Anomia não é simplesmente a ausência de regras. O conceito ajuda a compreender uma situação mais concreta e mais violenta: a existência de normas que já não organizam a vida coletiva porque foram esvaziadas, aplicadas de modo seletivo ou substituídas pela obrigação de cada indivíduo sobreviver sozinho. No Brasil, a anomia aparece quando o entregador precisa aceitar qualquer corrida para pagar o aluguel, quando o professor trabalha sob metas impossíveis, quando a população enfrenta uma enchente sem proteção pública e quando a extrema direita transforma o abandono em ressentimento contra inimigos imaginários.

É comum encontrar a palavra em definições escolares como sinônimo de desordem, desregramento ou falta de valores. Essa explicação não está exatamente errada, mas é insuficiente. Ela transforma um problema social em uma falha moral da sociedade, como se as pessoas tivessem deixado de respeitar regras por decadência cultural. O recorte crítico precisa inverter a pergunta: quem desmontou as condições que faziam as regras parecerem legítimas? Quem se beneficia quando direitos viram favores, contratos coletivos viram avaliações individuais e a lei passa a proteger a propriedade com mais eficiência do que protege a vida?

O que significa anomia quando a regra existe, mas não protege

Émile Durkheim formulou o conceito de anomia para pensar uma ruptura entre as normas sociais e as expectativas que orientam a vida dos indivíduos. Em momentos de transformação intensa, as referências que limitavam desejos, deveres e possibilidades deixam de funcionar. A pessoa continua submetida a cobranças, mas já não encontra critérios estáveis para saber o que pode esperar da sociedade. A anomia, nesse sentido, não significa que toda regra desapareceu. Significa que a relação entre regra, expectativa e pertencimento coletivo foi corroída.

O capitalismo contemporâneo radicaliza essa contradição. As normas continuam abundantes: contratos, metas, avaliações, rankings, termos de uso, leis trabalhistas, protocolos de segurança, exigências de produtividade e documentos de compliance. O que desaparece é a garantia de que essas normas produzirão proteção comum. O trabalhador deve cumprir horários, mas pode ser dispensado sem estabilidade; precisa entregar resultados, mas não controla os meios para alcançá-los; deve manter uma postura profissional, embora sua renda seja determinada por uma plataforma opaca. A sociedade não está sem regras. Ela está cheia de regras que distribuem obrigações de cima para baixo e incerteza de baixo para cima.

É nesse ponto que uma leitura marxista desloca o conceito. A anomia não deve ser tratada como um estado natural da sociedade, nem como o efeito de indivíduos que perderam valores. Ela é produzida por relações materiais que dissolvem vínculos de solidariedade e tornam a concorrência uma obrigação cotidiana. O trabalhador formalizado ou informalizado é apresentado como responsável por seu desempenho, sua saúde financeira e seu futuro, enquanto decisões tomadas por empresas, bancos e governos aparecem como forças neutras do mercado.

A forma jurídica promete igualdade entre sujeitos que, na prática, ocupam posições profundamente desiguais. O entregador e a empresa de aplicativo aparecem como parceiros contratuais; o professor temporário e a secretaria de educação aparecem como partes de uma relação administrativa; o consumidor endividado e o banco aparecem como agentes livres. Essa igualdade formal encobre a desigualdade material. Alysson Mascaro mostra que o Estado não é um árbitro externo ao capitalismo: sua forma jurídica e institucional organiza as condições gerais da exploração e da propriedade. Quando o Estado se retira da proteção social, não deixa de agir. Ele reorganiza sua ação para garantir a continuidade da acumulação.

A anomia social do entregador de aplicativo

O entregador de aplicativo é uma figura concreta da anomia social brasileira. Ele recebe a promessa de autonomia: escolhe quando conectar-se, trabalha sem chefe visível e pode supostamente aumentar seus ganhos com esforço. Na prática, sua jornada é regulada por um sistema que distribui chamadas, calcula trajetos, define remunerações e avalia seu comportamento. A plataforma não precisa ordenar diretamente que ele permaneça conectado por dez ou doze horas. Basta estabelecer uma remuneração insuficiente, oferecer bônus condicionados à disponibilidade e punir recusas com menor acesso a corridas.

A regra está no aplicativo, mas sua lógica não é transparente. O trabalhador não sabe exatamente como o algoritmo determina sua posição, por que recebe uma corrida em vez de outra ou como sua taxa de aceitação afeta sua renda. Ele obedece a uma norma que não consegue discutir. Se o aplicativo bloqueia sua conta, a decisão pode aparecer como resultado automático de uma política interna, não como uma demissão que permitiria contestação. O vínculo de trabalho é negado pela empresa justamente para que a subordinação possa ser exercida sem as responsabilidades correspondentes.

