Em julho de 2024, o governo de Tarcísio de Freitas concluiu a privatização da Sabesp, companhia responsável pelo abastecimento de água e pelo esgotamento sanitário em grande parte de São Paulo. A operação foi apresentada sob o vocabulário habitual da eficiência: mais investimento, universalização do saneamento, desconto nas tarifas, modernização da gestão. A propaganda não precisou negar que água é indispensável à vida; fez algo politicamente mais eficaz, prometeu que o mercado cuidaria dela melhor que o poder público.

O problema não está em imaginar que empresas estatais sejam naturalmente virtuosas, imunes ao clientelismo, à burocracia ou à má gestão. O problema é perguntar a que finalidade uma companhia passa a responder quando seu controle é submetido à lógica privada. Uma rede de água não é uma loja que pode escolher o bairro, o horário e o consumidor mais lucrativo. Ela exige planejamento de décadas, manutenção pouco visível, reserva para crises, atendimento em áreas pobres e investimento cujo retorno não cabe na contabilidade trimestral. Quando essa infraestrutura é reorganizada para remunerar capital, a necessidade coletiva permanece; o critério que decide sobre ela muda.

A venda não termina no pregão da Bolsa

A cena oficial da privatização parece concentrada no pregão: ações negociadas, autoridades comemorando, bancos organizando a operação e investidores calculando o preço. Mas a venda produz efeitos muito depois da cerimônia. O saneamento é uma atividade que cobra tarifa de milhões de famílias e movimenta contratos, obras, fornecedores, tecnologia e mão de obra. Transformar a Sabesp em objeto prioritário de rentabilidade significa introduzir, em toda essa cadeia, a pergunta que o serviço público deveria subordinar: onde cortar custos, quais investimentos aceleram retorno, como ampliar receitas, que atividades podem ser terceirizadas.

É por isso que o debate sobre privatização não pode ficar preso à propriedade formal, como se bastasse comparar um carimbo estatal a um logotipo empresarial. A forma jurídica importa justamente porque organiza poderes materiais. Alysson Mascaro insiste que o Estado capitalista não é um árbitro pairando acima das classes: sua própria estrutura assegura as condições de reprodução do capital. No caso paulista, o Estado não desapareceu diante do mercado. Ele preparou a operação, desenhou regras, ofereceu garantias e apresentou a transferência como interesse geral. A privatização é uma decisão política que usa o aparelho estatal para ampliar uma fronteira de acumulação privada.

Quem mora numa periferia onde a água chega com pressão irregular conhece a distância entre essa linguagem e a experiência concreta. Para uma família que já escolhe entre a conta de luz, o gás e o mercado, a tarifa não é um indicador técnico. É uma parcela do orçamento doméstico; é a ameaça de cobrança, de negociação impossível, de endividamento. Para quem vive em ocupação, favela ou assentamento precário, o problema é ainda mais brutal: o acesso frequentemente depende de uma regularização urbana que a própria desigualdade capitalista bloqueia. A empresa pode anunciar metas de cobertura; a vida não cabe tão facilmente na planilha de risco.

O trabalhador da água entra na conta como custo

A privatização também costuma esconder aqueles que fazem a água chegar à torneira. Há o técnico que percorre a cidade para localizar vazamentos, a trabalhadora do atendimento que recebe a revolta de quem ficou sem abastecimento, o operador que monitora estação de tratamento, a equipe que desce à rua durante uma chuva forte ou uma quebra de adutora. Esse trabalho não é acessório à infraestrutura: é a infraestrutura em movimento. Sem ele, canos, reservatórios e bombas são apenas capital imobilizado.

Mas, sob a gestão orientada pelo lucro, o trabalhador aparece antes de tudo como despesa a controlar. A linguagem empresarial chama isso de ganho de produtividade, otimização de equipes, revisão de processos, contratação de parceiros. Na prática, pode significar menos gente para uma área maior, metas mais intensas, terceirização, rotatividade e perda de conhecimento acumulado. Não é preciso supor uma demissão em massa imediata para entender a direção do processo. A pressão por margem opera diariamente: no tempo dado para atender uma ocorrência, na equipe reduzida, no contrato rebaixado, no salário de quem faz trabalho equivalente por uma terceirizada.

