O imperialismo não precisa desembarcar com tropas para organizar a vida brasileira. Ele pode chegar como aplicativo, investimento estrangeiro, sistema de pagamentos, plataforma de nuvem ou promessa de empreendedorismo. No trabalho de um entregador que aceita corridas pelo celular, a dominação aparece sem uniforme: uma empresa controla a circulação, calcula o preço, distribui as tarefas e transforma cada deslocamento em dado. O trabalhador parece autônomo, mas depende de uma infraestrutura que não controla. O consumidor parece livre, mas sua escolha é organizada por interfaces. E o capital, mesmo distante, apropria-se de uma parcela crescente do trabalho realizado no território brasileiro.
O imperialismo, nesse recorte, não é apenas a política externa de uma potência nem a velha imagem de uma colônia administrada por um governo estrangeiro. É uma forma histórica de organizar a acumulação capitalista em escala mundial, concentrando tecnologia, crédito, propriedade intelectual e comando empresarial em determinados centros, enquanto distribui para as periferias os trabalhos mais arriscados, baratos e descartáveis. No Brasil, essa hierarquia aparece na vida concreta de quem pedala para uma plataforma, atende clientes por metas ou trabalha em um centro de distribuição sob vigilância permanente.
O imperialismo não acabou, apenas mudou de aparência
O imperialismo clássico, analisado por Lenin, estava ligado à concentração do capital, à exportação de capitais, à disputa entre grandes empresas e à partilha econômica do mundo. Sua contribuição não foi reduzir o fenômeno à ocupação militar, mas mostrar que o capitalismo monopolista ultrapassa fronteiras porque precisa encontrar novos mercados, matérias-primas, oportunidades de investimento e força de trabalho barata. A dominação internacional é, assim, uma relação econômica e política, sustentada por Estados, bancos, empresas e tratados.
Essa estrutura não desapareceu quando as antigas colônias conquistaram independência formal. A soberania jurídica de um país pode coexistir com sua dependência financeira, tecnológica e produtiva. Uma economia nacional pode ter bandeira, governo e eleições, mas continuar submetida às decisões tomadas por fundos de investimento, credores, conglomerados tecnológicos e cadeias empresariais cuja sede está fora de seu território. O comando se torna menos visível justamente porque aparece como contrato privado, inovação inevitável ou exigência técnica do mercado.
David Harvey descreve uma dimensão decisiva desse processo por meio da acumulação por despossessão. O capital não cresce apenas explorando diretamente o trabalhador durante a produção; ele também privatiza recursos, captura direitos, transforma relações sociais em mercadorias e incorpora espaços públicos à lógica da valorização. A plataforma digital radicaliza esse movimento. Ela se apropria de dados produzidos coletivamente, converte a cidade em mapa operacional e transforma relações antes mediadas por instituições, cooperativas ou serviços públicos em transações submetidas a uma empresa.
O imperialismo contemporâneo combina essa despossessão com a dependência tecnológica. O país pode produzir alimentos, veículos, energia e serviços, mas não necessariamente controla os sistemas que definem como essas mercadorias circulam, são financiadas ou chegam ao consumidor. A periferia continua trabalhando, enquanto o centro concentra o software, as patentes, os dados, o crédito e a capacidade de impor padrões. A exploração não está somente no chão da fábrica. Ela está também no código que define o ritmo do trabalho e no contrato que desloca o risco para quem não tem poder de negociação.
O entregador brasileiro dentro da cadeia global
O entregador de aplicativo é uma figura exemplar dessa reorganização. Ele utiliza sua própria motocicleta ou bicicleta, paga combustível, manutenção, seguro, alimentação e conexão. Está exposto ao trânsito, à chuva, à violência urbana e à instabilidade da demanda. A plataforma, por sua vez, administra a relação entre restaurante, consumidor e trabalhador sem assumir integralmente os custos materiais dessa operação. A aparência é de intermediação tecnológica; a realidade é de comando econômico sobre uma força de trabalho fragmentada.
Quando uma plataforma como o iFood organiza pedidos, rotas, avaliações e pagamentos, ela não está apenas oferecendo uma ferramenta neutra. Ela cria uma forma de empresa que desloca o poder patronal para o algoritmo. O entregador não recebe uma ordem de um chefe visível em uma sala, mas precisa obedecer a uma sequência de sinais: aceitar ou recusar uma corrida, permanecer em determinada área, alcançar um restaurante em certo intervalo, suportar mudanças no valor ofertado e evitar avaliações negativas. A liberdade formal de ligar ou desligar o aplicativo convive com a necessidade material de permanecer conectado.
