O significado do comunismo não está na caricatura do ditador vermelho, na fila imaginária do supermercado ou na acusação automática lançada contra qualquer política de redução da desigualdade. No Brasil, a palavra é mobilizada menos para descrever uma teoria social do que para interditar perguntas: quem controla a riqueza, quem decide o destino do trabalho e por que milhões produzem muito mais do que conseguem consumir? O anticomunismo funciona como uma tecnologia ideológica que transforma a defesa da propriedade privada em senso comum e apresenta a exploração como se fosse liberdade.

Isso não significa apagar a história dos regimes que se declararam comunistas, suas burocracias, violências e fracassos. Significa recusar a operação mais conveniente do debate público: colar toda ideia de emancipação social à experiência de Estados específicos e, ao mesmo tempo, tratar o capitalismo realmente existente como se fosse a forma natural da vida. O comunismo é uma crítica das relações sociais capitalistas e uma hipótese de reorganização coletiva da produção. Seu significado começa onde termina a propaganda.

O significado do comunismo não é a caricatura escolar

No capitalismo, os meios de produzir a vida estão subordinados à propriedade privada e à valorização do capital. Uma fábrica, uma plataforma digital, uma rede logística ou um banco não são administrados prioritariamente para satisfazer necessidades sociais. São orientados pela rentabilidade de seus proprietários e acionistas. O trabalhador aparece, então, como alguém livre para vender sua força de trabalho, embora precise vendê-la para sobreviver.

É nesse ponto que a crítica de Marx à alienação mantém sua força. O trabalhador produz objetos, serviços e riqueza social, mas não controla o processo nem decide o destino daquilo que produz. Seu próprio trabalho se apresenta como uma força estranha, pertencente ao empregador, à plataforma ou ao mercado. A liberdade jurídica convive com a dependência material: ninguém obriga formalmente o entregador a aceitar uma corrida, mas a necessidade de pagar aluguel e comida torna essa escolha brutalmente limitada.

Comunismo, em seu sentido crítico, é a perspectiva de superar essa separação entre os produtores e as condições de produção. Não se trata de distribuir igualmente a pobreza nem de abolir todo objeto de uso pessoal. Trata-se de retirar dos proprietários privados o poder de comandar os meios sociais de produção e submetê-los a uma organização coletiva, orientada pelas necessidades humanas e não pela acumulação.

O entregador de aplicativo e a propriedade invisível

Considere o entregador que atravessa São Paulo, Recife ou Belo Horizonte guiado por um aplicativo. A plataforma não precisa possuir todas as motocicletas para controlar o trabalho. Ela define preços, distribui chamadas, estabelece avaliações, aplica bloqueios e transforma dados de deslocamento em instrumento de gestão. O trabalhador aparece como parceiro ou empreendedor, mas sua atividade é submetida a uma lógica que ele não controla.

A ideologia do empreendedorismo individual oculta essa relação. O entregador assume os custos da moto, do combustível, da manutenção, do celular e do risco de acidente. A empresa conserva o comando sobre o mercado, a marca, o algoritmo e a circulação das informações. Chama-se autonomia aquilo que, na prática, é transferência de custos e responsabilidades para quem trabalha. A plataforma privatiza a decisão e socializa o risco entre milhares de indivíduos isolados.

Uma perspectiva comunista perguntaria algo que o discurso empresarial evita: por que a infraestrutura digital, a logística e os dados devem servir à remuneração de investidores, e não às necessidades de quem trabalha e de quem depende do serviço? A resposta não seria apenas trocar o proprietário do aplicativo. Seria construir formas coletivas de controle sobre a tecnologia, o tempo de trabalho, a remuneração e os critérios de distribuição. A técnica deixaria de ser uma autoridade opaca e passaria a ser uma ferramenta sob decisão social.

Do trabalhador isolado à classe que pode decidir

O capitalismo transforma problemas coletivos em fracassos individuais. O professor que adoece por excesso de turmas é aconselhado a organizar melhor sua rotina. A operadora de call center submetida a metas e vigilância constante é responsabilizada por não alcançar a produtividade exigida. O funcionário do depósito que não acompanha o ritmo das máquinas recebe a culpa pela própria exaustão. Em todos esses casos, a estrutura desaparece atrás da linguagem do desempenho.

