O imperialismo não terminou quando as antigas colônias conquistaram bandeiras, constituições e governos próprios. Ele mudou de forma. No Brasil, aparece na combinação entre dependência tecnológica, capital financeiro, controle das plataformas e exploração de trabalhadores que carregam mercadorias pela cidade. O entregador de aplicativo parece operar numa economia nacional, atende restaurantes locais e circula por ruas brasileiras, mas seu trabalho está submetido a uma arquitetura econômica que ultrapassa fronteiras: sistemas de pagamento, serviços de nuvem, fundos de investimento, propriedade intelectual, publicidade digital e padrões empresariais definidos longe do trabalhador.
Esse é o recorte que a definição escolar de imperialismo costuma apagar. Não se trata apenas de uma potência que invade outro país ou de uma empresa estrangeira que remete lucros para fora. O imperialismo contemporâneo organiza a dependência de maneira cotidiana, incorporada aos dispositivos que distribuem pedidos, calculam tarifas, classificam trabalhadores e transformam cada deslocamento em dado. O entregador não vê o centro de comando, mas sente seus efeitos no preço da corrida, na espera sem remuneração, na avaliação automática e na ameaça permanente de bloqueio.
Imperialismo sem ocupação militar
Em O imperialismo, fase superior do capitalismo, Lenin identificou a concentração do capital, a fusão entre capital bancário e industrial, a exportação de capitais e a disputa por territórios como características de uma etapa do desenvolvimento capitalista. A contribuição do conceito não está em oferecer uma fotografia congelada do início do século XX, mas em mostrar que a expansão capitalista produz hierarquias entre centros de acumulação e regiões subordinadas. O capital não circula pelo mundo em condições iguais. Ele busca os espaços onde pode controlar mercados, recursos e trabalho com maior vantagem.
Hoje, a exportação de capitais também se realiza pela compra de participação em empresas de tecnologia, pela propriedade de sistemas logísticos, pela imposição de padrões de gestão e pelo controle de infraestruturas invisíveis. Uma plataforma pode contratar trabalhadores formalmente como autônomos no Brasil, recolher dados sobre seus deslocamentos e operar com investidores internacionais sem transportar para cá uma fábrica ou um exército. A relação imperialista está na capacidade de definir as regras da circulação e capturar o valor produzido localmente.
A aparência nacional da operação ajuda a ocultar essa estrutura. O restaurante é brasileiro, o consumidor mora no bairro, a bicicleta atravessa uma avenida conhecida e o entregador fala a língua do país. Ainda assim, a mediação do trabalho pode estar subordinada a uma empresa cuja lógica responde a investidores, fundos e mercados globais. O território brasileiro fornece mão de obra, consumidores, vias públicas e dados. O comando econômico, por sua vez, concentra-se em centros capazes de decidir investimentos, tarifas, aquisições e estratégias de expansão.
A dependência não é a ausência de capitalismo. É uma forma subordinada de desenvolvimento capitalista, na qual a riqueza produzida internamente é organizada para alimentar poderes econômicos externos e internos.
O entregador brasileiro como trabalhador da dependência
O Breque dos Apps tornou visível uma contradição que a propaganda das plataformas procurava esconder. Durante a pandemia, o entregador foi celebrado como trabalhador essencial, mas continuou exposto à doença, aos acidentes, à insegurança de renda e à ausência de proteção trabalhista correspondente. A sociedade dependia de sua circulação, enquanto as empresas apresentavam a relação como uma simples parceria entre indivíduos livres.
Essa contradição não é um defeito periférico do modelo. Ela é sua condição de funcionamento. O aplicativo desloca os custos da operação para o trabalhador: bicicleta, motocicleta, combustível, manutenção, seguro, alimentação, celular e tempo de espera. Também desloca o risco da demanda. Se há poucos pedidos, o entregador permanece conectado sem garantia de remuneração; se há chuva, trânsito ou perigo, a urgência da entrega não desaparece, mas o custo físico recai sobre quem pedala ou dirige.
A plataforma apresenta a remuneração como resultado de uma escolha individual. O trabalhador decide quando entrar, qual pedido aceitar e quanto tempo permanecer online. Mas a liberdade formal encobre uma coerção material. Quem depende do aplicativo para pagar aluguel e alimentação não dispõe da mesma liberdade de quem controla o sistema. A possibilidade de desligar o celular existe juridicamente; a possibilidade econômica de fazê-lo é muito menor.
O algoritmo converte essa desigualdade em aparência técnica. Em vez de um chefe visível, há notificações, mapas, pontuações e mensagens padronizadas. Em vez de uma ordem direta, há incentivos variáveis, bônus condicionados, zonas de maior demanda e ameaças difusas de perda de acesso. A administração da força de trabalho torna-se menos identificável, não menos intensa. A plataforma não elimina a disciplina: distribui-a pelo aparelho, pelo GPS e pelo medo de ser excluído.