O vínculo imperialista não está em afirmar que cada decisão operacional é tomada diretamente por um governo estrangeiro. Ele aparece na posição ocupada pelo trabalhador brasileiro em uma estrutura cuja propriedade, tecnologia e capacidade de investimento estão concentradas em circuitos internacionais. A empresa pode operar localmente, contratar trabalhadores daqui e conhecer em detalhe cada bairro, mas seus critérios de rentabilidade obedecem a uma lógica de expansão, escala e valorização financeira que não é definida pelos entregadores nem pelas comunidades onde eles trabalham.
A plataforma extrai valor de uma cidade que não construiu. Utiliza ruas, semáforos, calçadas, sistemas de endereço, redes de telefonia e formas de convivência urbana mantidas por trabalho social e investimento público. A empresa captura uma parte dessa infraestrutura comum e a converte em serviço privado. O entregador faz a mediação física dessa operação: leva a comida, enfrenta o risco e responde ao cliente. A plataforma fica com a posição estratégica de controlar a informação sobre a transação.
Essa posição permite uma forma particular de exploração. O trabalhador não é apenas pago pelo tempo de deslocamento; ele precisa estar disponível sem garantia de remuneração. O tempo de espera, a procura por uma região mais movimentada e o retorno sem pedido são tratados como problema individual. A plataforma não reconhece integralmente esse tempo como trabalho, embora dependa dele para manter sua capacidade de atendimento. O risco da ociosidade é empurrado para o entregador, enquanto a empresa conserva o poder de definir as regras do jogo.
Do trabalho barato ao dado rentável
A dependência não se limita ao salário ou à taxa de entrega. O aplicativo recolhe informações sobre localização, horários, deslocamentos, aceitação de pedidos, consumo e comportamento. Esses dados ajudam a empresa a prever demanda, organizar preços, selecionar áreas de atuação e disciplinar trabalhadores. O que o entregador produz, portanto, não é apenas uma entrega concluída. Ele também produz informação sobre a cidade e sobre si mesmo.
Essa captura ajuda a compreender o colonialismo de dados como uma dimensão do imperialismo atual. Territórios periféricos não são apenas lugares onde se vende um serviço ou se emprega uma mão de obra barata. São também fontes de dados utilizados para aperfeiçoar modelos, expandir operações e consolidar monopólios. A experiência cotidiana de milhões de pessoas é convertida em matéria-prima para empresas que podem processá-la, protegê-la por segredo comercial e transformá-la em vantagem competitiva.
O termo “empreendedor” funciona, nesse contexto, como uma peça ideológica. Ele afirma que cada entregador seria proprietário de seu próprio negócio, responsável por administrar tempo, veículo, riscos e rendimentos. Mas a propriedade real dos meios decisivos está em outro lugar. O trabalhador não controla a plataforma, o algoritmo, a base de usuários, o sistema de pagamentos ou os critérios de visibilidade. Sua suposta empresa individual depende de uma corporação que pode alterar unilateralmente as condições de acesso ao trabalho.
Marx chamou de fetichismo da mercadoria o processo pelo qual relações sociais entre pessoas aparecem como relações entre coisas. No aplicativo, esse fetichismo ganha uma forma luminosa e interativa. O pedido aparece como uma tarefa, a tarifa como um número e a avaliação como uma nota. Desaparecem da tela a desigualdade entre quem define o preço e quem assume o custo, a cadeia internacional de propriedade e o trabalho social que torna possível cada entrega. A interface transforma relações de poder em escolhas individuais aparentemente simples.
A tecnologia intensifica essa ocultação porque apresenta decisões políticas como resultados automáticos. Se o algoritmo reduz a oferta, o trabalhador ouve que a demanda mudou. Se uma conta é bloqueada, recebe uma justificativa padronizada. Se a remuneração cai, a empresa fala em eficiência e dinâmica de mercado. A técnica aparece como destino, embora seus parâmetros sejam definidos por proprietários, executivos e investidores. Heidegger ajuda a perceber esse perigo ao mostrar que a técnica moderna não é apenas um conjunto de ferramentas: ela enquadra o mundo como estoque disponível. Na plataforma, o trabalhador vira disponibilidade mensurável, e a cidade vira reserva de rotas e consumidores.
A periferia trabalha, o centro decide
A divisão internacional do trabalho não separa somente países que fabricam produtos diferentes. Ela separa funções dentro da mesma cadeia. Em um polo estão o desenvolvimento tecnológico, o controle financeiro, a propriedade dos dados e as decisões estratégicas. Em outro estão a operação cotidiana, a manutenção, o atendimento, a entrega e a absorção dos riscos. O trabalhador brasileiro pode usar um aparelho sofisticado e executar uma atividade indispensável, mas isso não significa que participe do comando sobre o sistema.
