Meritocracia é uma palavra confortável para quem precisa explicar por que uma sociedade brutalmente desigual continua parecendo justa. Ela promete que cada pessoa recebe aquilo que produziu, que a ascensão é consequência natural de disciplina e talento, e que o fracasso revela insuficiência pessoal. Mas a promessa só funciona porque apaga a linha de partida. No Brasil, onde o acesso a escola, moradia, tempo livre, alimentação, transporte, rede de contatos e segurança material é distribuído conforme a classe e a raça, apresentar o resultado da corrida como medida exclusiva de mérito é uma operação ideológica. Não se trata de negar que pessoas se esforçam, estudam ou desenvolvem capacidades. Trata-se de recusar que esse esforço, isolado das condições em que ocorre, explique a posição que cada um ocupa na hierarquia social.

A função política da meritocracia não é premiar o mérito, algo que qualquer sociedade pode reconhecer em atividades específicas. Sua função é moralizar a desigualdade produzida pelo capitalismo. Quando um trabalhador recebe pouco, trabalha demais e não consegue melhorar de vida, a pergunta deixa de ser sobre salário, jornada, propriedade e poder. Passa a ser sobre sua disposição íntima: ele se qualificou? Soube empreender? Teve “atitude”? A estrutura desaparece, e o indivíduo se torna réu de uma espécie de tribunal permanente de desempenho. A pobreza, antes entendida como questão social, ganha o verniz de falha biográfica.

A meritocracia mede o entregador e esconde quem controla a corrida

O entregador de aplicativo oferece um caso brasileiro particularmente nítido. A plataforma lhe apresenta uma narrativa de autonomia: ele escolhe quando conectar, quanto rodar, quais metas perseguir. Ao mesmo tempo, organiza seu trabalho por meio de taxas, pontuações, aceitação de chamadas, avaliações de clientes, zonas de demanda, incentivos temporários e bloqueios cuja lógica raramente é transparente. A tela transforma comandos empresariais em oportunidades individuais. Se ele permanece muitas horas nas ruas para alcançar uma renda minimamente suficiente, isso pode aparecer como escolha empreendedora; se recusa uma corrida ruim e perde prioridade, o prejuízo é convertido em consequência da sua decisão.

O mecanismo é cruel justamente porque não precisa de um chefe visível dando ordens. O algoritmo distribui trabalho e opacidade; o trabalhador recebe metas e risco. Uma avaliação ruim, por exemplo, pode decorrer do atraso causado pela chuva, pelo trânsito, pela distância até o restaurante, por endereço incompleto ou pela própria demora do estabelecimento. Ainda assim, a nota se cola ao indivíduo como se fosse um retrato objetivo de sua competência. O cliente, posto na posição de avaliador soberano, participa de uma relação de controle que a empresa chama de experiência. A plataforma retém o poder de definir regras, preços e acesso ao trabalho, mas oferece ao entregador a ficção de que seu destino depende essencialmente de otimizar a própria conduta.

É nesse ponto que a meritocracia deixa de ser apenas discurso e vira técnica de gestão. Ela ensina o trabalhador a vigiar a si mesmo, a comparar cada hora improdutiva com a performance alheia e a tratar o descanso como custo moral. O problema não é somente ganhar pouco: é precisar interpretar o pouco que se ganha como sinal de que ainda falta empenho. A exploração adquire uma linguagem motivacional. Não há necessidade de justificar uma remuneração rebaixada se é possível fazer o próprio explorado acreditar que ela é um diagnóstico de seu valor.

Do esforço abstrato à mais-valia concreta

Marx não tratava o trabalho como uma disputa neutra em que indivíduos trocam esforço por recompensa proporcional. No capitalismo, o trabalhador vende sua força de trabalho porque não possui os meios necessários para produzir e sobreviver de modo autônomo. Quem possui os meios de produção compra essa força de trabalho e se apropria do valor produzido além do necessário para remunerá-la: a mais-valia. A retórica meritocrática entra em cena para encobrir essa relação. Ela fala de recompensa ao esforço onde há, antes, uma relação desigual entre quem depende de trabalhar e quem controla a infraestrutura, a propriedade, os dados e a decisão sobre a remuneração.

Nas plataformas, os meios de produção não desapareceram; foram reorganizados. O aplicativo, a marca, a carteira de usuários, os sistemas de pagamento e os dados pertencem à empresa. A moto, o celular, a internet, a manutenção e o risco de acidente recaem sobre quem trabalha. Chamar esse trabalhador de parceiro ou empreendedor não altera a assimetria. Ao contrário: torna-a mais eficiente, pois desloca custos para baixo e preserva, no alto, o comando sobre a circulação do serviço. A meritocracia completa esse arranjo ao sugerir que a diferença entre o entregador exausto e o executivo ou acionista é uma diferença de empenho, e não de posição diante da propriedade.

