Hegemonia é a capacidade de uma classe dirigir a sociedade fazendo seus interesses particulares parecerem universais, naturais e até desejáveis. Ela não se sustenta apenas pela força do Estado ou pela ameaça de demissão: funciona quando trabalhadores, eleitores e consumidores passam a interpretar a realidade com categorias produzidas pela própria ordem que os explora. No capitalismo brasileiro, a hegemonia aparece quando a precarização é chamada de oportunidade, a desigualdade vira resultado de mérito individual, a obediência é vendida como liberdade e a riqueza de poucos se apresenta como medida do sucesso de todos.

Essa resposta é decisiva porque reduz a hegemonia a uma simples influência cultural ou a uma manipulação da opinião pública. Ela é mais profunda. Trata-se de uma forma de poder que combina coerção, organização material e produção de consentimento. O trabalhador pode discordar de uma empresa, de um governo ou de uma ideologia específica, mas ainda assim aceitar os limites fundamentais dentro dos quais sua vida foi organizada. Pode odiar o chefe e continuar acreditando que cada pessoa é responsável isoladamente por vencer. Pode criticar um político e defender a ideia de que não existem alternativas ao mercado. É nesse intervalo entre a insatisfação concreta e a aceitação dos fundamentos da ordem que a hegemonia opera.

Hegemonia e senso comum na vida cotidiana

Antonio Gramsci formulou o conceito de hegemonia para explicar como uma classe dominante não governa apenas por imposição. Ela precisa dirigir intelectual e moralmente a sociedade, construir uma visão de mundo capaz de apresentar seus interesses como o horizonte razoável da vida coletiva. O senso comum, nesse processo, não é uma opinião espontânea e pura que brota do povo. É um conjunto contraditório de ideias, hábitos, medos e certezas que se forma na experiência cotidiana, mas recebe direção de instituições, discursos e relações materiais.

O senso comum brasileiro pode abrigar, ao mesmo tempo, a percepção de que a vida está cada vez mais difícil e a convicção de que a solução é trabalhar mais; a revolta contra políticos corruptos e a defesa de que o Estado deve proteger os ricos para preservar a economia; a crítica à violência policial e o pedido por mais violência contra os pobres. Essas contradições não são falhas individuais de raciocínio. Elas expressam uma sociedade dividida em classes, na qual a experiência imediata frequentemente é interpretada com ideias produzidas pelos grupos que controlam os recursos econômicos, os meios de comunicação e as instituições decisórias.

O trabalhador de aplicativo conhece a instabilidade da renda, o risco de acidente e a arbitrariedade da plataforma. Ainda assim, pode compreender sua atividade como empreendimento pessoal, acreditar que uma pontuação melhor o aproximará da autonomia e enxergar outros entregadores como concorrentes. A experiência material desmente a promessa de independência, mas a linguagem empresarial reorganiza essa experiência: a exploração aparece como desafio, a necessidade como escolha e a submissão a um algoritmo como gestão eficiente.

É por isso que a hegemonia não deve ser confundida com propaganda. A propaganda tenta convencer de uma ideia. A hegemonia estrutura o campo no qual certas ideias parecem plausíveis e outras aparecem como absurdas, perigosas ou impraticáveis. Quando se repete que não há dinheiro para direitos trabalhistas, mas há recursos para subsidiar empresas, financiar dívidas privadas ou garantir rentabilidade ao capital financeiro, não se trata apenas de uma mentira pontual. Trata-se da naturalização de uma hierarquia social: o lucro é tratado como necessidade econômica, enquanto a proteção do trabalho é apresentada como privilégio.

O consentimento nunca elimina a coerção

Uma leitura superficial poderia imaginar que, se existe consentimento, não existe dominação. O conceito de hegemonia mostra o contrário. O consentimento é produzido em uma sociedade atravessada por coerções materiais. O trabalhador aceita um contrato ruim porque precisa comer, pagar aluguel e manter a família. A pessoa aceita jornadas imprevisíveis porque não encontra emprego protegido. O professor assume tarefas fora do horário porque a avaliação institucional, a renda e a permanência no posto dependem de sua disponibilidade. A escolha existe, mas aparece dentro de alternativas previamente estreitadas pela propriedade, pelo desemprego e pela desigualdade.

