O conservadorismo brasileiro costuma se apresentar como defesa da família, da ordem, da religião e dos costumes. A imagem é confortável: pessoas prudentes, desconfiadas de mudanças abruptas, interessadas em preservar aquilo que deu coesão à vida coletiva. Mas ela se desfaz quando confrontada com a história concreta do país. Aqui, a ordem que se quer conservar não é uma comunidade harmoniosa; é uma sociedade fundada na concentração de propriedade, no mando privado sobre o trabalho, na violência racial e na desigualdade naturalizada. Quando essa ordem é ameaçada por direitos mínimos, o conservadorismo deixa de ser prudente. Ele aceita a mentira, celebra a brutalidade e, se necessário, flerta com a destruição das próprias instituições que dizia venerar.
O bolsonarismo foi a forma mais explícita dessa operação. Não inventou o conservadorismo nacional, mas tirou dele o verniz civilizado. Em nome de Deus, da pátria e da família, atacou universidades, estimulou hostilidade contra professores, tratou direitos humanos como proteção a criminosos, sabotou políticas públicas e transformou adversários políticos em inimigos morais. O que se chamou de “guerra cultural” não foi uma disputa abstrata de valores. Foi uma técnica de poder: fabricar pânico para impedir que a desigualdade brasileira aparecesse como problema político.
Conservadorismo não conserva tudo: escolhe o que merece sobreviver
Todo conservadorismo faz uma seleção. No Brasil, quase nunca propõe conservar a estabilidade de renda de quem trabalha, o direito ao descanso, a escola pública ou a proteção previdenciária. Esses vínculos, que permitem alguma segurança à maioria, são descritos como privilégios, rigidez ou gasto excessivo. Em contrapartida, a propriedade concentrada, a especulação imobiliária, os lucros financeiros e o poder patronal aparecem como fatos naturais, anteriores a qualquer debate democrático. A palavra “liberdade” entra em cena, mas significa sobretudo liberdade para explorar, contratar precariamente, demitir e transferir riscos ao trabalhador.
Marx identificou esse mecanismo ao mostrar que as ideias dominantes de uma época não pairam acima da sociedade: elas expressam, de formas variadas, as relações materiais dominantes. A defesa moral da hierarquia não é apenas uma opinião cultural; ela ajuda a organizar uma ordem em que uma classe compra a força de trabalho de outra. No Brasil contemporâneo, o discurso conservador encontra no neoliberalismo seu complemento perfeito. Um fala em mérito, disciplina e família; o outro fala em eficiência, empreendedorismo e responsabilidade individual. Ambos ensinam que a pobreza deve ser interpretada como falha pessoal, nunca como resultado de uma estrutura que remunera mal, cobra muito e protege pouco.
O entregador de aplicativo que atravessa a cidade sob chuva e calor é convidado a se ver como empreendedor. Se sofre um acidente, não tem a proteção correspondente a quem trabalha sob comando, metas, avaliações e bloqueios automáticos. O conservadorismo que lamenta a perda de valores raramente se indigna com essa dissolução concreta da vida familiar: jornadas extensas, renda instável e disponibilidade permanente. Ele prefere fiscalizar comportamentos, sexualidades e escolhas privadas a enfrentar a empresa-plataforma que transforma o tempo de existência em mercadoria.
O pânico moral como política de classe
A guerra contra a chamada “ideologia de gênero”, contra livros escolares ou contra uma suposta doutrinação de esquerda cumpre uma função que seus promotores procuram ocultar. Ela desloca a atenção. Em vez de discutir por que professores acumulam turmas e tarefas para sobreviver, por que escolas públicas sofrem abandono ou por que jovens entram cedo em ocupações precárias, instala-se uma vigilância sobre o conteúdo moral da sala de aula. O professor passa a ser suspeito; a escola, inimiga potencial da família; o conhecimento, ameaça à inocência. A precarização, convenientemente, deixa de ser o centro.
Não se trata de dizer que valores, afetos ou educação não importam. Importam precisamente porque moldam a experiência social. A questão é outra: quem ganha quando a família é convocada como trincheira contra a escola, o sindicato, a universidade e a organização coletiva? Ganha quem precisa de indivíduos isolados, culpados por seus próprios fracassos e incapazes de reconhecer a origem comum de seus problemas. A família, sob o capitalismo, pode ser lugar de cuidado e solidariedade, mas também é sobrecarregada pela ausência de políticas públicas. Quando creche, saúde, moradia e renda falham, recai sobretudo sobre as mulheres o trabalho não pago de sustentar a vida. O discurso conservador exalta essa família enquanto recusa as condições materiais para que ela exista sem exaustão.
