Há uma maneira confortável de falar em pessoas alienadas: apontar para o indivíduo que acredita em uma mentira, aceita um trabalho degradante ou repete opiniões prontas e concluir que lhe falta inteligência, informação ou vontade própria. Essa explicação parece crítica, mas frequentemente apenas troca a análise social por um insulto. Ela transforma a alienação em defeito psicológico de quem está embaixo e deixa intactas as relações que fabricam impotência, dependência e obediência.
O problema não é que algumas pessoas tenham perdido, por acidente, uma consciência que outras preservaram intacta. A alienação é produzida por formas concretas de vida. Ela aparece quando o trabalhador não controla o que produz, quando a política é reduzida a imagens e inimigos, quando a tecnologia administra escolhas sem se apresentar como autoridade e quando a própria sobrevivência exige que cada indivíduo se comporte como uma pequena empresa. O entregador submetido ao aplicativo e o militante bolsonarista que acampa diante de um quartel parecem ocupar mundos opostos. Ainda assim, ambos podem estar submetidos a uma realidade que lhes aparece como força externa, inevitável e incompreensível.
A alienação não é uma falha individual
Em Marx, a alienação não designa simplesmente ignorância. Ela descreve uma relação social na qual a atividade humana se separa de quem a realiza e passa a confrontá-lo como poder estranho. No trabalho assalariado, o trabalhador produz mercadorias, riqueza e condições de reprodução da sociedade, mas não decide o destino do que produz nem controla o processo produtivo. Sua própria capacidade de trabalhar aparece como mercadoria. O tempo de vida é vendido para que o capital se valorize, e o resultado dessa atividade retorna como comando, cobrança, desemprego ou ameaça de substituição.
Essa relação não fica confinada ao local de trabalho. Ela alcança a maneira como as pessoas percebem a si mesmas e aos outros. Se o trabalhador precisa tratar sua força de trabalho como um produto vendável, também passa a medir a própria existência segundo critérios de desempenho, empregabilidade e rentabilidade. O fracasso de uma relação laboral é convertido em fracasso pessoal. A demissão vira insuficiência de esforço; a pobreza, deficiência de planejamento; a exaustão, incapacidade de administrar o tempo. A exploração desaparece atrás da linguagem da escolha.
Chamar alguém de alienado, nesse contexto, como se ele fosse simplesmente menos consciente que o observador, é reproduzir a mesma inversão. A pessoa é responsabilizada por uma condição que não criou. A crítica deixa de perguntar quem organiza o trabalho, quem controla os meios de comunicação, quem define os critérios tecnológicos e quem se apropria dos resultados. Em seu lugar, surge a superioridade moral de quem se imagina desperto.
As pessoas alienadas não são uma categoria natural da população. São sujeitos formados por instituições, mercados, aparelhos ideológicos, jornadas de trabalho, discursos políticos e infraestruturas técnicas. A alienação pode assumir a forma da aceitação resignada, da revolta capturada por um líder, do consumo compulsivo ou da crença de que cada problema coletivo deve ser resolvido individualmente.
O entregador e a liberdade administrada pelo aplicativo
O entregador de aplicativo oferece um retrato preciso dessa contradição. Ele não recebe uma ordem direta de um supervisor em uma sala, mas trabalha sob um sistema que distribui chamadas, calcula rotas, define prazos, registra recusas e produz avaliações. A plataforma apresenta essa relação como autonomia: o trabalhador escolheria quando conectar-se, quais corridas aceitar e quanto deseja ganhar. Porém, essa liberdade é limitada pela necessidade de permanecer disponível, pela variação opaca dos valores pagos e pelo risco de perder acesso às entregas.
O algoritmo não precisa dizer permanentemente faça isso ou faça aquilo. Basta organizar o ambiente em que as escolhas ocorrem. Uma corrida mal remunerada pode ser aceita porque a recusa ameaça a avaliação; uma jornada pode se estender porque o rendimento esperado não foi alcançado; uma pausa pode ser adiada porque o aluguel, a alimentação e a manutenção da motocicleta não esperam. A coerção não desaparece quando deixa de usar o tom de voz de um chefe. Ela é incorporada ao cálculo cotidiano.
