Quando as Americanas revelaram, em janeiro de 2023, inconsistências contábeis ligadas a operações de financiamento com fornecedores, a notícia apareceu como um escândalo corporativo: números escondidos, executivos em disputa, bancos cobrando, credores negociando. Era o vocabulário adequado para preservar a distância entre a crise e quem trabalha. Afinal, uma dívida registrada — ou ocultada — nos balanços de uma grande varejista parece assunto de acionista, advogado empresarial e mesa de operações. Mas a recuperação judicial da companhia expôs precisamente o contrário. Uma massa de direitos financeiros, expectativas de pagamento e papéis negociáveis só se sustenta porque há gente vendendo, transportando, armazenando, atendendo, produzindo e pagando por mercadorias. Quando essa engrenagem financeira entra em colapso, a conta desce da tela do mercado para o balcão, o galpão, o call center e a pequena fábrica.

Não se trata de repetir a definição de capital fictício, mas de encarar sua função social. Ele permite que uma expectativa de renda futura seja tratada no presente como riqueza disponível, revendida, garantida e alavancada. Essa antecipação não é um truque marginal do capitalismo brasileiro nem se reduz a uma fraude particular. É uma forma normal da dominação contemporânea: a empresa deixa de ser julgada prioritariamente pelo que produz, pelo emprego que preserva ou pela utilidade do que distribui; ela passa a ser examinada por sua capacidade de honrar fluxos financeiros. A crise das Americanas tornou visível o momento em que essa promessa encontra seus limites. E, como sempre, o mercado procura salvar o crédito antes de salvar as condições de vida que tornavam o crédito possível.

A recuperação judicial não recupera igualmente todos os envolvidos

A recuperação judicial é apresentada como instrumento de preservação da empresa. Em alguma medida, pode impedir uma liquidação imediata e manter atividades em funcionamento. Mas é preciso perguntar: preservar o quê, e para quem? No caso Americanas, o centro da disputa foi a reordenação das obrigações perante bancos, detentores de títulos, investidores e grandes credores. A linguagem jurídica transforma relações sociais em classes de crédito, garantias, prazos, deságios e prioridades. Alysson Mascaro insiste que o direito não é um árbitro exterior ao capitalismo: sua forma abstrata organiza sujeitos formalmente iguais em uma sociedade materialmente desigual. Na recuperação, essa abstração aparece com nitidez. O fornecedor pequeno, que depende de receber para repor estoque e pagar funcionários, entra no mesmo universo jurídico dos grandes credores, mas não dispõe do mesmo fôlego, dos mesmos advogados nem da mesma capacidade de sobreviver à espera.

O trabalhador tampouco vive a crise como uma linha numa planilha. Para quem repõe mercadoria em loja, separa pedidos num centro de distribuição ou atende clientes pressionados por uma entrega atrasada, a palavra “reestruturação” costuma significar equipes menores, metas mais duras, vigilância sobre o tempo e medo de demissão. Mesmo quando o emprego não desaparece, sua qualidade é corroída. A empresa em dificuldade precisa demonstrar eficiência ao sistema que a financia; eficiência, no capitalismo, frequentemente quer dizer extrair mais trabalho por menos custo. A jornada é comprimida, a função se multiplica, o atendimento é automatizado, a cobrança de produtividade se intensifica. O capital financeiro não precisa entrar no local de trabalho vestido de banqueiro. Ele se manifesta como meta impossível, corte de pessoal e ordem para fazer mais com menos.

O pequeno fornecedor ocupa uma posição especialmente cruel. Uma confecção, uma fábrica de material escolar, uma indústria de brinquedos ou uma empresa de limpeza pode organizar sua produção a partir de encomendas de uma grande rede. Quando o pagamento é adiado ou renegociado, não é apenas uma receita que some: é o salário de seus empregados, a matéria-prima comprada a prazo, o aluguel do galpão, o imposto vencendo. A grande corporação consegue converter sua crise em cadeia de inadimplência; o risco, que o discurso empresarial dizia estar tecnicamente administrado, reaparece pulverizado sobre quem possui menos capital. A promessa financeira feita no topo reorganiza a sobrevivência na base.

O crédito parece autonomia até a hora da cobrança

A operação financeira associada à crise das Americanas envolvia, entre outros mecanismos, o chamado risco sacado: uma forma de antecipação de pagamento ao fornecedor, com participação bancária, que pode aparentar normalidade enquanto os compromissos circulam sem atrito. Não é necessário dominar a engenharia contábil do caso para perceber sua verdade política. O capitalismo brasileiro depende cada vez mais de adiantar receitas, empurrar custos e transformar relações comerciais em ativos financeiros. O fornecedor não espera pela venda final; o banco não espera pelo vencimento; a empresa não precisa desembolsar imediatamente; todos parecem ganhar velocidade. Mas a velocidade é comprada com uma rede de obrigações que exige, ao fim, extração real de valor.

Marx mostrou que o capital tende a apresentar-se como valor que se valoriza por si mesmo, apagando o trabalho que lhe dá substância. O capital portador de juros é a forma mais sedutora dessa aparência: dinheiro parece gerar mais dinheiro pelo simples decurso do tempo. Na crise, a ilusão não desaparece; ela cobra disciplina. Se a promessa de retorno não se realiza no nível esperado, não são os papéis que trabalham mais horas. São pessoas. O gerente aperta a equipe; a terceirizada reduz custos; o entregador aceita mais uma corrida; a fornecedora atrasa o pagamento de quem costura, embala ou carrega. A abstração financeira recupera seu chão material por meio de uma ofensiva sobre o trabalho.

