Sou socialista. A frase não é uma confissão de gosto, uma preferência cultural ou uma senha para ingressar numa tribo política. É uma tese sobre a sociedade e uma posição diante do conflito que organiza o capitalismo: de um lado, a propriedade privada dos meios de produção e a necessidade de transformar tudo em mercadoria; de outro, a vida concreta de quem trabalha, produz riqueza e não decide o destino dela. Dizer que sou socialista significa reconhecer que a desigualdade não nasce principalmente de falhas individuais, de escolhas ruins ou de uma suposta falta de esforço. Ela é produzida por uma forma histórica de organizar o trabalho, o Estado, a tecnologia e o acesso aos bens necessários à existência.
Essa posição também implica recusar a falsa neutralidade que costuma cercar a palavra socialismo. O discurso dominante apresenta o capitalismo como o estado natural das coisas e o socialismo como uma excentricidade ideológica. Mas natural é aquilo que não precisa ser explicado. O capitalismo, ao contrário, depende de leis, tribunais, polícias, contratos, bancos, publicidade, plataformas e instituições que protegem a propriedade e garantem a reprodução da exploração. O sistema não paira acima da política: ele é uma determinada política econômica e jurídica, sustentada por relações de poder. Sou socialista porque não aceito que a defesa de privilégios privados seja chamada de realismo, enquanto a defesa da vida coletiva seja tratada como utopia.
Sou socialista porque a exploração não é um acidente
Para Marx, o trabalhador vende sua força de trabalho porque não possui os meios necessários para produzir autonomamente. O salário aparece como pagamento justo por uma jornada, mas a relação esconde uma assimetria decisiva: durante o trabalho, o empregado produz um valor maior do que aquele que recebe. A diferença é apropriada pelo proprietário como mais-valia. Não se trata de uma denúncia moral contra empresários individualmente maus, embora a violência empresarial exista. Trata-se da própria lógica de um sistema em que a produção precisa resultar em valorização do capital.
Essa lógica aparece tanto na fábrica quanto no escritório, na escola privada, no comércio e no aplicativo. O entregador por aplicativo não é simplesmente alguém que escolheu flexibilidade. Ele dispõe de uma motocicleta, de um celular, de seu tempo e de sua capacidade física, mas não controla a plataforma que distribui pedidos, define remunerações, calcula rotas e pode bloqueá-lo. O risco da atividade é deslocado para o trabalhador: combustível, manutenção, acidentes, doença, períodos sem chamada e ausência de proteção social recaem sobre ele. A empresa, por sua vez, preserva o comando sobre o processo de trabalho sem assumir integralmente a figura tradicional do empregador.
No call center, o trabalhador também não vende apenas horas. Vende voz, disponibilidade emocional, capacidade de suportar agressões e obediência a um roteiro. Cada pausa pode ser monitorada; cada atendimento pode ser convertido em indicador; cada desvio do script pode ameaçar a permanência no posto. O professor submetido à produtividade acadêmica enfrenta mecanismo semelhante quando a qualidade do ensino é reduzida a metas, formulários, publicações e avaliações. Em todos esses casos, o indivíduo é responsabilizado por resultados cuja determinação depende de estruturas que ele não controla.
O socialismo começa ao tornar visível essa relação. Não basta dizer que o entregador, o professor ou o atendente precisam se qualificar mais. A pergunta decisiva é quem possui a infraestrutura, quem define as regras, quem fica com o excedente e quem arca com o custo do fracasso. A meritocracia transforma uma relação social em julgamento individual: se alguns acumulam e outros se endividam, os vencedores aparecem como talentosos e os vencidos como culpados. Sou socialista porque recuso essa moralização da desigualdade.
Ser socialista é disputar o sentido da liberdade
O liberalismo costuma identificar liberdade com a possibilidade formal de escolher entre mercadorias, empregos e contratos. Essa liberdade é apresentada como universal, embora as condições materiais para exercê-la sejam profundamente desiguais. O trabalhador pode, em tese, recusar um emprego, mas precisa pagar aluguel, comprar comida e sustentar a família. A escolha entre aceitar uma jornada degradante e ficar sem renda não é equivalente à escolha de um proprietário que decide onde investir seu patrimônio.
