Na paralisação nacional de entregadores por aplicativo, conhecida como Breque dos Apps, em abril de 2025, uma evidência voltou às ruas brasileiras: quem pedala ou pilota por horas para garantir a refeição alheia não luta apenas por alguns centavos a mais por entrega. Luta contra um regime de trabalho que transfere para o trabalhador o custo da bicicleta, da moto, do combustível, da manutenção, do acidente, da chuva, da doença e do tempo parado. A plataforma chama isso de autonomia; o trabalhador conhece a realidade pelo nome menos elegante de necessidade.

É nesse terreno que a expressão de Marx sobre o ópio do povo ganha densidade, muito além da definição de glossário. O problema não é a pessoa explorada rezar antes de sair para trabalhar, agradecer por ter sobrevivido a mais um dia ou buscar numa comunidade religiosa o acolhimento que o Estado e o mercado lhe recusam. Seria uma crueldade aristocrática zombar da fé de quem enfrenta a fome, a dívida e a humilhação cotidiana. A questão é outra: por que uma sociedade tão rica em meios técnicos precisa oferecer consolo espiritual para que milhões suportem uma vida materialmente insuportável?

O ópio não produz a ferida. Ele ajuda a adormecer a dor da ferida enquanto sua causa continua atuando. No capitalismo brasileiro, essa causa tem endereço: salários comprimidos, informalidade, desmonte de direitos, carestia, transporte precário, dívida e uma classe proprietária que lucra precisamente porque o trabalhador aceita como destino aquilo que foi organizado como exploração.

O entregador não é livre quando só pode escolher entre correr e passar necessidade

A propaganda das plataformas construiu a imagem do entregador como empreendedor de si mesmo: alguém que decide seus horários, transforma esforço em renda e, com disciplina, pode subir na vida. Trata-se da meritocracia em sua versão motorizada. A empresa retém o comando sobre o algoritmo, a distribuição dos pedidos, as punições, os bloqueios, os valores pagos e as avaliações; ao trabalhador resta a propriedade formal de uma moto frequentemente financiada ou de uma bicicleta comprada com sacrifício. Ele possui o instrumento, mas não controla as condições sociais que fazem esse instrumento render.

Marx identificou no trabalho assalariado uma separação entre quem produz e quem controla a produção. A plataforma atualiza essa separação com uma interface amigável. Não há necessariamente um chefe gritando no galpão, mas há uma tela que define a corrida, calcula a remuneração, mede a velocidade, pode reduzir chamadas e, em muitos casos, bloquear o trabalhador sem explicação efetiva. A técnica aparece como neutra, embora carregue decisões empresariais. Heidegger alertava que a técnica moderna não é apenas um conjunto de ferramentas: ela organiza o mundo como reserva disponível para uso. No aplicativo, o entregador é tratado como disponibilidade permanente, ativável quando há demanda e descartável quando o fluxo cai.

Depois de dez ou doze horas submetido a essa lógica, o trabalhador chega em casa não apenas cansado: chega com dificuldade de atribuir a fadiga a uma estrutura. A dor parece privada. Foi um dia ruim, uma escolha errada de horário, uma falha de planejamento, uma prova de fé. A ideologia começa justamente quando o problema social é devolvido ao indivíduo como culpa moral.

A teologia da prosperidade encontra o empreendedorismo da miséria

Nem toda experiência religiosa alimenta conformismo. Igrejas organizam redes de solidariedade, arrecadam comida, acolhem famílias enlutadas, oferecem escuta onde o poder público só aparece pela polícia. Há também uma longa tradição cristã comprometida com pobres, trabalhadores e lutas populares. Apagar isso seria repetir a caricatura liberal de que toda fé é ignorância e todo fiel é manipulado. A religião é uma prática social contraditória: pode amparar a resignação, mas pode igualmente fornecer linguagem, vínculo e coragem para a revolta.