O resultado é uma forma específica de anomia: o entregador é permanentemente responsabilizado, mas não possui controle sobre as condições de sua atividade. Se a chuva aumenta o risco, a plataforma não assume a exposição. Se o trânsito prolonga a entrega, o atraso pode prejudicar sua avaliação. Se a moto quebra, a perda de renda é individualizada. Se o cliente o humilha ou o restaurante demora, o problema deve ser administrado por ele. A sociedade transfere para o trabalhador todos os custos de uma atividade que só existe porque há infraestrutura urbana, consumidores, restaurantes e empresas financeiras organizando o circuito.

Essa transferência produz uma experiência contraditória. O entregador não vive sem normas; vive sob a multiplicação de pequenas normas que não formam uma proteção coletiva. Deve seguir o mapa, responder rapidamente, manter boa avaliação, evitar cancelamentos, aceitar riscos e preservar a aparência de disponibilidade. A plataforma transforma a insegurança em comportamento mensurável. A liberdade prometida se converte em autocontrole permanente.

O mesmo mecanismo aparece no call center, no trabalho por produtividade e na escola submetida a metas. A instituição reduz suas responsabilidades e amplia a cobrança individual. O operador precisa atender mais chamadas sem demonstrar cansaço; o professor deve elevar indicadores mesmo quando faltam estrutura e tempo; o trabalhador de depósito precisa cumprir uma quantidade definida de movimentos por hora. Quando não alcança o objetivo, a explicação oficial raramente considera a organização do trabalho. A culpa já vem pronta: falta empenho, competência ou resiliência.

Do abandono estatal à culpa individual

O abandono estatal não é apenas a ausência física de serviços. É a transformação de problemas coletivos em fracassos privados. Uma pessoa sem acesso regular à saúde deve procurar uma solução particular. Uma família sem moradia estável deve administrar a própria dívida. O trabalhador sem direitos deve aceitar a instabilidade como preço da liberdade. A linguagem da escolha encobre uma estrutura na qual as alternativas foram estreitadas antes que o indivíduo pudesse escolher.

Essa dinâmica pode ser observada nas periferias brasileiras, onde o Estado aparece de maneira desigual: é insuficiente para garantir transporte, saúde, educação, saneamento e proteção trabalhista, mas é bastante presente na fiscalização, no policiamento e na cobrança de dívidas. Não existe vazio completo. Existe uma presença estatal seletiva, forte para disciplinar os pobres e fraca para assegurar os direitos que poderiam limitar a exploração.

O discurso meritocrático dá forma moral a esse processo. Se cada um é considerado inteiramente responsável por sua trajetória, a desigualdade deixa de parecer resultado de relações sociais e passa a ser lida como diferença de mérito. O desempregado não está sem trabalho por causa de uma economia que destrói postos estáveis; estaria sem trabalho por não ter se qualificado o suficiente. O entregador não é explorado; estaria empreendendo. O professor exausto não enfrenta uma política de precarização; precisaria organizar melhor sua rotina.

A culpa individual é o idioma cotidiano da anomia. Ela impede que a frustração encontre uma causa coletiva e transforma sofrimento em vergonha. O trabalhador se percebe como inadequado diante de uma regra que não foi feita para protegê-lo. Ao mesmo tempo, a sociedade perde a capacidade de formular expectativas comuns. Se todos devem competir por tudo, qualquer conquista alheia parece ameaça, e a solidariedade passa a ser apresentada como privilégio indevido.

Bolsonarismo e a política do ressentimento anômico

O bolsonarismo soube explorar essa desorganização sem oferecer uma saída para suas causas materiais. Sua força não veio de restaurar direitos ou reorganizar o trabalho, mas de converter a insegurança social em guerra cultural. Quando instituições públicas, sindicatos, partidos e políticas sociais são apresentados como fontes de corrupção ou ameaça à liberdade, o indivíduo abandonado encontra uma narrativa simples: alguém está roubando aquilo que deveria ser seu.

O ressentimento anômico procura culpados visíveis para um sofrimento produzido por relações menos visíveis. O professor vira inimigo ideológico, o servidor público vira parasita, o imigrante vira concorrente, a universidade vira ameaça moral, a imprensa vira conspiradora e a esquerda vira responsável por toda frustração. A estrutura que concentra renda, precariza o trabalho e limita a ação estatal desaparece atrás de uma multidão de inimigos imaginários.

Gustave Le Bon, ao estudar a psicologia das multidões, descreveu como a circulação de imagens, palavras de ordem e afetos pode substituir a argumentação complexa. Uma crítica marxista não precisa aceitar sua visão elitista das massas para reconhecer o mecanismo: em uma sociedade atomizada, a comunicação política pode fornecer uma unidade emocional a pessoas que perderam formas concretas de pertencimento. O bolsonarismo ofereceu essa unidade por meio do medo, da humilhação e da promessa de punição.

