O conceito de fascismo perde sua força quando é reduzido à imagem de uniformes, saudações e ditadores mortos. Essa redução interessa a quem deseja tratar o fascismo como uma anomalia encerrada no século XX, incapaz de voltar sob formas eleitorais, empresariais, religiosas e digitais. O fascismo não é simplesmente todo autoritarismo, nem um palavrão intercambiável para qualquer governo de direita. É uma forma específica de reação política: em momentos de crise social, setores das classes dominantes e das classes médias em pânico autorizam uma mobilização de massa contra a igualdade, contra as organizações populares e contra a própria possibilidade de conflito democrático. Sua promessa é restaurar uma ordem imaginária; seu trabalho real é proteger hierarquias de classe, raça, gênero e propriedade.

No Brasil, o bolsonarismo ofereceu uma demonstração brutal dessa dinâmica. Não precisou abolir imediatamente as eleições para corroer a democracia. Bastou transformar a eleição em suspeita permanente, chamar adversários de inimigos internos, apresentar instituições como obstáculos à vontade de um povo supostamente homogêneo e cultivar a violência como linguagem política legítima. Enquanto isso, a destruição de direitos trabalhistas, a austeridade e a precarização seguiam sendo vendidas como liberdade. O fascismo, aqui, não aparece apesar do neoliberalismo: aparece como sua guarda emocional e social quando a desigualdade produz medo demais para ser administrada apenas por discursos técnicos.

O conceito de fascismo começa pela crise, não pela caricatura

Marx observou que os homens fazem sua história, mas não a fazem em circunstâncias escolhidas por eles. O fascismo nasce precisamente de circunstâncias em que a vida coletiva parece escapar ao controle de milhões: desemprego, endividamento, perda de status, insegurança, transformação acelerada do trabalho e descrédito das instituições. Mas a crise, por si só, não cria fascismo. Ela pode abrir caminhos de solidariedade e organização popular. O fascismo intervém para bloquear essa saída: desloca a origem do sofrimento, que está nas relações de exploração e no poder da propriedade, para bodes expiatórios mais vulneráveis e visíveis.

O trabalhador que passa o dia numa motocicleta, submetido ao algoritmo de um aplicativo e sem garantia de renda, poderia reconhecer que sua exaustão decorre de uma empresa que transfere custos e riscos para ele. O professor desmoralizado por turmas superlotadas e salários comprimidos poderia identificar o abandono deliberado da educação pública. A atendente de call center, cronometrada até nas pausas para ir ao banheiro, poderia enxergar uma disciplina patronal que extrai valor de cada minuto. O discurso fascista trabalha para impedir essas conexões. Em vez da plataforma, culpa-se o entregador “sem esforço”; em vez do corte orçamentário, culpa-se o professor “doutrinador”; em vez da empresa, culpa-se o pobre que acessa um direito social.

Essa operação não elimina a revolta. Ao contrário, organiza-a. A pessoa explorada continua sentindo que algo lhe foi roubado, mas recebe um mapa falso para localizar o ladrão. O alvo passa a ser a esquerda, o movimento social, a universidade, a população negra, as mulheres, os indígenas, os imigrantes ou qualquer grupo convertido em ameaça à nação. A unidade que o fascismo oferece não é a unidade dos que trabalham contra quem se apropria de seu trabalho. É a unidade imaginária dos que obedecem contra aqueles que podem ser eliminados da comunidade política.

Bolsonarismo e a fabricação de um povo contra inimigos internos

O bolsonarismo não foi uma cópia histórica do fascismo italiano ou alemão, e insistir numa cópia perfeita é um método confortável de absolvição. Formas fascistas se adaptam às condições nacionais, às instituições existentes e às tecnologias disponíveis. No caso brasileiro, elas se articularam ao legado escravista, à militarização da vida social, ao poder das igrejas conservadoras, ao agronegócio e à comunicação por plataformas. A figura de Jair Bolsonaro condensou essa política ao fazer da nostalgia da ditadura, da exaltação das armas e da humilhação de minorias uma credencial de autenticidade popular.

O elemento decisivo não era apenas a agressividade verbal de um líder, mas a criação cotidiana de uma multidão convencida de que sua violência era defensiva. Gustave Le Bon, lido criticamente, ajuda a perceber que multidões não são irracionais por natureza; elas podem ser produzidas por símbolos, repetição e contágio afetivo. As redes bolsonaristas converteram mentira em pertencimento. Cada desinformação sobre urnas, vacinas ou conspirações comunistas não procurava somente convencer por evidência. Procurava testar a fidelidade do grupo: aderir ao absurdo demonstrava que a identidade coletiva valia mais que os fatos e que qualquer mediação institucional.

