O simulacro não é simplesmente uma mentira, uma cópia malfeita ou uma aparência que esconde uma verdade intacta. Ele aparece quando a imagem deixa de representar alguma coisa e passa a funcionar como a própria realidade social. A promessa de autonomia do entregador, a reputação medida por estrelas, o vídeo curto que transforma opinião em autoridade e a narrativa política fabricada para circular nas redes não são apenas versões distorcidas do mundo: organizam condutas, distribuem reconhecimento e definem o que pode ser considerado verdadeiro. O simulacro é uma forma de poder porque substitui a experiência concreta por signos que comandam a experiência.

Essa diferença separa uma crítica superficial da aparência de uma crítica materialista da sociedade. Não basta denunciar que determinada propaganda engana ou que uma publicação contém informação falsa. É preciso perguntar por que imagens e narrativas adquirem força suficiente para orientar o trabalho, o voto, o consumo e o modo como cada pessoa interpreta a própria vida. No capitalismo contemporâneo, o simulacro não paira sobre uma realidade econômica já pronta. Ele é produzido por empresas, plataformas, instituições políticas e relações de classe que transformam a aparência em mercadoria e mecanismo de administração social.

O simulacro não esconde apenas a realidade: ele a fabrica

A tradição marxista oferece uma chave importante para compreender esse processo. No fetichismo da mercadoria, relações sociais entre pessoas aparecem como relações entre coisas. O produto parece possuir valor por si mesmo, como se o trabalho social que o produziu estivesse ausente. O simulacro radicaliza essa operação: não apenas uma relação social se apresenta sob uma forma enganosa, mas a forma produzida passa a organizar a própria relação. A marca, o perfil, a avaliação e a narrativa de desempenho tornam-se mais decisivos do que a atividade concreta que os sustenta.

Um entregador não é reconhecido, em primeiro lugar, como trabalhador que vende sua força de trabalho sob condições definidas por uma plataforma. Ele aparece como parceiro, empreendedor, operador autônomo de uma oportunidade. A palavra escolhida não é um detalhe publicitário. Ela disputa a definição jurídica, política e subjetiva da relação. Ao chamá-lo de parceiro, a empresa transforma uma relação de dependência em uma imagem de colaboração entre iguais. A aparência não encobre somente a exploração; ela ajuda a impedir que a exploração seja nomeada como tal.

Aquilo que parece liberdade também é produzido por uma infraestrutura que o trabalhador não controla. O aplicativo define a visibilidade das chamadas, estabelece critérios de aceitação, registra trajetos, distribui avaliações e pode alterar as condições de acesso às corridas. O entregador precisa administrar sua disponibilidade diante de um sistema opaco, sem possuir os meios de produção decisivos da atividade. A bicicleta, a motocicleta e o celular podem ser seus, mas o mercado em que sua força de trabalho se realiza é organizado por uma empresa. O simulacro do empreendedorismo torna invisível essa assimetria e desloca o risco econômico para quem trabalha.

Guy Debord chamou de espetáculo a organização social em que a relação entre pessoas é mediada por imagens. O espetáculo não deve ser entendido como um conjunto de telas ou como um excesso de publicidade. Trata-se de uma forma de separação: a vida social aparece diante dos indivíduos como algo que eles contemplam, embora essa aparência seja produzida por relações que os dominam. O simulacro é uma das formas atuais dessa separação. A pessoa não apenas vê imagens do sucesso, da liberdade ou da participação política; ela passa a medir sua existência por sua capacidade de produzir e consumir essas imagens.

Da experiência ao perfil administrado

Nas plataformas digitais, a existência é convertida em perfil. O perfil promete expressar uma pessoa, mas também a torna legível para sistemas de classificação. Fotos, preferências, deslocamentos, contatos, compras e reações são transformados em sinais que podem ser ordenados, comparados e monetizados. A pessoa real, contraditória e imprevisível, é reduzida a um conjunto de indicadores operacionais. Não se trata de dizer que o indivíduo desapareceu, mas que sua presença social passa a ser organizada por uma representação calculável.

Essa representação tem consequências materiais. A reputação de um motorista pode influenciar sua permanência em uma plataforma; a taxa de resposta de um entregador pode afetar o acesso a chamadas; o alcance de uma publicação determina quem consegue vender publicidade ou transformar visibilidade em renda. A pontuação deixa de ser uma descrição posterior da atividade e passa a orientar a atividade desde o início. O trabalhador aprende a antecipar o olhar do sistema, ajustando seu comportamento ao indicador que o classifica.

É aí que a tecnologia se aproxima do que Heidegger chamou de uma compreensão técnica do mundo. O problema não está apenas no uso de ferramentas digitais, mas no modo como tudo passa a aparecer como recurso disponível, mensurável e administrável. O trabalhador é recurso produtivo, o usuário é conjunto de dados, a atenção é estoque comercial e a interação é oportunidade de extração. Até o sofrimento pode ser tratado como conteúdo, engajamento ou marca pessoal. O mundo não é mais percebido como campo de relações e fins compartilhados, mas como reserva a ser mobilizada por dispositivos de cálculo.

