Obsolescência perceptiva é o nome de um desgaste que não se limita aos aparelhos. Se a obsolescência programada encurta artificialmente a vida de uma mercadoria para obrigar sua reposição, a obsolescência perceptiva encurta a duração da atenção, da memória e da capacidade de relacionar fatos. Ela fabrica sujeitos aptos a receber estímulos sem fim, mas cada vez menos capazes de sustentar uma experiência, discernir uma causa ou reconhecer uma estrutura social. Não se trata de afirmar que as pessoas teriam se tornado naturalmente superficiais. Trata-se de compreender uma adaptação historicamente produzida pelo capitalismo de plataforma, pela aceleração produtiva e pela indústria cultural.
O problema é material antes de ser moral. A pessoa que alterna o olhar entre pedidos, mapas, notificações, cobranças e mensagens não está simplesmente escolhendo dispersar-se. O entregador de aplicativo que precisa aceitar rapidamente uma corrida, o atendente de call center submetido ao tempo médio de atendimento, a professora pressionada por sistemas, formulários e demandas administrativas são treinados por uma organização do trabalho que lhes recusa a demora. A concentração exigida é estreita, fragmentada e utilitária: atenção suficiente para cumprir a tarefa, insuficiente para compreender o conjunto que a comanda. A percepção não desaparece; ela é submetida à forma da produtividade.
Obsolescência perceptiva não é distração individual
Reduzir esse processo ao celular ou à suposta falta de disciplina de cada indivíduo é aceitar a explicação que mais convém às empresas de tecnologia. Ela desloca a responsabilidade da arquitetura econômica para o usuário isolado. Plataformas são desenhadas para transformar tempo em dado, dado em previsão de comportamento e previsão em lucro. A rolagem contínua, a recomendação automática e a sucessão de alertas não são acidentes estéticos: são instrumentos para prolongar a permanência, recolher traços de conduta e orientar consumo, opinião e circulação de mercadorias. Quando a atenção se esgota, a solução vendida é mais uma ferramenta de organização pessoal, uma assinatura, um método de foco. O sistema que produz a exaustão oferece a mercadoria que promete administrá-la.
Há aí uma forma contemporânea de alienação. Em Marx, o trabalhador alienado não perde apenas o produto de seu trabalho; perde o domínio sobre sua própria atividade e sobre as relações sociais que essa atividade produz. A obsolescência perceptiva aprofunda esse estranhamento. O trabalhador conhece cada tela do aplicativo, cada comando do sistema e cada urgência de sua jornada, mas pode ter enorme dificuldade de enxergar como a plataforma transfere custos, dispersa coletivos e extrai valor de sua disponibilidade. Ele é levado a interpretar o próprio cansaço como falha de desempenho e a própria concorrência com outros trabalhadores como dado inevitável da vida.
Uma percepção que precisa reagir a tudo imediatamente quase nunca dispõe de tempo para perguntar quem organizou a urgência e quem lucra com ela.
Esse é o ponto político decisivo. A precarização não opera apenas reduzindo direitos e salários; ela reorganiza o campo do visível. A corrida seguinte aparece com mais nitidez do que a relação de exploração. A nota do cliente parece mais concreta do que a empresa que define unilateralmente tarifas, bloqueios e critérios. A meta semanal ocupa mais espaço mental do que a possibilidade de ação coletiva. Não porque a exploração seja invisível em sentido absoluto, mas porque os mecanismos do trabalho fazem com que ela surja como uma sequência de episódios particulares: uma entrega ruim, um chefe agressivo, uma avaliação injusta, um turno impossível. A totalidade capitalista se dissolve em incidentes.
O espetáculo acelera para impedir a experiência
Debord descreveu a sociedade do espetáculo como uma relação social mediada por imagens, não como mera abundância de entretenimento. A formulação é especialmente útil quando a imagem já não está diante de nós como uma pausa, mas nos acompanha como fluxo personalizado. O espetáculo digital não pede contemplação; pede reação. Ele converte o acontecimento em conteúdo rapidamente substituível, a indignação em métrica e a memória em arquivo que os algoritmos podem ou não ressuscitar. Uma tragédia, uma greve, uma chacina, uma denúncia de corrupção ou uma fala fascista disputam o mesmo espaço com publicidade, piada e recomendação de compra. O que importa para a máquina não é a gravidade histórica de cada fato, mas sua capacidade de reter atenção.
