Defina fascismo não pela imagem pronta do ditador em uniforme, nem por uma lista escolar de símbolos e datas, mas pela função que ele exerce quando a ordem capitalista entra em crise. Fascismo é uma política de massas que organiza medo, ressentimento e violência contra os de baixo para salvar, por vias excepcionais, uma sociedade baseada na exploração. Ele não aparece simplesmente para abolir a democracia em favor de uma tirania abstrata; aparece para esvaziar a democracia de seu conteúdo popular, tornar a desigualdade uma fatalidade e apresentar a destruição de direitos como defesa da nação, da família, da liberdade ou do trabalho.
Essa definição impede dois erros convenientes. O primeiro é chamar de fascismo qualquer governo severo, qualquer policial violento ou qualquer adversário detestado. O segundo, mais perigoso, é reservá-lo exclusivamente à Itália de Mussolini e à Alemanha de Hitler, como se sua lógica tivesse morrido com aqueles regimes. O fascismo histórico tem determinações próprias, que não devem ser apagadas. Mas sua matéria política — a mobilização reacionária das massas, o culto da força, a perseguição ao inimigo interno, a mentira transformada em vínculo coletivo e a neutralização das organizações trabalhadoras — pode reaparecer em outras formas, sob instituições formalmente democráticas.
Fascismo não é excesso de Estado, mas Estado a serviço da reação
Uma definição superficial imagina o fascismo como um Estado que ficou grande demais. A realidade é menos confortável para o liberalismo: o Estado fascista não se opõe necessariamente ao poder econômico; ele reorganiza a política para proteger a propriedade e disciplinar o trabalho quando os mecanismos ordinários já não bastam. Sua violência não é distribuída de modo aleatório. Ela recai sobre sindicatos, movimentos de moradia, militantes de esquerda, povos indígenas, negros, mulheres, pessoas LGBT e todos aqueles cuja existência ou organização desafia a hierarquia social.
Marx mostrou que o Estado não paira acima das classes como árbitro inocente. Ele condensa relações sociais e protege, em última instância, uma ordem fundada na propriedade privada dos meios de produção. O fascismo radicaliza essa função em conjunturas de conflito: promete restaurar a unidade nacional, mas entende como ameaça toda reivindicação que revele a divisão entre quem trabalha e quem se apropria do trabalho alheio. A classe não desaparece; ela é encoberta por bandeiras, hinos, armas, religião instrumentalizada e fantasias de uma comunidade nacional sem antagonismos.
Por isso, a palavra liberdade muda de sentido. Para o entregador subordinado ao aplicativo por metas, avaliações e bloqueios opacos, liberdade deveria significar ter renda, descanso, proteção e poder coletivo para não aceitar qualquer condição. Na gramática fascistizante, liberdade passa a ser o direito do patrão de não ser regulado, o direito do motorista armado de ameaçar, o direito de uma multidão de difamar um professor e o direito de plataformas lucrarem com vínculos sem direitos. A liberdade concreta de quem trabalha é substituída pela liberdade abstrata de mandar, possuir e punir.
Defina fascismo pela fabricação de um inimigo interno
Todo poder de classe precisa de ideologia, mas o fascismo trabalha com uma forma particularmente agressiva de simplificação. Problemas produzidos por relações econômicas são personificados em inimigos disponíveis. O desemprego deixa de ser efeito de uma economia organizada pelo lucro e vira culpa do pobre que recebe auxílio, do migrante, do servidor, do sindicalista, do professor que "doutrina" ou do militante que protesta. A precarização não é apresentada como escolha empresarial e política; é atribuída à corrupção moral de grupos que supostamente impedem o país de prosperar.
Gustave Le Bon, lido criticamente, descreveu como a multidão pode operar por contágio, imagens e afirmações repetidas, em vez de deliberação racional. O fascismo soube explorar essa dinâmica e as plataformas digitais lhe deram uma infraestrutura cotidiana. Não é que milhões de pessoas tenham sido hipnotizadas por um comando externo: elas são convocadas a encontrar no ódio uma explicação simples para experiências reais de humilhação e insegurança. O trabalhador endividado, submetido a jornadas extensas e à ameaça de descarte, recebe uma narrativa que lhe oferece dignidade imaginária: ele não é explorado, dizem-lhe; é um cidadão honesto atacado por inimigos poderosos e degenerados.