A força não desaparece; ela fica parcialmente escondida atrás da aparência de escolha. O entregador não é obrigado por um policial a sair em um dia de chuva, mas a recusa de pedidos pode reduzir sua avaliação, limitar sua renda e comprometer seu acesso futuro à plataforma. A atendente de call center não precisa ser ameaçada diretamente para controlar a própria fala: o tempo médio de atendimento, a gravação das ligações e a supervisão constante transformam cada pausa em risco. A coerção se torna administrativamente rotineira, incorporada aos indicadores e aos procedimentos.

O Estado também participa dessa combinação. Para Alysson Mascaro, o Estado capitalista não é um instrumento neutro que paira acima das classes; sua forma jurídica e institucional organiza relações sociais compatíveis com a reprodução do capital. Ele pode reconhecer direitos e, ao mesmo tempo, garantir a propriedade privada, a circulação mercantil e a separação entre quem trabalha e quem controla os meios de produção. A hegemonia estatal está justamente nessa capacidade de apresentar uma ordem classista como ordem geral, protegida por leis que formalmente reconhecem indivíduos livres e iguais.

A igualdade jurídica, nesse quadro, convive com a desigualdade econômica. Empregado e proprietário podem assinar um contrato como sujeitos formalmente livres, mas apenas um deles dispõe de capital, equipamentos e tempo para esperar. A liberdade de vender a força de trabalho é real no sentido jurídico e compulsória no sentido material. A hegemonia não exige que as pessoas desconheçam essa contradição; basta que ela seja tratada como inevitável, técnica ou fora do alcance da política.

Trabalho, meritocracia e fabricação do indivíduo responsável

Uma das formas mais eficientes de hegemonia contemporânea é a transformação de problemas sociais em falhas individuais. A meritocracia diz que cada pessoa recebe aquilo que seu esforço merece, mesmo quando as condições de partida são radicalmente desiguais. Ela apaga a origem social, a divisão racial do trabalho, a desigualdade educacional, o acesso desigual à saúde e a diferença entre possuir patrimônio e depender do salário do mês.

O discurso meritocrático não precisa afirmar que todos vivem nas mesmas condições. Ele pode reconhecer dificuldades e, ainda assim, responsabilizar cada indivíduo por superá-las. O jovem da periferia deve estudar enquanto trabalha em dois turnos; a mãe deve empreender para compensar a ausência de creche; o professor deve transformar sua vocação em resistência à falta de estrutura; o entregador deve administrar riscos como se fosse proprietário de uma empresa. Se fracassam, o fracasso retorna como culpa pessoal. A exploração desaparece atrás da psicologia da superação.

Essa operação reorganiza também a solidariedade. Colegas deixam de ser companheiros submetidos a uma mesma relação de trabalho e passam a ser concorrentes por bônus, escalas, notas ou vagas. No call center, o desempenho individual pode ser comparado publicamente, convertendo trabalhadores em fiscais uns dos outros. Na escola, avaliações e metas transferem para o professor a responsabilidade por problemas associados à pobreza, ao abandono estatal e à falta de políticas públicas. Em cada situação, a administração tenta substituir organização coletiva por autorregulação competitiva.

O capitalismo precisa que a força de trabalho seja produtiva, mas também que os trabalhadores interpretem sua própria exploração em termos compatíveis com o sistema. A alienação não é somente a perda do controle sobre o produto ou sobre o processo de trabalho. É igualmente a perda da capacidade de compreender a totalidade social que produz a própria impotência. Quando a pessoa atribui exclusivamente a si uma condição produzida por relações econômicas, ela sofre duas vezes: pela precariedade material e pela culpa ideológica.

Plataformas digitais e a hegemonia automatizada

As plataformas digitais atualizaram mecanismos antigos de comando sem abolir a chefia. O algoritmo de trabalho distribui pedidos, calcula remunerações, classifica trabalhadores e registra comportamentos. Sua autoridade aparece como impessoal e matemática, embora seja desenhado segundo objetivos empresariais: reduzir custos, aumentar disponibilidade, controlar ritmos e manter o consumidor satisfeito. A decisão do algoritmo parece técnica porque os critérios econômicos foram escondidos dentro da tecnologia.

