O que significa golpe de Estado em uma sociedade na qual a ruptura política pode ser ensaiada por militares, empresários, plataformas digitais, parlamentares e multidões mobilizadas sem que a ordem jurídica seja imediatamente dissolvida? A pergunta não se resolve com a imagem escolar de tanques ocupando a praça central. No Brasil, o golpe deve ser compreendido como uma operação de classe contra a possibilidade de que a maioria popular controle efetivamente o Estado. Ele pode recorrer à força aberta, mas também à chantagem institucional, à sabotagem eleitoral, à mobilização de quartéis, à desinformação e à produção de um ambiente no qual a exceção aparece como salvação nacional.

Esse recorte é decisivo para entender o bolsonarismo. O movimento que culminou na invasão e na depredação das sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023 não surgiu de uma explosão espontânea de irracionalidade. Foi preparado por anos de ataques às urnas, fabricação de inimigos internos, culto à autoridade armada e circulação industrial de mentiras. A destruição dos prédios foi a forma visível de uma crise mais extensa: a tentativa de converter a derrota eleitoral em argumento para deslegitimar a própria democracia, desde que a democracia deixasse de garantir o resultado desejado pelas classes dominantes e seus representantes.

O que significa golpe de Estado quando a lei continua funcionando

Golpe de Estado não é simplesmente qualquer ilegalidade praticada por um governante, nem toda crise entre instituições. O golpe ocorre quando forças organizadas procuram tomar, conservar ou reconfigurar o poder estatal por meios que rompem a forma regular de sucessão e decisão política. Essa ruptura pode ser militar e explícita, como em 1964, ou pode tentar vestir a roupa da legalidade, usando decretos, tribunais, parlamentos, forças de segurança e mobilizações de rua para produzir uma soberania de fato acima das regras ordinárias.

A aparência jurídica não elimina o golpe. Em determinadas conjunturas, ela é justamente seu instrumento. A ordem constitucional pode ser esvaziada por medidas excepcionais, por interpretações fabricadas sob pressão ou por um cerco institucional que transforma direitos em concessões revogáveis. O Estado de exceção não precisa anunciar que abandonou a lei; frequentemente afirma estar protegendo a lei contra seus supostos inimigos. A linguagem da defesa da Constituição pode ser utilizada por quem pretende impedir que a Constituição seja aplicada a todos.

Alysson Mascaro ajuda a afastar uma compreensão ingênua desse processo. O Estado capitalista não é uma ferramenta neutra que paira acima das classes e pode ser ocupada indistintamente por qualquer grupo. Sua forma jurídica organiza relações sociais fundadas na propriedade privada, no trabalho assalariado e na circulação de mercadorias. Isso não significa que cada governo seja idêntico ou que eleições não importem. Significa que a disputa pelo governo acontece dentro de uma estrutura estatal que protege a reprodução do capital. O golpe aparece quando setores da classe dominante consideram que os mecanismos políticos ordinários se tornaram insuficientes ou perigosos para preservar essa reprodução.

Em 1964, a deposição de João Goulart não foi uma simples intervenção militar causada por desordem nas ruas. Ela articulou comando das Forças Armadas, empresários, proprietários rurais, setores da imprensa, interesses estrangeiros e parcelas das classes médias. O pretexto da ameaça comunista ocultava conflitos concretos sobre reforma agrária, direitos trabalhistas, soberania econômica e participação popular. A ditadura não apenas suspendeu eleições e perseguiu opositores; reorganizou o Estado para bloquear transformações sociais que afetariam a distribuição da riqueza e do poder.

O golpe brasileiro foi preparado como espetáculo

No caso bolsonarista, a ruptura foi precedida por uma longa fabricação de realidade. O ataque às urnas eletrônicas não dependia de uma prova técnica consistente. Dependia da repetição de uma suspeita até que ela se tornasse, para uma parcela do público, mais real do que qualquer apuração. Guy Debord descreveu o espetáculo não como um conjunto de imagens, mas como uma relação social mediada por imagens. A desinformação eleitoral funcionou exatamente assim: transformou a política em uma cena de acusações permanentes e substituiu a verificação dos fatos pela adesão a uma identidade.

O eleitor bolsonarista não era convocado apenas a escolher um candidato. Era chamado a participar de uma guerra moral contra ministros, professores, jornalistas, artistas, militantes de esquerda, movimentos sociais e qualquer pessoa apresentada como inimiga da pátria. A urna aparecia, nessa narrativa, como o dispositivo que roubaria a vontade autêntica do povo. A contradição era conveniente: o povo só seria soberano quando confirmasse a liderança que se apresentava como sua encarnação.