O 8 de janeiro de 2023 condensou esse processo. A destruição das sedes dos poderes não foi uma explosão espontânea de uma sociedade sem normas. Foi uma mobilização politicamente organizada em torno da recusa seletiva da democracia, da desinformação e da fantasia de que a força poderia reordenar o país. Os participantes invocavam a lei enquanto defendiam a ruptura institucional; falavam em liberdade enquanto exigiam a supressão do adversário; denunciavam o Estado enquanto pediam intervenção militar. A contradição não era um acidente. Era a forma política de uma relação anômica com as regras: a norma vale quando confirma a própria vontade e deve ser destruída quando limita o próprio grupo.

O bolsonarismo, assim, não combate a anomia. Ele a administra e a aprofunda. Ao atacar instituições que ainda poderiam produzir mediações coletivas, transforma a sociedade em uma disputa permanente entre indivíduos armados de ressentimento. A política deixa de ser o espaço em que interesses sociais podem ser negociados e se converte em espetáculo de punição, humilhação e identificação com um líder.

A técnica como administração da desordem

Martin Heidegger mostrou que a técnica moderna não deve ser reduzida a um conjunto de ferramentas neutras. Ela organiza o modo como os seres aparecem: como recursos disponíveis, calculáveis e mobilizáveis. No capitalismo de plataforma, essa lógica alcança o trabalhador de forma direta. O entregador aparece como localização, tempo estimado, taxa de aceitação e custo operacional. O professor aparece como indicador. O paciente aparece como fila. O cidadão aparece como dado.

Guy Debord chamou de espetáculo a forma social em que a relação entre pessoas é mediada por imagens e em que a vida aparece separada de sua experiência concreta. A política digital amplia esse processo. O sofrimento do trabalhador pode ser convertido em vídeo viral; a enchente, em cena de indignação; o desemprego, em narrativa motivacional; a revolta, em conteúdo segmentado. A imagem circula mais rapidamente do que a organização capaz de transformar a causa do problema.

Essa mediação técnica não elimina a anomia; ela a torna administrável. A plataforma registra cada comportamento, oferece respostas personalizadas e produz a sensação de que há sempre uma escolha individual disponível. O trabalhador pode aceitar ou recusar a corrida, o usuário pode bloquear ou seguir, o eleitor pode compartilhar ou apagar. Mas a arquitetura que define as opções permanece fora do alcance dos participantes. Quanto mais o sistema quantifica a conduta, mais ele apresenta relações sociais como decisões pessoais.

O controle algorítmico também produz uma nova forma de silêncio. Como a decisão é atribuída ao sistema, ninguém parece responsável. A remuneração cai por causa da dinâmica da plataforma; a conta é bloqueada por uma análise automatizada; o currículo é recusado por um filtro; a prioridade é determinada por uma pontuação. A opacidade técnica protege a empresa e devolve ao indivíduo a obrigação de se adaptar.

Reconstruir normas comuns contra a anomia

Se a anomia é produzida pela dissolução de proteções coletivas, sua superação não virá de campanhas morais para que as pessoas recuperem valores abstratos. Não basta pedir mais respeito, disciplina ou responsabilidade individual. É preciso reconstruir as condições materiais que permitem às pessoas confiar umas nas outras e projetar o futuro sem depender inteiramente da competição.

Para o entregador, isso significa reconhecer a relação de trabalho, garantir remuneração e proteção social, assegurar transparência sobre os sistemas de distribuição e criar formas reais de organização coletiva. Para o professor, significa combater a contratação precária, reduzir a pressão por metas e devolver autonomia pedagógica. Para quem trabalha em call center ou em depósitos, significa limitar ritmos destrutivos, proteger a saúde e impedir que a avaliação seja usada como mecanismo unilateral de punição.

Também significa recuperar a ideia de que o Estado deve ser disputado, e não simplesmente abandonado ao mercado. A alternativa ao Estado burguês não é o vazio institucional que deixa os pobres expostos à violência econômica. É a transformação das instituições por meio da ação organizada da classe trabalhadora, com direitos universais, controle democrático e redução do poder privado sobre a vida social.

A anomia não descreve um povo incapaz de viver em comunidade. Descreve uma sociedade que transforma a comunidade em risco e a solidariedade em custo. Quando o entregador precisa enfrentar a cidade sozinho, quando a vítima de uma enchente recebe doações no lugar de política pública e quando o ressentimento encontra no bolsonarismo um inimigo para culpar, não estamos diante de uma simples perda de valores. Estamos diante de uma ordem social que rompe vínculos e depois acusa os indivíduos de estarem desorientados.

O problema não é que faltam regras. Faltam regras que possam ser apropriadas coletivamente, fiscalizadas pelos trabalhadores e capazes de limitar o poder de quem controla os recursos sociais. Enquanto a lei proteger a acumulação mais do que a existência, a anomia continuará sendo produzida no centro da normalidade capitalista. O caos, nesse caso, não é o contrário da ordem: é uma das formas pelas quais a ordem se mantém.