Anomia social não é apenas a ausência de regras, a desorientação moral de uma comunidade ou a dificuldade de indivíduos isolados em encontrar um sentido para a vida. No Brasil contemporâneo, ela aparece como uma forma organizada de abandono: o trabalhador deve encontrar sozinho sua renda, sua proteção, sua saúde, sua formação e até a explicação para o próprio fracasso. O que se apresenta como liberdade individual é, muitas vezes, a retirada das mediações coletivas capazes de proteger a vida contra a violência econômica.

Um entregador que atravessa a cidade de motocicleta não está simplesmente fora de uma relação de emprego. Ele está submetido a uma ordem em que o aplicativo define o ritmo, o preço e a visibilidade do trabalho, mas nega responsabilidade sobre o trabalhador. Se ocorre um acidente, a plataforma pode tratar o caso como um problema privado. Se a remuneração despenca, a resposta oferecida é trabalhar mais. Se a conta é bloqueada, resta ao entregador buscar atendimento em canais automáticos, como se uma decisão que afeta sua sobrevivência fosse uma falha técnica. A regra existe, mas não como proteção social: existe para garantir o funcionamento do negócio.

É nesse deslocamento que a anomia ganha seu sentido crítico. Não se trata de uma sociedade sem normas, mas de uma sociedade na qual as normas se tornam seletivas, opacas e subordinadas à acumulação. Há disciplina intensa para quem trabalha e permissividade para quem controla os meios de produção. Há cobrança permanente sobre o indivíduo e pouca responsabilização dos agentes econômicos que produzem insegurança. A desordem, nesse caso, não é o oposto da ordem capitalista. É um de seus resultados administrados.

Quando a falta de proteção é vendida como liberdade

O conceito de anomia foi formulado por Émile Durkheim para descrever uma situação em que as regras capazes de orientar os desejos e regular as relações sociais perdem força. Em uma sociedade atravessada por mudanças rápidas, desigualdades e rupturas, os indivíduos podem deixar de reconhecer limites comuns e expectativas compartilhadas. A consequência não é apenas confusão subjetiva. É a expansão de uma vida em que ninguém sabe com segurança o que pode esperar dos outros, das instituições ou do futuro.

Essa formulação ajuda a compreender um aspecto da crise atual, mas não basta. Se a anomia for tratada somente como falha de integração social, corre-se o risco de imaginar que o problema poderia ser resolvido com mais harmonia, civismo ou adaptação individual. A crítica marxista desloca a pergunta: quem desmonta os vínculos? Quem se beneficia quando direitos são convertidos em contratos particulares? Quem decide que o risco deve ser suportado por cada pessoa separadamente?

O neoliberalismo não elimina as regras. Ele reorganiza as regras para fazer a concorrência penetrar em todas as áreas da vida. O trabalhador passa a administrar a própria empregabilidade, o professor deve produzir resultados mensuráveis, o estudante precisa transformar cada competência em vantagem competitiva e o desempregado é convocado a tratar a própria sobrevivência como empreendimento. A sociedade continua regulada, mas por normas que responsabilizam a vítima e protegem a empresa da obrigação de reconhecer o conflito social.

A palavra liberdade ocupa o centro desse discurso porque encobre a assimetria. O entregador é chamado de parceiro; o professor temporário, de profissional flexível; o trabalhador pejotizado, de prestador independente. Entretanto, nenhum desses sujeitos controla efetivamente as condições de sua atividade. Não escolhe livremente o valor pago por entrega, o volume de tarefas, a duração da jornada ou os critérios que definem seu acesso ao trabalho. A liberdade anunciada é a liberdade de aceitar a precariedade ou ficar sem renda.

