A meritocracia no Brasil não é apenas uma crença ingênua na capacidade individual. Ela funciona como uma tecnologia ideológica: converte relações sociais desiguais em histórias privadas de sucesso ou fracasso, fazendo parecer que cada pessoa ocupa exatamente o lugar que seus esforços merecem. Quando um entregador passa horas sobre a motocicleta esperando chamadas, quando uma professora acumula turmas para completar a renda ou quando um jovem da periferia disputa uma vaga de concurso depois de estudar em condições muito diferentes das de seus concorrentes, a linguagem do mérito aparece para apagar o que organiza essas trajetórias: classe, raça, território, herança, acesso a tempo livre, qualidade da educação e poder de barganha diante do empregador.
O problema não está em reconhecer que indivíduos estudam, trabalham e desenvolvem capacidades. O problema está em transformar esse esforço real em explicação total da vida social. A ideologia meritocrática toma resultados produzidos por uma estrutura e os devolve como atributos morais do indivíduo. O vencedor seria disciplinado, talentoso e empreendedor; o derrotado, desorganizado, acomodado ou incapaz. Assim, a desigualdade deixa de parecer uma relação entre classes e passa a ser narrada como um defeito psicológico de quem está embaixo.
A meritocracia no Brasil começa onde as condições já são desiguais
Em uma sociedade capitalista, as pessoas não partem do mesmo ponto nem disputam em um terreno neutro. O filho de uma família proprietária pode herdar patrimônio, contatos, segurança material e tempo para escolher. O filho de uma família trabalhadora pode precisar ingressar cedo no mercado, interromper estudos, cuidar de parentes e aceitar qualquer ocupação disponível. A ideologia meritocrática, entretanto, observa apenas a linha de chegada. Se dois candidatos fizeram a mesma prova, afirma que foram avaliados pelo mesmo critério. Não pergunta quantas horas cada um pôde estudar, quem tinha um quarto silencioso, acesso a computador, alimentação regular, transporte confiável ou possibilidade de pagar um curso preparatório.
Essa abstração é particularmente cruel no Brasil porque a desigualdade não se limita à renda. A formação social brasileira foi marcada pela escravidão, pelo racismo e pela concentração da terra, da moradia e dos serviços públicos. A classe trabalhadora negra encontra barreiras que não desaparecem quando a propaganda diz que basta se esforçar. Mulheres assumem parcelas desproporcionais do trabalho doméstico e do cuidado. Moradores das periferias gastam mais tempo no deslocamento e convivem com a precariedade de escolas, postos de saúde e equipamentos culturais. A meritocracia trata essas diferenças como ruído, quando elas são parte da própria regra do jogo.
Não é necessário inventar uma estatística para perceber a contradição. Basta acompanhar a rotina de um trabalhador que sai de casa antes do amanhecer, enfrenta um transporte demorado, trabalha em ocupações instáveis e ainda escuta que sua ascensão depende exclusivamente de disciplina. O elogio abstrato ao esforço se converte em uma forma de violência quando exige mais sacrifício justamente de quem já entrega mais tempo, energia e saúde para sobreviver.
O entregador de aplicativo e a promessa de ser seu próprio chefe
O entregador por aplicativo é um dos exemplos mais transparentes dessa ideologia. A plataforma o apresenta como parceiro, empreendedor e gestor da própria jornada. A palavra empreendedor substitui trabalhador; a flexibilidade substitui a ausência de garantia; a autonomia substitui a submissão a um sistema que distribui chamadas, define preços, registra avaliações e pode bloquear o acesso à renda. O sujeito aparece como proprietário de si mesmo, embora precise colocar veículo, combustível, manutenção, celular e corpo a serviço de uma empresa que controla a infraestrutura da atividade.
Quando o aplicativo oferece uma bonificação, altera a tarifa ou organiza uma sequência de pedidos, a decisão é apresentada como estímulo ao desempenho. Se o entregador aceita jornadas longas e assume riscos maiores, parece estar fazendo uma escolha livre. Se recusa determinadas condições, pode perder oportunidades, sofrer redução de chamadas ou ser acusado de não ter mentalidade empreendedora. O algoritmo transforma a necessidade econômica em aparência de escolha individual. A plataforma não precisa ordenar diretamente como um chefe de fábrica; basta administrar as possibilidades de sobrevivência.
