O materialismo histórico costuma ser apresentado como uma explicação esquemática da sociedade, dividida entre infraestrutura econômica e superestrutura política, jurídica e cultural. Essa versão escolar neutraliza justamente o que há de mais incômodo no método de Marx: as ideias dominantes não pairam acima da vida material, e as formas de consciência não podem ser separadas das relações concretas de trabalho. No Brasil, basta observar a rotina de um entregador de aplicativo para perceber que a promessa de liberdade empresarial é produzida por uma relação de dependência. O trabalhador aparece como empreendedor, mas continua vendendo sua força de trabalho para sobreviver, apenas sem a proteção e a transparência que tornavam essa exploração mais visível.
O materialismo histórico começa onde termina a propaganda
A propaganda das plataformas descreve o entregador como alguém que escolhe seus horários, administra o próprio negócio e transforma um celular em fonte de renda. O discurso parece falar de autonomia, mas omite as condições que tornam essa autonomia uma necessidade. Quem possui outra fonte segura de renda pode desligar o aplicativo; quem depende dele para pagar aluguel, alimentação e transporte precisa permanecer conectado, aceitar corridas e suportar a oscilação dos ganhos. A mesma ferramenta que aparece como instrumento de liberdade funciona como mecanismo de comando.
O materialismo histórico desloca a pergunta. Em vez de perguntar se o entregador é formalmente livre para aceitar ou recusar uma corrida, pergunta quem controla a plataforma, os dados, os critérios de distribuição e o valor pago por cada tarefa. A liberdade jurídica permanece, mas é atravessada pela coerção econômica. Não há patrão visível no restaurante ou na rua, e a empresa pode afirmar que apenas aproxima consumidores e prestadores independentes. Ainda assim, o algoritmo define prioridades, registra desempenho, distribui oportunidades e pode reduzir o acesso ao trabalho. A gestão não desapareceu; ela foi convertida em código, pontuação e bloqueio.
A forma jurídica encobre a relação de classe
O trabalhador de aplicativo é apresentado como proprietário de seus meios de produção porque usa uma bicicleta, uma motocicleta ou um telefone. Essa aparência é ideológica. Possuir o instrumento imediato da atividade não significa controlar as condições gerais de valorização. O entregador não define o preço cobrado do cliente, não decide como a plataforma calcula sua remuneração, não controla o fluxo de pedidos nem dispõe livremente dos dados produzidos durante o trabalho. Sua motocicleta individual não o transforma em capitalista, assim como uma enxada não transformava o camponês pobre em proprietário do mercado agrícola.
A relação de classe não desaparece quando o contrato muda de nome. O trabalhador continua separado dos meios que poderiam garantir sua reprodução em condições dignas e precisa oferecer sua capacidade de trabalhar em troca de uma remuneração incerta. A empresa, por sua vez, concentra a infraestrutura digital, a marca, os dados e a capacidade de impor regras unilateralmente. O direito pode chamar essa relação de parceria, prestação de serviço ou empreendedorismo, mas a denominação jurídica não altera por si só a estrutura material da dependência. Como mostra a crítica marxista do direito, a igualdade formal entre contratantes pode coexistir com uma desigualdade econômica radical.
Essa é uma das funções políticas da linguagem do empreendedorismo. Ela transforma uma relação social em atributo individual. Se o trabalhador obtém renda baixa, a explicação passa a ser sua falta de esforço, planejamento ou qualificação. Se adoece, a responsabilidade é apresentada como falha de gestão pessoal. Se trabalha doze horas e ainda não consegue pagar as contas, a culpa recai sobre suas escolhas. A exploração deixa de ser percebida como relação entre classes e aparece como resultado psicológico de indivíduos que não souberam aproveitar oportunidades.
Da fábrica ao aplicativo, a mais-valia muda de aparência
O materialismo histórico não exige que a exploração contemporânea copie a fábrica do século XIX. O capitalismo reorganiza suas técnicas para extrair mais trabalho com menos direitos, menor custo fixo e maior transferência de riscos. Na plataforma, o tempo de espera pode não ser reconhecido como tempo de trabalho, embora o entregador permaneça disponível para produzir valor. A manutenção da motocicleta, o combustível, o seguro, o desgaste físico e o risco de acidente são deslocados para quem executa a tarefa. A empresa preserva a capacidade de coordenar o processo sem assumir integralmente os custos de sua operação.