O ponto político está em saber qual mensagem prevalece quando a vida do trabalhador é organizada pela insegurança. A teologia da prosperidade, combinada ao discurso neoliberal do empreendedorismo, oferece uma explicação sedutora para um mundo brutal. Se a renda não basta, o problema seria a insuficiência da crença, da disciplina, da oferta ou da mentalidade. Se alguém enriquece, sua riqueza vira prova de mérito e bênção. Se alguém permanece endividado, sua pobreza se converte em falha íntima. A exploração desaparece da cena; sobram o esforço individual e o julgamento divino.

O consolo se torna ideologia quando pede paciência à vítima e silêncio diante de quem lucra com sua paciência.

Essa operação é especialmente funcional para o capitalismo contemporâneo porque a plataforma não promete estabilidade. Ela promete oportunidade. Não assegura direitos; vende flexibilidade. Não reconhece vínculo; celebra iniciativa. A pregação de que cada pessoa colherá exatamente aquilo que plantar se encaixa nesse vocabulário como uma luva. O entregador que não consegue fechar as contas é estimulado a pedalar mais, aceitar corridas piores, trabalhar em dias de descanso e atribuir a própria exaustão a um déficit de vontade. A empresa obtém mais trabalho; a ideologia impede que o conflito seja nomeado.

O espetáculo não elimina a miséria, apenas a torna edificante

Guy Debord mostrou que a sociedade do espetáculo não se resume à televisão ou à publicidade: ela é uma forma de relação social mediada por imagens. Nas redes, o trabalhador precarizado recebe uma sequência quase infinita de vídeos de superação. Há o empreendedor que começou sem nada, o influenciador que ensina a multiplicar renda, o pastor que associa vitória financeira à obediência, o coach que transforma pobreza em bloqueio emocional. A desigualdade material é convertida em conteúdo motivacional.

Essa indústria da esperança individual não precisa negar que a vida está difícil. Pelo contrário, ela explora a dificuldade. Quanto maior a angústia, mais rentável se torna a promessa de uma saída particular. O espetáculo oferece testemunhos de exceção no lugar de direitos universais. Mostra alguém que conseguiu e oculta as estruturas que impedem a maioria de conseguir. Assim, a sobrevivência de uma pessoa vira argumento contra a transformação da vida de todas.

O bolsonarismo soube operar nesse campo ao reunir moralismo religioso, ressentimento social, culto da violência e defesa econômica dos interesses empresariais. Seu discurso se apresentava como defesa da família, da liberdade e de Deus, mas sua política concreta favorecia a precarização, hostilizava organizações populares e tratava direitos trabalhistas como entraves. Não há contradição acidental entre esse moralismo e o neoliberalismo. A família endividada, isolada e aterrorizada procura proteção; a extrema direita lhe oferece pertencimento, inimigos visíveis e uma explicação moral para sofrimentos produzidos pela ordem econômica.

O breque começa quando a dor deixa de ser culpa

Por isso, o sentido mais importante de uma paralisação de entregadores não está apenas na interrupção temporária das entregas. Está no gesto de romper o isolamento. Quando trabalhadores que o aplicativo apresenta como concorrentes entre si param juntos, eles desmentem a ficção de que cada um é uma empresa independente. A fome de um, o bloqueio de outro, o acidente de um terceiro e a queda generalizada das remunerações passam a aparecer como partes de uma mesma relação de classe.

Isso não exige que o trabalhador abandone sua fé. Exige algo mais difícil e mais transformador: recusar que a fé seja usada como substituta de justiça. Orar por proteção no trânsito pode coexistir com exigir seguro, remuneração justa, transparência algorítmica e direitos. Agradecer pela vida não obriga ninguém a agradecer à empresa que lucra sem assumir os riscos do trabalho. Cuidar da família não significa aceitar uma jornada que destrói o corpo e rouba o tempo de convivência familiar.

Depois de enxergar o ópio do povo em funcionamento, o leitor talvez deixe de perguntar por que tanta gente precisa de consolo e passe a perguntar quem fabrica, todos os dias, a realidade que exige esse consolo. Essa mudança desloca a culpa do indivíduo para a estrutura, mas não termina na denúncia. Ela abre espaço para reconhecer no colega de trabalho não um concorrente moralmente fracassado, e sim alguém submetido à mesma engrenagem. Onde antes havia resignação solitária, pode começar a existir organização.