O que quer dizer alienada? A resposta mais comum reduz a palavra a alguém desinformado, distraído ou incapaz de perceber o que acontece ao seu redor. Essa definição não é exatamente falsa, mas é pobre. Ela transforma um problema social em defeito psicológico e deixa intacta a engrenagem que produz a alienação. Uma pessoa pode acompanhar notícias, conhecer as próprias dificuldades e ainda assim estar alienada da força social que determina sua vida. O entregador que aceita jornadas cada vez mais longas para pagar as contas, mas interpreta sua exaustão como falta de disciplina, não está simplesmente mal informado. Ele está diante de uma relação social que aparece para ele como destino individual.
Na crítica marxista, alienação não designa uma falha moral nem uma deficiência intelectual. Designa uma separação: aquilo que os seres humanos produzem, organizam e sustentam passa a enfrentá-los como uma força externa, autônoma e hostil. O trabalho, que poderia ser uma atividade consciente e coletiva, aparece como meio obrigatório de sobrevivência. O produto do trabalho pertence a outro. O tempo de vida é vendido sob condições definidas pelo capital. A própria capacidade de agir em conjunto é dissolvida em concorrência entre indivíduos. A alienação, nesse sentido, não está apenas na cabeça de quem trabalha. Ela está na forma como a sociedade capitalista organiza a produção e distribui o poder.
O que quer dizer alienada além da acusação de ignorância
Chamar alguém de alienada costuma funcionar como uma acusação confortável. O termo é usado contra a pessoa que vota em um político autoritário, compartilha uma mentira ou aceita uma situação injusta. Há casos em que a crítica à desinformação é necessária, especialmente quando o bolsonarismo converte ressentimento social em adesão a soluções autoritárias. Mas parar nessa acusação significa tratar o indivíduo como origem do problema. A pergunta marxista é mais incômoda: que relações fazem determinadas ideias parecerem razoáveis? Que instituições, tecnologias e formas de trabalho limitam o horizonte do que pode ser imaginado?
A alienação não significa que o sujeito tenha perdido completamente a consciência. Um trabalhador pode saber que recebe pouco, reconhecer a exploração e ainda acreditar que a saída depende apenas de se esforçar mais. Pode denunciar a empresa e, ao mesmo tempo, sentir vergonha por não conseguir cumprir a meta. Pode criticar o aplicativo e continuar aceitando seus comandos porque não possui outra fonte de renda. A contradição não prova irracionalidade individual. Ela mostra a força material da dependência. A consciência é formada dentro de relações que não escolhemos livremente, e a necessidade de sobreviver costuma ser mais imediata do que a possibilidade de transformar essas relações.
É por isso que a alienação não se confunde com simples desconhecimento. O alienado não é necessariamente quem não sabe. Muitas vezes é quem sabe apenas a aparência imediata do processo, sem conseguir reconhecer a totalidade social que o produz. O entregador sabe que o aplicativo define sua rota, sua remuneração e sua avaliação. O que permanece oculto é a relação de poder que permite a uma empresa controlar sua atividade sem reconhecê-lo plenamente como trabalhador. A plataforma se apresenta como intermediária neutra entre consumidor e prestador, embora organize preços, prazos, punições e disponibilidade. A aparência de autonomia encobre uma subordinação tecnologicamente administrada.
O entregador e a liberdade administrada pelo aplicativo
O caso do entregador de aplicativo torna visível uma forma atual de alienação. Ele não recebe uma ordem direta de um chefe que permanece ao seu lado. Recebe notificações, alterações de tarifa, bloqueios, avaliações e incentivos variáveis. Pode escolher quando se conectar, mas essa liberdade é condicionada pela necessidade de trabalhar nos horários em que há maior demanda. Pode recusar uma entrega, mas a recusa pode afetar sua prioridade, sua renda ou sua permanência na plataforma. Pode circular pela cidade, mas o percurso é subordinado à lógica de um algoritmo que ele não conhece e não controla.