Nessa situação, o trabalhador pode experimentar a plataforma como uma entidade quase natural. O aplicativo parece saber quais entregas existem, quanto valem e quem merece recebê-las. Suas decisões são apresentadas como resultado técnico, embora envolvam interesses econômicos definidos pela empresa. O entregador não enxerga necessariamente as relações de propriedade, os contratos, as margens de lucro e a transferência de riscos que sustentam o serviço. Enxerga uma tela que libera ou bloqueia oportunidades.
Esse é um aspecto decisivo da alienação digital. O trabalhador interage com uma interface, mas a interface condensa uma relação de poder. A linguagem de inovação encobre a velha dependência. A motocicleta, o celular, o combustível e a manutenção ficam com quem trabalha; a plataforma conserva a capacidade de organizar o mercado, intermediar a demanda e extrair valor dos dados. A aparência de empreendedorismo individual torna a exploração mais difícil de nomear.
O mesmo mecanismo aparece no call center, na escola submetida a metas e nas ocupações administradas por indicadores. A atendente precisa seguir um roteiro, controlar o tempo de cada ligação e suportar a vigilância da produtividade. O professor é pressionado por resultados que não consideram as condições concretas de sua turma. O funcionário passa a observar a si mesmo como um fiscal interno. Não é necessário um supervisor em cada gesto quando a meta foi instalada dentro do trabalhador.
O espetáculo transforma sofrimento em opinião
Guy Debord ajuda a compreender por que a alienação contemporânea não se limita à produção. Na sociedade do espetáculo, a experiência social aparece mediada por imagens que não apenas representam a realidade, mas organizam a relação das pessoas com ela. O indivíduo se relaciona com acontecimentos, desejos e conflitos por meio de representações prontas, produzidas e distribuídas em circuitos de mercadoria. A vida vivida perde espaço para a vida exibida, comentada e consumida.
Isso não significa que uma tela hipnotize magicamente uma população. O espetáculo funciona porque encontra sujeitos já submetidos à separação, ao isolamento e à insegurança. Quem não controla o trabalho, não participa das decisões coletivas e não dispõe de tempo para elaborar a própria experiência encontra nas imagens uma forma rápida de orientação. A notícia, o vídeo curto, o influenciador e o grupo de mensagens oferecem uma interpretação imediata para uma realidade que se tornou difícil de compreender.
A política bolsonarista soube explorar esse terreno. O bolsonarismo não se sustenta apenas em mentiras isoladas, nem pode ser reduzido à falta de escolaridade de seus seguidores. Ele constrói uma narrativa na qual o sofrimento social é explicado por inimigos facilmente identificáveis: o comunista, o ministro, o professor, o jornalista, o militante, o pobre que recebe uma política pública. A complexidade da exploração é comprimida em uma sequência de imagens, acusações e ameaças. O indivíduo sem poder sobre sua vida recebe a sensação de que finalmente compreendeu quem o impede de viver.
Os atos de 8 de janeiro de 2023 expuseram de modo brutal essa captura da revolta. Pessoas foram mobilizadas para atacar as sedes dos poderes sob a crença de que uma ação destrutiva defenderia a liberdade. O episódio não deve ser tratado como simples desvario coletivo, mas também não pode ser romantizado como insurgência popular. Tratou-se de uma revolta dirigida contra a democracia por uma liderança autoritária e por uma rede de desinformação que converteu frustrações reais em defesa de um projeto de poder.
Ali, a alienação política aparece em sua forma mais perigosa: a energia social produzida pela insegurança é separada de suas causas materiais e entregue a um comando. A pessoa não deixa de agir; age intensamente. O problema é que sua ação não amplia sua capacidade de decidir sobre a própria vida. Ela atua em favor de forças que a utilizam, enquanto imagina estar recuperando a soberania perdida.