A liberdade socialista não elimina a autonomia individual; ela procura criar as condições materiais para que a autonomia deixe de ser privilégio. Uma pessoa submetida à fome, à dívida ou ao medo do despejo não é plenamente livre apenas porque pode assinar um contrato. A liberdade exige tempo, moradia, saúde, educação, transporte, acesso à cultura e participação real nas decisões que organizam a produção. Exige também que o trabalho não seja uma forma de chantagem permanente.
É por isso que a defesa socialista da igualdade não significa desejar que todos tenham vidas idênticas. Significa combater a concentração de poder que transforma diferenças de riqueza em diferenças de comando. A propriedade de uma grande plataforma não é apenas um patrimônio privado: ela determina como milhões trabalham, circulam, consomem e são avaliados. Um banco não apenas oferece crédito: participa da administração social por meio da dívida. Uma empresa de comunicação não apenas vende conteúdo: ajuda a definir o que aparece como normal, urgente e desejável.
Guy Debord chamou de sociedade do espetáculo uma forma de vida em que a relação social entre pessoas é mediada por imagens e mercadorias. O espetáculo não é apenas televisão ou publicidade; é a transformação da experiência coletiva em representação consumível. O trabalhador precarizado pode ser incentivado a se apresentar como empreendedor, o desempregado como alguém em transição e o endividado como consumidor aspiracional. A imagem de autonomia ocupa o lugar da autonomia efetiva. Sou socialista porque não confundo a aparência de escolha produzida pelo mercado com poder real sobre a própria vida.
O Estado não está fora da luta de classes
Há uma caricatura segundo a qual o socialista deseja um Estado ilimitado, enquanto o mercado representaria a liberdade. Essa oposição ignora que o mercado depende de uma ordem estatal. É o Estado que garante a propriedade, reconhece contratos, organiza a moeda, protege patentes, regula a circulação e define as condições jurídicas de contratação. Quando concede benefícios a grandes empresas, socorre instituições financeiras ou reduz direitos trabalhistas em nome da competitividade, o Estado não está ausente: está intervindo em favor de uma determinada classe.
A contribuição de Alysson Mascaro ajuda a compreender esse ponto. O Estado capitalista não é simplesmente um instrumento pessoal que um empresário aciona quando quer, nem uma instituição neutra que paira acima das classes. Sua forma jurídica separa os indivíduos como sujeitos livres e iguais perante a lei, enquanto a economia os reúne em posições profundamente desiguais. Essa igualdade formal é necessária para que a compra e a venda da força de trabalho pareçam relações entre partes equivalentes. O trabalhador e o proprietário assinam um contrato como cidadãos livres, embora apenas um deles controle os meios de produção.
Isso não torna inúteis as disputas por direitos, políticas públicas ou eleições. Ao contrário, torna essas disputas mais importantes e mais difíceis. A previdência, a saúde pública, a escola, a legislação trabalhista e o salário mínimo podem reduzir a violência do capital e ampliar a capacidade de organização dos trabalhadores. Mas nenhuma dessas conquistas, isoladamente, elimina a estrutura que permite ao capital decidir o que será produzido, onde será investido e quem poderá viver com segurança. Sou socialista porque defendo reformas que protejam a classe trabalhadora sem transformar sua administração provisória em horizonte final.
A austeridade revela a seletividade dessa suposta neutralidade. Quando se afirma que não há recursos para serviços públicos, a restrição quase sempre é apresentada como necessidade técnica. Ao mesmo tempo, juros, privilégios patrimoniais e benefícios econômicos recebem tratamento político, não natural. A dívida pública pode ser usada para subordinar o orçamento aos interesses financeiros, enquanto o gasto social é tratado como desperdício. O problema não é apenas quanto o Estado arrecada, mas quem define suas prioridades e quem se beneficia delas.
A técnica não é neutra quando sua propriedade é privada
Ser socialista hoje exige enfrentar a ideologia tecnológica. Plataformas digitais são descritas como ferramentas neutras que apenas conectam oferta e demanda. Porém, o algoritmo de trabalho organiza jornadas, distribui oportunidades, mede desempenho e impõe punições. Para o entregador, a opacidade do sistema significa não saber por que recebeu menos pedidos, por que sua taxa caiu ou por que sua conta foi bloqueada. O algoritmo não substitui o comando patronal; muitas vezes, torna esse comando menos visível e mais difícil de contestar.