O Breque dos Apps, organizado por entregadores em 2020, expôs aquilo que o discurso empresarial tentava esconder. Ao reivindicarem melhores condições, os trabalhadores mostraram que não eram consumidores autônomos de uma ferramenta digital, mas uma força coletiva submetida a uma relação de exploração. A mobilização também revelou a contradição entre a imagem do empreendedor solitário e a realidade de trabalhadores que dependem uns dos outros para trocar informações, organizar protestos e construir formas de proteção. A ideologia do mérito procura dissolver essa dimensão coletiva. Cada entregador deve competir com o outro por uma corrida, uma bonificação e uma avaliação, mesmo quando todos estão submetidos à mesma empresa.
Marx ajuda a compreender a estrutura desse engano. No capitalismo, o trabalhador vende sua força de trabalho porque não controla os meios necessários para produzir sua existência. A plataforma atualiza essa dependência sem eliminá-la. O celular e a motocicleta dão ao trabalhador a aparência de possuir seus instrumentos, mas o acesso ao mercado, aos clientes e à definição das regras permanece concentrado na empresa. A propriedade parcial dos meios materiais não produz autonomia quando a circulação da renda é comandada por uma infraestrutura privada. O discurso meritocrático celebra a iniciativa do entregador precisamente para ocultar quem controla a atividade e se apropria de seu resultado.
Do resultado desigual à culpa individual
A força política da meritocracia está em deslocar a pergunta. Em vez de perguntar por que uma pessoa precisa aceitar um trabalho sem proteção, pergunta por que ela não se qualificou mais. Em vez de discutir a propriedade das plataformas, recomenda cursos de empreendedorismo. Em vez de enfrentar o racismo no mercado de trabalho, oferece treinamento de resiliência. Em vez de ampliar serviços públicos, aconselha planejamento financeiro. Problemas coletivos são tratados como falhas de gestão pessoal.
Essa operação produz culpa em escala. O trabalhador que não consegue pagar o aluguel entende que falhou em organizar seus gastos. A estudante que abandona o curso entende que lhe faltou foco. O professor que adoece por excesso de turmas interpreta o esgotamento como incapacidade de administrar o tempo. A culpa individual é útil ao capital porque desvia a indignação de seus alvos concretos. Se cada pessoa acredita ser responsável isoladamente por sua posição, a precarização deixa de aparecer como política empresarial e passa a ser um problema de comportamento.
O discurso não precisa convencer todos de que a sociedade é perfeitamente justa. Basta insinuar que as injustiças são exceções e que, no longo prazo, os mais esforçados serão reconhecidos. Essa promessa adia a revolta. O trabalhador pode aceitar anos de instabilidade acreditando que a próxima promoção, a próxima prova ou o próximo curso finalmente converterá dedicação em segurança. Quando a promessa não se realiza, a explicação retorna ao indivíduo: faltou persistência, networking, qualificação ou atitude.
É nesse ponto que a meritocracia se aproxima do que Marx chamou de ideologia: não uma mentira simples inventada por alguém, mas uma forma social de consciência que apresenta relações históricas como naturais. O mercado parece premiar capacidades, embora remunere posições diferentes na divisão social do trabalho. O proprietário recebe renda porque possui ativos; o trabalhador recebe salário porque precisa vender sua força. A diferença não é resultado de desempenhos equivalentes medidos por uma régua neutra. É resultado de relações de propriedade e poder.
A escola, o concurso e a administração da esperança
A escola pública é frequentemente convocada a cumprir uma tarefa impossível: corrigir sozinha desigualdades produzidas por toda a sociedade. O aluno deve competir por vagas, bolsas e empregos como se a educação pudesse neutralizar o território onde nasceu. Quando consegue, sua trajetória é exibida como prova de que basta querer. O caso excepcional é transformado em regra moral. A história do jovem que estudou em condições precárias e passou no concurso serve, então, para acusar todos os outros que não conseguiram. Sua vitória deixa de ser uma conquista individual e passa a funcionar como argumento contra políticas universais.