Marx chamou de mais-valia a parcela de valor produzida pelo trabalho e apropriada pelo proprietário do capital. Na água e no saneamento, essa apropriação não ocorre numa fábrica isolada, diante de uma máquina facilmente reconhecível. Ela se espalha pela tarifa paga pela população, pelos contratos de manutenção, pelos juros que pesam sobre a empresa e pela compressão das condições de trabalho. O trabalhador que repara uma rede e a usuária que paga a conta são postos em lados aparentemente separados, embora ambos estejam submetidos à mesma organização: um vê seu trabalho convertido em custo; a outra vê uma necessidade vital convertida em receita.

O desconto como espetáculo da mercadoria

Os defensores da privatização respondem que contratos podem prever tarifas menores, investimentos obrigatórios e metas de universalização. Podem, e é justamente isso que revela o impasse. Se é necessário cercar a empresa privada de obrigações, subsídios, fiscalizações e salvaguardas para que ela forneça água, então não se demonstrou a superioridade do mercado; demonstrou-se que o lucro, deixado à própria lógica, não organiza espontaneamente o direito social. A questão passa a ser quem fiscaliza, com que força, sob quais sanções e contra interesses econômicos de que tamanho.

Guy Debord descreveu uma sociedade em que a relação social se apresenta como imagem. A privatização contemporânea sabe trabalhar com imagens: a campainha da Bolsa, o aplicativo para pagar a conta, a promessa de tarifa reduzida, os vídeos de obras e o discurso de que o Estado finalmente se tornou "moderno". A imagem do consumidor satisfeito encobre o cidadão despojado de poder sobre um bem comum. O usuário pode reclamar de uma fatura, mas não decide a estratégia da companhia; pode receber uma comunicação digital, mas não delibera sobre o que fazer quando rentabilidade e atendimento universal entram em choque.

Isso é alienação em sentido rigoroso. A população produz e sustenta materialmente a cidade, paga pelos seus serviços e depende da rede que a mantém viva, mas vê essa rede lhe aparecer como uma força externa, administrada por conselhos, acionistas, contratos e índices financeiros. A água corre para a torneira como se fosse uma mercadoria naturalmente dotada de preço, quando é resultado de trabalho coletivo, de conhecimento acumulado, de infraestrutura construída socialmente e de recursos naturais que nenhuma empresa criou.

Enxergar a água como campo de luta

O caso da Sabesp deve impedir uma ilusão conveniente: a de que privatização é um acontecimento técnico encerrado numa assinatura. Ela é uma disputa permanente sobre quem manda nas condições materiais da vida. Depois da venda, será preciso olhar menos para a publicidade institucional e mais para os reajustes, os contratos de terceirização, a qualidade do atendimento nos bairros pobres, as condições das equipes de campo e a capacidade real de municípios e usuários intervirem nas decisões. Não para esperar passivamente o fracasso e dizer que ele era previsível, mas para recusar que qualquer deterioração seja tratada como fatalidade administrativa.

Enxergar isso modifica também a pergunta cotidiana diante de uma conta alta ou de uma torneira seca. Não se trata apenas de exigir que uma empresa "faça sua parte", como se o conflito fosse um defeito ocasional de atendimento. Trata-se de reconhecer que a forma de gestão define o que conta como prioridade. Quando a água é governada como ativo, o direito à água depende de ser compatível com a remuneração do capital. A crítica à privatização começa quando essa compatibilidade deixa de parecer natural — e quando o serviço público volta a ser entendido não como favor do Estado nem oportunidade de negócio, mas como terreno de controle coletivo sobre aquilo sem o qual ninguém vive.