Heidegger compreendeu a técnica moderna como uma forma de revelar o mundo que reduz os seres a recursos disponíveis. A leitura não deve ser transformada em condenação abstrata de toda tecnologia. O problema é a forma social em que a tecnologia é incorporada. No capitalismo, o aplicativo pode converter o tempo de espera em tempo sem valor para a empresa, embora seja tempo de vida perdido pelo trabalhador. A inteligência artificial pode ser apresentada como inovação inevitável enquanto serve para dispensar funcionários, intensificar controles e transferir decisões para sistemas que ninguém consegue responsabilizar.
O trabalhador de plataforma é avaliado por estrelas, taxas e tempos; o professor, por métricas de produtividade; o atendente, por indicadores de desempenho; o consumidor, por seu histórico de navegação e capacidade de pagamento. A avaliação algorítmica transforma comportamentos complexos em números administráveis. O que não pode ser medido tende a ser desconsiderado. O sujeito aprende a antecipar a avaliação e a corrigir a si mesmo antes que a ordem apareça. A vigilância deixa de depender de um supervisor permanentemente visível porque o próprio trabalhador passa a administrar sua conduta conforme os critérios da plataforma.
Essa é uma forma de alienação digital. A pessoa produz dados, mas não controla seu uso; participa de uma rede, mas não decide suas regras; oferece criatividade, atenção e disponibilidade, mas não possui a infraestrutura que captura esses elementos. A promessa de conexão esconde uma relação de dependência. Sou socialista porque não aceito que a eficiência técnica seja medida apenas pelo lucro privado. Uma tecnologia socialmente racional deveria reduzir o tempo de trabalho, ampliar o acesso aos bens e fortalecer a autonomia, não aumentar a submissão sob uma aparência de conveniência.
O socialismo não é nostalgia nem culto ao Estado
Quando a palavra socialismo aparece, seus adversários frequentemente respondem com imagens de escassez, autoritarismo e burocracia. Essas experiências históricas precisam ser estudadas sem propaganda e sem idealização. Um projeto socialista não pode ignorar os perigos da concentração de poder, da censura, da burocratização e da separação entre dirigentes e trabalhadores. Mas reconhecer esses problemas não obriga ninguém a aceitar a falsa conclusão de que o capitalismo é a única alternativa possível.
O capitalismo real também produz formas massivas de autoritarismo, embora as apresente como decisões econômicas. O trabalhador demitido por um sistema automático, a família despejada por não conseguir pagar o aluguel e o entregador bloqueado sem explicação enfrentam poderes que não elegeram e não podem controlar. A fome, a violência policial, o abandono estatal e a precarização não são sinais de liberdade econômica realizada. São formas de coerção social compatíveis com a propriedade privada e frequentemente protegidas por instituições democráticas reduzidas ao procedimento eleitoral.
O socialismo defendido aqui não é a substituição de proprietários privados por uma burocracia intocável. É a ampliação do controle democrático sobre os meios de produzir e reproduzir a vida. Isso envolve cooperativas, empresas públicas submetidas a controle social, planejamento democrático, serviços universais, redução da jornada e organização sindical. Envolve também democratizar os dados e as infraestruturas digitais. Uma cooperativa de entregadores, por exemplo, não se torna socialista apenas por trocar o nome da empresa: precisa garantir que os trabalhadores decidam sobre remuneração, distribuição das tarefas, segurança e destino do excedente.
A questão não é escolher entre mercado perfeito e Estado perfeito, porque nenhum dos dois existe. A questão é saber quais relações sociais devem orientar a produção. Enquanto o lucro for o critério dominante, até uma política pública será pressionada a funcionar como negócio, e até uma inovação destinada a aliviar o trabalho poderá ser usada para intensificá-lo. A democracia econômica é o conteúdo que falta à democracia política quando as decisões fundamentais permanecem concentradas nos proprietários do capital.
