O significado de comunismo não está na caricatura de uma ditadura que confiscaria a escova de dentes de cada indivíduo. Essa imagem, repetida por comentaristas, escolas, igrejas e campanhas eleitorais, cumpre uma função ideológica precisa: transformar a crítica à propriedade privada dos meios de produção em ameaça contra a vida cotidiana. No Brasil, onde um entregador pode trabalhar dez horas por dia e ainda terminar o mês endividado, o comunismo é apresentado como perigo justamente para esconder a violência social já existente.
O significado de comunismo aparece na relação entre trabalho e propriedade
Comunismo, em seu sentido marxista, não é simplesmente um governo forte, uma burocracia estatal ou qualquer experiência histórica que seus adversários desejem colocar sob o mesmo rótulo. É o horizonte de uma sociedade sem classes, na qual os meios de produção deixam de ser propriedade privada de uma minoria e passam a ser organizados coletivamente. A questão decisiva não é quem possui objetos pessoais, mas quem controla a terra, as fábricas, as plataformas, os bancos, os dados e as condições de produzir a riqueza.
Marx não tratou o capital como uma coleção de máquinas ou dinheiro acumulado. Capital é uma relação social: o trabalho de muitos se apresenta como poder autônomo de poucos. O trabalhador vende sua força de trabalho porque não controla os meios necessários para produzir. Em troca, recebe um salário; aquilo que produz acima do valor de sua remuneração é apropriado como mais-valia. A exploração não depende da maldade individual do proprietário. Ela está inscrita na própria estrutura da relação entre capital e trabalho.
É por isso que o entregador de aplicativo constitui um exemplo mais esclarecedor do que qualquer definição de dicionário. Ele pode ser formalmente chamado de autônomo, mas depende da plataforma para encontrar clientes, recebe avaliações, obedece a comandos algorítmicos e suporta os custos da motocicleta, do combustível, da manutenção e da própria doença. A empresa afirma que apenas oferece tecnologia; ao mesmo tempo, controla preços, acesso às corridas e critérios de desempenho. A liberdade prometida pelo empreendedorismo termina quando o trabalhador precisa aceitar qualquer entrega para não perder renda ou pontuação.
O anticomunismo protege uma ordem que já produz insegurança
A propaganda anticomunista costuma apresentar a propriedade privada como sinônimo de liberdade. No entanto, a maioria não decide o que será produzido, em que ritmo, com quais tecnologias ou para qual finalidade. O professor submetido a metas, o funcionário de call center vigiado por tempo de atendimento e a enfermeira exausta por jornadas sucessivas também estão afastados das decisões que organizam sua própria atividade. Existe propriedade privada, mas não existe controle democrático sobre a produção.
Nesse ponto, o comunismo é menos uma promessa abstrata do que uma acusação contra o presente. Ele pergunta por que uma sociedade capaz de produzir alimentos, moradias e tecnologia mantém pessoas sem comida, teto ou tempo livre. Pergunta por que o desenvolvimento técnico reduz o custo de certas operações, mas não reduz necessariamente a jornada nem amplia a autonomia dos trabalhadores. Pergunta quem se beneficia quando uma plataforma automatiza a gestão e transforma cada trabalhador em unidade mensurável de produtividade.
A resposta capitalista costuma converter problemas sociais em falhas individuais. O desempregado deveria se qualificar mais; o endividado deveria administrar melhor suas finanças; o entregador deveria trabalhar com mais estratégia; o professor deveria demonstrar mais resiliência. A meritocracia desloca a atenção das relações de classe para os atributos morais do indivíduo. Ao fazer isso, ela transforma desigualdade em julgamento e exploração em oportunidade mal aproveitada.
Comunismo contra a sociedade do espetáculo
O debate público brasileiro raramente apresenta o comunismo como crítica da organização material da sociedade. Ele o converte em espetáculo. Guy Debord mostrou que, na sociedade do espetáculo, as relações sociais aparecem mediadas por imagens que substituem a experiência direta. A bandeira vermelha, o medo de uma suposta invasão comunista e a associação automática entre esquerda e autoritarismo funcionam como imagens mobilizadoras. Não é necessário discutir salários, jornada ou propriedade quando o adversário já foi apresentado como uma ameaça monstruosa.