Essa organização produz uma imagem ideológica de empreendedor de si mesmo. O trabalhador é apresentado como dono do próprio negócio, embora não controle o preço cobrado do cliente, o modo de distribuição das corridas, os critérios de bloqueio ou a política de remuneração. Ele fornece o veículo, o combustível, o telefone, a conexão, a manutenção e o risco físico. A empresa retém o comando sobre o mercado e sobre os dados da operação. A palavra empreendedorismo transforma a transferência de custos em virtude pessoal. Quanto mais o trabalhador assume despesas e riscos que antes poderiam ser responsabilidade empresarial, mais a plataforma proclama sua independência.
O resultado é uma inversão cruel. A estrutura produz insegurança, mas a insegurança é narrada como oportunidade. O algoritmo reduz o trabalhador a uma combinação de localização, velocidade, taxa de aceitação e avaliação. A pessoa concreta desaparece atrás dos indicadores. Se a renda cai, a explicação oferecida é que faltou estratégia. Se o trabalhador adoece, faltou planejamento. Se sofre um acidente, administrou mal o próprio risco. A alienação aparece quando uma relação coletiva de exploração é vivida como uma sequência de fracassos privados.
O trabalhador não se sente livre porque controla as condições do trabalho; sente-se livre porque a coerção foi deslocada para dentro da necessidade e apresentada como escolha.
O aplicativo é apenas a forma mais visível desse processo. O mesmo mecanismo opera no call center, onde scripts e metas transformam a fala em unidade mensurável; na escola privada, onde professores são avaliados por produtividade, retenção e satisfação do cliente; no comércio, onde vendedores precisam converter cada interação em desempenho; e no escritório, onde sistemas de monitoramento registram presença, tempo de resposta e cumprimento de tarefas. A técnica não elimina a exploração. Ela a torna mais contínua, granular e difícil de localizar. Em vez de um comando único, há uma série de sinais que levam o trabalhador a vigiar a si mesmo.
Quando o produto do trabalho se volta contra quem trabalha
Marx analisou a alienação a partir do trabalho assalariado porque, sob o capitalismo, a atividade produtiva deixa de pertencer ao trabalhador. O trabalhador vende sua força de trabalho por determinado período, mas aquilo que produz e a finalidade da produção são apropriados pelo capital. O produto aparece como propriedade de outro e como poder que retorna sobre quem o criou. A mercadoria, o lucro e a empresa parecem existir por conta própria, embora dependam de trabalho humano.
Na economia de plataforma, essa separação assume uma forma digital. Cada entrega realizada alimenta mapas, padrões de demanda, perfis de consumo e sistemas de previsão. Cada corrida ajuda a aperfeiçoar a capacidade da empresa de organizar a próxima corrida. Cada avaliação produz informação que pode ser usada para classificar e disciplinar trabalhadores. O entregador participa da construção de uma infraestrutura valiosa, mas não controla os dados que gera nem recebe poder sobre a plataforma. Seu trabalho não produz somente a entrega ao consumidor. Produz também o conhecimento operacional que torna o negócio mais eficiente e mais capaz de controlar a força de trabalho.
Essa riqueza social aparece como propriedade privada da empresa. O trabalhador vê a tela, a rota e o valor imediato da corrida, mas não vê o conjunto de informações e decisões que se acumula acima dele. A cooperação entre milhares de trabalhadores é capturada por uma estrutura centralizada que se apresenta como simples tecnologia. O que foi produzido socialmente aparece como inteligência da plataforma. O poder coletivo dos trabalhadores é convertido em patrimônio, vantagem competitiva e mecanismo de vigilância.
A alienação atinge também a relação do trabalhador consigo mesmo. A atividade que ocupa a maior parte de seu dia não é reconhecida como realização de capacidades humanas, mas como algo que precisa ser suportado para garantir o aluguel, a comida e as contas. O corpo vira instrumento de renda. A atenção vira recurso da empresa. O descanso aparece como perda de oportunidade. O tempo livre é invadido pela preocupação com a próxima jornada. Quando a vida inteira é organizada pela necessidade de permanecer disponível, a pessoa passa a administrar a si própria como uma pequena empresa submetida a um mercado que não controla.
A ideologia da culpa individual
A alienação se fortalece por meio de ideias que fazem a ordem existente parecer natural. A meritocracia é uma dessas ideias. Ela afirma que posições sociais resultam principalmente de esforço, talento e disciplina. Com isso, desigualdades produzidas por propriedade, classe, raça, gênero, território e acesso a direitos são traduzidas em diferenças de mérito. O trabalhador que não alcança estabilidade é convidado a procurar sua deficiência pessoal, não a examinar a estrutura que concentra riqueza e poder.