O entregador não recebe simplesmente uma ordem de um gerente visível. Ele recebe notificações, mapas, incentivos temporários e variações de tarifa. Aprende a interpretar os sinais da plataforma e modifica seu comportamento para permanecer elegível. A gestão deixa de depender apenas de supervisão direta e passa a funcionar pela antecipação: o trabalhador calcula o que deve fazer antes que alguém o repreenda. Esse controle algorítmico é eficaz porque transforma a obediência em iniciativa individual.

A hegemonia digital acrescenta uma camada importante ao problema. A plataforma não apenas controla o trabalho; ela ensina o trabalhador a enxergar a si mesmo como microempreendedor. O celular exibe ganhos, metas e avaliações, mas não mostra com a mesma clareza a apropriação do valor produzido, os custos transferidos para a pessoa ou a relação de dependência que liga o trabalhador à empresa. A interface organiza uma narrativa: você escolhe quando trabalhar, você define seu desempenho, você administra seu negócio. A propriedade da infraestrutura, dos dados e do sistema de distribuição permanece fora do enquadramento.

Guy Debord descreveu a sociedade do espetáculo como uma relação social mediada por imagens. Nas plataformas, essa mediação não se limita à publicidade ou ao entretenimento. O trabalhador aparece para o cliente como perfil, nota, fotografia e tempo estimado; o cliente aparece para a empresa como dado de consumo; a cidade aparece como mapa de demanda. A relação social concreta é convertida em imagens, números e telas. Essa conversão não elimina a exploração: torna-a menos visível e mais administrável.

A tecnologia, nesse sentido, não é neutra nem magicamente opressiva. Ela condensa relações de propriedade e decisões políticas. O mesmo sistema de localização que poderia proteger um trabalhador em caso de acidente pode ser usado para medir sua produtividade. O mesmo banco de dados que permitiria planejar uma política pública pode servir à vigilância comercial. A questão decisiva não é se a tecnologia é boa ou ruim em abstrato, mas quem controla sua infraestrutura, seus critérios e seus resultados.

Imprensa, redes e a disputa pelo que parece real

A hegemonia precisa de aparelhos capazes de organizar interpretações. Escola, família, igreja, empresas, partidos, meios de comunicação e plataformas digitais participam dessa disputa. Não funcionam todos da mesma maneira, nem reproduzem sempre um discurso idêntico, mas contribuem para definir quais problemas merecem atenção, quais soluções parecem possíveis e quais grupos serão responsabilizados.

As redes sociais modificaram a circulação das mensagens, mas não dissolveram o poder econômico. Ao contrário, concentraram uma parte da mediação em empresas que controlam dados, publicidade e regras de visibilidade. O algoritmo de plataforma não decide apenas o que cada pessoa verá; ele favorece certos formatos, ritmos e emoções porque a retenção da atenção é convertida em valor. A indignação rápida, o medo e a humilhação pública circulam com facilidade porque mantêm o usuário conectado e produzem informação sobre seu comportamento.

É nesse ambiente que o bolsonarismo encontrou uma forma particular de hegemonia reacionária. Seu discurso não se reduz às falsidades produzidas durante eleições ou à defesa explícita da ditadura. Ele organiza ressentimentos reais — insegurança, perda de renda, descrédito institucional e medo da desordem — contra alvos que não explicam suas causas. O trabalhador precarizado é conduzido a odiar o pobre que recebe política social, o professor acusado de doutrinação, a mulher que reivindica autonomia ou o militante tratado como inimigo nacional.

Essa operação não é contraditória com a defesa de interesses empresariais. O bolsonarismo pode atacar o Estado em nome da liberdade e, ao mesmo tempo, exigir força policial, benefícios fiscais e proteção para proprietários. Pode denunciar a corrupção e preservar relações econômicas que produzem dependência. Pode mobilizar uma linguagem antissistema enquanto mantém intacta a autoridade do capital sobre o trabalho. Sua eficácia está em transformar conflitos de classe em guerras morais e culturais, nas quais os dominados são convidados a defender a ordem que os subordina.

