Na paralisação nacional dos entregadores de aplicativo, em abril de 2024, uma contradição ficou exposta diante das câmeras de celular: trabalhadores que passam o dia conectados às plataformas precisaram lutar para que sua existência fosse reconhecida dentro delas. A categoria reivindicava remuneração mínima por corrida, limites para as distâncias percorridas, mais transparência nos bloqueios e melhores condições de trabalho. Mas, além de parar motocicletas e bicicletas, entregadores tiveram de filmar piquetes, produzir vídeos, responder comentários, disputar a linguagem das redes e convencer jornalistas de que sua greve merecia notícia. Para o trabalhador plataformizado, até a capacidade de tornar visível sua exploração se converteu em trabalho.
É nesse terreno que a meritocracia da atenção revela seu custo material. Não se trata apenas da fantasia de que qualquer pessoa pode ficar famosa se for criativa e persistente. Trata-se de uma disciplina cotidiana: para ser ouvido, o indivíduo deve se tornar publicável; para ser publicável, deve aprender a performar uma vida que o algoritmo reconheça; para manter a audiência, deve transformar cada experiência — inclusive a humilhação, o acidente e a revolta — em conteúdo regular. A promessa de ascensão pela visibilidade captura a indignação social e a devolve como competição entre perfis.
O entregador que protesta também precisa alimentar a máquina
Uma greve deveria interromper o circuito normal do trabalho. Nas plataformas, porém, a interrupção só ganha força quando consegue circular nos mesmos dispositivos que ajudam a organizar a exploração. O entregador que publica um vídeo sobre uma tarifa insuficiente não está apenas relatando um fato. Ele precisa enquadrar a cena, falar num ritmo que retenha espectadores, escolher uma frase que sobreviva à rolagem automática e responder à desconfiança de quem nunca viveu de corrida. A plataforma que extrai valor de sua disponibilidade para entregar comida exige, indiretamente, uma nova disponibilidade para que ele prove que sua demanda é legítima.
Há uma brutal assimetria nesse jogo. Aplicativos dispõem de departamentos de comunicação, publicidade, dados sobre os usuários e instrumentos técnicos para modificar a circulação de informações. Podem anunciar programas, patrocinar influenciadores, oferecer cupons e associar sua marca à ideia de inovação urbana. Já o trabalhador depende de um celular, de uma conexão precária e do tempo arrancado ao descanso. Se um vídeo de denúncia alcança milhares de pessoas, parece que o mérito individual venceu. O que desaparece da cena é a rede de apoio que o compartilhou, o coletivo que construiu a pauta, a circunstância política que abriu espaço para sua circulação e, sobretudo, o mecanismo opaco que decidiu entregar aquele vídeo a mais telas.
A ideologia meritocrática opera precisamente por esse apagamento das condições. Ela converte uma decisão empresarial e técnica em julgamento moral. Quem apareceu teria sido mais autêntico, mais esforçado, mais interessante; quem permaneceu invisível seria responsável pela própria irrelevância. Assim, a desigualdade de alcance ganha a aparência de diferença de valor entre pessoas. O algoritmo não precisa declarar que protege o capital: basta organizar a visibilidade segundo métricas que favorecem retenção, publicidade, perfis já consolidados e conteúdo facilmente comercializável.
A exploração quer histórias individuais, não interesses comuns
O capitalismo de plataforma não vende somente entregas, corridas ou anúncios. Ele vende atenção organizada em dados. Cada pausa diante de um vídeo, cada compartilhamento e cada comentário são sinais que podem ser medidos, classificados e convertidos em valor para empresas que controlam a infraestrutura digital. O usuário imagina estar escolhendo livremente o que vê; a empresa administra uma arquitetura de escolhas cujo objetivo não é esclarecer a vida social, mas prolongar a permanência na tela e ampliar sua capacidade de monetização.
Guy Debord descreveu a sociedade do espetáculo como uma relação social mediada por imagens. Nas plataformas, essa mediação se tornou ainda mais íntima e veloz. O entregador não encontra apenas a representação publicitária de uma empresa; ele encontra uma multidão de vídeos que o convocam a pensar sua situação como destino particular. Há o entregador que “venceu” porque comprou uma moto nova, o criador que ensina a aumentar ganhos com estratégias individuais, o empreendedor que transforma a exaustão em exemplo de disciplina. Não é necessário que essas pessoas mintam sobre suas experiências. Basta que casos excepcionais sejam apresentados como receita geral para que a estrutura desapareça.