Le Bon, ao estudar a psicologia das multidões, observou como a massa pode ser mobilizada por imagens, fórmulas simples e contágio afetivo. Seu trabalho não oferece uma explicação suficiente para o bolsonarismo, sobretudo porque tende a tratar a multidão como irracionalidade abstrata, mas ajuda a compreender a força dos símbolos repetidos. A bandeira, a camisa da seleção, o hino, a palavra de ordem e a figura do líder funcionam como condensadores emocionais. O medo social produzido por desemprego, insegurança, perda de renda e desamparo encontra um alvo visível: o comunista imaginário, o corrupto genérico, o ministro tirano, o pobre que supostamente recebe privilégios.

Essa multidão não é manipulada no vazio. Ela vive as consequências materiais de uma sociedade desigual e recebe explicações ideológicas para problemas que têm origem na exploração. O trabalhador submetido a metas, dívidas, aplicativos e jornadas extensas é convidado a culpar o serviço público, a universidade, o sindicato ou a política de cotas. A angústia real é convertida em ressentimento contra outros trabalhadores. O golpe se alimenta dessa conversão: em vez de identificar quem controla a riqueza e as instituições, a massa é ensinada a defender a autoridade que a mantém subordinada.

Da precarização ao autoritarismo

O bolsonarismo não pode ser separado da precarização da vida. O entregador que pedala por horas sem salário fixo, proteção previdenciária ou garantia contra acidentes experimenta a liberdade neoliberal como obrigação de aceitar qualquer corrida. A professora que acumula contratos, turmas e tarefas administrativas encontra uma gestão que chama exaustão de compromisso. O trabalhador de call center tem sua voz, seu tempo e suas pausas medidos por sistemas de produtividade. Em todos esses casos, a responsabilidade pelo fracasso é lançada sobre o indivíduo, enquanto as estruturas que definem sua vulnerabilidade desaparecem.

Essa ideologia da culpa individual prepara o terreno autoritário. Quem é responsabilizado sozinho por uma vida impossível tende a buscar uma autoridade capaz de punir os supostos culpados por sua frustração. O discurso fascista oferece uma saída imaginária: não promete transformar as relações de propriedade, mas restaurar uma hierarquia na qual cada um saberia seu lugar. A ordem substitui a igualdade; a obediência substitui a participação; o inimigo substitui a explicação.

O golpe, nesse contexto, aparece como solução para a contradição entre a promessa democrática e a persistência da dominação social. A democracia burguesa permite disputas, concede direitos e abre espaços de organização, mas não elimina a exploração. Quando trabalhadores e grupos subalternizados usam esses espaços para ampliar direitos, eleger governos menos dóceis ou pressionar por políticas redistributivas, setores do capital podem abandonar a defesa abstrata das regras. A legalidade é celebrada enquanto protege a propriedade e descartada quando ameaça alterar a correlação de forças.

Não é preciso afirmar que toda política conservadora é golpista. O ponto é outro: o autoritarismo se torna golpista quando deixa de aceitar a alternância e passa a organizar meios para impedir que a derrota seja reconhecida. A disputa eleitoral deixa de ser uma disputa dentro da ordem e se transforma em pretexto para atacar a própria possibilidade de escolha popular. Foi isso que a campanha permanente contra as urnas produziu. Antes mesmo da votação, sua eventual derrota já era declarada fraudulenta.

O 8 de janeiro e a fantasia da tutela militar

O 8 de janeiro não foi um golpe consumado, mas foi uma tentativa de criar as condições políticas de uma ruptura. A invasão das sedes dos Poderes pretendia produzir uma imagem de caos capaz de convocar uma autoridade superior para restaurar a ordem. A destruição dos prédios públicos tinha uma função política: apresentar a crise como ingovernabilidade e oferecer aos militares, ou a algum núcleo armado do Estado, o papel de árbitro final.

As pessoas que participaram daquela ação não eram simplesmente uma multidão sem direção. Havia acampamentos diante de quartéis, financiamento, transporte, redes de comunicação e uma narrativa comum sobre fraude eleitoral e intervenção salvadora. A responsabilidade individual pelos atos de depredação não deve ser dissolvida em explicações sociológicas, mas também não basta punir indivíduos isolados e preservar as engrenagens que produziram a mobilização. Um golpe não é apenas o ato final de quem quebra uma janela. É a cadeia política que transforma a quebra da janela em argumento para suspender a soberania popular.

A expectativa de uma intervenção militar revela uma característica persistente da formação política brasileira: a tutela das Forças Armadas sobre a sociedade. Desde a República, setores militares se apresentam como guardiões da nação acima dos conflitos sociais. Essa pretensão é incompatível com uma democracia efetiva. Exércitos não recebem mandato popular para decidir quando a população votou errado, quando um governo deve cair ou quando direitos podem ser suspensos. A ideia de que os quartéis são uma instância moral acima da política é uma forma de despolitização autoritária.

