O Concurso Público Nacional Unificado de 2024 foi anunciado como uma espécie de Enem dos concursos: uma porta de entrada mais ampla, nacionalizada e racional para o serviço público. A promessa tinha força porque tocava numa esperança material muito brasileira. Para quem vive de salário instável, de bico, de aplicativo ou de emprego terceirizado, passar num concurso não significa apenas realizar uma vocação; significa escapar, ainda que parcialmente, da chantagem cotidiana do mercado de trabalho. Mas a igualdade imaginada começa a ruir antes mesmo de o candidato sentar diante da prova. Ela ruía no edital, na inscrição digital, no tempo disponível para estudar, na segurança para interpretar uma questão e na familiaridade com uma linguagem que parece neutra apenas para quem cresceu dentro dela.

Dois trabalhadores podem ter recebido o mesmo link de inscrição e disputado a mesma vaga. Um deles aprendeu, desde cedo, a lidar com textos longos, a perguntar sem medo, a organizar cronogramas, a reconhecer o que uma banca considera uma resposta “adequada”. Teve casa com espaço e silêncio, adultos que sabiam navegar instituições, algum dinheiro para material, curso ou internet sem interrupção. O outro aprendeu a trabalhar cedo, a resolver urgências, a adaptar-se à falta de tempo e a não transformar dúvida em pergunta, porque perguntar em certos ambientes costuma ser punido como incapacidade. Quando o resultado separa os dois em aprovados e reprovados, a ideologia chama isso de esforço. A diferença, porém, estava sendo produzida muito antes da prova.

O edital não chega a uma sociedade vazia

É aqui que o capital cultural deixa de ser um verbete elegante sobre educação e se torna uma ferramenta para ler a violência ordinária da meritocracia. Pierre Bourdieu mostrou que a escola tende a reconhecer como talento individual disposições que são socialmente herdadas: modos de falar, repertórios, hábitos de estudo, relação com a autoridade e familiaridade com os códigos valorizados. Não se trata de dizer que diploma, leitura ou domínio da língua não importam. Eles importam precisamente porque a sociedade os converte em credenciais de acesso a renda, prestígio e poder. A questão é outra: quem teve condições de adquiri-los sem que isso exigisse uma guerra diária contra o cansaço, a fome, o transporte e a necessidade de vender a própria força de trabalho?

No Brasil, essa operação é especialmente cruel porque a escola pública, submetida à desigualdade territorial e ao abandono histórico, é cobrada pelos resultados de uma sociedade que ela não controla. O professor que atende turmas numerosas, preenche plataformas, corre entre escolas e leva trabalho para casa é cobrado por “engajamento” e desempenho. O aluno de periferia é convocado a planejar um futuro enquanto divide quarto, cuida de irmãos ou trabalha. Depois, ambos aparecem nas narrativas de governo e imprensa como partes de uma mesma máquina educacional: se a aprendizagem falha, faltou dedicação; se o jovem não entra na universidade ou no concurso, faltou foco. A estrutura desaparece, e a culpa ganha um rosto individual.

O trabalhador de call center conhece uma versão ainda mais direta desse mecanismo. Para ser contratado, não basta falar português: é preciso falar o português que a empresa identifica como profissional, sorrir pela voz, dominar fórmulas de cordialidade, esconder o sotaque quando a operação exige, escrever e-mail segundo protocolos que ninguém ensinou universalmente. Em processos seletivos, a chamada “boa comunicação” frequentemente funciona como senha de pertencimento. Ela pode designar competência real em algumas tarefas, mas também seleciona quem já aprendeu a circular sem atrito pela cultura das empresas. O capital cultural, nesse caso, é incorporado ao corpo: aparece na pronúncia, no vocabulário, na confiança diante do recrutador e até na capacidade de fingir disponibilidade emocional sob controle permanente.

Quando a linguagem da ascensão vira acusação

O neoliberalismo precisa que essa desigualdade seja lida como biografia, não como classe. Se o trabalhador entende que sua dificuldade é exclusivamente uma falha íntima — não estudou o bastante, não se vendeu bem, não fez networking, não atualizou seu perfil —, ele administra a própria precarização como se gerisse uma empresa defeituosa. Compra cursos quando pode, assiste a vídeos de produtividade no intervalo, transforma descanso em preparação e chama exaustão de investimento. A indústria cultural oferece então a imagem do vencedor disciplinado: o jovem que acorda cedo, estuda sozinho e “venceu”. Casos excepcionais são exibidos como manual para todos, apagando a rede familiar, os acasos, os apoios institucionais e, sobretudo, a massa de pessoas que fez esforço semelhante sem obter a mesma recompensa.

Marx ajuda a localizar o núcleo material desse drama. A força de trabalho não chega ao mercado como uma abstração igual: ela é formada e desgastada em condições desiguais. Quem precisa vender cada hora disponível para sobreviver tem menos horas, energia e margem de erro para acumular os requisitos da ascensão. A plataforma que promete liberdade ao entregador organiza sua jornada por metas, notas e chamadas; o aplicativo não pergunta se ele terá tempo de preparar uma prova ou frequentar uma biblioteca. Ao fim do dia, o trabalhador não está apenas sem dinheiro: está sem atenção, sono e disponibilidade psíquica. A exploração contemporânea rouba também as condições pelas quais alguém poderia disputar credenciais contra quem teve tempo socialmente protegido para acumulá-las.

Isso não quer dizer que a escola, o concurso ou a universidade sejam irrelevantes. Ao contrário: eles são campos de disputa porque podem abrir direitos e limitar, ainda que de maneira insuficiente, o arbítrio do mercado. Cotas, permanência estudantil, assistência, valorização da escola pública, bibliotecas, transporte e redução da jornada de trabalho não são favores destinados a compensar indivíduos “menos preparados”. São medidas que enfrentam a falsa igualdade do ponto de partida. A reação conservadora a essas políticas revela muito. Quando alguém diz que cotas “diminuem o nível”, geralmente toma como nível natural aquilo que foi construído por gerações de concentração de renda, escolaridade e tempo livre.

Ver a engrenagem para recusar a culpa

O capital cultural também explica por que a desigualdade consegue parecer justa. Debord observou uma sociedade em que as relações sociais são mediadas por imagens; hoje, a imagem do mérito circula em currículos impecáveis, vídeos de rotina produtiva, certificados publicados como troféus e discursos empresariais sobre protagonismo. O espetáculo não mente apenas quando exibe riqueza. Ele mente ao apresentar a chegada como obra isolada de uma vontade, ocultando os caminhos, os empurrões e as barreiras. O sujeito que não chegou passa a se enxergar pelo olhar da instituição: como currículo incompleto, comunicação inadequada, perfil pouco competitivo. A dominação se aprofunda quando sua vítima aprende a descrevê-la como defeito próprio.

Depois de enxergar isso, o leitor não ganha uma desculpa confortável para abandonar estudo, trabalho ou organização. Ganha algo mais incômodo e mais útil: a recusa de medir a própria dignidade pelo placar de uma competição desigual. Pode reconhecer que aprender é um direito e um prazer, não uma prova moral de superioridade; que o colega aprovado não é inimigo, mas que seu êxito não confirma a justiça da regra; e que a demanda não deve ser por mais palestras motivacionais, mas por tempo, renda, escola, permanência e trabalho menos extenuante. A prova começa antes da prova porque a classe começa antes da escolha individual. Nomear essa engrenagem é o primeiro passo para deixar de pedir lugar nela como favor e passar a disputar sua transformação.