A mentira, nesse processo, não é apenas erro informacional que uma checagem bastaria corrigir. Ela se torna prova de pertencimento. Repetir uma falsidade contra a imprensa, a universidade, a ciência ou as urnas demonstra fidelidade ao grupo. Debord ajuda a entender o mecanismo: na sociedade do espetáculo, a relação social mediada por imagens ganha autonomia diante da experiência vivida. A cena viral de um líder afrontando instituições pode valer mais, para sua base, do que a verificação de seus efeitos sobre salário, comida, saúde ou moradia. A política se torna consumo de signos de força.
O caso brasileiro não cabe na caricatura do golpe instantâneo
O bolsonarismo tornou visível essa operação no Brasil. Não foi uma cópia mecânica dos fascismos europeus nem precisou, para se afirmar, instalar de imediato um regime de partido único. Sua força residiu justamente em circular por dentro da democracia enquanto corroía suas condições: desacreditou eleições quando não lhe serviam, tratou adversários como inimigos nacionais, naturalizou a violência policial, exaltou armas como solução social e converteu a memória da ditadura militar em objeto de celebração. A tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 não surgiu do nada; foi o ponto extremo de uma longa pedagogia de deslegitimação da vontade popular.
Chamar esse movimento de fascista ou neofascista não significa recusar análise em favor do insulto. Significa observar uma política que cria uma massa identificada com um chefe, transforma instituições em alvos de suspeita permanente e oferece repressão como resposta à crise social. Também significa notar quem se beneficia quando o debate público é reduzido a pânico moral. Enquanto multidões são mobilizadas contra uma suposta ameaça comunista difusa, seguem intocados os mecanismos que rebaixam salários, terceirizam serviços, privatizam bens públicos e fazem do trabalhador um empreendedor de si mesmo sem capital, sem garantia e sem tempo.
O professor da escola pública fornece um exemplo concreto. Ele pode enfrentar salas superlotadas, salário comprimido, infraestrutura insuficiente e pressão burocrática por desempenho. Nada disso é resolvido quando campanhas o transformam em inimigo ideológico. Ao contrário: a perseguição desloca a responsabilidade dos governos e das elites econômicas para quem está na ponta do serviço. A escola deixa de ser espaço de elaboração crítica e passa a ser vigiada como foco de ameaça. O fascismo não precisa fechar todas as escolas para atacar o pensamento; basta produzir medo suficiente para que docentes se autocensurem e famílias confundam educação com submissão.
O fascismo prospera quando a exploração consegue vestir a roupa da moralidade e quando a violência contra os vulneráveis passa a parecer defesa da ordem.
A técnica não inventa o fascismo, mas pode ampliar sua disciplina
Heidegger advertiu que a técnica moderna não é só um conjunto neutro de ferramentas: ela enquadra o real como reserva disponível para cálculo e uso. Nas plataformas, essa lógica encontra o trabalho já precarizado. O entregador é convertido em dado, rota, nota e tempo de entrega; pode ser punido por um sistema que não explica seus critérios. Quando a vida social é organizada por esse tipo de cálculo, fica mais fácil aceitar que pessoas sejam tratadas como excedentes, riscos ou ameaças a remover.
Não há uma linha automática que vá do algoritmo ao fascismo. A tecnologia pode servir à organização coletiva, à informação e à denúncia. Mas, sob o capitalismo de plataformas, ela concentra poder de vigilância e oferece canais perfeitos para o contágio de ressentimentos. A extrema direita aprendeu a usar essa infraestrutura sem abandonar sua velha operação: fabricar inimigos, reduzir problemas complexos a slogans e converter frustração social em agressão horizontal. A tela não substitui a luta de classes; ela pode ocultá-la, acelerá-la ou reorganizá-la.
Definir fascismo, então, é reconhecer uma política que pede ao explorado que se identifique com quem o explora, desde que possa descarregar sua raiva sobre alguém ainda mais vulnerável. É uma promessa de pertencimento fundada na exclusão e uma promessa de ordem fundada na violência. No Brasil, combater essa forma política exige mais que defender procedimentos institucionais, embora eles sejam indispensáveis. Exige enfrentar as condições materiais que tornam o ódio verossímil: trabalho sem direitos, abandono dos serviços públicos, desigualdade, endividamento e a indústria cultural que transforma sofrimento em espetáculo. Sem solidariedade de classe e organização popular, a democracia continua sendo uma casca que a reação pode ocupar.
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