Essa ideologia não precisa convencer todos de que o sistema é justo. Basta fazê-los acreditar que não existe alternativa prática. Um entregador pode saber que a plataforma fica com uma parcela maior do valor da operação e ainda concluir que só lhe resta trabalhar mais horas. Um professor pode reconhecer a precarização da escola e sentir que precisa compensá-la com sacrifício pessoal. Uma trabalhadora de call center pode sofrer com metas abusivas e imaginar que sua única saída é melhorar a própria performance. A alienação não é a ausência de sofrimento. É a transformação do sofrimento social em tarefa privada de adaptação.
A linguagem empresarial dá forma cotidiana a essa adaptação. Fala-se em resiliência quando se espera que o trabalhador suporte a precariedade sem reclamar; em flexibilidade quando direitos são retirados; em autonomia quando o comando é pulverizado; em oportunidade quando o risco é transferido para o indivíduo. As palavras não são neutras. Elas organizam a percepção do real. Ao chamar empregado de parceiro, a empresa não muda necessariamente a relação material, mas tenta mudar o modo como ela é interpretada. O trabalhador passa a ser cobrado para agir como proprietário sem possuir propriedade, assumir riscos sem decidir os rumos do negócio e aceitar metas sem participar da definição do trabalho.
Guy Debord mostrou que o espetáculo não é simplesmente um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. Essa formulação ajuda a entender por que a alienação contemporânea não se limita ao local de trabalho. A vida é apresentada como vitrine de sucesso, consumo e desempenho. Redes sociais exibem ganhos extraordinários, rotinas produtivas e narrativas de superação. A exceção é mostrada como regra, enquanto a exploração cotidiana permanece fora do enquadramento. O trabalhador compara sua vida real com imagens cuidadosamente selecionadas e conclui que seu fracasso é exclusivamente seu. A representação espetacular da liberdade contribui para ocultar a dependência material.
Alienação, bolsonarismo e a fabricação do inimigo
O bolsonarismo explorou essa subjetividade ferida. Em vez de oferecer uma explicação para o desemprego, a precarização e a perda de direitos, apresentou inimigos culturais, instituições públicas, professores, jornalistas, partidos de esquerda e minorias como responsáveis pela frustração social. A desorganização produzida pelo capitalismo foi recodificada como guerra moral. A raiva real encontrou um alvo deslocado.
Isso não quer dizer que todo eleitor bolsonarista seja um fantoche sem consciência. A política autoritária se apoia em experiências concretas de insegurança, ressentimento e abandono. O problema é que ela reorganiza essas experiências por meio de uma narrativa que protege os interesses econômicos responsáveis pela precarização. O trabalhador indignado com a perda de renda pode ser levado a culpar políticas de proteção social. O pequeno comerciante pressionado por bancos e grandes plataformas pode culpar direitos trabalhistas. A pessoa submetida à concorrência permanente pode enxergar o vizinho como ameaça, não como parte de uma classe submetida à mesma estrutura.
Le Bon, ao estudar a psicologia das multidões, observou como afetos coletivos podem ser mobilizados por imagens simples, símbolos e afirmações repetidas. A crítica marxista permite ir além da psicologia da multidão e perguntar quem organiza essa mobilização, quais interesses ela serve e quais condições sociais a tornam possível. A desinformação não flutua acima da sociedade. Ela encontra terreno em uma população submetida à insegurança, com pouco tempo para verificar informações e dependente de plataformas que lucram com a circulação de conflito. A alienação política é inseparável da alienação econômica.
Quando a exploração é percebida apenas como derrota individual, a solidariedade perde espaço. Cada trabalhador é induzido a competir por uma corrida, uma vaga, uma avaliação positiva ou uma parcela mínima de renda. A política deixa de aparecer como ação coletiva sobre as condições de vida e passa a ser consumo de opiniões, indignação instantânea e disputa de identidades. O espetáculo transforma a própria revolta em conteúdo. A pessoa pode passar horas denunciando a injustiça na internet e continuar isolada no trabalho, sem vínculo com os demais que vivem a mesma situação.