Le Bon e a multidão que não explica tudo
Gustave Le Bon descreveu a multidão como espaço de contágio afetivo, diminuição da responsabilidade individual e sujeição a imagens fortes. Sua psicologia das multidões é marcada por limites conservadores: tende a tratar a massa como irracional e a oposição entre elite e povo como natural. Ainda assim, seu conceito de contágio ajuda a perceber como palavras de ordem, símbolos e medos circulam com velocidade em agrupamentos políticos.
O erro está em usar Le Bon para encerrar a explicação. Dizer que uma multidão foi tomada por hipnose, irracionalidade ou fanatismo não esclarece por que certos discursos encontram adesão em determinado momento. A pergunta material precisa retornar: que inseguranças, perdas e ressentimentos são organizados por aquela linguagem? Quem fornece os canais de circulação? Que instituições lucram com a desorientação? Sem essas perguntas, a multidão vira um objeto exótico e seus participantes aparecem como seres inferiores.
Em grupos bolsonaristas, o contágio não ocorreu no vazio. Ele foi alimentado por experiências de precarização, desconfiança institucional, medo da perda de status e ressentimento contra direitos sociais e políticas de igualdade. Essas experiências não produzem automaticamente fascismo. Podem gerar solidariedade, organização trabalhista e luta democrática. Mas, quando são apropriadas por empresários políticos, igrejas, influenciadores e redes de desinformação, tornam-se matéria-prima de uma mobilização autoritária.
A pessoa alienada não é aquela que simplesmente não sabe. Muitas vezes ela sabe que está sofrendo, percebe que perdeu renda, que o serviço público piorou e que o trabalho se tornou insuportável. O que lhe falta não é necessariamente informação, mas uma forma coletiva de ligar sua experiência às estruturas que a produzem. A ideologia oferece uma ligação falsa, porém emocionalmente eficiente. Ela dá nome ao inimigo e preserva a ordem que causou o sofrimento.
A técnica transforma decisões políticas em destino
Heidegger, ao analisar a técnica moderna, mostrou que ela não deve ser entendida apenas como conjunto de ferramentas neutras. A técnica moderna tende a revelar tudo como recurso disponível: rios, florestas, corpos, tempo e atenção. O ser humano também é tratado como estoque calculável. Essa chave permite compreender por que plataformas digitais não apenas facilitam tarefas. Elas enquadram a realidade segundo disponibilidade, velocidade, desempenho e extração.
Quando o entregador aparece no sistema como unidade de oferta, sua experiência concreta desaparece. Fadiga, risco de acidente, chuva, fome e necessidade de descanso são ruídos diante do tempo estimado de entrega. Quando o professor aparece como índice de rendimento, sua relação pedagógica é reduzida a resultado mensurável. Quando o usuário aparece como conjunto de dados, seus desejos e deslocamentos podem ser convertidos em matéria de previsão e venda.
A técnica também produz uma aparência de inevitabilidade. Se o algoritmo calculou, parece que não houve decisão política. Se a plataforma bloqueou, parece que o sistema apenas identificou um comportamento inadequado. Se uma empresa exige disponibilidade total, parece que o mercado está respondendo a uma necessidade objetiva. A tecnologia desloca escolhas humanas para uma caixa-preta e, com isso, protege relações de poder contra a contestação.
A alienação tecnológica ocorre quando os sujeitos passam a obedecer a mecanismos que eles mesmos poderiam discutir coletivamente, mas que são apresentados como necessários. Não se trata de rejeitar toda técnica ou idealizar um passado sem máquinas. Trata-se de disputar quem decide os fins, quem controla os dados, quem assume os riscos e quem se apropria dos ganhos de produtividade. Uma tecnologia subordinada ao lucro tende a reproduzir a dominação; a mesma capacidade técnica poderia servir a necessidades sociais sob controle democrático.
Estado, direito e a fabricação da impotência
Alysson Mascaro permite deslocar a análise do Estado para além da imagem de um árbitro neutro entre indivíduos. No capitalismo, o Estado garante formas jurídicas e políticas que tornam possível a circulação de mercadorias, a propriedade privada e a exploração do trabalho assalariado. Isso não significa que cada decisão estatal seja diretamente ordenada por um capitalista específico. Significa que a estrutura estatal opera dentro de relações sociais que reproduzem o capital como forma dominante.
