Tratar o fascismo conceito como uma definição escolar — regime autoritário, culto ao líder, nacionalismo, perseguição a opositores — é correto, mas insuficiente. A enumeração reconhece os sinais depois que eles se tornam evidentes; não explica a engrenagem social que os produz nem por que pessoas submetidas à exploração podem aderir a uma política que aprofunda sua própria desproteção. O problema brasileiro não é a falta de verbetes sobre Mussolini ou Hitler. É a dificuldade de enxergar que o fascismo, em suas formas históricas e contemporâneas, não cai do céu como uma anomalia moral. Ele é uma resposta política de forças capitalistas à crise, quando a conciliação liberal já não consegue administrar o conflito entre as classes.
Essa resposta não dispensa eleições, Congresso, tribunais ou redes sociais. Pode atravessá-los, corrompê-los e transformá-los em palco de guerra permanente. Seu núcleo não é simplesmente o Estado forte, pois Estados fortes podem assumir formas distintas. O núcleo está na destruição organizada das mediações coletivas: sindicatos, partidos populares, imprensa crítica, universidade pública, organizações territoriais, direitos trabalhistas e até a própria ideia de que a vida comum exige responsabilidade com o outro. Em seu lugar, oferece-se uma comunidade imaginária, unida pela nação, por Deus, pela família ou pela ordem, e definida sobretudo pelos inimigos que promete esmagar.
O fascismo conceito começa onde a crise vira inimigo humano
Marx não escreveu uma teoria acabada do fascismo, porque o fenômeno se consolidaria depois de sua morte, mas deixou o método decisivo: procurar as relações materiais sob a aparência política. Quando o trabalhador é expropriado de seu tempo, de seu saber e do produto que cria, sua alienação não permanece restrita à fábrica. Ela invade sua linguagem, seus desejos e sua percepção das causas do sofrimento. A pessoa que passa o dia entregando comida para um aplicativo, recebendo ordens de um algoritmo opaco e pagando do próprio bolso a moto, a gasolina e a manutenção, sabe concretamente que a vida está pior. Mas não é levada automaticamente a identificar a plataforma, os investidores e a legislação que a protege como fontes dessa precariedade.
É nesse deslocamento que a ideologia fascista trabalha. Ela pega uma angústia real e entrega uma explicação falsificada, porém afetivamente eficaz. Em vez de classe dominante, fala em corrupção abstrata. Em vez de concentração de riqueza, fala em parasitas, vagabundos ou inimigos internos. Em vez de serviços públicos desmontados, acusa professores, servidores, artistas, indígenas, movimentos sociais ou imigrantes. A violência que deveria ser dirigida contra relações de exploração é desviada para corpos mais vulneráveis e para instituições que, embora limitadas, ainda podem servir à organização popular.
Não se trata de dizer que todo governo neoliberal é fascista. A precisão importa porque o conceito não pode virar um xingamento para qualquer política reacionária. O neoliberalismo pode governar pela concorrência, pela privatização e pela responsabilização individual, mantendo uma aparência institucional estável. O fascismo entra em outro registro: mobiliza massas, glorifica a violência, promete purificar a comunidade e autoriza a eliminação simbólica ou física do adversário. Mas ambos podem se encontrar. A devastação neoliberal produz insegurança; a política fascista transforma essa insegurança em ressentimento nacionalista e disciplina social. Enquanto o mercado desorganiza a vida, a extrema direita oferece a fantasia de uma ordem recuperada.
Bolsonarismo: o laboratório brasileiro da mobilização reacionária
O bolsonarismo não foi uma cópia exata dos fascismos europeus do século XX, nem precisa sê-lo para carregar traços neofascistas. Seu projeto combinou defesa aberta da ditadura militar, elogio da tortura, ataque contínuo à imprensa e às instituições eleitorais, disseminação de pânico moral, armamentismo e uma retórica que tratava adversários políticos como inimigos a eliminar. A tentativa golpista de 8 de janeiro de 2023 não foi um acidente sem relação com essa linguagem. Foi a consequência prática de anos de treinamento político para desacreditar o voto, transformar derrota eleitoral em fraude e apresentar a violência como salvação nacional.
A questão decisiva é que esse movimento não se sustentou apenas em fanáticos de quartel ou em figuras caricatas da internet. Ele encontrou base social numa sociedade já moída pela informalidade, pelo endividamento, pela desindustrialização e pela insegurança. O motorista de aplicativo chamado de empreendedor, o operador de call center medido por segundos, o professor perseguido por uma fantasia de doutrinação e o pequeno comerciante espremido por aluguel, juros e grandes redes vivem pressões diferentes, mas são convidados a enxergar sua ruína como resultado de uma conspiração cultural da esquerda. A extrema direita oferece a esses sujeitos uma identidade de superioridade moral em troca da renúncia à solidariedade de classe.
