pelas instituições que cercam a vida cotidiana. A hegemonia atua justamente nessa mistura, oferecendo uma interpretação capaz de ligar frustrações concretas a conclusões favoráveis à ordem existente.
Quando o trabalhador constata que seu salário não basta, a hegemonia pode orientá-lo a culpar o imposto, o imigrante, o funcionário público, a universidade, o beneficiário de um programa social ou o próprio colega de profissão. A causa estrutural desaparece. A exploração deixa de ser uma relação entre classes e vira uma coleção de falhas individuais ou inimigos convenientes. Essa conversão não acontece apenas no discurso de políticos. Ela é reproduzida pela escola, pela imprensa, pelas igrejas, pelas empresas, pelas plataformas digitais, pelo direito e pelas conversas familiares.
O trabalho precarizado como escola do senso comum
O entregador de aplicativo oferece um retrato concreto dessa construção hegemônica. A empresa não se apresenta como empregadora, mas como intermediária tecnológica. O trabalhador não seria subordinado a uma organização; seria um parceiro autônomo que escolhe quando trabalhar. A linguagem altera a aparência da relação, mas não elimina sua materialidade. O aplicativo distribui pedidos, define critérios de acesso, registra deslocamentos, calcula avaliações, aplica bloqueios e orienta a remuneração. O algoritmo organiza o trabalho, enquanto a empresa procura negar a responsabilidade decorrente dessa organização.
A ideologia da autonomia se apoia em uma experiência verdadeira: o entregador pode, em alguma medida, conectar-se ou desconectar-se da plataforma. Mas essa liberdade formal convive com a necessidade de renda, com o custo da motocicleta, com o combustível, com a manutenção, com o risco de acidentes e com a ausência de proteção social adequada. A decisão de ficar online não ocorre entre indivíduos livres em um mercado abstrato; ocorre sob pressão econômica. A plataforma transforma dependência em escolha e subordinação em parceria.
Esse mecanismo produz hegemonia porque não se limita a esconder a exploração. Ele reorganiza o modo como o trabalhador se percebe. Se a remuneração cai, a explicação oferecida é que faltou estratégia. Se os pedidos diminuem, recomenda-se mudar de área, trabalhar em horários de pico ou melhorar a avaliação. Se a jornada se prolonga, o problema seria falta de planejamento. A lógica empresarial penetra na subjetividade e converte cada pessoa em administradora isolada de uma crise que não criou. A competição entre trabalhadores aparece como solução, enquanto a concentração de poder da plataforma desaparece.
O mesmo ocorre no call center. A atendente trabalha sob monitoramento contínuo, com tempo de chamada, metas de conversão, scripts e avaliação de desempenho. A chefia pode ser substituída por painéis e alertas automáticos, mas a pressão não diminui. Ao contrário, torna-se difusa e constante. O sistema registra pausas, ritmo, voz e resultados; a trabalhadora aprende a vigiar a si mesma antes que alguém precise adverti-la. O discurso corporativo chama isso de eficiência, qualidade ou foco no cliente. A experiência concreta é a redução do trabalho a indicadores que não reconhecem cansaço, sofrimento ou dignidade.
Como a exploração vira virtude moral
A hegemonia capitalista precisa dar uma justificativa moral à desigualdade. Não basta que alguns acumulem riqueza e outros enfrentem jornadas extensas: é necessário afirmar que essa diferença expressa mérito, talento ou disciplina. A meritocracia funciona como uma narrativa que transforma posições sociais desiguais em resultados supostamente neutros. Ela ignora que os indivíduos começam a disputa com patrimônios, redes de contato, formação, segurança material e tempo disponíveis muito diferentes.
Um jovem da periferia que trabalha durante o dia, estuda quando consegue e depende de transporte demorado não compete nas mesmas condições que alguém sustentado pela família, matriculado em instituições de elite e protegido contra o desemprego. Ainda assim, ambos são avaliados como se fossem unidades equivalentes. O resultado da competição é apresentado como revelação de capacidades naturais. A desigualdade anterior ao jogo é apagada, e a desigualdade produzida pelo jogo aparece como justa.
Essa ideologia não precisa convencer todos de que o sistema é bom. Basta convencer que não há alternativa viável. A pessoa pode odiar o chefe, desconfiar da empresa e reconhecer que o salário é baixo, mas ainda acreditar que a única saída é melhorar seu currículo, aceitar uma segunda jornada ou abrir um negócio próprio. A crítica permanece presa ao vocabulário individual. O sofrimento é reconhecido, mas sua causa coletiva não se forma. É esse limite que separa uma reclamação isolada de uma consciência capaz de questionar a estrutura.