O concurso público contém uma ambiguidade importante. A seleção por critérios objetivos pode limitar o favorecimento pessoal, o clientelismo e a arbitrariedade. Mas a prova não elimina as desigualdades anteriores. Ela apenas mede o desempenho em uma etapa específica, depois que a sociedade distribuiu de forma desigual tempo, renda, escolaridade e estabilidade. A defesa do serviço público não exige transformar o concurso em inimigo; exige recusar a fantasia de que a prova, isoladamente, constitui uma justiça social completa. A igualdade formal do edital não corrige a desigualdade material que antecede a inscrição.
O mesmo vale para o professor. A retórica meritocrática costuma responsabilizá-lo pelos resultados dos alunos, como se sua dedicação pudesse compensar salas superlotadas, baixos salários, falta de infraestrutura, violência territorial e abandono estatal. Avaliações de desempenho transformam processos educacionais complexos em índices comparáveis e, depois, distribuem prêmios ou punições. A escola passa a funcionar sob a lógica da produtividade: metas, rankings, bonificações e responsabilização individual. O professor é cobrado como gestor de resultados, mas não controla as condições sociais que determinam boa parte do trabalho pedagógico.
Em vez de enfrentar a desigualdade educacional, esse modelo fabrica uma competição permanente entre profissionais, escolas e estudantes. A cooperação, que deveria organizar o trabalho educativo, é substituída pela disputa por reconhecimento e recursos escassos. A instituição pública passa a imitar a empresa. Seu fracasso é atribuído à falta de eficiência interna, enquanto as decisões econômicas e políticas que restringem sua capacidade permanecem fora do enquadramento.
O algoritmo como juiz aparentemente imparcial
A tecnologia dá uma nova aparência de neutralidade à meritocracia. Uma avaliação algorítmica parece mais objetiva do que a decisão de um gerente porque é apresentada como cálculo, e não como julgamento. Mas todo algoritmo opera a partir de dados, critérios e objetivos definidos por organizações concretas. No trabalho de plataforma, ele pode registrar tempo de resposta, taxa de aceitação, localização, cancelamentos e avaliações dos clientes. Esses sinais são convertidos em uma imagem de desempenho que condiciona o acesso à renda. O trabalhador recebe uma nota, mas não participa da definição do que será considerado bom trabalho nem possui meios transparentes de contestar a decisão.
O algoritmo não precisa declarar preconceito para reproduzir desigualdades. Se os dados refletem uma sociedade racista, desigual e territorialmente segregada, o sistema pode distribuir riscos e oportunidades de modo desigual enquanto mantém a aparência matemática de imparcialidade. O entregador que circula em uma área distante pode enfrentar custos, perigos e tempos de espera diferentes dos de outro trabalhador. A plataforma, contudo, reduz a situação a indicadores de produtividade. A diferença estrutural aparece como baixo desempenho.
Há também uma transformação subjetiva. O trabalhador aprende a vigiar a si mesmo porque sabe que cada pausa, recusa ou avaliação pode ser registrada. A chefia se torna difusa e permanente. Não é preciso um supervisor ao lado para impor ritmo; o trabalhador internaliza a exigência da disponibilidade. Heidegger, ao pensar a técnica moderna, mostrou que ela não é apenas um conjunto de instrumentos, mas uma forma de revelar o mundo como estoque disponível. Na plataforma, pessoas, trajetos, minutos e atenção são convertidos em recursos calculáveis. O corpo do entregador aparece como capacidade logística; seu tempo, como intervalo monetizável; sua disposição, como variável de produção.
A promessa meritocrática completa esse mecanismo ao afirmar que quem se adapta melhor será recompensado. O controle não se apresenta como coerção, mas como oportunidade. O trabalhador não recebe uma ordem explícita para permanecer conectado durante mais horas; ele é levado a concluir que desligar-se significa perder para alguém mais dedicado. A competição entre indivíduos substitui parte da disciplina direta, enquanto a empresa preserva o controle da infraestrutura e dos dados.