A anomia social produzida pelo aplicativo

O trabalho por plataforma torna visível uma transformação decisiva. Antes, a exploração podia ser identificada com maior facilidade na figura do patrão, no espaço da fábrica ou no contrato de emprego. Hoje, parte desse comando é transferida para sistemas de pontuação, mapas, notificações e cálculos automáticos. A empresa afirma que apenas oferece tecnologia para conectar consumidores e trabalhadores, mas essa suposta neutralidade esconde uma estrutura de comando. Quem define a arquitetura do aplicativo define também o modo como o trabalho será realizado.

O algoritmo não precisa gritar para ordenar. Basta distribuir chamadas, alterar valores, estabelecer metas implícitas e tornar o trabalhador permanentemente disponível. O entregador aprende que determinados horários, regiões e recusas podem afetar sua renda futura, ainda que não conheça a fórmula utilizada pela plataforma. Ele trabalha sob uma ameaça sem rosto, produzida por decisões que aparecem como resultado técnico. A autoridade se torna impessoal, e justamente por isso pode parecer inevitável.

Esse mecanismo aprofunda a alienação. O trabalhador não controla o produto de sua atividade, tampouco domina a organização que define seus movimentos. Ele sequer consegue visualizar integralmente o processo no qual participa. Vê apenas a próxima tarefa, o próximo destino e o próximo pagamento. A atividade se apresenta como uma sucessão de ordens fragmentadas, enquanto o valor gerado circula por uma empresa que não se responsabiliza pela totalidade da relação.

A anomia nasce também da destruição de expectativas comuns. Um entregador não sabe quanto receberá na semana seguinte, se terá acesso às mesmas corridas, se sua conta continuará ativa ou se uma avaliação negativa produzirá consequências. A instabilidade não é um acidente corrigível; é parte do modelo de negócios. Ela mantém o trabalhador disponível e dificulta sua organização coletiva. Quem depende do próximo chamado tem menos tempo, energia e segurança para discutir as condições que o submetem.

Não se trata de dizer que os aplicativos inventaram toda a precarização brasileira. Eles atualizam uma tradição de desigualdade, informalidade e desproteção que sempre marcou o mercado de trabalho. A novidade está na capacidade tecnológica de administrar essa precariedade em escala, individualizar o comando e esconder a relação de poder atrás da interface. O telefone celular se torna, ao mesmo tempo, ferramenta de trabalho, mecanismo de vigilância e dispositivo de cobrança.

Do trabalhador sem direitos ao cidadão sem chão

A anomia não termina na jornada. Quando o trabalho se torna instável, toda a vida perde previsibilidade. O orçamento doméstico passa a depender de variações diárias de demanda; o descanso parece uma perda de oportunidade; a doença assume a forma de ameaça financeira; a velhice aparece como problema futuro de um indivíduo que mal consegue organizar o presente. A ausência de proteção no trabalho contamina a experiência da cidadania.

O mesmo processo pode ser observado fora das plataformas. Em uma escola pública, um professor submetido a metas, avaliações e falta de condições materiais é responsabilizado pelo desempenho de estudantes atravessados pela pobreza, pela violência e pela precariedade familiar. A instituição exige resultados, mas não oferece tempo, equipe ou recursos correspondentes. O fracasso estrutural retorna como culpa individual do docente. A norma da produtividade permanece; desaparece a responsabilidade coletiva por torná-la possível.

Nos call centers, a voz do trabalhador é cronometrada, gravada e avaliada. Cada pausa precisa ser justificada, cada conversa deve seguir um roteiro, cada desvio pode reduzir a pontuação. O atendente está preso a uma regra minuciosa, mas não possui poder para resolver o problema que o cliente apresenta. A empresa exige cordialidade enquanto organiza a frustração dos dois lados da linha. O consumidor descarrega sua impotência sobre o trabalhador, e o trabalhador suporta uma pressão que não consegue devolver ao centro da decisão.

Essas situações revelam uma contradição: quanto mais a vida é administrada por métricas, protocolos e sistemas de avaliação, mais as pessoas experimentam desamparo. Não há ausência total de normas. Há excesso de normas parciais, criadas para medir o desempenho de indivíduos que não controlam as condições do desempenho. O sujeito é permanentemente avaliado, mas raramente escutado. A administração se expande; a responsabilidade social encolhe.