Foi assim que o bolsonarismo explorou o anticomunismo como peça de uma guerra cultural permanente. O comunismo podia significar, ao mesmo tempo, universidades, imprensa, políticas de igualdade, vacinas, movimentos de trabalhadores ou qualquer crítica ao poder econômico. A palavra perdeu sua precisão teórica e ganhou utilidade policial: servia para marcar inimigos, dispensar argumentos e organizar ressentimentos. O conteúdo importava menos do que a capacidade de produzir obediência e hostilidade.
Essa operação se aproxima da psicologia das multidões descrita por Le Bon não porque as massas sejam naturalmente irracionais, mas porque uma multidão mobilizada por imagens simples tende a suspender a análise das relações concretas. O medo compartilhado cria identidade. O sujeito que teme perder sua propriedade, mesmo sem possuir empresa ou patrimônio relevante, passa a defender a ordem dos grandes proprietários como se defendesse a si próprio. A ideologia funciona quando o dominado reconhece seus interesses na linguagem do dominante.
O Estado não é sinônimo de comunismo
Outra confusão conveniente identifica comunismo com estatização de tudo. O Estado capitalista pode controlar empresas, regular mercados e executar políticas públicas sem superar a relação capitalista. Alysson Mascaro explica que o Estado não é um instrumento neutro situado acima das classes; sua forma jurídica e institucional organiza a reprodução da sociedade fundada na mercadoria, na propriedade privada e no trabalho assalariado. Uma empresa estatal pode continuar submetendo trabalhadores à hierarquia, à produtividade e à apropriação do excedente.
Isso não torna irrelevante a disputa pelo Estado. Saúde pública, educação, previdência e direitos trabalhistas podem limitar a brutalidade do mercado e ampliar a capacidade coletiva de organização. Mas reformar a distribuição não é o mesmo que abolir a separação entre quem controla os meios de produção e quem precisa vender sua força de trabalho. O comunismo começa a aparecer como problema real quando a democracia deixa de se limitar à escolha de administradores e alcança a decisão sobre a produção social.
A técnica pode libertar ou aprofundar a alienação
Heidegger chamou atenção para a tendência moderna de reduzir o mundo a estoque disponível. No capitalismo digital, essa tendência assume forma cotidiana: o trabalhador vira dado, o trajeto vira métrica, a atenção vira mercadoria e o comportamento vira previsão. A inteligência artificial e os sistemas de gestão não são neutros apenas por serem tecnológicos. Inseridos em relações capitalistas, podem intensificar a vigilância, substituir vínculos coletivos por avaliações e ampliar o poder de quem controla infraestrutura, dados e investimento.
Uma sociedade comunista não seria definida por possuir mais tecnologia, mas por submeter a tecnologia a finalidades sociais decididas coletivamente. Um algoritmo poderia organizar transporte, distribuição e saúde sem transformar cada pessoa em concorrente de todas as outras. A automação poderia diminuir o trabalho necessário em vez de produzir desemprego de um lado e jornadas intermináveis de outro. A técnica deixaria de ser um poder externo que governa os indivíduos e se tornaria instrumento consciente de uma comunidade.
O significado de comunismo, assim, não cabe na pergunta escolar sobre um modelo de governo. Ele envolve uma ruptura com a ideia de que a produção da vida deve obedecer à valorização do capital. Enquanto o trabalho de muitos continuar subordinado à acumulação de poucos, a promessa de liberdade será atravessada por dependência material. O comunismo nomeia a possibilidade de retirar essa dependência do domínio privado e transformar a riqueza social em decisão comum.
É justamente por isso que seus adversários precisam deformá-lo. Se a palavra fosse associada à realidade do aluguel impagável, da jornada exaustiva, da doença sem licença, da dívida e da falta de controle sobre o próprio trabalho, ela deixaria de parecer um fantasma distante. Tornar o comunismo incompreensível é uma maneira de impedir que se compreenda o capitalismo.
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