Como a alienação pode ser rompida
Dizer que a alienação é produzida socialmente não significa negar a capacidade de resistência. Significa localizar a resistência onde ela pode se tornar efetiva. A crítica não consiste em pedir ao indivíduo que enxergue melhor enquanto permanece sozinho diante de forças que o dominam. Consiste em reconstruir relações coletivas capazes de transformar conhecimento disperso em poder organizado.
Quando entregadores se reúnem para reivindicar melhores condições, interromper atividades ou denunciar bloqueios arbitrários, a experiência individual começa a adquirir nome comum. A entrega que parecia problema de cada trabalhador revela uma forma compartilhada de exploração. Quando professores discutem coletivamente metas e condições de trabalho, a culpa por não dar conta de tudo deixa de ser uma falha privada. Quando trabalhadores de call center reconhecem que o adoecimento não é incapacidade pessoal, mas efeito de metas e vigilância, abre-se a possibilidade de reivindicar mudanças que nenhum treinamento motivacional produzirá.
Essa passagem do eu isolado ao nós organizado não acontece automaticamente. O capital também produz fragmentação, competição e medo. Plataformas podem identificar lideranças, alterar incentivos e bloquear trabalhadores. Empresas podem transformar reuniões em mecanismos de controle. O Estado pode reconhecer formalmente direitos sem garantir sua aplicação. Ainda assim, a existência de obstáculos não elimina a necessidade da organização. Apenas mostra que a emancipação exige enfrentar simultaneamente a empresa, a ideologia e as instituições que estabilizam a relação de exploração.
Heidegger compreendeu que a técnica moderna não deve ser vista apenas como um conjunto de ferramentas neutras. Ela enquadra o mundo como reserva disponível, algo a ser calculado, armazenado e mobilizado. No trabalho plataformizado, esse enquadramento atinge pessoas: o entregador é uma unidade de disponibilidade, o cliente é um conjunto de dados, o trajeto é uma variável de eficiência. Superar a alienação tecnológica não significa rejeitar toda tecnologia, mas disputar sua finalidade, seu controle e sua propriedade. Uma ferramenta submetida às necessidades coletivas é diferente de uma infraestrutura privada orientada pelo lucro.
O mesmo vale para o direito e o Estado. Como aponta Alysson Mascaro, o Estado moderno não é um árbitro exterior às relações capitalistas. Sua forma jurídica reconhece sujeitos formalmente livres e iguais, mas essa igualdade pode coexistir com a desigualdade material entre quem possui os meios de produção e quem precisa vender sua força de trabalho. O entregador pode assinar termos de uso e ser juridicamente apresentado como parceiro autônomo, embora sua margem real de decisão seja estreita. A linguagem contratual individualiza uma relação que é, na prática, estrutural e coletiva.
Entender o que quer dizer alienada exige, então, abandonar a vontade de corrigir pessoas consideradas ignorantes. A questão não é distribuir sermões sobre consciência, como se bastasse explicar a realidade para que todos se libertassem imediatamente. É compreender como trabalho, tecnologia, propriedade, Estado, mídia e ideologia produzem sujeitos que participam da própria submissão sem terem criado as condições que os submetem.
Uma pessoa alienada não é um ser inferior nem um indivíduo vazio. É alguém cuja potência social aparece separada de si e convertida em força de outros. O trabalhador constrói a plataforma, mas não a governa. Produz riqueza, mas vive sob escassez. Sustenta serviços indispensáveis, mas é tratado como custo descartável. Participa de uma sociedade altamente cooperativa, mas é levado a imaginar que só pode sobreviver competindo sozinho. A ruptura começa quando essa contradição deixa de ser experimentada como culpa privada e passa a ser reconhecida como problema de classe.
O sentido crítico de alienada não está em apontar o dedo para quem foi enganado. Está em revelar a sociedade que precisa produzir sujeitos separados do poder que eles mesmos criam. Enquanto o entregador enxergar a própria exaustão como falta de mérito, a plataforma continuará parecendo uma oportunidade. Enquanto o professor interpretar o colapso das condições de ensino como insuficiência pessoal, a gestão continuará chamando exploração de compromisso. Enquanto a classe trabalhadora for levada a disputar entre si os restos de uma riqueza que produz coletivamente, a alienação continuará funcionando como uma forma silenciosa de governo.
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