Imperialismo não é uma relíquia das guerras coloniais nem um assunto restrito às disputas entre grandes potências. Ele aparece no Brasil quando uma empresa sediada fora do país define as condições de trabalho de milhares de entregadores, quando a dívida pública subordina o orçamento aos credores e quando a economia nacional é empurrada para a exportação de minério, soja, petróleo e carne enquanto importa tecnologia, máquinas e decisões estratégicas. O imperialismo é uma relação de poder que organiza o mercado mundial e distribui de maneira desigual os lugares da produção, do consumo e da decisão. O entregador que pedala sob o comando de um aplicativo é uma das suas figuras contemporâneas.

A definição escolar costuma reduzir o fenômeno à expansão territorial de uma potência sobre outras nações. Essa descrição captura uma forma histórica do imperialismo, mas deixa escapar sua estrutura. O imperialismo contemporâneo não precisa instalar um governador estrangeiro em Brasília para produzir dependência. Basta que o país esteja preso a circuitos de financiamento, comércio, tecnologia e propriedade intelectual nos quais os centros do capitalismo controlam os setores mais rentáveis, enquanto a periferia oferece trabalho barato, recursos naturais e mercados consumidores. A dominação se torna menos visível justamente porque passa a funcionar por contratos, plataformas, metas fiscais e preços internacionais.

O que imperialismo revela sobre o trabalho brasileiro

O conceito ganha força quando deixa de ser tratado como uma acusação genérica contra qualquer influência estrangeira. No capitalismo, empresas competem por mercados, matérias-primas e força de trabalho, mas essa competição ocorre em uma estrutura mundial desigual. Países e corporações que controlam finanças, patentes, infraestrutura digital e cadeias produtivas conseguem capturar a maior parte do valor produzido em diferentes territórios. Outros países permanecem especializados em atividades de menor remuneração, maior desgaste ambiental e menor capacidade de decisão.

Lenin identificou no imperialismo uma etapa do capitalismo marcada pela concentração do capital, pela predominância do capital financeiro, pela exportação de capitais e pela disputa entre grandes potências. O conceito não deve ser repetido como fórmula congelada. A exportação de capitais hoje combina fundos de investimento, conglomerados digitais, licenças de software, controle logístico e propriedade de dados. A forma mudou, mas permanece a assimetria: quem controla o dinheiro, a tecnologia e a infraestrutura define as condições nas quais os demais trabalham.

No Brasil, essa assimetria aparece na posição subordinada de uma economia que pode produzir riqueza em escala e, ainda assim, não controlar os meios decisivos para realizá-la. O país exporta mercadorias primárias e importa componentes tecnológicos; atrai capital para explorar suas riquezas e oferece incentivos para que decisões empresariais sejam tomadas em outros centros; suporta os custos sociais e ambientais da produção enquanto os ganhos são remetidos ou concentrados. Não há contradição entre crescimento de exportações e dependência. Uma economia pode vender muito ao exterior e continuar incapaz de determinar seu próprio caminho.

Da mina ao aplicativo, a mesma arquitetura de dependência

O caso do entregador de aplicativo permite enxergar o imperialismo sem recorrer apenas a mapas geopolíticos. O trabalhador usa bicicleta ou motocicleta própria, assume o combustível, a manutenção, o risco de acidente e o tempo de espera. A plataforma, por sua vez, controla a distribuição dos pedidos, a avaliação, a remuneração variável e o acesso às corridas por meio de um sistema que o trabalhador não consegue auditar. A empresa apresenta essa relação como autonomia, mas a autonomia é apenas a aparência jurídica de uma subordinação econômica e algorítmica.

Esse modelo não nasce isolado do mercado mundial. Aplicativos, sistemas de pagamento, serviços de nuvem, aparelhos celulares e mapas dependem de cadeias tecnológicas concentradas em empresas com enorme poder financeiro. O trabalhador brasileiro oferece a parte mais barata e fisicamente arriscada da operação: a circulação concreta da mercadoria pela cidade. A plataforma retém o controle sobre a marca, os dados, o desenho do mercado e a relação com restaurantes e consumidores. O entregador suporta a materialidade da operação sem controlar a infraestrutura que organiza seu trabalho.

O discurso empresarial chama isso de inovação porque transforma a exploração em interface. A tela exibe uma sequência de pedidos, notas e incentivos; não exibe a cadeia de propriedade, as taxas cobradas, os critérios de bloqueio ou a repartição global dos ganhos. A tecnologia parece neutra porque esconde as relações sociais que a programam. O algoritmo não inventa a desigualdade, mas a administra com uma precisão que dificulta a identificação do patrão. A ordem deixa de ser comunicada por um supervisor visível e passa a aparecer como cálculo automático.

