Meritocracia é menos uma medida justa do esforço do que uma ideologia capaz de transformar privilégio em virtude e fracasso em culpa. No Brasil, o discurso meritocrático aparece quando o entregador é chamado de empreendedor, quando o professor é responsabilizado pelo desempenho de uma escola abandonada e quando o trabalhador submetido a metas impossíveis ouve que precisa apenas se esforçar mais. A promessa é simples: cada pessoa receberia exatamente o que merece. A realidade é outra: quem nasce mais protegido chega à disputa com mais recursos, e o sistema apresenta essa vantagem como prova de superioridade individual.

A força política da meritocracia está em ocultar as condições sociais que produzem os resultados. Ela não precisa negar que existam desigualdades; basta atribuí-las a diferenças de dedicação, talento ou disciplina. Assim, uma estrutura histórica aparece como uma soma de escolhas privadas. A pobreza deixa de ser uma relação social e passa a ser interpretada como falha de caráter. A riqueza, por sua vez, abandona sua história de herança, exploração, propriedade e poder para se apresentar como recompensa natural ao esforço.

Meritocracia e a fabricação do trabalhador culpado

O capitalismo precisa de trabalhadores que vendam sua força de trabalho, mas também precisa convencê-los de que sua posição depende principalmente de seu desempenho. Marx mostrou que o trabalhador não vende um produto qualquer: vende sua capacidade de trabalhar em troca de um salário, enquanto o valor produzido além desse salário é apropriado pelo proprietário dos meios de produção. A meritocracia cobre essa relação com uma narrativa moral. O salário parece expressar o valor pessoal do indivíduo, embora seja definido por relações de poder, pela organização da produção e pela disponibilidade de mão de obra.

É isso que se vê no trabalho por aplicativos. O entregador utiliza sua motocicleta ou bicicleta, paga combustível, manutenção, seguro e o próprio tempo de espera. A plataforma controla a distribuição das corridas, estabelece avaliações, organiza punições e modifica as condições do serviço por meio de sistemas que não precisam explicar suas decisões. Ainda assim, o trabalhador é chamado de parceiro e empreendedor. Se sua renda cai, a explicação oferecida não é a concentração de poder da plataforma, mas sua suposta falta de produtividade, de planejamento ou de disposição para trabalhar.

O algoritmo não aboliu a chefia; tornou-a menos visível. A ordem chega como notificação, pontuação, bloqueio ou alteração de tarifa. A aparência de liberdade é útil porque desloca para o indivíduo o risco que antes poderia ser reconhecido como responsabilidade empresarial. O entregador deve administrar seu horário, seus custos e sua exaustão, mas não controla o preço da corrida nem as regras que definem sua permanência. A meritocracia dá linguagem moral a essa transferência: quem aguenta mais seria mais merecedor.

O mérito não começa do mesmo lugar

Uma competição só poderia ser considerada justa se os participantes tivessem condições minimamente equivalentes. A sociedade capitalista brasileira está longe disso. Uma criança que estuda em uma escola pública sem recursos, atravessa longas distâncias e divide o espaço doméstico com uma família submetida ao desemprego não enfrenta a mesma prova que alguém com acesso a alimentação regular, internet estável, quarto próprio, acompanhamento escolar e tempo protegido para estudar. Quando ambos são avaliados pelo mesmo resultado, a desigualdade anterior é apagada e reaparece como diferença de mérito.

Essa operação também atravessa o ensino superior e o mercado de trabalho. O diploma pode ser apresentado como chave universal de ascensão, mas o acesso à formação é atravessado por classe, raça, território e renda. Mesmo depois de conquistar uma certificação, o trabalhador não encontra um mercado neutro. Redes de contato, domínio de códigos culturais, disponibilidade para aceitar salários baixos e possibilidade de permanecer sem renda por algum tempo pesam na seleção. A ideologia meritocrática chama esse conjunto de vantagens de competência individual.