O mesmo raciocínio atravessa o call center, onde indicadores de atendimento comprimem a fala, cronometram pausas e fazem da cordialidade uma obrigação mensurável. A trabalhadora que enfrenta uma fila de ligações, metas móveis e usuários irritados pode ouvir que sua baixa pontuação decorre de falta de proatividade. Pouco importa que o serviço seja deliberadamente subdimensionado, que o roteiro seja rígido ou que a remuneração não corresponda à pressão. A métrica transforma um problema de organização do trabalho em deficiência subjetiva. Cada número promete objetividade, mas carrega decisões empresariais: o que medir, qual meta impor, que margem de erro tolerar, quem pode ser descartado.

O espetáculo do vencedor precisa de perdedores culpados

Debord ajuda a entender por que essa ideologia se sustenta também fora do local de trabalho. Na sociedade do espetáculo, a vida social aparece mediada por imagens que substituem relações concretas. O vencedor meritocrático é uma dessas imagens: o empreendedor que venceu “do zero”, o influenciador cuja rotina transforma produtividade em personalidade, o executivo que atribui sua fortuna à disciplina matinal. Essas narrativas não precisam ser inteiramente falsas para funcionarem. Basta que selecionem o que interessa mostrar e ocultem heranças, redes familiares, crédito, proteção social, empregados invisíveis, oportunidades de classe e os incontáveis fracassos que não viraram conteúdo.

O espetáculo não vende somente bens; vende explicações para a ordem social. Ao assistir à exibição incessante de vencedores, o trabalhador é convidado a ler sua própria condição como insuficiência. A desigualdade deixa de parecer resultado de relações históricas e passa a parecer placar de qualidades pessoais. É por isso que a figura do “vencedor” tem tamanha afinidade com o neoliberalismo: ela privatiza a responsabilidade por problemas coletivos. Se a escola pública é precarizada, o aluno deve compensar com resiliência. Se o emprego é instável, deve fazer cursos continuamente. Se o aluguel consome a renda, deve encontrar uma renda extra. A sociedade retira garantias e depois celebra como virtude a capacidade individual de sobreviver à retirada.

Essa lógica tem ainda uma face autoritária. O bolsonarismo, embora frequentemente apresentado como revolta contra elites, alimentou a fantasia de que direitos trabalhistas, políticas de inclusão e ações afirmativas seriam privilégios indevidos concedidos a quem não mereceu. Sua política de ressentimento opõe trabalhadores entre si e preserva intacta a questão decisiva: por que uma minoria concentra propriedade, renda e poder suficientes para definir as regras da competição? A indignação é desviada do capital para o pobre, o servidor, o cotista, a mulher que reivindica igualdade, o nordestino, o imigrante. A meritocracia fornece a gramática moral dessa violência: alguns supostamente tomariam o lugar de outros sem “merecer”.

Reconhecer capacidades não exige adorar a desigualdade

A crítica à meritocracia não pede indiferença diante do estudo, da dedicação ou da criação humana. Uma sociedade emancipada não precisa fingir que todas as contribuições são idênticas, nem impedir que habilidades sejam desenvolvidas e reconhecidas. O que ela não pode aceitar é que capacidades individuais sejam usadas para legitimar a privação dos demais. O problema começa quando o direito a viver com dignidade depende de vencer uma concorrência organizada por condições desiguais e quando o acesso a trabalho, conhecimento e proteção é tratado como prêmio, não como garantia social.

Para um entregador, uma atendente ou um professor submetido à produtividade, a saída não está em aperfeiçoar indefinidamente a própria marca pessoal. Está em transformar as condições que fazem do trabalho uma prova contínua de merecimento: remuneração justa, jornada limitada, proteção contra acidentes e demissões arbitrárias, transparência nos sistemas algorítmicos, organização coletiva e poder de decisão sobre a vida laboral. A meritocracia prospera quando cada pessoa é isolada diante de uma tela, de uma meta ou de um currículo. Ela começa a perder força quando os indivíduos reconhecem, naquilo que lhes vendiam como fracasso privado, uma experiência comum produzida por uma ordem social. Não é falta de mérito que explica uma vida trabalhada até o limite sem horizonte de segurança. É um sistema que precisa chamar exploração de oportunidade para continuar funcionando.