Sou socialista contra a extrema direita e contra a resignação
O bolsonarismo encontrou terreno fértil numa sociedade atravessada por insegurança, endividamento, desemprego e ressentimento. Em vez de enfrentar as estruturas que produzem essa instabilidade, ofereceu inimigos culturais, culto à autoridade e a promessa de restaurar uma ordem imaginária. A extrema direita transforma o trabalhador abandonado em consumidor de guerra cultural. Sua indignação é desviada para professores, mulheres, pessoas negras, imigrantes, militantes de esquerda e minorias sexuais, enquanto proprietários e rentistas permanecem protegidos.
Essa operação depende de uma psicologia das multidões em que a adesão afetiva pode substituir a análise das causas. Le Bon observou como a multidão pode ser mobilizada por imagens simples, afirmações repetidas e identificação com uma figura de comando. A crítica socialista precisa usar esse conceito com cuidado, sem tratar o povo como massa irracional. O ponto é entender como a insegurança material e a circulação industrial de mensagens podem produzir identificação política contra os próprios interesses. O trabalhador que culpa o colega pobre pela falta de emprego está reagindo a uma narrativa construída para ocultar quem controla a riqueza.
Ser socialista é disputar essa interpretação do sofrimento. Não basta denunciar o preconceito individual do bolsonarista; é preciso mostrar como a precarização cria disponibilidade para discursos autoritários e como a elite econômica se beneficia dessa guerra entre os de baixo. A luta contra o fascismo não pode ser reduzida à defesa abstrata das instituições. Ela precisa enfrentar o desemprego, a fome, a dívida, a violência e a ausência de perspectivas que alimentam a promessa autoritária de proteção.
Isso também exige combater a resignação progressista que aceita o capitalismo como mal necessário e limita a política à administração do possível. Quando a esquerda abandona a transformação social e fala apenas a linguagem da gestão, deixa intacto o imaginário de que nada pode mudar. O socialismo devolve nome e direção ao conflito: não se trata apenas de melhorar indicadores, mas de retirar das mãos privadas o poder de decidir sobre a vida coletiva.
Uma declaração de posição, não uma identidade decorativa
Dizer sou socialista não significa afirmar que todas as respostas estão prontas ou que toda política feita em nome do socialismo foi justa. Significa adotar um critério para julgar instituições, reformas e tecnologias: elas ampliam ou reduzem o poder de quem trabalha? Diminuem ou aprofundam a dependência? Socializam a riqueza e o conhecimento ou concentram ambos? Essa posição permite criticar tanto a exploração empresarial quanto a burocracia que se apropria da linguagem emancipatória para conservar privilégios.
O socialismo também não começa apenas depois de uma ruptura histórica. Ele está nas greves que recusam metas abusivas, nos entregadores que organizam o breque dos apps, nos professores que defendem a escola pública, nos trabalhadores que lutam por redução da jornada, nas comunidades que constroem redes de cuidado e nas cooperativas que tentam subordinar a produção às necessidades de quem participa dela. Essas experiências não são automaticamente socialistas, mas carregam uma pergunta socialista: por que aqueles que fazem o trabalho não podem decidir sobre seus frutos e suas condições?
A resposta capitalista é sempre a mesma, mesmo quando se apresenta com vocabulário novo: o trabalhador pode escolher, desde que aceite as regras que não ajudou a formular. Pode empreender, desde que assuma o risco. Pode usar a tecnologia, desde que entregue seus dados. Pode participar do mercado, desde que transforme sua sobrevivência em oportunidade de negócio. Pode ser livre, desde que não questione a propriedade que organiza sua falta de liberdade.
Sou socialista porque essa promessa não me basta. Não quero apenas uma distribuição menos cruel das perdas produzidas pela acumulação. Quero uma sociedade em que a riqueza produzida coletivamente seja governada coletivamente; em que a tecnologia reduza a servidão em vez de aperfeiçoá-la; em que o Estado não proteja privilégios sob a aparência de neutralidade; em que o trabalho deixe de ser uma atividade subordinada à sobrevivência e possa se tornar parte consciente da vida comum. A palavra é uma tese porque aponta para essa transformação: a liberdade só será real quando deixar de depender da pobreza de muitos e do poder de poucos.
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