O discurso do empreendedorismo é particularmente útil nesse processo. Ele diz ao trabalhador precarizado que sua falta de direitos é liberdade; que sua jornada sem fim é autonomia; que seu fracasso é defeito individual. Quando a promessa falha, como frequentemente falha, o sistema precisa impedir que a frustração se converta em demanda por direitos e organização. A figura fascistizante fornece essa contenção: orienta a raiva contra quem recebe auxílio, contra quem reivindica igualdade racial ou de gênero, contra quem defende universidade, cultura ou sindicato. A exploração permanece intocada, mas ganha uma escolta moral armada de ressentimento.
Espetáculo, multidão e a fabricação de uma falsa maioria
Debord mostrou que a sociedade do espetáculo não é apenas um excesso de imagens; é uma relação social mediada por imagens. No bolsonarismo, a transmissão ao vivo, o vídeo recortado, a notícia falsificada e a frase de efeito não foram acessórios de campanha. Foram formas de substituir a experiência coletiva por uma sequência de choques calculados. Cada escândalo ocupava o lugar de discussões sobre salário, saúde, moradia, orçamento e poder econômico. A política era reduzida à identificação com um chefe que parecia falar sem filtro, justamente porque sua aparente espontaneidade escondia uma máquina eficiente de circulação, repetição e monetização de afetos.
Le Bon, apesar de seus limites conservadores, percebeu que a multidão pode operar por contágio, sugestão e simplificação. A extrema direita digital atualiza esse mecanismo sem precisar reunir todos numa praça. Grupos de mensagens, canais de vídeo e perfis coordenados fabricam a sensação de que uma opinião violenta é majoritária e inevitável. O indivíduo isolado, depois de um dia de trabalho exaustivo, recebe centenas de estímulos que confirmam a mesma fantasia: ele pertence a uma maioria silenciosa sitiada por elites perversas. Essa ficção de pertencimento é poderosa porque responde a uma solidão real, produzida pela fragmentação do trabalho e pela dissolução de vínculos comunitários.
A técnica, como advertia Heidegger, não é neutra quando organiza previamente o modo como o mundo se apresenta. Nas plataformas, ela aparece como destino: o algoritmo decide preço, rota, prioridade, bloqueio e visibilidade, mas se esconde sob a linguagem objetiva da inovação. Nas redes, a mesma opacidade seleciona o que gera indignação e retenção. Não é necessário supor que toda tecnologia seja inerentemente fascista. O ponto é outro: sob comando privado e orientada pelo lucro, a técnica tende a enquadrar trabalhadores e usuários como recursos disponíveis, dados exploráveis e atenção vendável. Esse terreno é fértil para uma política que reduz pessoas a alvos, inimigos ou números.
Combater o fascismo é reconstruir poder coletivo
Alysson Mascaro insiste que o Estado e o direito não pairam acima da sociedade como árbitros neutros. Eles participam da reprodução das relações capitalistas, ainda que contenham disputas e conquistas populares. Essa compreensão evita duas ilusões. A primeira é achar que bastaria eleger autoridades democráticas para que o fascismo evaporasse. A segunda é desprezar instituições e direitos porque seriam apenas burgueses. A derrota eleitoral de Bolsonaro foi necessária e impediu uma escalada autoritária maior; mas não desfez a base material, empresarial, policial, religiosa e digital que alimentou sua ascensão.
O enfrentamento exige defender liberdades democráticas, responsabilizar quem financiou e organizou ataques golpistas e desmontar redes de desinformação. Mas exige também algo mais profundo: retirar da extrema direita o monopólio fraudulento sobre a indignação popular. Isso passa por salário, jornada, moradia, transporte, saúde, educação pública e direito de organização para quem trabalha em aplicativos, escolas, hospitais, depósitos e call centers. Onde há sindicato vivo, associação de bairro, movimento de moradia e trabalho político paciente, a promessa fascista encontra mais obstáculos. Não porque o povo seja naturalmente virtuoso, mas porque dispõe de instrumentos para reconhecer o adversário real.
O fascismo se alimenta da atomização e oferece pertencimento pela crueldade. A política anticapitalista precisa produzir pertencimento pela igualdade material, pela memória e pela capacidade coletiva de decidir sobre a própria vida. Essa é a diferença entre repetir um conceito para uma prova e usar o conceito para enxergar o país: compreender que a defesa da democracia não se separa da luta contra a exploração que torna a barbárie politicamente rentável.
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