A promessa meritocrática é decisiva nessa operação. Ela afirma que cada pessoa recebe conforme seu talento e esforço, como se as condições de partida fossem equivalentes e como se a riqueza fosse resultado apenas de escolhas individuais. Mas o salário de quem trabalha e o lucro de quem controla a empresa não são manifestações do mesmo tipo de liberdade. O primeiro depende da venda da força de trabalho; o segundo depende da apropriação do valor produzido por outros.

O comunismo não elimina a singularidade dos indivíduos. Ele combate uma sociedade na qual a sobrevivência de cada um depende da competição de todos contra todos. A classe trabalhadora não é uma multidão homogênea, e suas diferenças de gênero, raça, território e ocupação são concretas. Ainda assim, há uma relação comum na dependência em relação ao trabalho assalariado e à propriedade alheia. A organização coletiva pode transformar essa experiência dispersa em capacidade política.

Anticomunismo como administração do medo

No Brasil, o anticomunismo raramente precisa demonstrar o que afirma. Basta insinuar que uma escola discute desigualdade, que uma política de moradia questiona a especulação ou que um movimento de trabalhadores reivindica direitos. A palavra comunismo funciona como um rótulo de desqualificação antes que qualquer argumento seja apresentado. Durante o bolsonarismo, essa retórica foi combinada com a defesa agressiva da família, da religião e da propriedade, enquanto a precarização avançava e o Estado era apresentado como inimigo quando protegia trabalhadores e como instrumento legítimo quando garantia negócios.

Essa dinâmica corresponde ao que a crítica da sociedade do espetáculo identifica como substituição da realidade pela representação. A imagem do comunista ameaça mais do que a situação concreta de quem trabalha sem proteção, endividado e permanentemente avaliado. A guerra cultural desloca o conflito do chão material para o teatro moral. O inimigo é inventado como um monstro abstrato para que o poder econômico permaneça invisível.

O fascismo se alimenta desse deslocamento. Ele promete restaurar uma ordem perdida, canaliza a frustração social contra minorias e transforma a revolta contra a exploração em ressentimento contra os de baixo. O trabalhador precarizado é convidado a odiar professores, imigrantes, movimentos sociais ou pessoas LGBT, enquanto os proprietários das plataformas, dos bancos e das grandes cadeias comerciais aparecem como empreendedores exemplares. O anticomunismo é útil porque impede que a indignação encontre seu objeto estrutural.

Comunismo sem fetiche do Estado

Também é insuficiente responder à propaganda com uma defesa acrítica de qualquer governo que tenha usado a palavra comunismo. A emancipação não pode ser reduzida à estatização de empresas nem à concentração das decisões em uma burocracia que governa em nome da sociedade sem permitir que a sociedade governe. Se o trabalhador continua separado do poder de decidir, a propriedade estatal pode reproduzir formas de alienação sob outra administração.

A crítica precisa alcançar tanto o mercado quanto o Estado entendido como aparelho separado da vida social. Como mostra a teoria marxista do Estado, ele não é um árbitro neutro acima das classes: organiza juridicamente relações sociais atravessadas pela propriedade e pela disputa de poder. Isso não torna irrelevantes as políticas públicas ou os direitos sociais. Ao contrário, revela que cada conquista depende de correlação de forças e que nenhuma transformação profunda nasce da simples troca de governantes.

O comunismo, nesse horizonte, não é um modelo pronto para ser aplicado por decreto. É o nome de uma luta para que a produção, a tecnologia e a riqueza deixem de ser comandadas por uma minoria proprietária. Seu critério não é a bandeira de um Estado, mas a redução concreta da dominação: menos tempo submetido ao trabalho necessário, mais controle dos produtores sobre a produção, acesso social aos recursos e decisões tomadas por quem é afetado por elas.

O medo do comunismo costuma ser apresentado como defesa da liberdade. Mas a liberdade de que se fala é frequentemente a liberdade do proprietário de contratar, demitir, especular e bloquear; não a liberdade do trabalhador de viver sem vender cada hora de sua existência. Recuperar o significado do comunismo é recolocar essa contradição no centro. A questão não é escolher entre a caricatura anticomunista e a nostalgia de um Estado idealizado. É perguntar se uma sociedade pode chamar-se livre enquanto os que produzem sua riqueza não controlam as condições de sua própria vida.