O professor conhece esse mecanismo por outro lado. Ele é cobrado por resultados, inovação e capacidade de motivar estudantes, enquanto lida com salas superlotadas, salários insuficientes, falta de estrutura e jornadas que invadem sua vida. A avaliação transforma problemas coletivos em desempenho individual. Se a escola não consegue cumprir a promessa de inclusão, a responsabilidade recai sobre o professor, como se sua dedicação pudesse compensar a desigualdade social que entra todos os dias pela porta da sala de aula.

Do mérito como justificativa ao mérito como disciplina

A meritocracia não apenas descreve uma hierarquia: ela disciplina os que estão embaixo e protege os que estão em cima. O trabalhador precarizado passa a vigiar a si próprio. Precisa converter cada hora em produtividade, exibir entusiasmo, construir uma marca pessoal e tratar o descanso como investimento. O desempregado deve se vender continuamente, como se a procura por trabalho fosse uma campanha publicitária. A ausência de contratação não seria resultado de uma economia incapaz de oferecer empregos dignos, mas de um currículo mal apresentado ou de uma atitude inadequada.

Essa cobrança permanente produz alienação. O indivíduo já não se relaciona com sua atividade como parte de uma produção social comum, mas como um projeto privado de valorização. O colega aparece como concorrente, a formação como investimento, a saúde como ferramenta de desempenho e o tempo livre como oportunidade perdida. A linguagem empresarial invade a existência. Até a exaustão precisa ser administrada para não prejudicar a imagem de eficiência.

O espetáculo transforma essa corrida em identidade pública. Nas redes sociais, histórias de superação são destacadas como provas de que qualquer pessoa pode vencer, enquanto as condições invisíveis de cada trajetória desaparecem. O empresário bem-sucedido exibe disciplina; o trabalhador que ascendeu narra sacrifícios; a plataforma promete autonomia. A exceção é apresentada como regra para que a maioria interprete sua própria derrota como insuficiência pessoal. O espetáculo não esconde apenas a exploração: ele oferece imagens convincentes para que a exploração pareça oportunidade.

Meritocracia, Estado e poder de classe

Não se trata de dizer que esforço, estudo ou competência não existem. Eles existem, mas não operam fora das relações sociais. O problema é transformar uma qualidade parcial em explicação total da vida. Como mostra a crítica materialista, capacidades individuais só se realizam dentro de instituições, recursos e relações históricas. O discurso meritocrático separa o indivíduo das condições que o formam e, depois, atribui exclusivamente a ele o resultado de uma disputa organizada de modo desigual.

O Estado participa dessa construção quando reduz direitos a oportunidades abstratas. Em vez de garantir condições materiais para que as pessoas vivam e trabalhem com dignidade, oferece a concorrência como horizonte. O cidadão é convocado a se qualificar, empreender e gerir riscos que não criou. Na leitura de Alysson Mascaro, o Estado não está acima das relações capitalistas como árbitro neutro; sua forma jurídica organiza indivíduos como sujeitos livres para contratar, mesmo quando essa liberdade esconde a dependência de quem precisa vender sua força de trabalho para sobreviver.

Por isso, a crítica à meritocracia não pede a eliminação de critérios de competência em toda atividade. Ela questiona o uso desses critérios para legitimar desigualdades de classe e desresponsabilizar instituições. Uma sociedade justa não seria aquela em que todos recebem prêmios proporcionais a uma suposta medida individual de valor. Seria aquela em que ninguém depende da humilhação, da fome ou da submissão para ter acesso à vida social, ao conhecimento, ao descanso e ao trabalho.

Quando um entregador é chamado de empreendedor, a palavra não descreve apenas sua ocupação: ela encobre quem controla a plataforma e quem assume o risco. Quando um professor é acusado de não se esforçar, a acusação protege a falta de investimento e a desigualdade que estrutura a escola. Quando o rico é celebrado como vencedor, sua vantagem histórica é convertida em mérito natural. A meritocracia funciona justamente assim: transforma relações de poder em diferenças de valor e faz a vítima carregar a responsabilidade pela violência que a produz.