O que é socialismo não se responde repetindo definições de enciclopédia ou a caricatura de que se trata de um Estado que controla tudo. A pergunta ganha outra densidade quando observamos um entregador de aplicativo pedalando por horas, submetido a um sistema que define tarifas, distribui pedidos, calcula seu desempenho e pode bloqueá-lo sem uma conversa com qualquer superior. Ele aparece como empreendedor, mas não controla o preço do serviço, a plataforma, os dados, o algoritmo ou as condições de sua jornada. O socialismo começa como crítica a essa inversão: quem produz não decide, enquanto quem controla a propriedade apropria-se dos resultados.
O que é socialismo diante da promessa de autonomia
A ideologia capitalista apresenta a relação de trabalho como uma troca entre indivíduos livres. De um lado, estaria o trabalhador com sua capacidade e seu esforço; de outro, a empresa com seu capital e sua organização. A aparência jurídica é de igualdade, mas a realidade material é assimétrica: quem não possui os meios de produzir precisa vender sua força de trabalho para sobreviver. No caso do entregador, a bicicleta pode ser sua, mas o mercado que transforma seus deslocamentos em renda é organizado por uma empresa proprietária da plataforma e dos dados.
Marx chamou de alienação o processo pelo qual o trabalhador perde o controle sobre o produto, os meios, o ritmo e o sentido de sua própria atividade. A tecnologia não elimina essa relação. Sob o comando do capital, ela pode aprofundá-la. O aplicativo parece oferecer liberdade porque dispensa um chefe visível, mas substitui a ordem direta por notificações, metas, avaliações, mapas e variações opacas de remuneração. O controle deixa de ter rosto sem deixar de existir. A autonomia prometida ao trabalhador converte-se em responsabilidade individual por riscos que são sociais: acidente, doença, queda de demanda, manutenção do equipamento e tempo não remunerado.
O socialismo, nesse recorte, não é a distribuição de prêmios aos indivíduos mais esforçados. É a transformação das relações que fazem alguns dependerem da venda de sua força de trabalho enquanto outros controlam as condições de produção. Seu núcleo não está em uma administração mais eficiente da pobreza, mas na socialização dos meios de produzir a riqueza. Isso significa disputar a propriedade das plataformas, o destino dos dados, os critérios de organização do trabalho e a divisão do excedente produzido coletivamente.
Do aplicativo à mais-valia
A mais-valia não desaparece porque a empresa se apresenta como plataforma digital. Ela continua sendo a diferença entre o valor produzido pelo trabalho e o que retorna ao trabalhador sob a forma de remuneração. A inovação está no modo de organizar e ocultar essa apropriação. A empresa pode afirmar que apenas conecta restaurantes, consumidores e entregadores, mas essa conexão exige infraestrutura, programação, publicidade, coleta de dados, gestão logística e, sobretudo, trabalho humano. A palavra plataforma funciona muitas vezes como uma cortina: transforma uma relação de exploração em serviço neutro de intermediação.
O entregador arca com parte significativa dos custos e, ainda assim, não se torna proprietário do negócio. A linguagem do empreendedorismo desloca para ele a culpa por uma renda insuficiente. Se trabalha pouco, é acusado de falta de ambição; se trabalha muito, sua exaustão aparece como escolha pessoal. Essa ideologia não é um simples erro de consciência. Ela é produzida por uma organização social em que a insegurança é normalizada e a propriedade privada dos meios de produção é tratada como fato natural.
A mesma lógica atravessa outros trabalhos. O professor submetido a metas e plataformas educacionais pode ser avaliado por indicadores que ignoram a realidade da sala de aula. No call center, a voz do trabalhador é cronometrada, gravada e convertida em índice de produtividade. Em ambos os casos, a técnica aparece como instrumento de precisão, mas serve também para intensificar o trabalho e reduzir a margem de decisão de quem o executa. O socialismo não propõe trocar um aplicativo privado por um aplicativo estatal mantendo a mesma submissão. A questão é quem define os objetivos, quem controla os recursos e quem participa das decisões.