A omissão, a ambiguidade ou a demora de agentes estatais diante de uma ameaça golpista também precisam ser investigadas politicamente. Não basta perguntar quem entrou nos edifícios. É necessário perguntar quem financiou, quem organizou, quem difundiu as acusações, quem tinha capacidade de impedir a ação e quem apostou que a crise beneficiaria seus interesses. A defesa da democracia não pode se limitar à restauração física dos prédios. Ela precisa desmontar os circuitos sociais que fazem da violência uma alternativa aceitável.

O golpe não é uma anomalia externa ao Estado

Há uma narrativa liberal segundo a qual o golpe seria uma doença que invade um Estado normalmente democrático. Essa narrativa protege o próprio Estado de uma análise mais rigorosa. As instituições podem conter o autoritarismo em alguns momentos e reproduzi-lo em outros. A polícia que reprime uma greve, o tribunal que restringe uma política de moradia, o governo que administra a fome como problema individual e a empresa que controla trabalhadores por algoritmo não são fenômenos alheios à ordem social que o golpismo procura radicalizar.

Isso não autoriza igualar uma eleição a uma ditadura. Direitos políticos concretos fazem diferença, e sua defesa é indispensável para a classe trabalhadora. O erro está em imaginar que a defesa das instituições basta, quando as instituições permanecem atravessadas por interesses de classe. O combate ao golpe precisa preservar as liberdades e, ao mesmo tempo, ampliar a capacidade popular de decidir sobre o trabalho, a riqueza, a comunicação e a segurança pública. Caso contrário, a democracia será defendida como ritual enquanto suas bases sociais permanecem intactas.

O autoritarismo se fortalece quando a política é reduzida a espetáculo eleitoral entre figuras personalistas. Plataformas digitais recompensam a indignação rápida, a mentira compartilhável e o ataque à reputação. A forma da comunicação favorece a produção de tribos fechadas, nas quais qualquer informação externa é tratada como prova da conspiração. O algoritmo não cria sozinho o fascismo, mas organiza sua circulação, mede o engajamento e transforma a hostilidade em mercadoria. A mentira política adquire uma infraestrutura econômica.

Por isso, responder ao golpe com campanhas abstratas de respeito à democracia é insuficiente. A trabalhadora que não consegue pagar o aluguel não será convencida por sermões sobre moderação se sua experiência cotidiana for a de abandono e humilhação. O espaço deixado pela esquerda é ocupado pela extrema direita, que oferece comunidade, reconhecimento e um inimigo. A resposta socialista precisa disputar essas necessidades no terreno material: organização nos locais de trabalho, sindicatos combativos, comunicação popular, serviços públicos, redução da jornada, proteção social e participação política que não termine no voto.

A derrota do golpismo exige mais que a defesa da normalidade

O golpe de Estado não é apenas um evento passado ou uma cena dramática de tanques e generais. É uma possibilidade inscrita nas relações de poder de uma sociedade desigual. Quando a classe dominante aceita eleições apenas enquanto elas não ameaçam seus privilégios, a democracia permanece submetida a uma condição. Quando trabalhadores são fragmentados, endividados e isolados, a extrema direita encontra matéria para sua mobilização. Quando a comunicação é controlada por empresas que lucram com a indignação, a mentira deixa de ser acidente e vira negócio.

O Brasil precisa responsabilizar os articuladores do golpismo, os financiadores, os agentes públicos que conspiraram e os produtores profissionais de desinformação. Mas a punição jurídica, embora necessária, não encerra o problema. A mesma sociedade que condena os invasores pode continuar reproduzindo a tutela militar, a concentração da mídia, a exploração do trabalho e a naturalização da desigualdade. Sem transformar essas estruturas, o golpismo apenas muda de linguagem e espera outra crise.

Compreender o que significa golpe de Estado é recusar tanto a simplificação escolar quanto a amnésia institucional. O golpe é uma técnica de poder que procura impedir a autonomia popular quando a ordem existente já não consegue governar sem contestação. Pode falar em Deus, pátria, família, segurança ou combate à corrupção, mas seu núcleo é material: preservar hierarquias, propriedade e comando social contra a organização dos de baixo.

A democracia que interessa à classe trabalhadora não é a cerimônia de quatro em quatro anos acompanhada pela submissão cotidiana no emprego, no transporte, na periferia e na fila do hospital. É a possibilidade de intervir nas condições concretas da existência. Enquanto essa possibilidade for bloqueada, haverá quem tente converter o desespero em obediência e a obediência em golpe. A saída não está em confiar a política aos guardiões da ordem, mas em construir força social capaz de retirar da ordem capitalista o monopólio sobre o futuro.