É por isso que o capital fictício não é um assunto distante do entregador de aplicativo. A mesma racionalidade opera nas plataformas que vendem conveniência a consumidores e prometem escala a investidores. A entrega exibida no celular como gesto simples — comprar, clicar, receber — reúne uma cadeia de trabalho fragmentada: restaurante, operador de estoque, atendimento, motofretista, sistema de pagamento, publicidade e coleta de dados. A plataforma mede cada segundo porque tempo convertido em dado pode ser convertido em cálculo de rentabilidade. O entregador é tratado como empreendedor justamente para que a empresa possa fugir da responsabilidade sobre a reprodução de sua vida. A bicicleta, o celular, a gasolina, a manutenção e o risco do acidente aparecem como custos individuais, enquanto a empresa se apresenta aos financiadores como máquina escalável.

Debord ajuda a compreender a imagem produzida por esse processo. A tela exibe a empresa como marca, inovação, aplicativo eficiente, ação oscilando em tempo real, executivo anunciando um plano. O espetáculo separa a aparência financeira da produção social que a sustenta. O consumidor vê desconto; o investidor vê oportunidade; o trabalhador vê a próxima meta. Raramente se vê a unidade entre essas posições. A mercadoria chega como se tivesse nascido da logística automatizada, e a crise surge como se fosse uma falha excepcional de governança. Mas a separação é a própria ideologia: ela impede que se enxergue o conflito entre a exigência de remuneração financeira e a necessidade de trabalho digno, salário, estabilidade e serviços públicos.

O Estado garante a abstração e socializa a austeridade

O mecanismo não se restringe às empresas privadas. A dívida pública também organiza um vasto campo de direitos sobre receitas futuras. Seus detentores recebem juros garantidos pela capacidade estatal de arrecadar e priorizar pagamentos. Isso não quer dizer que toda dívida seja ilegítima ou que títulos públicos possam simplesmente ser ignorados sem consequências. Quer dizer que a discussão sobre orçamento é atravessada por uma hierarquia de classe. Quando se fala em responsabilidade fiscal, quase sempre se exige que professoras, servidores da saúde, estudantes e usuários do transporte aceitem a contenção; raramente se formula com a mesma dureza a responsabilidade dos rentistas diante da riqueza que reivindicam.

A professora de uma escola pública conhece essa hierarquia sem precisar usar o vocabulário da finança. Ela a encontra na sala superlotada, na falta de equipe de apoio, no contrato precário, na plataforma que lhe impõe registros intermináveis e no salário tratado como despesa a conter. Enquanto isso, o debate público apresenta o orçamento como uma casa que não pode gastar mais do que recebe, escondendo que toda escolha fiscal define quem terá renda assegurada e quem suportará a escassez. O capital fictício é politicamente poderoso porque seus direitos aparecem como compromissos objetivos, enquanto os direitos sociais são descritos como demanda, gasto ou privilégio.

O bolsonarismo soube explorar o ressentimento produzido por essa ordem sem tocar em sua causa. Transformou a precarização em sermão moral: quem sofre deve empreender, trabalhar mais, desconfiar do sindicato e culpar o Estado, o pobre ou algum inimigo cultural. Sua retórica antissistema nunca foi uma crítica consequente ao poder financeiro; foi uma operação para desviar a raiva contra alvos vulneráveis e proteger a classe dominante. O fascismo prospera quando a insegurança material é convertida em guerra moral. Em vez de perguntar por que uma rede de varejo, um banco ou uma plataforma podem deslocar riscos para milhões, induz-se o trabalhador a disputar migalhas com outro trabalhador.

Desfazer a promessa de que o mercado se basta

A lição do caso Americanas não é que bastaria moralizar executivos, aperfeiçoar auditorias ou tornar balanços mais transparentes. Essas medidas podem ser necessárias, mas não atingem o núcleo da questão. A transparência de uma máquina de exploração não elimina sua finalidade. Enquanto a sobrevivência das empresas estiver subordinada à valorização de títulos e à remuneração de credores, a produção será organizada contra quem trabalha. Cada crise será apresentada como acidente técnico, e cada “solução” pedirá sacrifícios de baixo para cima.

Combater essa lógica exige recolocar o trabalho no centro do que conta como riqueza. Isso significa defender emprego estável, direitos trabalhistas para quem é falsamente chamado de parceiro, proteção efetiva a pequenos fornecedores, controle público sobre setores estratégicos e orçamento orientado por necessidades sociais, não pela chantagem permanente dos mercados. Significa também recusar a fantasia meritocrática segundo a qual o investidor merece retorno porque arriscou, enquanto o trabalhador deve aceitar a insegurança porque lhe faltou esforço. O risco decisivo nunca foi individual: ele é produzido por uma economia em que poucos acumulam direitos sobre o futuro e muitos são obrigados a pagar por eles no presente.

Nos balcões das Americanas, nas cozinhas que atendem aplicativos, nos call centers e nas escolas, o capital fictício deixa de parecer fictício. Seus efeitos são inteiramente reais: salário comprimido, jornada ampliada, fornecedor quebrado, serviço público mutilado, ansiedade convertida em método de gestão. A tarefa crítica é retirar dessa violência a máscara de inevitabilidade financeira. O futuro não pode continuar hipotecado para que uma minoria receba, hoje, a renda que o trabalho alheio ainda será forçado a produzir.