O algoritmo como fronteira de extração
O debate sobre tecnologia frequentemente separa o aplicativo da exploração, como se o problema estivesse apenas no uso abusivo de uma ferramenta neutra. Essa separação é ideológica. O algoritmo não é uma entidade autônoma que paira acima dos interesses sociais. Ele expressa decisões empresariais sobre preço, velocidade, prioridade, risco e remuneração. Sua opacidade serve para impedir que o trabalhador compreenda e conteste a regra que organiza seu trabalho.
Quando a plataforma define uma tarifa sem negociar com quem executa a entrega, ela não está apenas calculando uma distância. Está estabelecendo quanto vale o tempo do trabalhador e quanto da receita ficará com a empresa. Quando avalia o desempenho a partir de cancelamentos, atrasos ou recusas, transforma condições urbanas desiguais em responsabilidade individual. O entregador que enfrenta uma rua alagada, um condomínio sem acesso ou uma região perigosa aparece no sistema como um operador menos eficiente.
O dado produzido durante o trabalho amplia essa assimetria. A plataforma sabe onde estão os pedidos, quais horários concentram consumo, quais regiões possuem mais entregadores, quanto tempo cada etapa demora e como os trabalhadores reagem às alterações de preço. O trabalhador, em geral, não sabe como sua informação será usada para reorganizar a tarifa, prever sua disponibilidade ou pressionar sua aceitação. A experiência concreta de milhares de pessoas é convertida em propriedade empresarial e instrumento de comando.
É nesse ponto que o imperialismo se articula ao colonialismo de dados. O território brasileiro não fornece apenas força de trabalho barata e consumidores. Fornece também informações sobre circulação urbana, hábitos de consumo, renda, localização e comportamento. Esses dados podem ser integrados a sistemas financeiros e comerciais que tornam a empresa mais valiosa nos mercados globais. O cotidiano de bairros brasileiros alimenta ativos privados que não pertencem àqueles que produzem a informação.
A soberania tecnológica sob tutela do capital
Falar em dependência tecnológica não significa afirmar que o Brasil seja incapaz de produzir conhecimento ou desenvolver empresas. Significa reconhecer que a estrutura econômica define quem controla a infraestrutura decisiva, quem estabelece padrões e quem captura o excedente. Um país pode ter programadores, universidades e empreendedores digitais e, ainda assim, permanecer subordinado a sistemas operacionais, servidores, meios de pagamento, equipamentos, patentes e fluxos financeiros controlados por grandes grupos estrangeiros.
Essa dependência limita as escolhas políticas. Governos podem anunciar inovação, cidades inteligentes e modernização do transporte, mas encontram diante de si empresas com poder de pressão, recursos jurídicos e capacidade de reorganizar rapidamente seus negócios. A administração pública passa a depender de soluções privadas para entregar serviços, movimentar mercadorias e processar informações. A tecnologia, apresentada como inevitável, reduz o espaço de decisão coletiva.
A situação se agrava quando a política econômica trata a atração de investimentos como objetivo superior. Para manter o país integrado às cadeias globais, aceita-se a flexibilização de direitos, a desoneração seletiva, a precarização contratual e a transferência de custos para a sociedade. A promessa é que a plataforma trará eficiência, renda e inovação. Na prática, o Estado frequentemente oferece infraestrutura urbana e proteção jurídica ao negócio, enquanto o trabalhador assume o risco e o consumidor paga taxas crescentes.
A crítica não consiste em defender um retorno imaginário a uma economia sem tecnologia. O problema é quem decide a finalidade da tecnologia e quem se apropria dos seus resultados. Uma infraestrutura digital controlada por poucos grupos não amplia automaticamente a autonomia nacional. Pode apenas tornar a dependência mais rápida, mais precisa e mais difícil de enxergar.
Capital financeiro, Estado e trabalho barato
A empresa de plataforma não deve ser observada isoladamente, como se sua única relação fosse com o entregador. Ela integra uma rede de capital financeiro, publicidade, varejo, bancos, empresas de telecomunicação e fundos de investimento. A valorização da companhia depende da expectativa de dominar mercados, acumular dados e reorganizar setores inteiros. Nesse processo, a rentabilidade imediata de cada entrega pode ser secundária diante da conquista de usuários e da eliminação de concorrentes.
O resultado é uma pressão permanente por escala. Quanto mais entregadores conectados, mais rapidamente a plataforma responde ao consumidor e mais poder possui para impor condições aos trabalhadores e aos estabelecimentos. A abundância aparente do serviço depende de uma reserva de mão de obra disponível, disposta a permanecer online mesmo quando não há garantia de remuneração. A cidade inteira funciona como depósito de trabalhadores à espera de uma chamada.
O Estado participa dessa configuração não apenas quando deixa de fiscalizar. Ele participa ao produzir as formas jurídicas que permitem tratar trabalhadores subordinados como parceiros comerciais, ao tolerar a transferência de custos e ao organizar políticas urbanas favoráveis à circulação acelerada de mercadorias. Como ensina Alysson Mascaro, o Estado capitalista não é uma ferramenta neutra que paira acima das classes. Sua forma institucional assegura condições gerais para a reprodução do capital, ainda quando reconhece direitos e intervém em conflitos.