Essa mediação ajuda a compreender a situação do trabalhador de aplicativo. A ausência de direitos não resulta apenas da maldade de uma empresa ou da desatenção de um governo. Ela é sustentada por uma forma jurídica que apresenta trabalhadores dependentes como parceiros autônomos e transforma a proteção social em obstáculo à inovação. O direito pode reconhecer conflitos e produzir avanços, mas também organiza a aparência de liberdade contratual onde existe desigualdade material.
A alienação política cresce quando o Estado aparece simultaneamente como todo-poderoso e incapaz. Ele é forte para cobrar, punir e garantir contratos, mas parece fraco para assegurar moradia, saúde, transporte e trabalho digno. Essa contradição alimenta o abandono e a desconfiança. A extrema direita aproveita o ressentimento, promete uma autoridade sem mediações e direciona a raiva contra grupos vulneráveis ou contra instituições democráticas, enquanto preserva os fundamentos econômicos da precariedade.
O discurso autoritário se apresenta como ruptura, mas frequentemente oferece uma restauração da hierarquia. Promete devolver ordem ao trabalhador sem devolver controle sobre o trabalho; promete liberdade ao empreendedor sem questionar a concentração econômica; promete segurança sem enfrentar as causas sociais da violência. A pessoa alienada é convocada a defender uma autoridade que não elimina sua dependência. Apenas troca o nome do comando.
Desalienar é reorganizar a vida coletiva
Não existe saída individual para uma condição produzida socialmente. Ler mais, verificar uma informação ou abandonar uma rede social pode ser útil, mas não basta. A alienação não será dissolvida por uma melhora privada no consumo de conteúdo enquanto o trabalho continuar organizado pela necessidade de vender tempo e enquanto a política for monopolizada por estruturas econômicas e comunicacionais concentradas.
A desalienação começa quando a experiência deixa de ser interpretada como culpa individual e passa a ser elaborada em comum. O entregador que participa de uma paralisação, discute tarifas e reivindica proteção transforma uma corrida isolada em conflito coletivo. O professor que enfrenta metas impossíveis com sua categoria rompe a narrativa de que o fracasso é defeito pessoal. Trabalhadores de call center que compartilham informações sobre metas e adoecimento tornam visível uma exploração que a empresa tenta esconder atrás de indicadores.
Esse movimento não é apenas psicológico. Ele depende de organização, tempo, direitos, sindicatos, associações, partidos e espaços públicos. Depende também de disputar a tecnologia: exigir transparência dos critérios algorítmicos, controle sobre dados, remuneração justa e responsabilidade das plataformas. A técnica não deixa de existir, mas deixa de funcionar como autoridade intocável.
A crítica às pessoas alienadas, quando feita de cima para baixo, é uma forma de narcisismo político. Ela separa os puros dos enganados e esquece que todos vivem sob relações sociais que pressionam, seduzem e disciplinam. A tarefa não é encontrar uma minoria desperta para governar os demais, mas construir condições nas quais os indivíduos possam compreender e transformar coletivamente aquilo que hoje os domina.
O entregador não precisa apenas de uma consciência correta sobre o aplicativo. Precisa de poder para negociar com a plataforma. O cidadão não precisa apenas receber uma checagem de fatos. Precisa de instituições democráticas capazes de disputar a produção da verdade social e de responder às necessidades concretas da maioria. O trabalhador capturado pelo bolsonarismo não será alcançado por desprezo, mas por uma política que enfrente a precarização e retire da extrema direita o monopólio imaginário da revolta.
Pessoas alienadas são produzidas quando a vida coletiva aparece como força externa e quando as próprias criações humanas se voltam contra seus criadores. A resposta não é procurar culpados individuais para uma sociedade doente. É retirar o véu que faz o algoritmo parecer destino, o mercado parecer natureza, o líder parecer salvador e o sofrimento parecer fracasso pessoal. A alienação começa a perder força quando quem apenas obedecia passa a reconhecer que aquilo que o dominava foi construído por relações humanas — e, por isso, pode ser transformado por ação humana organizada.
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