A vida cotidiana passa a exigir uma apresentação contínua de si. O professor precisa demonstrar produtividade em registros, formulários, plataformas e metas; o trabalhador de call center precisa converter a conversa em indicadores de desempenho; o profissional pejotizado precisa vender disponibilidade como se fosse autonomia; o influenciador precisa transformar intimidade em material publicável. Em todos esses casos, a pessoa é convocada a representar uma versão rentável de si mesma. O simulacro não é um avatar separado da vida: é a forma pela qual a vida é obrigada a se tornar vendável.

A política brasileira como fábrica de realidades concorrentes

Na política brasileira, o simulacro aparece com força porque a disputa pelo poder depende cada vez mais da capacidade de produzir imagens de pertencimento, ameaça e salvação. O bolsonarismo não se sustentou apenas em argumentos falsos sobre urnas, vacinas ou corrupção. Ele construiu uma realidade política paralela na qual a desconfiança institucional, o ressentimento social e o medo de uma suposta conspiração formavam um mundo coerente para seus seguidores. A falsidade de cada enunciado não explica sozinha sua eficácia. A narrativa oferecia uma posição social, um inimigo e uma comunidade imaginada.

O simulacro político não precisa convencer todos da mesma maneira. Basta organizar percepções e reações. Uma imagem de cidadão de bem pode operar como autorização para a violência simbólica contra pobres, mulheres, negros, pessoas LGBTQIA+ e adversários políticos. Uma gravação de celular pode ser apresentada como prova absoluta de autenticidade, ainda que tenha sido recortada, descontextualizada ou encenada. Uma transmissão ao vivo pode produzir a sensação de acesso direto à verdade, quando na realidade apenas substitui o trabalho de apuração pela intensidade emocional da presença na tela.

A dinâmica das multidões descrita por Gustave Le Bon ajuda a entender a força das imagens compartilhadas, mas precisa ser situada nas condições atuais de produção e circulação. A multidão digital não é uma massa espontânea que simplesmente abandona a razão. Ela é convocada por infraestruturas privadas que selecionam conteúdos capazes de capturar atenção, prolongar a permanência e estimular reação. Indignação, medo e humilhação funcionam como combustíveis de circulação. O algoritmo não inventa sozinho o preconceito ou o autoritarismo, mas encontra neles materiais rentáveis e os distribui dentro de uma economia da atenção.

Essa economia produz uma equivalência enganosa entre experiência e visibilidade. O que aparece muitas vezes é tratado como mais verdadeiro do que aquilo que precisa ser investigado. O relato de uma autoridade no grupo de mensagens parece valer tanto quanto o trabalho de uma instituição pública; o vídeo viral substitui o processo de verificação; a opinião do influenciador se apresenta como conhecimento porque alcançou uma audiência. A forma de circulação passa a conferir legitimidade ao conteúdo. A popularidade da imagem simula uma prova.

Isso ajuda a explicar por que a guerra cultural tem tanta utilidade para a direita. Enquanto a atenção é mobilizada por símbolos morais, inimigos culturais e escândalos cuidadosamente selecionados, as relações materiais que estruturam a vida permanecem fora do foco. O preço do aluguel, a jornada instável, o endividamento e a perda de direitos não desaparecem, mas são recobertos por uma dramaturgia permanente. O trabalhador é convidado a odiar o vizinho, o professor, o imigrante ou o militante, em vez de reconhecer quem controla as condições de sua sobrevivência.

O simulacro meritocrático e a culpa privada

Há também um simulacro central na ideologia meritocrática. A meritocracia se apresenta como descrição neutra de uma sociedade em que cada pessoa recebe exatamente o que merece. Na prática, ela converte desigualdades históricas e relações de propriedade em diferenças individuais de esforço. A pessoa que alcança uma posição melhor aparece como autora isolada de seu sucesso; aquela que não consegue pagar as contas é responsabilizada por uma insuficiência moral ou comportamental.

O discurso do empreendedor de si transforma a precariedade em prova de iniciativa. O entregador que trabalha durante muitas horas é exibido como exemplo de disciplina, não como alguém submetido à transferência de custos e riscos empresariais. A professora que leva trabalho para casa é elogiada por vocação, não confrontada com a intensificação de sua jornada. O atendente que suporta metas abusivas é incentivado a desenvolver resiliência, como se a violência organizacional fosse um desafio psicológico individual.

O simulacro meritocrático funciona porque não é apenas uma mensagem externa. Ele entra na formação da subjetividade. Cada pessoa aprende a observar a si mesma como um projeto em permanente avaliação, comparando desempenho, aparência, renda e visibilidade. O fracasso deixa de ser interpretado como efeito de uma estrutura e passa a ser vivido como culpa. A exploração se torna mais eficiente quando o explorado acredita que deve aprimorar sua atitude para merecer condições que jamais estarão sob seu controle.