O Estado participa dessa produção de anomia quando abandona sua função de mediação dos conflitos e passa a organizar a sociedade em favor da concorrência. Na leitura de Alysson Mascaro, o Estado não é um árbitro neutro colocado acima das classes. Sua forma jurídica e institucional está vinculada às relações capitalistas, nas quais trabalhadores e proprietários aparecem como sujeitos formalmente livres, embora ocupem posições profundamente desiguais. A igualdade perante o contrato pode coexistir com a desigualdade material que obriga alguém a aceitar qualquer condição.

Quando o Estado reconhece a plataforma como mera intermediária e o entregador como empreendedor, não está apenas escolhendo uma classificação administrativa. Está definindo quem terá direitos, quem suportará riscos e quem poderá ser responsabilizado. A forma jurídica converte uma relação econômica assimétrica em encontro entre indivíduos independentes. O abandono não aparece como abandono: aparece como respeito à autonomia privada.

A solidão como método de governo

Uma sociedade anômica é especialmente vulnerável à política do ressentimento. Quando as pessoas perdem referências coletivas e não conseguem identificar as causas de sua insegurança, procuram explicações em alvos próximos e visíveis. O migrante, o beneficiário de uma política social, o professor, o funcionário público, a mulher que reivindica direitos ou o jovem periférico podem ser apresentados como responsáveis por uma crise que tem raízes econômicas mais profundas.

O bolsonarismo explorou essa desorientação ao oferecer uma narrativa de restauração da autoridade, da família e da ordem. Não resolveu a precarização; deu a ela inimigos. Em vez de questionar a concentração de poder econômico, convocou trabalhadores ressentidos a atacar instituições, direitos sociais, universidades e movimentos organizados. A insegurança produzida pela desregulamentação foi convertida em guerra cultural.

Esse movimento não é uma aberração externa ao neoliberalismo. Ele pode funcionar como sua compensação autoritária. O mercado dissolve vínculos, enfraquece organizações e transforma cada pessoa em concorrente; o líder reacionário promete devolver uma comunidade imaginária, fundada na obediência e na exclusão. A multidão é mobilizada não para recuperar controle sobre a produção da vida, mas para descarregar a frustração em inimigos construídos pela propaganda.

Guy Debord ajuda a entender esse circuito ao definir o espetáculo não como simples conjunto de imagens, mas como uma relação social mediada por imagens. A precariedade concreta é substituída por cenas de pertencimento, indignação e reconhecimento. O trabalhador que não consegue negociar com a plataforma pode encontrar, nas redes, uma batalha permanente contra supostos traidores da pátria. A tela oferece a sensação de participação que a vida material bloqueia.

Essa participação espetacular é compatível com a passividade política. Compartilhar uma acusação contra um adversário não altera o contrato de trabalho, a distribuição da renda ou o poder de decisão sobre os algoritmos. Ainda assim, produz uma descarga emocional imediata. A anomia é administrada por uma sequência de conflitos simbólicos que mantém as pessoas ocupadas, separadas e incapazes de reconhecer a estrutura comum de sua exploração.

Não é falta de caráter, é destruição de mediações

Há uma tentação recorrente de explicar o sofrimento social por deficiências morais. O trabalhador estaria desorganizado porque não se esforça; o jovem estaria perdido porque não tem disciplina; a comunidade estaria violenta porque perdeu valores; o cidadão estaria radicalizado porque não sabe dialogar. Essas explicações transformam efeitos em defeitos pessoais. Elas ocultam o fato de que as condições materiais da vida foram deliberadamente submetidas à insegurança.

Durkheim percebia que os indivíduos dependem de normas coletivas para limitar desejos e produzir pertencimento. A crítica marxista acrescenta que essas normas não flutuam acima da economia. Sindicatos, políticas públicas, direitos trabalhistas, serviços universais e formas comunitárias de organização são resultados de conflitos históricos. Quando são desmontados, não desaparece apenas uma burocracia. Desaparecem mediações que permitiam ao indivíduo enfrentar forças econômicas maiores do que ele.