O celular torna-se uma espécie de relógio de ponto permanente. A plataforma acompanha a localização, o tempo de deslocamento, a aceitação de pedidos e a avaliação recebida. A aparência é de um mercado espontâneo, no qual cada trabalhador negocia individualmente suas oportunidades. Na prática, existe uma disciplina contínua, ainda que sem encarregado ao lado. O algoritmo não precisa gritar para organizar a jornada: basta tornar certas corridas mais atraentes, ameaçar a perda de acesso ou distribuir desigualmente os pedidos.
Essa organização também intensifica a alienação. O trabalhador não controla o sentido do que faz, não participa da definição das regras e frequentemente não compreende como decisões relevantes são tomadas. Seu próprio desempenho retorna a ele como número, nota ou taxa, como se a avaliação fosse uma medida natural de seu valor. A relação social entre empresa, consumidor e trabalhador aparece como relação entre o indivíduo e a tela. O poder de classe assume a forma aparentemente impessoal de uma interface.
A ideologia da meritocracia administra a precariedade
A meritocracia cumpre um papel decisivo nesse arranjo porque transforma desigualdade em prova de mérito. O entregador que consegue trabalhar em horários de maior demanda é celebrado como determinado; aquele que não consegue acompanhar a competição é tratado como incompetente. A ideologia não precisa convencer todos de que vencerão. Basta apresentar a derrota como responsabilidade privada e impedir que condições comuns sejam reconhecidas como problema coletivo.
O mesmo mecanismo aparece em outras ocupações. O professor submetido a metas, plataformas educacionais e avaliações permanentes é chamado de gestor de sua carreira. O trabalhador de call center monitorado por produtividade é incentivado a tratar a exaustão como desafio pessoal. Em todos esses casos, a tecnologia pode ampliar a capacidade de controle enquanto a linguagem empresarial promete flexibilidade. Não se trata de afirmar que a técnica seja neutra e depois mal utilizada. As ferramentas são desenvolvidas e aplicadas dentro de relações sociais orientadas pela valorização do capital.
É por isso que o materialismo histórico não pode ser reduzido a uma teoria sobre o passado. Ele ajuda a compreender por que soluções individuais fracassam diante de problemas produzidos coletivamente. Um entregador pode organizar melhor seu horário, trocar de aplicativo ou comprar equipamento mais eficiente, mas essas decisões não eliminam a dependência que estrutura sua vida. A saída individual pode aliviar uma situação específica sem tocar na propriedade da plataforma, na distribuição do valor ou na ausência de poder coletivo sobre as regras do trabalho.
O conflito que a plataforma tenta apagar
Quando entregadores se mobilizam contra bloqueios, taxas insuficientes e jornadas perigosas, não estão reivindicando apenas melhorias administrativas. Estão tornando visível uma contradição que a empresa tenta dissolver: a plataforma depende de trabalhadores que, juridicamente, procura apresentar como parceiros sem direitos correspondentes. A luta coletiva rompe a ficção de que cada entregador negocia isoladamente com uma tecnologia neutra. Ela recoloca no centro a disputa por tempo, remuneração, proteção e poder de decisão.
Esse conflito também mostra que a classe trabalhadora não desapareceu; suas formas de organização é que foram desarticuladas e fragmentadas. A dispersão espacial, a concorrência entre trabalhadores e a gestão algorítmica dificultam a construção de solidariedade, mas não eliminam interesses comuns. O trabalhador que circula sozinho pela cidade compartilha uma condição material com milhares de outros que enfrentam riscos semelhantes. Reconhecer essa condição é o primeiro movimento contra a ideologia que transforma cada exploração em fracasso pessoal.
O materialismo histórico vale, então, menos como uma definição a ser decorada do que como uma ruptura com as aparências produzidas pelo capitalismo. Ele ensina a procurar, por trás do aplicativo conveniente, a propriedade concentrada; por trás da autonomia anunciada, a dependência econômica; por trás do algoritmo impessoal, decisões de classe. Enquanto a plataforma vender a imagem de que não emprega ninguém, haverá interesse em fazer o trabalhador acreditar que também não é trabalhador. A crítica começa quando essa mentira deixa de organizar a percepção da própria vida.
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