Essa assimetria também aparece no setor de call center. O atendente trabalha diante de uma tela que mede duração, pausas, scripts e produtividade. Pode falar com consumidores de várias partes do mundo, mas sua remuneração e suas condições de vida permanecem subordinadas ao mercado de trabalho brasileiro. A distância entre o cliente internacional e o trabalhador local é administrada por empresas que distribuem tarefas conforme custos, fusos horários e níveis de proteção trabalhista. O serviço cruza fronteiras; os direitos, não necessariamente.
O mesmo ocorre nos centros de distribuição. A mercadoria pode ser comprada por uma plataforma transnacional, armazenada em instalações brasileiras e separada por trabalhadores submetidos a metas. A logística é apresentada como triunfo da velocidade, mas essa velocidade repousa sobre corpos que caminham, carregam, escaneiam e repetem movimentos sob controle. A empresa internacional oferece conveniência ao consumidor e transforma a urgência da compra em pressão sobre quem está na base da cadeia.
Não se trata de dizer que todo capital estrangeiro produz exatamente o mesmo efeito ou que empresas brasileiras estejam fora da lógica imperialista. O ponto é mais preciso: o capitalismo periférico possui burguesias locais integradas à valorização internacional. Elas podem disputar posições, negociar com conglomerados externos e explorar trabalhadores brasileiros, mas não controlam de modo soberano as estruturas globais de tecnologia, crédito e comércio. A dependência não elimina a classe dominante nacional; ela define seu lugar e seus interesses.
A burguesia brasileira frequentemente apresenta a subordinação como modernização. A entrada de uma plataforma, de um fundo ou de uma cadeia global é celebrada como inovação, geração de renda e inserção internacional. Porém, quando os ganhos são privatizados e os custos socializados, a modernização significa precarização com uma interface mais elegante. O país oferece mercado, dados, território e trabalhadores; a empresa oferece uma promessa de eficiência, enquanto preserva o direito de decidir sozinha sobre as condições da operação.
O Estado não está ausente da exploração
Seria um erro afirmar que o imperialismo atua apenas contra o Estado ou à margem dele. O Estado organiza juridicamente a propriedade, protege contratos, define regras de tributação, financia infraestrutura e escolhe quais riscos serão amparados. Mesmo quando proclama neutralidade diante das plataformas, ele produz uma decisão política: permite que a empresa opere com ampla flexibilidade e deixa o trabalhador negociar individualmente com um poder econômico muito superior.
Alysson Mascaro mostra que o Estado moderno não é um instrumento exterior ao capitalismo que poderia simplesmente ser colocado a serviço de qualquer classe sem transformação das relações sociais. Sua forma jurídica universaliza sujeitos formalmente livres e iguais, embora a sociedade seja marcada pela separação entre quem possui os meios de produção e quem precisa vender sua força de trabalho. O entregador assina termos de uso como indivíduo livre, mas não participa da elaboração das regras nem possui condições materiais para recusá-las.
Essa forma jurídica ajuda a imperialização do trabalho a parecer uma relação voluntária. A plataforma não precisa declarar que comanda um empregado; basta chamar o trabalhador de parceiro, prestador ou empreendedor. O contrato individual encobre uma dependência coletiva. Cada entregador parece fazer uma escolha isolada, enquanto milhares são submetidos ao mesmo sistema de preços, bloqueios, avaliações e metas. A igualdade contratual formal protege a desigualdade efetiva.
As lutas dos entregadores, como o Breque dos Apps, romperam essa aparência. Ao interromper entregas e formular reivindicações coletivas, os trabalhadores mostraram que não eram usuários independentes de uma tecnologia, mas uma categoria submetida a condições comuns. Pedidos por remuneração digna, proteção contra acidentes, transparência dos bloqueios e melhoria das condições de trabalho revelaram a dimensão política de uma atividade apresentada como simples oportunidade individual.
O conflito também expôs uma contradição da plataforma. Ela necessita de trabalhadores disponíveis, coordenados e previsíveis, mas tenta negar a existência de uma relação de comando para evitar obrigações correspondentes. Precisa controlar o trabalho sem parecer empregadora. Precisa da cidade e da infraestrutura pública sem pagar pelo conjunto dos custos sociais. Precisa dos dados produzidos pelos usuários sem entregar a eles poder sobre seu uso. A flexibilidade é, nesse caso, a liberdade empresarial de transferir riscos para baixo.
Imperialismo, espetáculo e obediência cotidiana
Guy Debord descreveu o espetáculo não como simples excesso de imagens, mas como uma relação social mediada por imagens. A plataforma realiza essa mediação em tempo real. O trabalhador vê sua posição no mapa, sua taxa de aceitação, sua avaliação e a promessa de uma próxima corrida. O consumidor vê uma estimativa de chegada e uma fotografia do pedido. A relação social é reorganizada pela tela, que oferece a sensação de transparência enquanto oculta a arquitetura do poder.