Isso explica por que a disputa jurídica sobre vínculo empregatício é tão importante, mas não suficiente. Reconhecer direitos pode reduzir a exploração, limitar bloqueios arbitrários e obrigar empresas a assumir parte dos custos. Porém, a dominação não desaparecerá enquanto a infraestrutura econômica continuar concentrada. O entregador pode receber proteção formal e ainda permanecer subordinado a tarifas, sistemas e decisões que não controla. A luta por direitos deve se ligar à luta pelo poder sobre a tecnologia e sobre a organização da circulação.
A ideologia da conexão individual
A ideologia da plataforma transforma uma relação social em contrato entre indivíduos. De um lado, estaria o empreendedor que oferece seu tempo, seu veículo e sua disposição. De outro, uma ferramenta que apenas aproxima oferta e demanda. Nessa narrativa, não existe patrão, jornada, comando ou apropriação de valor. Existem usuários conectados e escolhas pessoais.
Guy Debord mostrou que o espetáculo não é simplesmente um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. A plataforma radicaliza essa mediação: o trabalho aparece como mapa, ícone, notificação e porcentagem; a exploração aparece como flexibilidade; a disponibilidade aparece como autonomia; a precariedade aparece como oportunidade. O trabalhador deixa de se reconhecer como parte de uma classe submetida a uma estrutura comum e passa a interpretar cada resultado como prova de sua capacidade individual.
Essa individualização dificulta a organização coletiva. Se a renda depende de avaliações, o colega pode parecer concorrente. Se a tarifa varia conforme a região, a cidade é fragmentada em pequenas disputas por pedidos. Se o bloqueio chega como decisão automática, não há um gerente concreto contra quem protestar. Mesmo assim, a experiência compartilhada produz possibilidade de resistência. As paralisações de entregadores mostraram que trabalhadores espalhados pelo território podem reconhecer a existência de interesses comuns e interromper a aparência de funcionamento automático.
A resposta empresarial costuma tentar absorver essa resistência com campanhas de valorização, bônus pontuais e discursos sobre comunidade. Mas nenhuma campanha resolve a questão central: quem controla a infraestrutura e quem define a parte que cabe a cada participante. A plataforma pode celebrar o entregador em uma peça publicitária e, no dia seguinte, alterar as regras de remuneração sem negociação. A homenagem espetacular não substitui poder real.
Romper a dependência começa pelo trabalho
Uma crítica consequente do imperialismo não pode limitar-se a denunciar empresas estrangeiras enquanto preserva a exploração praticada por grupos nacionais. O capital brasileiro também se beneficia da dependência, da mão de obra barata e da transferência de riqueza para cima. Restaurantes, varejistas, bancos e empresas locais podem pressionar trabalhadores tanto quanto corporações internacionais. A questão não é opor uma burguesia nacional supostamente virtuosa a um capital estrangeiro maligno, mas compreender a aliança entre capitais que se apropriam do trabalho.
Também não basta defender uma plataforma brasileira como solução automática. Se ela reproduzir bloqueios opacos, tarifas arbitrárias, ausência de direitos e coleta unilateral de dados, apenas nacionalizará a exploração. Soberania tecnológica não é trocar a bandeira da empresa mantendo intacta a relação de comando. Ela exige controle social sobre a infraestrutura, transparência dos sistemas, participação dos trabalhadores nas decisões e formas coletivas de propriedade e gestão.
Cooperativas de entregadores podem abrir uma disputa concreta, desde que não sejam abandonadas à competição desigual com empresas capitalizadas e apoiadas por redes financeiras. Serviços públicos digitais, regras de interoperabilidade, auditoria independente dos algoritmos e proteção trabalhista são medidas capazes de limitar a concentração. Mais profundamente, é necessário decidir se a circulação de mercadorias deve ser organizada pela rentabilidade privada ou pelas necessidades sociais da cidade.
Essa disputa não se resolve no interior do aplicativo. Ela envolve jornada, salário, moradia, transporte, crédito, tributação e planejamento urbano. O entregador que atravessa a cidade para levar uma refeição barata também é atingido pelo aluguel alto, pela ausência de transporte eficiente e pelo endividamento. A plataforma aparece como empregadora disfarçada, mas se apoia em uma estrutura social inteira que torna o trabalhador disponível e substituível.
O imperialismo contemporâneo está justamente nessa capacidade de transformar a vida social em campo de extração sem precisar ocupar formalmente o território. A cidade brasileira fornece corpos, tempo, ruas e dados; a plataforma organiza essa matéria segundo uma lógica de valorização que beneficia centros de decisão e acionistas. O entregador conhece o preço dessa operação porque o paga com o próprio corpo.
Quando ele interrompe a entrega, recusa uma tarifa ou se organiza com outros trabalhadores, não está apenas reivindicando alguns reais a mais. Está tornando visível a relação escondida atrás da interface. A luta revela que a tecnologia não é destino, que a dependência não é natural e que o trabalho que sustenta a economia digital pode disputar o controle sobre ela. A crítica do imperialismo começa onde a propaganda termina: no reconhecimento de que nenhuma conexão é neutra quando poucos controlam a rede e muitos carregam seu peso.
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