Socialismo não é Estado forte por definição
Uma das confusões mais úteis ao conservadorismo é identificar socialismo com qualquer expansão do Estado ou com uma versão autoritária de administração pública. O Estado pode regular o capital, garantir direitos e limitar abusos; também pode proteger a propriedade, reprimir greves e assegurar as condições gerais da exploração. Como mostra Alysson Mascaro, o Estado moderno não é um árbitro exterior às classes: sua forma jurídica universaliza indivíduos formalmente iguais, mas organiza uma sociedade fundada na circulação de mercadorias e na propriedade privada.
Por isso, defender políticas públicas não equivale automaticamente a defender o socialismo. Um subsídio que alivie a fome é indispensável para quem está com fome, mas não altera necessariamente a propriedade dos meios de produção. Uma regulamentação dos aplicativos pode reduzir abusos e reconhecer direitos, mas não elimina por si só o poder econômico de quem controla a plataforma. A luta socialista pode incluir reformas concretas, desde que não confunda a proteção imediata dos trabalhadores com a superação da relação que produz sua dependência.
Também não basta trocar proprietários privados por uma burocracia que decide tudo sem participação popular. A socialização não é simples estatização. Ela exige formas democráticas de controle sobre a produção e a distribuição, com trabalhadores organizados e usuários envolvidos nas decisões que afetam suas vidas. O conteúdo socialista está na democratização efetiva do poder econômico, não no tamanho abstrato do aparelho estatal.
A guerra cultural contra uma palavra inconveniente
No Brasil, a palavra socialismo é mobilizada pela extrema direita como ameaça imaginária. O bolsonarismo a associa a censura, miséria, perseguição religiosa e destruição da família, enquanto trata o mercado como sinônimo de liberdade. Essa operação não pretende explicar o socialismo; pretende impedir que se nomeie a violência presente no capitalismo. Quando um trabalhador perde a renda, a explicação oficial costuma apontar sua incapacidade individual. Quando uma empresa lucra com seu trabalho, o lucro é apresentado como recompensa natural ao mérito.
Guy Debord ajuda a compreender esse mecanismo ao mostrar que, na sociedade do espetáculo, as relações sociais aparecem mediadas por imagens. O entregador não é apresentado como trabalhador precarizado, mas como empreendedor dinâmico. A plataforma não aparece como proprietária de uma estrutura de comando, mas como inovação. A desigualdade não se mostra como relação de classe, e sim como diferença de desempenho. A imagem substitui o conflito real por uma narrativa confortável para quem já controla os meios de produção.
A crítica socialista rompe essa encenação ao recolocar a pergunta sobre o poder. Quem possui a tecnologia? Quem define o preço? Quem absorve o risco? Quem pode interromper a atividade sem perder o sustento? Essas perguntas são mais importantes do que saber se determinado serviço é moderno, digital ou conveniente. Uma sociedade não se torna livre porque usa ferramentas sofisticadas; ela se torna menos alienada quando as pessoas podem decidir coletivamente sobre as condições de sua existência.
O socialismo como problema de poder
Socialismo é o nome de uma disputa pela propriedade, pelo tempo e pela finalidade da produção. Não significa apenas distribuir melhor a renda depois que a riqueza já foi concentrada. Significa intervir no processo que concentra riqueza: retirar dos proprietários privados o comando sobre os meios de produção e submetê-los a uma organização social consciente, democrática e voltada às necessidades humanas.
O entregador que reivindica remuneração digna, proteção contra acidentes e transparência do algoritmo já enfrenta uma dimensão dessa estrutura, ainda que sua luta não se declare socialista. A reivindicação imediata pode ser incorporada pelo sistema, mas também pode abrir a compreensão de que nenhum trabalhador controla individualmente uma plataforma global. A solidariedade entre entregadores, professores, operadores de telemarketing e demais trabalhadores desloca o problema da culpa individual para a organização coletiva.
É nesse sentido que a pergunta permanece atual. O socialismo não é uma nostalgia de modelos prontos nem uma palavra que o mercado possa neutralizar como slogan. É a exigência de que a riqueza produzida socialmente deixe de ser comandada por uma minoria proprietária. Enquanto o trabalho for organizado para ampliar o poder de quem possui capital, a promessa de liberdade será apenas a forma ideológica da dependência.
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