O entregador brasileiro, contudo, não está apenas submetido a uma empresa digital. Ele está situado em uma divisão internacional do trabalho que reserva ao país uma grande massa de força de trabalho disponível, pouco protegida e pressionada pela necessidade de renda. A plataforma encontra aqui condições favoráveis: desemprego, informalidade, crédito caro para comprar motocicleta, transporte público insuficiente e ausência de alternativas estáveis. A empresa global ou regional não precisa criar essa vulnerabilidade. Ela a encontra pronta, aproveita-a e a converte em modelo de negócio.

Finança, dívida e soberania limitada

A dependência também se expressa no modo como o Estado organiza suas prioridades. A dívida pública não é apenas uma conta técnica administrada por especialistas. Ela estabelece uma relação política entre o orçamento, os credores e as exigências de rentabilidade do capital financeiro. Quando a política econômica é apresentada como inevitável porque os mercados podem punir o país, a soberania popular fica subordinada a uma ameaça abstrata, porém material: aumento do custo de financiamento, fuga de capitais, desvalorização cambial e pressão sobre as contas públicas.

Não se trata de afirmar que todo gasto público é progressista ou que toda crítica à dívida é suficiente para explicar a economia. A questão é outra: quem decide o destino da riqueza social e quais interesses aparecem como limite inquestionável? Enquanto o orçamento é comprimido em áreas como saúde, educação, ciência e transporte, a remuneração do capital financeiro é tratada como compromisso superior. O trabalhador é informado de que não há recursos para direitos, mas a rentabilidade dos credores surge como obrigação natural do Estado.

Alysson Mascaro ajuda a evitar uma leitura ingênua dessa relação. O Estado capitalista não é um instrumento externo que uma classe simplesmente ocupa e manipula à vontade. Ele constitui uma forma política própria do capitalismo, separando os indivíduos como cidadãos juridicamente iguais e, ao mesmo tempo, garantindo a reprodução de relações econômicas profundamente desiguais. No plano internacional, essa forma estatal convive com hierarquias entre países. A igualdade formal entre Estados não elimina a desigualdade concreta de poder financeiro, militar, tecnológico e produtivo.

É por isso que o imperialismo não deve ser imaginado apenas como uma ordem imposta de fora a um Estado nacional passivo. As classes dominantes brasileiras também participam dessa estrutura e obtêm vantagens com ela. Exportadores de commodities, bancos, grandes grupos de infraestrutura e setores associados ao capital internacional podem lucrar com uma inserção dependente. A dependência não é simplesmente uma derrota da burguesia local; ela pode ser o modo pelo qual parcelas dessa burguesia se valorizam. O custo é socializado entre trabalhadores, comunidades indígenas, moradores de periferias e regiões sacrificadas à extração.

Colonialismo de dados e a nova infraestrutura da exploração

Na economia digital, a dependência assume uma forma que não se limita à importação de máquinas. Dados produzidos por brasileiros alimentam modelos de negócio, sistemas de publicidade, mecanismos de vigilância e ferramentas de inteligência artificial. A vida cotidiana se transforma em matéria-prima: deslocamentos, preferências, ritmos de trabalho, avaliações, contatos e padrões de consumo são capturados para prever comportamentos e vender acesso a mercados. O colonialismo de dados descreve esse processo de apropriação de informações de populações e territórios por empresas capazes de armazená-las, processá-las e monetizá-las.

A diferença em relação à extração mineral é importante, mas não elimina a continuidade. No garimpo, a riqueza é retirada do subsolo; na plataforma, é extraída da atividade social organizada por redes digitais. Em ambos os casos, a propriedade e o comando ficam concentrados, enquanto os custos permanecem no território explorado. O dado produzido pelo usuário ou pelo trabalhador parece imaterial, mas exige aparelhos, conexão, energia, centros de processamento, trabalho de moderação e infraestrutura logística. A nuvem tem localização, proprietários e contas a pagar.

Heidegger compreendeu que a técnica moderna não é apenas um conjunto de instrumentos disponíveis para qualquer finalidade. Ela tende a revelar o mundo como reserva calculável, como algo que deve estar permanentemente pronto para ser utilizado. A plataforma radicaliza essa lógica no trabalho: cada minuto de espera pode ser medido, cada deslocamento pode ser comparado, cada trabalhador pode ser ranqueado. O corpo do entregador aparece como recurso logístico. A cidade aparece como malha de rotas. O tempo aparece como intervalo a ser ocupado por uma nova corrida.

Essa transformação não é inevitável nem fruto de uma tecnologia autônoma. Ela corresponde a uma decisão social: colocar a técnica a serviço da valorização privada. Um aplicativo cooperativo, submetido ao controle dos trabalhadores e dos usuários, poderia organizar entregas de outra maneira. O fato de isso parecer distante não demonstra que o algoritmo seja neutro; demonstra a força das relações de propriedade que definem quais soluções recebem investimento, escala e proteção jurídica.