O sindicato pode ser tratado como obstáculo pela empresa, mas ele transforma uma sequência de sofrimentos individuais em reivindicação coletiva. A legislação trabalhista pode ser denunciada como rigidez, mas estabelece limites para que a sobrevivência não dependa inteiramente da vontade do contratante. A escola pública pode ser imperfeita, mas oferece uma instituição comum em uma sociedade marcada por desigualdades radicais. A anomia avança quando essas estruturas são apresentadas como privilégios dispensáveis.

Por isso, combater a anomia não significa ensinar pessoas isoladas a administrar melhor suas emoções. Significa reconstruir poder coletivo. No caso dos entregadores, isso envolve reconhecer a relação de trabalho, garantir remuneração e proteção social, assegurar transparência sobre decisões automatizadas e permitir organização independente. No caso dos professores, exige enfrentar a lógica que transforma toda dificuldade social em indicador de desempenho individual. Em todos os casos, a questão é retirar do indivíduo riscos que só podem ser enfrentados por instituições comuns.

Reconstruir o vínculo contra a sociedade do desempenho

A sociedade do desempenho promete autonomia, mas produz disponibilidade total. Cada pessoa deve ser sua própria empresa, seu próprio fiscal e seu próprio investidor. O cansaço passa a ser interpretado como falha de gestão pessoal; a depressão, como incapacidade de adaptação; a pobreza, como falta de estratégia. A linguagem empresarial coloniza a subjetividade e impede que o sofrimento seja reconhecido como experiência social.

Heidegger permite compreender uma dimensão dessa dominação ao mostrar que a técnica moderna não é somente um conjunto de instrumentos. Ela enquadra os seres como recursos disponíveis, prontos para serem calculados e utilizados. No aplicativo, o trabalhador aparece como unidade de entrega; no call center, como tempo de atendimento; na escola, como desempenho mensurável. A técnica não apenas ajuda a executar uma tarefa. Ela reorganiza o que pode ser visto e valorizado.

Quando tudo é convertido em recurso, o vínculo social passa a ser avaliado por sua utilidade econômica. O vizinho vira contato, o estudante vira resultado, o colega vira concorrente e o trabalhador vira cadastro ativo. A anomia é a experiência subjetiva dessa redução: estar cercado de conexões e, ainda assim, não contar com relações capazes de sustentar a existência. A rede cresce enquanto a proteção desaparece.

Romper esse processo exige mais do que denunciar os excessos tecnológicos. A tecnologia não é uma força autônoma que paira acima da sociedade. Ela é produzida por empresas, financiada por capitais, regulada por Estados e incorporada a relações de classe. O problema não está em usar mapas, celulares ou sistemas de informação, mas em permitir que essas ferramentas sejam controladas por interesses privados que transformam cada dado em instrumento de extração e cada trabalhador em variável ajustável.

A anomia social brasileira não será superada com apelos abstratos à moral, à meritocracia ou à tolerância. Ela recua quando as pessoas deixam de enfrentar individualmente problemas que são coletivos. Isso significa reconstruir organizações, direitos e espaços de decisão; significa disputar o Estado contra sua captura pelos interesses empresariais; significa reconhecer que a liberdade real depende de condições materiais e não apenas da ausência formal de proibições.

O entregador que recusa uma corrida, o professor que contesta uma meta impossível, o atendente que denuncia o controle abusivo e o trabalhador que se organiza contra a pejotização não estão recusando a ordem social em nome do caos. Estão recusando uma ordem que chama de liberdade a insegurança e de mérito a submissão. A alternativa à anomia não é a obediência cega às normas existentes. É a construção consciente de normas comuns, decididas por aqueles que sustentam a sociedade e quase nunca controlam seus rumos.