Daí resulta uma política de presentes sucessivos. A violência policial de ontem cede ao escândalo de hoje; o desmonte de direitos trabalhistas é coberto pela polêmica da hora; a devastação ambiental retorna apenas quando uma imagem extrema rompe a rotina. Essa velocidade favorece os poderes que dependem da amnésia. O bolsonarismo soube explorar esse terreno ao produzir permanentemente provocações, mentiras e inimigos. Sua eficácia não se explicava só pela falsidade de suas mensagens, mas pelo sequestro da capacidade coletiva de estabelecer relevâncias. Enquanto todos respondiam à última brutalidade, as engrenagens de destruição institucional e de proteção aos interesses dominantes prosseguiam.
A psicologia das multidões de Gustave Le Bon, embora marcada por seus limites conservadores, ajuda a identificar como a repetição e o contágio afetivo podem reduzir o julgamento reflexivo. As plataformas industrializaram esse contágio e o conectaram a modelos de negócio. Mas seria um erro concluir que multidões conectadas são irracionais por natureza. A questão é quem controla os dispositivos de visibilidade, quais afetos são premiados e sob quais condições materiais as pessoas formam juízo. A extrema direita prospera quando medo, ressentimento e pânico moral recebem circulação privilegiada, enquanto o debate sobre salário, moradia, jornada e propriedade é transformado em ruído técnico ou em pauta sem apelo.
Recuperar a percepção exige conflito sobre o tempo
Heidegger advertiu que a técnica moderna tende a enquadrar o mundo como reserva disponível, como algo a ser calculado, extraído e mobilizado. No capitalismo contemporâneo, esse enquadramento alcança a própria atenção humana. Cada pausa deve ser convertida em engajamento, cada deslocamento em oportunidade de consumo, cada conversa em dado potencialmente monetizável. A pessoa não é apenas usuária da técnica: torna-se recurso disponível para ela. Ainda assim, não há destino técnico inevitável. O que parece ser autonomia das máquinas é, em grande medida, uma relação de propriedade e comando: empresas privadas definem infraestruturas, ritmos, critérios de relevância e formas de extração.
Combater a obsolescência perceptiva, então, não equivale a recomendar um retiro individual de telas. Desligar notificações pode oferecer alívio, mas não altera a jornada do trabalhador que depende delas para receber serviço nem resolve a escola subordinada a plataformas privadas e avaliações incessantes. A resposta precisa envolver direito à desconexão, limites efetivos ao controle algorítmico, transparência sobre bloqueios e remuneração, proteção ao trabalho docente, espaços públicos de informação e organização sindical capaz de recompor a experiência comum. A luta pelo tempo é luta de classe: quem não controla o próprio tempo dificilmente controla a própria atenção.
Também exige uma cultura política que recuse a obrigação de opinar instantaneamente sobre tudo. Pensar é estabelecer mediações, recordar processos, distinguir causa e efeito, reconhecer interesses em conflito. Essa operação é incompatível com a economia que trata toda demora como perda de oportunidade. A percepção pode voltar a ser uma força coletiva quando o trabalhador deixa de ver sua exaustão como destino privado e a reconhece como experiência compartilhada; quando a avalanche de imagens deixa de substituir a realidade que pretende mostrar; quando a tecnologia deixa de ser tratada como entidade neutra e passa a ser disputada como organização social do trabalho e da vida.
A fábrica de atenção descartável quer indivíduos permanentemente atualizados e politicamente desarmados. Produz consumidores informados de tudo e conscientes de quase nada, trabalhadores conectados o tempo inteiro e separados de seus pares, cidadãos convocados a reagir sem condições de elaborar. Nomear essa condição como obsolescência perceptiva é recusar a culpa individual e localizar o conflito onde ele está: na apropriação capitalista do tempo, da sensibilidade e da memória. Contra a velocidade que torna o mundo ilegível, a esquerda precisa defender as condições concretas para que ele possa ser visto e transformado.
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