Debord descreveu uma sociedade em que a relação direta entre pessoas é mediada por imagens. No bolsonarismo de plataforma, a política virou fluxo incessante de cenas indignadas: um vídeo recortado, uma ameaça teatral, uma notícia falsa, uma invasão apresentada como heroísmo. A imagem não substituiu apenas a reflexão; substituiu a experiência comum de classe por uma guerra de identidades administrada por perfis, canais e empresários da atenção. O trabalhador precarizado, em vez de se reconhecer em outro trabalhador, era convocado a vigiar professores, atacar jornalistas e celebrar bilionários como se o patrimônio deles fosse prova de mérito nacional.

O fascismo não precisa prometer pão para todos. Ele promete que alguém sofrerá antes de você, e chama essa vingança de ordem.

Quando a liberdade de mercado pede um Estado violento

Há uma falsidade recorrente na ideia de que fascismo e liberalismo econômico são opostos necessários. O fascismo pode hostilizar certas elites políticas, atacar a imprensa e desprezar normas jurídicas, mas não representa automaticamente uma rebelião contra o capital. Em contextos de ameaça à ordem proprietária, ele pode ser funcional à classe dominante: desmonta sindicatos, criminaliza movimentos sociais, naturaliza a repressão e torna a sobrevivência individual uma guerra de todos contra todos. A retórica contra “o sistema” preserva o sistema onde importa: no comando privado sobre o trabalho e a riqueza.

Alysson Mascaro insiste que o Estado não está fora das relações sociais, como árbitro neutro que eventualmente falha. Ele é uma forma política vinculada à reprodução do capitalismo. Isso permite entender por que o autoritarismo brasileiro não depende apenas de militares saudosos de quartel. Ele encontra apoio em parcelas do empresariado que desejam trabalhadores sem proteção, em agentes estatais que confundem punição com justiça e em setores médios aterrorizados com a perda de seus privilégios. A violência seletiva não é um desvio acidental: é o recurso que resta quando a desigualdade precisa ser mantida contra qualquer demanda de democratização real.

O entregador chamado de “empreendedor” é um retrato preciso dessa conciliação. A plataforma o celebra como livre porque ele escolhe quando se conectar, mas controla o valor das corridas, os critérios de bloqueio, a distribuição de pedidos e a avaliação que pode expulsá-lo do trabalho. Quando ele reivindica direitos, aparecem os defensores da liberdade para dizer que a regulamentação destruiria sua autonomia. É a liberdade abstrata do mercado exigindo que alguém suporte sozinho todos os riscos. A política fascistizante acrescenta a essa exploração uma pedagogia do desprezo: se ele fracassa, a culpa é individual; se protesta, é manipulado; se organiza colegas, é inimigo da economia.

Reconhecer o fascismo é recusar sua normalização

Chamar o bolsonarismo de fenômeno fascista ou neofascista não significa declarar que toda pessoa que votou em Bolsonaro é fascista nem substituir análise por xingamento. Significa identificar uma força política que mobilizou ressentimento, culto ao chefe, fantasia de purificação nacional, desprezo pelas mediações democráticas e autorização para a violência contra inimigos inventados. Significa também reconhecer que essa força não desaparece com uma derrota eleitoral. Ela permanece onde a exploração produz desamparo e onde o desamparo é capturado pela mentira organizada.

Heidegger percebeu que a técnica moderna tende a transformar o mundo em reserva disponível, algo calculável e explorável. Sob o capitalismo de plataforma, essa lógica alcança corpos, afetos e opiniões: cada trajeto, pausa, clique e medo pode ser convertido em dado, lucro ou instrumento de comando. O fascismo contemporâneo não é apenas o grito de uma massa numa praça. Pode ser a circulação automatizada de ressentimento, impulsionada por sistemas que premiam choque e simplificação, enquanto vendem vigilância como conveniência.

Combater essa política requer mais que defender formalmente as instituições atacadas por ela. Requer tornar visível a estrutura que alimenta seu apelo: trabalho sem direitos, cidades segregadas, serviços públicos deteriorados, humilhação cotidiana e concentração obscena de riqueza. Onde a vida é reduzida à competição solitária, o inimigo fabricado encontra terreno fértil. A resposta antifascista consequente não é pedir civilidade a quem organiza a barbárie. É reconstruir vínculos de classe, ampliar direitos e retirar do fascismo sua matéria-prima: o medo que o capital produz e a extrema direita administra.