Meritocracia e a conservação da ordem social
Para Alysson Mascaro, o Estado e o direito não pairam acima das relações capitalistas como árbitros externos. As formas jurídicas da igualdade e da liberdade são compatíveis com uma sociedade na qual os trabalhadores, formalmente livres, precisam vender sua força de trabalho para sobreviver. A meritocracia se apoia nessa mesma aparência jurídica: todos seriam indivíduos livres, portadores de capacidades e responsáveis por seus contratos. A desigualdade concreta é deslocada para fora da cena, como se a liberdade de assinar um contrato bastasse para tornar equivalente a posição de quem contrata e de quem precisa aceitar o trabalho.
Isso não significa que toda avaliação, seleção ou reconhecimento de capacidade seja ilegítima. Significa que nenhum procedimento individual pode ser tomado como explicação suficiente para uma sociedade inteira. Uma prova pode medir preparação para uma prova. Uma avaliação pode registrar determinado comportamento. Uma meta pode contabilizar uma tarefa. Nada disso autoriza concluir que a renda, a dignidade ou o valor humano de uma pessoa correspondem ao resultado obtido. A ideologia começa quando uma medida parcial é convertida em julgamento total.
Guy Debord mostrou que, na sociedade do espetáculo, as relações sociais aparecem mediadas por imagens. A meritocracia produz seus próprios espetáculos: o empreendedor que venceu sozinho, a funcionária que saiu de baixo, o estudante que estudou de madrugada, o entregador que diz trabalhar quando quer. Essas narrativas podem conter esforço verdadeiro, mas são recortadas para fazer desaparecer as estruturas que não cabem na imagem. O sucesso individual é exibido como evidência de que o sistema funciona; milhões de trajetórias interrompidas permanecem invisíveis ou são tratadas como falhas privadas.
A consequência política é a desorganização da classe trabalhadora. Se cada um acredita estar em uma competição individual, a solidariedade parece uma ameaça ao mérito. O colega vira concorrente, o sindicato vira obstáculo, a greve vira preguiça e a reivindicação coletiva vira inveja de quem se esforçou. A multidão trabalhadora é fragmentada em empreendedores de si, cada qual responsável por vender melhor sua força, administrar sua ansiedade e suportar silenciosamente a insegurança. O conflito entre capital e trabalho fica escondido atrás da disputa entre indivíduos.
O que a crítica do mérito precisa defender
Criticar a meritocracia não é defender a passividade nem negar o valor do estudo, do trabalho e da responsabilidade. É recusar que esses valores sejam usados para justificar a miséria de quem não recebeu as mesmas condições. O esforço de um entregador não deve ser celebrado para manter baixos seus direitos; deve servir como evidência de que uma atividade essencial está sendo sustentada por trabalhadores submetidos a riscos que as plataformas transferem para eles. A dedicação de uma professora não deve ser usada para dispensar investimento público; deve revelar o absurdo de exigir vocação ilimitada de quem trabalha sob precariedade.
Uma política realmente igualitária começa por retirar da competição individual aquilo que deve ser garantido coletivamente: educação pública de qualidade, saúde, moradia, transporte, proteção trabalhista, tempo livre e segurança econômica. Não se trata de criar uma sociedade sem diferenças de capacidade ou contribuição, mas de impedir que diferenças inevitáveis sejam convertidas em hierarquias de dignidade. A vida não pode depender de cada pessoa provar diariamente que merece existir.
Também é preciso recuperar a dimensão coletiva do trabalho. Entregadores organizados, professores em mobilização, trabalhadores de call center e funcionários submetidos à produtividade não são casos isolados de inadequação. São grupos que podem nomear as condições comuns e disputar as regras que os governam. A luta coletiva interrompe a narrativa da culpa porque mostra que o problema não está dentro de cada indivíduo: está na forma como a produção, a renda e o poder são organizados.
A meritocracia no Brasil cumpre sua função quando transforma privilégios herdados em talento, exploração em oportunidade e abandono estatal em falta de iniciativa. Sua promessa é que cada um receberá conforme seu mérito; sua prática é preservar uma sociedade na qual poucos controlam os recursos e muitos competem para sobreviver. A tarefa crítica não é encontrar uma fórmula mais eficiente para classificar vencedores e derrotados. É desmontar a máquina que precisa fabricar derrotados para que o mérito dos vencedores pareça natural.
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