Gustave Le Bon, ao tratar da psicologia das multidões, observou como a circulação de imagens, símbolos e frases simples pode produzir identificação coletiva. A crítica contemporânea precisa ir além de sua psicologia conservadora: multidões não são massas irracionais por natureza. Elas são organizadas por condições sociais e aparelhos concretos. O problema não é a existência de emoção política, mas quem consegue dar forma e direção a ela. A extrema direita disputa o medo e a raiva com uma narrativa que oferece culpados imediatos. A esquerda precisa disputar esses afetos sem apagar suas causas materiais.

Quando a hegemonia entra em crise

A hegemonia nunca é completa. Ela precisa ser renovada porque a experiência cotidiana produz contradições que o discurso dominante não consegue eliminar. O trabalhador pode acreditar na meritocracia e, ao mesmo tempo, participar de uma greve. A população pode desconfiar da política institucional e organizar uma associação de bairro. Entregadores podem aceitar a linguagem de empreendedorismo e, diante de bloqueios ou tarifas insuficientes, construir reivindicações coletivas. A crise começa quando a promessa oficial deixa de organizar a experiência vivida.

Isso não significa que toda insatisfação produza consciência anticapitalista. Uma crise de hegemonia pode abrir espaço tanto para projetos emancipatórios quanto para soluções autoritárias. Quando a deterioração social não encontra uma direção coletiva capaz de nomear suas causas, a extrema direita pode capturá-la. O fracasso do sistema é então explicado por conspirações, inimigos internos, corrupção moral ou excesso de direitos. A ruptura com o discurso dominante não basta; é necessário disputar a interpretação da ruptura.

As greves e mobilizações de entregadores mostram essa possibilidade. Quando o problema deixa de ser narrado como incapacidade individual e passa a ser identificado como relação comum — tarifas, bloqueios, ausência de proteção, custos de manutenção e controle da plataforma — a experiência privada se transforma em questão política. A solidariedade não nasce de uma mensagem motivacional, mas da descoberta de que sofrimentos aparentemente isolados têm uma estrutura compartilhada.

A construção de uma contra-hegemonia exige instituições, linguagem e organização. Não basta denunciar a ideologia; é preciso criar formas de vida e de luta que permitam experimentar relações diferentes. Sindicato, cooperativa, movimento popular, escola pública e associação de trabalhadores podem funcionar como espaços de elaboração intelectual coletiva. Neles, a classe trabalhadora deixa de ser apenas objeto de discursos e passa a produzir sua própria leitura do mundo.

Disputar o senso comum é disputar a realidade

A hegemonia não será superada apenas com informação correta. Fatos são indispensáveis, mas não vencem sozinhos uma ordem social que oferece identidade, pertencimento e explicações prontas. A pessoa que acredita que o pobre é culpado por sua pobreza não precisa apenas de um dado estatístico; precisa de uma experiência política que revele a relação entre salário, propriedade, Estado e poder. A crítica deve ligar o cotidiano à totalidade, mostrando como o aluguel, o transporte, a jornada, o aplicativo e a dívida pertencem ao mesmo sistema de valorização do capital.

Isso também exige abandonar a fantasia de que existe uma sociedade sem ideologia. Quando alguém afirma defender apenas eficiência, mérito ou liberdade de escolha, já está adotando uma visão sobre propriedade, Estado e trabalho. A neutralidade costuma ser o nome que a ideologia dominante dá a si mesma quando consegue ocultar seus interesses. Expor essa operação é uma tarefa teórica; construir alternativas materiais é uma tarefa política.

Hegemonia, enfim, não é uma disputa abstrata entre opiniões. É a luta para decidir quem define o que é necessidade, quem pode falar em nome do interesse geral e quem pagará o preço das decisões econômicas. Enquanto a plataforma chamar exploração de autonomia, enquanto a empresa chamar demissão de ajuste, enquanto o governo chamar desigualdade de consequência inevitável e enquanto a extrema direita converter sofrimento social em ódio contra os vulneráveis, a dominação continuará administrando o consentimento.

A tarefa anticapitalista começa quando essa administração é interrompida. O entregador deixa de se ver como empresário isolado e reconhece uma classe; o professor deixa de tratar a precarização como falha vocacional e identifica uma política; o trabalhador de call center deixa de enxergar a meta como simples número e percebe um mecanismo de extração. A partir daí, o senso comum deixa de ser destino. Torna-se terreno de disputa, e a vida social pode ser reorganizada por aqueles que hoje produzem a riqueza sem decidir sobre ela.