Le Bon observou como as multidões podem ser mobilizadas por imagens simples, repetição e contágio afetivo. A extrema direita digital soube converter esse diagnóstico em prática cotidiana. Vídeos curtos, escândalos inventados, cenas arrancadas de contexto e inimigos facilmente reconhecíveis produzem uma multidão conectada que reage antes de pensar. Não é uma massa sem interesses; é uma massa dirigida para interpretar suas angústias reais por meio de alvos falsos. A insegurança econômica vira medo do professor. O colapso dos serviços públicos vira ódio ao Estado em abstrato. A frustração com a falta de futuro vira ressentimento contra mulheres, pessoas negras, indígenas, LGBTQIA+ e pobres que reivindicam visibilidade e direitos.
Da defesa da ordem ao ataque à democracia
A contradição decisiva apareceu quando setores que se diziam defensores da lei e da ordem toleraram, incentivaram ou relativizaram ataques ao resultado eleitoral e às instituições democráticas. Não foi um acidente exterior ao conservadorismo realmente existente. Quando a democracia abre espaço, ainda que limitado, para taxar privilégios, proteger minorias, reconhecer direitos trabalhistas ou ampliar políticas sociais, ela passa a ser vista como excesso. A ordem vale enquanto garante a hierarquia; se a hierarquia vacila, a ordem pode ser sacrificada.
Alysson Mascaro insiste que o Estado e o direito não podem ser lidos como árbitros neutros pairando acima das classes. Isso não significa que eleições, tribunais e garantias legais sejam irrelevantes. Significa que suas formas e limites estão atravessados por relações de poder. O conservadorismo autoritário explora justamente a aparência de neutralidade dessas instituições: pede rigor penal para os de baixo, mas indignação seletiva quando a lei alcança empresários, militares ou dirigentes políticos aliados. Exige respeito à Constituição, mas apenas à parte da Constituição que protege propriedade e autoridade; direitos sociais são tratados como concessões dispensáveis.
O fascismo, em suas formas históricas, não foi simples retorno ao passado. Foi uma modernização violenta da dominação, usando propaganda, técnica, mobilização de massas e eliminação política do dissenso. O bolsonarismo também não pode ser reduzido a nostalgia de quartel ou folclore reacionário. Ele operou nas plataformas digitais, na economia da atenção e no mercado de dados. Debord ajuda a perceber o ponto: no espetáculo, a relação social aparece como imagem e a imagem substitui a experiência. A violência contra a democracia pode ser consumida como vídeo, meme, live e performance de coragem. A política se torna torcida, e a torcida dispensa prova.
A tradição que merece ser recusada
Há uma tradição brasileira que o conservadorismo efetivamente preserva: a de conciliar mudanças superficiais com a manutenção do poder dos de cima. Aboliu-se formalmente a escravidão sem reparação e sem terra; democratizou-se o voto sem democratizar plenamente a riqueza; reconhecem-se direitos enquanto se ampliam formas de trabalho sem proteção. A uberização é uma imagem precisa dessa continuidade. A tecnologia, apresentada como inovação inevitável, recupera uma relação antiga: o trabalhador arca com instrumentos, custos e riscos, enquanto a empresa controla o processo e captura o resultado.
Heidegger alertava que a técnica moderna tende a enquadrar tudo como reserva disponível. Nas plataformas, o trabalhador aparece como ponto no mapa, nota, tempo de entrega, taxa de aceitação. O conservadorismo não vê aí uma crise moral porque sua moral não está orientada pela dignidade material de quem trabalha. Sua indignação é seletiva: mobiliza-se contra uma obra de arte, uma aula ou uma fala considerada ofensiva, mas aceita que milhões tenham sua vida medida por algoritmos opacos. Essa é a sua ordem: não a proteção da vida comum, mas a disciplina dos que dependem de vender sua força de trabalho.
Recusar o conservadorismo não exige desprezar memória, vínculos ou experiências acumuladas. Exige perguntar quais memórias são celebradas e quais são silenciadas; quais vínculos recebem proteção e quais são quebrados em nome do lucro; quem define a moral pública e com que interesse. Uma esquerda consequente não promete um futuro sem conflitos. Ela enfrenta o conflito que já estrutura o presente: entre a riqueza socialmente produzida e sua apropriação privada. Contra a tradição da obediência, cabe defender uma política de igualdade substantiva, trabalho com direitos e democracia que não termine na porta da empresa.
Comentários
Seja o primeiro a comentar.
Deixe um comentário
Seu comentário será publicado após aprovação.