O conteúdo de superação é particularmente útil à ordem neoliberal porque substitui a pergunta sobre direitos pela pergunta sobre desempenho. Se há quem consiga ganhar mais, então o problema de quem ganha pouco parece ser planejamento, disposição ou carisma. A remuneração determinada unilateralmente, os custos de combustível e manutenção, o risco de acidentes, os bloqueios sem defesa efetiva e a ausência de proteção trabalhista passam ao fundo. O trabalhador é convidado a otimizar a si mesmo quando o que precisa ser transformado é a relação de poder que o subordina à plataforma.
A visibilidade do indivíduo pode funcionar como prova de que o sistema oferece chances; a invisibilidade coletiva revela que essas chances são a exceção necessária para legitimar a regra.
Marx mostrou que a exploração não depende de uma fraude moral praticada por um patrão cruel em cada encontro. Ela está inscrita na apropriação privada do trabalho social. A plataforma atualiza essa dinâmica ao apresentar-se como mera intermediária tecnológica, enquanto organiza preços, punições, acesso a tarefas e avaliações. A meritocracia da atenção acrescenta uma camada decisiva: faz parecer que a posição de cada trabalhador no espaço público resulta de sua capacidade pessoal de se comunicar, e não da concentração dos meios de circulação.
Quando a revolta vira conteúdo, a política perde tempo
Isso não significa desprezar vídeos de denúncia ou a comunicação produzida por trabalhadores. Ao contrário: nas greves dos entregadores, redes sociais foram instrumentos relevantes para convocar atos, expor abusos e furar o bloqueio de uma narrativa empresarial. O problema começa quando a política coletiva passa a ser medida exclusivamente pelo desempenho de um post. Uma mobilização pode ser justa e necessária mesmo sem se tornar tendência. Um trabalhador pode formular uma crítica decisiva sem ter rosto, iluminação ou a habilidade de transformar sofrimento em entretenimento.
A lógica das plataformas pressiona a revolta a caber em fragmentos emocionais. Indignação instantânea circula melhor do que organização paciente; uma briga isolada chama mais atenção do que a discussão sobre vínculo empregatício; o personagem individual rende mais do que a assembleia. A consequência é uma anomia social peculiar: todos recebem imagens contínuas de injustiça, mas poucos dispõem de tempo, estabilidade e espaços duradouros para ligar essas imagens a uma ação comum. Vê-se muito, entende-se pouco, organiza-se menos do que seria possível.
Também por isso o discurso reacionário encontra terreno fértil. Ele oferece culpados rápidos, frases de efeito e uma aparência de coragem para uma economia da atenção que recompensa conflito simplificado. A extrema direita brasileira aprendeu a explorar esse circuito: transforma ressentimento social em espetáculo, individualiza a culpa e protege as estruturas econômicas que produzem precariedade. Contra isso, não basta pedir que as pessoas consumam conteúdo “melhor”. É preciso questionar quem possui as plataformas, quais interesses definem sua arquitetura e por que a comunicação pública foi entregue a empresas cujo lucro depende da captura permanente de nossa atenção.
Enxergar a engrenagem devolve uma escolha política
Depois de enxergar essa engrenagem, o leitor pode abandonar uma culpa conveniente: não aparecer não é prova de falta de talento, e aparecer não é certificado de mérito. Quando um entregador viraliza ao denunciar uma corrida absurda, a pergunta não deve ser apenas se ele soube comunicar bem. Deve ser por que uma categoria inteira precisa mendigar alcance para exigir condições elementares de trabalho. Quando um influenciador apresenta riqueza como resultado puro de esforço, cabe perguntar quais capitais, relações, impulsionamentos e trabalhadores invisíveis sustentam aquela imagem.
Essa mudança de olhar não pede abstinência individual de tela nem nostalgia de um mundo sem tecnologia. Exige recusar a confusão entre alcance e verdade, entre engajamento e relevância política, entre fama e valor humano. A atenção pode servir à solidariedade quando deixa de ser tratada como troféu privado e passa a ser disputada como condição coletiva de fala. O entregador que parou em 2024 não precisava de aplauso algorítmico: precisava de direitos. A luta começa a sair do espetáculo quando essa diferença deixa de parecer banal.
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