Fetichismo da mercadoria é o nome dado por Karl Marx à inversão pela qual relações sociais entre pessoas assumem a aparência de relações entre coisas. No capitalismo, uma roupa, um celular ou uma corrida de aplicativo parecem possuir valor como se ele nascesse do próprio objeto; desaparecem de vista o trabalho humano, a divisão de classes, a propriedade dos meios de produção e a exploração que tornam aquela mercadoria possível. Não se trata de uma simples admiração exagerada por produtos: é uma forma social de percepção que faz o mercado parecer natural e as relações capitalistas parecerem inevitáveis.

Origem do conceito em Marx

Marx desenvolve o conceito no primeiro capítulo de O capital, ao analisar a mercadoria como célula básica da sociedade capitalista. Toda mercadoria tem utilidade: um casaco protege do frio, um alimento mata a fome, um computador permite executar tarefas. Isso é seu valor de uso. Mas, quando produtos diferentes são levados ao mercado e trocados, eles passam a ser comparados por seu valor de troca. Uma quantidade de dinheiro compra um par de tênis, algumas horas de trabalho assalariado pagam um jantar, um salário é convertido em aluguel, transporte e comida.

O que permite comparar coisas tão distintas não é alguma essência física comum entre elas. Para Marx, é o trabalho humano abstrato: o tempo de trabalho socialmente necessário para produzi-las nas condições médias de uma dada sociedade. Só que, no mercado, esse vínculo não aparece de modo transparente. Os produtores não se relacionam diretamente para decidir o que, como e para quem produzir; relacionam-se por meio das mercadorias e dos preços. Assim, o valor parece uma propriedade da coisa, não uma relação social historicamente construída.

O fetichismo não significa que as pessoas sejam enganadas por uma publicidade isolada. Ele nasce da própria organização da produção, na qual o trabalho social se apresenta como valor das mercadorias.

Como o fetichismo opera

Chamar esse processo de fetichismo remete à atribuição de poderes autônomos a objetos. No capitalismo, a mercadoria parece agir: “o mercado exige”, “o dinheiro rende”, “a empresa criou empregos”, “a plataforma oferece oportunidades”. Essas frases apagam sujeitos concretos e interesses de classe. O mercado não exige nada por conta própria; empresários, investidores, proprietários e governos tomam decisões dentro de uma estrutura que privilegia a acumulação de capital. O dinheiro não trabalha: quem trabalha são pessoas, enquanto a propriedade permite a seus donos apropriar-se de parte do valor produzido por outros.

Essa aparência também separa o consumidor do processo produtivo. Uma camiseta exposta numa vitrine surge como item de moda, preço e marca. Ficam ocultos quem plantou ou colheu a matéria-prima, quem costurou, em que jornada, sob quais condições de segurança e com qual remuneração. A marca pode então cobrar mais não apenas pela qualidade material, mas por uma aura social fabricada: prestígio, exclusividade, pertencimento. A mercadoria se torna portadora de identidade, enquanto as pessoas que a produziram permanecem anônimas.

O fetichismo alcança inclusive a força de trabalho. O salário faz parecer que o trabalhador recebe o valor integral de seu trabalho. Na realidade, ele vende sua capacidade de trabalhar por um período determinado. Durante a jornada, produz valor superior ao que retorna na forma de salário; essa diferença é apropriada pelo capitalista como mais-valia. O contrato aparece como acordo livre entre iguais, mas ocorre entre quem precisa vender sua força de trabalho para viver e quem controla os meios necessários para produzir.

O fetichismo no Brasil das plataformas

No Brasil atual, as plataformas digitais renovam essa ocultação sem eliminá-la. O aplicativo apresenta uma entrega como serviço instantâneo: distância, prazo, taxa, avaliação. Para o cliente, a comida parece chegar graças à eficiência tecnológica. A tela raramente mostra o entregador esperando pedido sem remuneração, arcando com bicicleta, moto, combustível, manutenção, risco de acidente e oscilações do algoritmo. A empresa se apresenta como intermediária técnica, enquanto organiza preços, distribuição de demandas, punições e acesso ao trabalho.

O mesmo vale para o call center. Quem recebe uma ligação percebe uma voz e um serviço; por trás dela, há metas de atendimento, scripts, vigilância de pausas, pressão por produtividade e, frequentemente, baixos salários. No ensino, plataformas e sistemas de avaliação podem transformar o trabalho do professor em indicadores, apostilas padronizadas e desempenho mensurável, como se educar fosse apenas entregar um produto. Em cada caso, relações entre seres humanos são reorganizadas e percebidas como relações com sistemas, serviços e métricas aparentemente neutras.

A publicidade e as redes sociais aprofundam a dimensão subjetiva do fetichismo. Compras são vendidas como expressão individual de liberdade, autocuidado ou sucesso; o endividamento, porém, é tratado como falha pessoal, não como resultado de salários insuficientes, crédito predatório e necessidades mercantilizadas. O trabalhador é convidado a se imaginar empreendedor de si mesmo, ainda que dependa de jornadas extensas e renda instável.

Crítica: desfetichizar a vida social

Criticar o fetichismo da mercadoria não é defender que objetos não tenham utilidade nem culpar indivíduos por consumir. É recusar a aparência de que preços, lucros, tecnologias e marcas sejam fatos naturais, desconectados de trabalho e poder. Desfetichizar é perguntar quem produziu, quem decide, quem lucra, quem assume os riscos e quais formas de vida são sacrificadas para que uma mercadoria circule.

Essa crítica atinge o capitalismo em seu centro. Enquanto a produção for organizada para a valorização do capital, necessidades humanas serão subordinadas à rentabilidade, e pessoas tenderão a aparecer como recursos, custos ou dados. Tornar visíveis as relações sociais escondidas nas coisas é condição para imaginar outra organização do trabalho e da riqueza: uma em que a produção responda conscientemente às necessidades coletivas, e não à autonomização do mercado.