O espetáculo da modernização dependente

O imperialismo precisa produzir consenso, e a ideologia da modernização cumpre essa tarefa. Cada nova plataforma é apresentada como sinal de futuro, mesmo quando amplia a insegurança de quem trabalha. O país é convidado a celebrar a chegada de investimentos, startups e tecnologias importadas sem perguntar quem controla a infraestrutura, quais empregos são destruídos e quem ficará com os dados. A palavra inovação opera como uma espécie de salvo-conduto moral: se uma empresa usa inteligência artificial, contestar suas condições de trabalho passa a parecer resistência ao progresso.

Debord mostrou que o espetáculo não é apenas um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. A sociedade se reconhece nas representações que o capital produz sobre si mesma. No caso brasileiro, o espetáculo da inovação converte precarização em empreendedorismo, dependência em conexão global e vigilância em conveniência. O trabalhador que aceita corridas sucessivas não é apresentado como alguém sem proteção; é exibido como dono do próprio horário. A empresa que controla sua remuneração não aparece como empregadora; aparece como simples intermediária tecnológica.

Esse espetáculo também reorganiza a culpa. Se o entregador não consegue alcançar a renda prometida, a responsabilidade é atribuída à sua estratégia, à sua velocidade ou à sua suposta falta de qualificação. Se o professor é submetido a metas, plataformas educacionais e jornadas estendidas, deve aprender a administrar melhor seu tempo. Se o trabalhador de call center adoece sob monitoramento permanente, o problema é convertido em deficiência individual. A estrutura imperialista desaparece atrás de uma pedagogia de adaptação: todos devem atualizar-se para sobreviver em um jogo cujas regras são definidas por poucos.

Le Bon, ao analisar a psicologia das multidões, observou como imagens simples e afetos coletivos podem substituir a elaboração racional de conflitos. O uso contemporâneo desse problema exige cuidado: não se deve tratar trabalhadores precarizados como uma massa irracional. A questão é que o espetáculo oferece explicações fáceis para uma situação complexa. O aplicativo promete liberdade, o mercado promete recompensa, a nação promete ascensão. Enquanto isso, a experiência comum de exploração é fragmentada em trajetórias individuais, impedindo que a precariedade seja reconhecida como relação de classe.

Romper a moldura nacional sem apagar a luta concreta

Criticar o imperialismo não significa atribuir todos os problemas brasileiros a agentes estrangeiros. Essa explicação seria confortável para as elites locais, porque apagaria sua participação na exploração. Também não significa defender qualquer política estatal apenas por se opor a interesses externos. Um Estado pode negociar com empresas estrangeiras e, simultaneamente, reprimir trabalhadores; pode criar uma empresa pública e mantê-la orientada pela rentabilidade; pode usar a soberania nacional como discurso para proteger proprietários privados.

A ruptura exige localizar os interesses concretos em cada cadeia. Na entrega por aplicativo, isso significa perguntar quem define as tarifas, quem possui os dados, quem responde pelos acidentes, quem pode bloquear uma conta e por que o risco é transferido ao trabalhador. Na mineração, significa investigar quem controla a extração, quem lucra com a exportação, quem sofre com a destruição ambiental e quem tem poder para decidir sobre o território. Na dívida pública, significa enfrentar a prioridade conferida aos credores e reconstruir a capacidade de investimento social. A crítica ao imperialismo só se torna política quando identifica formas de exploração que podem ser enfrentadas.

A organização dos entregadores, os breques dos aplicativos, as greves de professores, as lutas por transporte e as mobilizações contra privatizações revelam algo que a ideologia da plataforma tenta esconder: a produção depende de trabalhadores que podem interromper o fluxo. A riqueza não está no código isolado, na marca ou na promessa de eficiência. Ela depende de corpos, tempo, conhecimento e cooperação social. Se a plataforma consegue apresentar a exploração como serviço, a luta coletiva pode reabrir a pergunta sobre propriedade, controle e finalidade.

O desafio é construir uma soberania que não seja apenas a troca de um comando estrangeiro por um comando nacional das mesmas classes. A soberania popular passa pelo controle democrático das infraestruturas, pela proteção do trabalho, pela socialização de tecnologias estratégicas e pela capacidade de planejar a economia segundo necessidades sociais. Isso inclui enfrentar o capital financeiro, limitar o poder das plataformas, garantir direitos aos trabalhadores por aplicativo e romper com a especialização que transforma o país em fornecedor de recursos baratos e consumidor de soluções caras.

O entregador que espera uma corrida diante de um restaurante não é uma imagem secundária da geopolítica. Naquela espera estão condensados o desemprego, a dívida, a cidade desigual, a tecnologia proprietária e a divisão internacional do trabalho. O imperialismo aparece ali como comando distante sobre uma atividade local; aparece no preço do aparelho, no financiamento da motocicleta, no mapa que distribui pedidos e na renda que não acompanha o custo de permanecer trabalhando. Enxergá-lo é recusar a fantasia de que cada trabalhador enfrenta sozinho um problema individual. A dependência tem centros de comando, beneficiários e trabalhadores capazes de interrompê-la.