O espetáculo da inovação apresenta a exploração como conveniência. O consumidor recebe uma refeição sem precisar reconhecer a cadeia de trabalho que a deslocou. O investidor enxerga crescimento de usuários e expansão de mercado. A publicidade mostra autonomia, velocidade e liberdade. O entregador, entretanto, conhece a materialidade da promessa: espera sem pagamento, acidente sem proteção suficiente, conta bloqueada, dívida com o veículo e pressão para permanecer conectado.
A psicologia das multidões, em Le Bon, pode ser atualizada criticamente para compreender como a plataforma produz comportamentos coletivos sem formar uma comunidade consciente. Milhares de trabalhadores recebem estímulos individualizados, recompensas variáveis e mensagens que os fazem competir por oportunidades. A multidão digital não se reúne em uma praça; ela circula fragmentada, cada pessoa olhando para a própria tela. A empresa coordena o conjunto sem precisar que os trabalhadores se reconheçam como grupo.
É justamente por isso que a organização coletiva é tão ameaçadora para o modelo. Quando os entregadores conversam, comparam tarifas, identificam bloqueios semelhantes e articulam paralisações, o algoritmo deixa de parecer uma força natural. Sua suposta neutralidade é substituída pela percepção de que há uma relação de exploração. O encontro entre trabalhadores produz conhecimento sobre o sistema e rompe o isolamento que sustenta a dominação.
Romper a dependência exige mudar o comando
Criticar o imperialismo das plataformas não significa rejeitar toda tecnologia nem defender uma volta imaginária a um passado sem redes digitais. O problema não é a existência de aplicativos, mapas ou sistemas automatizados. O problema é quem controla esses meios, com que finalidade e sob quais relações de propriedade. Uma tecnologia orientada pelo lucro transforma dados em patrimônio privado, automatiza a vigilância e converte a eficiência em intensificação do trabalho. Uma tecnologia submetida ao interesse coletivo poderia reduzir jornadas, melhorar a logística e ampliar a segurança sem fazer disso uma fonte de enriquecimento privado.
A alternativa não virá de uma fiscalização superficial que apenas obrigue a plataforma a publicar mensagens mais claras. Transparência é necessária, mas insuficiente quando o trabalhador não tem poder para contestar decisões. É preciso garantir organização coletiva, acesso aos critérios algorítmicos, proteção social, responsabilidade empresarial por acidentes e remuneração que considere o tempo total à disposição. Também é preciso discutir modelos cooperativos e infraestruturas públicas ou socializadas, nos quais os trabalhadores e usuários participem das decisões sobre dados, tarifas e funcionamento.
O ponto decisivo é retirar a tecnologia do lugar de autoridade incontestável. Um algoritmo não é uma lei da natureza. Ele é uma decisão social codificada, produzida por interesses, objetivos e relações de poder. Quando define que um trabalhador pode ser bloqueado sem defesa, ele realiza uma política. Quando considera o tempo de espera improdutivo, ele realiza uma política. Quando transforma a infraestrutura urbana em fonte privada de renda, ele realiza uma política.
O imperialismo permanece porque o capitalismo continua distribuindo de forma desigual o poder de decidir sobre a produção e a circulação da riqueza. No Brasil, essa desigualdade assume a forma de entregadores sem garantia, atendentes monitorados, trabalhadores de armazém submetidos a metas e consumidores dependentes de empresas que controlam os caminhos do cotidiano. A novidade técnica não eliminou a velha hierarquia; apenas a tornou mais rápida, personalizada e difícil de enxergar.
Reconhecer essa estrutura é o primeiro passo para abandonar a explicação confortável de que a precarização resulta de escolhas individuais. O entregador não é pobre porque não soube empreender, assim como o atendente não está exausto por falta de disciplina. Eles ocupam posições definidas por uma divisão social e internacional do trabalho. Enquanto o capital puder concentrar o comando tecnológico e transferir os riscos para quem executa, a promessa de autonomia continuará funcionando como disfarce da dependência.
A disputa não é entre aceitar ou recusar a modernidade. É entre deixar que a modernidade seja administrada por monopólios orientados pela rentabilidade ou submetê-la às necessidades de quem trabalha. O futuro das plataformas será imperialista enquanto seus benefícios forem concentrados e seus custos distribuídos. Transformá-lo exige que os trabalhadores deixem de ser apenas dados, rotas e avaliações e passem a controlar os meios que organizam seu próprio trabalho.
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