Marx descreveu a alienação como separação do trabalhador em relação ao produto, ao processo, aos outros trabalhadores e às próprias capacidades humanas. No trabalho de plataforma, essa separação ganha uma aparência digital. O entregador não vê a totalidade do sistema que define seus ganhos; a trabalhadora do call center não controla o objetivo de sua atividade; o professor submetido a avaliações padronizadas não decide plenamente o sentido de ensinar. A tecnologia intensifica a fragmentação e oferece uma interface limpa para relações sociais violentas. O aplicativo parece impessoal, mas essa impessoalidade encobre decisões econômicas e jurídicas tomadas por empresas concretas.
O Estado, o direito e a naturalização da ordem
A hegemonia não está fora do Estado. O Estado capitalista organiza a dominação de classe de maneira impessoal, apresentando-se como representante do interesse geral. Alysson Mascaro mostra que o Estado moderno não é simplesmente um instrumento manejado à vontade por qualquer indivíduo ou grupo; sua forma jurídica e institucional está vinculada às relações capitalistas. A igualdade formal perante a lei convive com desigualdades materiais profundas porque o direito trata proprietários e trabalhadores como sujeitos formalmente livres que negociam contratos.
Essa liberdade jurídica é indispensável para o funcionamento do mercado. O trabalhador não aparece como alguém compelido a vender sua força de trabalho pela falta de meios de produção, mas como parte de um contrato entre iguais. O entregador seria parceiro; a professora temporária teria escolhido a flexibilidade; o empregado terceirizado teria aceitado as condições. A forma jurídica converte uma relação de dependência em acordo voluntário. Quando a exploração é apresentada como contrato, a desigualdade social adquire aparência de neutralidade institucional.
Isso não significa que toda disputa jurídica seja inútil ou que direitos trabalhistas não tenham importância. Ao contrário, a classe trabalhadora arrancou direitos por meio de organização e conflito. O ponto é que a lei, sozinha, não dissolve a relação social que produz a exploração. Uma decisão favorável pode proteger um grupo, mas não elimina a necessidade de vender força de trabalho nem o poder econômico concentrado. A hegemonia opera quando a forma legal de igualdade é tomada como prova de que a sociedade já é justa.
Também por isso o abandono estatal pode ser convertido em argumento contra o próprio Estado. Quando faltam saúde, moradia, transporte e segurança, a frustração é canalizada para a ideia de que todo serviço público é incompetente e todo imposto é roubo. O capital privado aparece como solução eficiente, mesmo quando lucra com a insuficiência das políticas públicas. A precariedade é produzida ou tolerada por decisões políticas e, depois, usada para vender mais privatização, terceirização e endividamento.
Bolsonarismo e a disputa pelo senso comum
O bolsonarismo não pode ser reduzido à personalidade de Jair Bolsonaro ou a uma coleção de mentiras disseminadas nas redes. Ele é uma forma de organização política de ressentimentos reais dentro de uma resposta autoritária e reacionária. A crise econômica, o medo da perda de status, a precarização e a desconfiança nas instituições são reorganizados em uma narrativa que identifica inimigos internos: esquerdistas, professores, artistas, jornalistas, pessoas negras, movimentos sociais, servidores públicos e minorias que conquistaram direitos.
O episódio de 8 de janeiro de 2023 explicita a dimensão hegemônica desse processo. A invasão das sedes dos poderes não foi apenas uma explosão irracional de indivíduos isolados. Ela expressou uma visão de mundo construída por anos, na qual a derrota eleitoral era apresentada como fraude, o adversário político como inimigo absoluto e a intervenção autoritária como defesa da liberdade. A contradição é central: uma mobilização que pretendia destruir o resultado eleitoral se imaginava defensora da democracia. A hegemonia permite que a violência contra as instituições seja vivida por seus agentes como gesto moral de salvação nacional.
Essa operação se apoia em uma base social que não deve ser tratada com desprezo. Há trabalhadores endividados, pequenos empresários pressionados, famílias assustadas com a violência e pessoas submetidas a um fluxo permanente de informação contraditória. O problema não é a existência de medo ou indignação, mas a direção política dada a esses afetos. O bolsonismo desloca o conflito vertical, entre capital e trabalho, para conflitos horizontais entre grupos populares. Em vez de questionar quem concentra riqueza e controla os meios de comunicação, o senso comum é conduzido a perseguir o vizinho considerado inimigo da pátria.
A força dessa estratégia está em combinar moralismo, anticomunismo, culto à autoridade e promessa de restauração. O passado é inventado como época de ordem; a violência estatal é apresentada como remédio; a desigualdade é aceita desde que os grupos subalternos permaneçam em seus lugares. A política deixa de ser disputa por direitos e vira guerra cultural permanente. Nessa guerra, qualquer conquista coletiva pode ser denunciada como privilégio, ameaça à família ou conspiração ideológica.