Essa operação tem relação direta com a alienação. Para Marx, o trabalhador se aliena quando sua atividade e o produto de seu trabalho se voltam contra ele como forças estranhas. No capitalismo de plataformas, a alienação inclui a perda de compreensão sobre os critérios que organizam a própria atividade. O trabalhador recebe uma tarefa, uma nota ou uma penalidade sem conhecer plenamente o sistema que as produz. Ele vê o resultado do cálculo, mas não participa da definição de suas regras. A opacidade técnica aparece como neutralidade.

Quando o Estado administra a aparência

O simulacro não é produzido apenas por empresas e usuários. O Estado também participa de sua construção, inclusive quando apresenta relações econômicas desiguais como contratos privados entre indivíduos livres. A forma jurídica transforma sujeitos concretamente desiguais em partes formalmente equivalentes. Para Alysson Mascaro, o Estado moderno não está acima da sociedade como árbitro neutro; ele integra a reprodução das relações capitalistas ao garantir formas jurídicas, propriedade e circulação mercantil. A igualdade perante a lei pode coexistir com desigualdades materiais profundas.

Na uberização, essa aparência jurídica é decisiva. Se o trabalhador é definido como parceiro independente, a empresa aparece como simples intermediária tecnológica. O conflito trabalhista é deslocado para o campo da escolha contratual: quem aceita a corrida teria escolhido as condições; quem permanece conectado seria supostamente livre para sair. A forma do contrato simula uma igualdade que não existe na prática. A necessidade de renda, a dependência da plataforma e a falta de alternativas são apagadas pela linguagem da autonomia.

Algo semelhante ocorre na administração pública quando metas, rankings e painéis de desempenho são tratados como substitutos da política. A medição pode ser útil para algumas tarefas, mas torna-se ideológica quando apresenta problemas sociais como falhas de eficiência individual. A escola passa a ser avaliada como unidade produtiva, o hospital como linha de atendimento e o servidor como peça mensurável. A técnica aparenta neutralidade justamente porque esconde as escolhas políticas incorporadas aos indicadores.

A crítica não consiste em rejeitar toda imagem, toda tecnologia ou toda forma de representação. A vida coletiva precisa de linguagem, símbolos, registros e meios de comunicação. O problema surge quando as representações se autonomizam, passam a obedecer à lógica do valor e retornam aos indivíduos como poderes independentes. Uma plataforma não apenas comunica uma oportunidade; ela decide a forma pela qual a oportunidade existe. Um ranking não apenas informa desempenho; ele cria uma hierarquia que reorganiza condutas. Uma narrativa política não apenas interpreta acontecimentos; ela delimita quem será reconhecido como cidadão legítimo.

Romper a aparência exige reconstruir a relação social

Desmontar o simulacro não significa substituir uma imagem por outra imagem mais atraente. Também não significa exigir que cada indivíduo seja mais crítico no consumo de informação, como se a responsabilidade pela desinformação estivesse distribuída igualmente entre usuário e conglomerado tecnológico. A crítica precisa alcançar as condições materiais que permitem a produção e a circulação dessas aparências. Quem controla a plataforma? Quem define o algoritmo? Quem se apropria dos dados? Quem suporta o risco? Quem pode contestar uma decisão automatizada?

Essas perguntas deslocam o debate da moral individual para a estrutura social. Um trabalhador pode reconhecer que o aplicativo o explora e ainda assim permanecer conectado porque precisa pagar aluguel e comida. Uma pessoa pode desconfiar de uma notícia e continuar exposta a um ambiente informacional organizado por estímulos emocionais. A consciência não é suficiente quando as condições de reprodução da vida obrigam a adesão. A emancipação exige transformar as relações que tornam o simulacro necessário e rentável.

Essa transformação envolve recuperar a materialidade das experiências ocultadas pelos signos. Por trás da imagem do empreendedor, há tempo de trabalho, manutenção de veículo, risco de acidente e ausência de proteção. Por trás da avaliação do professor, há uma atividade pedagógica atravessada por falta de recursos e intensificação. Por trás do perfil que parece livre, há coleta de dados e classificação comercial. Por trás da guerra cultural, há uma sociedade marcada por desigualdade, concentração de riqueza e precarização.

O simulacro governa com mais eficácia quando faz a dominação parecer escolha, quando transforma exploração em oportunidade e quando oferece ao indivíduo uma identidade pronta para substituir a ação coletiva. A resposta não está em buscar uma suposta realidade pura, anterior a toda mediação. Está em tornar visíveis as relações que produzem as mediações, disputar o controle sobre as infraestruturas e reconstruir formas de decisão que não estejam subordinadas ao lucro.

Enquanto o entregador for apresentado como empreendedor, sua dependência poderá ser negada. Enquanto a popularidade for tomada como verdade, a circulação poderá substituir a prova. Enquanto a pontuação parecer medida objetiva de valor, a vida continuará submetida ao julgamento de sistemas privados. O simulacro não é uma névoa que encobre o mundo: é o mundo social organizado para que a aparência produza efeitos reais. Rompê-lo significa fazer com que as pessoas voltem a reconhecer, nas imagens que as governam, as relações de classe que podem transformar.