Mídia, plataformas e a fabricação da evidência
As plataformas digitais não criaram a hegemonia, mas alteraram sua velocidade e sua escala. O algoritmo de recomendação privilegia conteúdos capazes de prolongar a atenção, provocar reação e estimular circulação. A indignação é convertida em recurso econômico. Uma mentira que confirma o medo de um grupo pode circular com mais força do que uma explicação complexa sobre orçamento, trabalho ou desigualdade. A plataforma não precisa defender explicitamente uma ideologia para favorecer um ambiente em que conteúdos polarizadores se tornam rentáveis.
A concentração da mídia também importa. Poucos grupos controlam canais decisivos de produção e distribuição de informações, enquanto os trabalhadores aparecem sobretudo como estatística, problema de segurança ou consumidor. A imprensa pode denunciar abusos pontuais, mas frequentemente enquadra a precarização dentro dos limites da eficiência empresarial. Quando um entregador protesta, a cobertura tende a perguntar se haverá atraso para o consumidor antes de perguntar por que uma atividade essencial depende de trabalhadores sem garantia de renda e proteção.
Guy Debord chamou de sociedade do espetáculo uma forma de vida em que as relações sociais são mediadas por imagens. O espetáculo não é simplesmente excesso de televisão ou de publicidade; é a transformação da experiência social em representação separada, na qual as pessoas contemplam forças que elas próprias produzem como se fossem poderes externos. O trabalhador vê o sucesso de influenciadores, empreendedores e investidores, mas não vê as relações de trabalho que sustentam aquela imagem. Vê a mercadoria final, não a exploração incorporada nela. Vê o escândalo político isolado, não a estrutura de interesses que define seus limites.
As redes intensificam esse processo ao transformar cada usuário em emissor e consumidor simultâneo. A participação parece ampliada, mas a infraestrutura, os dados e os critérios de visibilidade continuam concentrados. A pessoa acredita estar disputando a narrativa em igualdade de condições, embora sua fala dependa de sistemas privados que classificam, ordenam e monetizam sua atenção. A experiência de expressão pode coexistir com uma nova forma de dependência.
O que rompe a hegemonia
Se a hegemonia organiza o senso comum, combatê-la não significa apenas desmentir informações falsas. A disputa exige produzir outra interpretação da experiência, capaz de ligar sofrimento individual a relações coletivas. Dizer ao entregador que ele é explorado não basta quando sua renda depende da plataforma e quando a promessa de autonomia responde a uma necessidade real de flexibilidade. É preciso construir formas de organização que ofereçam segurança material, solidariedade e capacidade de decisão.
O breque dos apps mostrou essa possibilidade ao transformar experiências dispersas em reivindicação coletiva. A força da mobilização não está apenas em pedir aumento de tarifa ou melhores condições. Está em interromper a narrativa de que cada entregador é um empreendedor isolado. Quando trabalhadores se reconhecem como parte de uma classe, a linguagem muda: o bloqueio deixa de ser azar, a avaliação deixa de ser medida neutra e a remuneração deixa de ser favor da plataforma. O que parecia falha individual aparece como mecanismo de exploração.
A educação crítica também precisa superar a transmissão de definições abstratas. Ensinar hegemonia política é mostrar como uma ideia circula nas instituições, como se liga a interesses materiais e como entra na linguagem cotidiana. Uma sala de aula que discute apenas conceitos sem relacioná-los ao transporte, ao salário, à moradia e ao trabalho digital pode repetir a separação entre conhecimento e vida. A teoria ganha potência quando ajuda a nomear aquilo que a experiência revela sem conseguir explicar.
Essa ruptura não se confunde com a substituição de uma propaganda por outra. A política emancipatória não deve tratar trabalhadores como massa a ser conduzida por uma elite esclarecida. Ela precisa criar condições para que os próprios sujeitos compreendam e transformem as relações que os subordinam. O senso comum contém submissão, mas também contém revolta, solidariedade e memória de lutas. A disputa hegemônica consiste em organizar esses elementos contraditórios em uma visão de mundo anticapitalista.
A hegemonia política, assim, não é uma camada decorativa sobre a economia nem uma técnica de comunicação usada apenas em campanhas eleitorais. Ela atravessa o contrato de trabalho, a tela do celular, o noticiário, a escola, a lei e a conversa sobre mérito. É o poder de fazer a ordem parecer espontânea, de transformar dependência em liberdade e de deslocar a responsabilidade pela desigualdade para aqueles que a sofrem.
Reconhecer esse mecanismo muda o sentido da crítica. O problema não é simplesmente que algumas pessoas acreditam em ideias erradas, enquanto outras possuem a verdade pronta. O problema é que a sociedade capitalista produz instituições, imagens e rotinas que tornam determinadas ideias plausíveis. Enfrentar a hegemonia exige disputar essas instituições e construir práticas coletivas em que liberdade não signifique escolher individualmente entre formas de precarização. Sem essa transformação material, a crítica fica reduzida a opinião. Com ela, o que parecia destino pode voltar a ser reconhecido como relação histórica e, justamente por isso, como relação passível de mudança.
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