A ultradireita brasileira não cresce porque milhões de pessoas tenham simplesmente enlouquecido ou sido enganadas por mensagens falsas. Ela cresce sobre uma experiência material de abandono: trabalho instável, serviços públicos deteriorados, endividamento, medo da violência, perda de perspectivas e sensação de que nenhuma decisão coletiva altera a própria vida. O bolsonarismo não inventou essa experiência. Ele a organizou politicamente, oferecendo inimigos visíveis para uma crise cujas causas econômicas permanecem protegidas.

Essa é a operação decisiva da ultradireita: deslocar o conflito social. O entregador submetido ao algoritmo, o professor exausto, a trabalhadora de call center controlada por metas e o pequeno comerciante endividado são convocados a odiar o pobre que recebe um benefício, a universidade, o sindicato, o imigrante, a imprensa, o movimento negro ou a suposta conspiração comunista. Enquanto isso, a concentração de riqueza, a precarização do trabalho e a captura do Estado por interesses empresariais aparecem como fatos naturais, inevitáveis ou simplesmente invisíveis.

A crise real recebe um inimigo imaginário

O discurso ultradireitista não precisa inventar o sofrimento. Precisa apenas impedir que ele seja compreendido em sua origem. Quando um trabalhador passa a dirigir por aplicativo durante doze horas e ainda não consegue pagar as contas, há uma contradição objetiva entre sua produção e sua segurança material. Marx chamou de alienação a separação do trabalhador em relação ao produto, ao processo e ao sentido de sua própria atividade. No capitalismo de plataforma, essa separação adquire uma aparência nova: o trabalhador sequer encontra um patrão diante de si, mas continua submetido a uma empresa que define preços, distribui corridas, avalia desempenhos e pode bloquear seu acesso à renda.

A experiência, entretanto, costuma aparecer como fracasso individual. O trabalhador não é apresentado como alguém explorado por uma estrutura, mas como alguém que não se esforçou o suficiente, não se adaptou ou não soube empreender. A ideologia meritocrática converte a insegurança em culpa. Quando essa culpa se torna insuportável, a ultradireita oferece uma saída emocional: o problema não está na forma de organização do trabalho, mas nos parasitas que vivem às custas do cidadão honesto.

O trabalhador precarizado é, assim, convidado a defender aqueles que se beneficiam de sua precarização. A revolta contra a exploração é desviada para uma guerra moral contra os de baixo ou contra grupos que podem ser apresentados como ameaça à identidade nacional. A política deixa de perguntar quem controla os meios de produção, quem determina as condições do trabalho e quem se apropria dos resultados sociais. Em seu lugar, pergunta quem merece pertencer à comunidade imaginada da nação.

É nesse ponto que a ultradireita se distingue de um simples conservadorismo. O conservadorismo pode buscar preservar hierarquias existentes; a ultradireita transforma a crise dessas hierarquias em mobilização permanente. Ela precisa de uma sociedade em estado de irritação, na qual qualquer conquista social seja descrita como privilégio indevido e qualquer proposta de igualdade seja denunciada como perseguição. Seu radicalismo não está em abolir o poder econômico, mas em intensificar a disciplina social necessária para preservá-lo.

O bolsonarismo transformou a precariedade em guerra cultural

O caso brasileiro oferece uma demonstração concreta desse mecanismo. Jair Bolsonaro não apresentou um programa capaz de enfrentar a informalidade, a destruição de direitos ou a dependência econômica do país. Sua força política foi construída pela combinação de ressentimento social, militarização simbólica, moralismo religioso, anticomunismo e ataque sistemático às instituições democráticas. A promessa não era reorganizar a produção para garantir uma vida digna. Era devolver autoridade a um cidadão imaginado como homem de bem, trabalhador, armado, heterossexual e ameaçado por inimigos internos.

Esse cidadão não correspondia integralmente a nenhuma classe social específica. Podia ser um empresário, um policial, um trabalhador autônomo, um motorista, um profissional liberal ou alguém endividado que desejava ascender. O que os unia não era uma posição idêntica na economia, mas uma identificação política produzida sobre o medo da perda de status e a rejeição de políticas de igualdade. O bolsonarismo ofereceu uma comunidade afetiva para sujeitos isolados pela concorrência, sem eliminar o isolamento que os constituía.

As redes sociais foram centrais nessa construção. Grupos de WhatsApp, vídeos curtos, transmissões ao vivo e canais de mensagem permitiram uma circulação acelerada de acusações, boatos e símbolos. Mas reduzir o fenômeno à desinformação é insuficiente. A mentira encontra terreno fértil quando se articula a uma verdade vivida: o Estado realmente falha, o futuro realmente parece bloqueado, a corrupção realmente atravessa instituições e a violência realmente estrutura a experiência de muitos brasileiros. O trabalho da ultradireita consiste em juntar fatos dispersos a explicações falsas, dando ao sofrimento uma narrativa coerente e um alvo político.

Guy Debord descreveu a sociedade do espetáculo como uma relação social mediada por imagens. No bolsonarismo digital, a política é apresentada como uma sequência de cenas de confronto: o político que desafia jornalistas, o homem armado que promete restaurar a ordem, a família supostamente ameaçada, a bandeira nacional utilizada como prova de patriotismo. A imagem não apenas representa um programa; ela substitui o programa. A performance de força ocupa o lugar de uma política social, e a exposição constante do conflito produz a sensação de participação sem produzir poder popular.

O espetáculo ultradireitista é particularmente eficaz porque combina intimidade e multidão. Cada indivíduo recebe no telefone mensagens que parecem dirigidas exclusivamente a ele, mas essas mensagens constroem uma comunidade de ressentimento. Le Bon observou que a multidão não é apenas uma soma de indivíduos; nela, afetos, símbolos e contágios emocionais podem suspender a reflexão crítica. No ambiente digital, a multidão não exige proximidade física. Ela se forma por repetição, compartilhamento e reconhecimento recíproco: cada usuário confirma ao outro que todos estão cercados por uma ameaça.

A técnica não é neutra quando organiza a obediência

As plataformas digitais não criaram a ultradireita sozinhas, mas ampliaram sua capacidade de organizar afetos. Seus sistemas favorecem conteúdos que provocam reação rápida, porque a atenção convertida em dado e publicidade depende de circulação contínua. A indignação, o medo e o escândalo são especialmente adequados a esse modelo. Uma explicação estrutural sobre a dívida pública ou sobre a exploração do trabalho exige tempo; uma acusação contra um inimigo produz imediatamente comentário, compartilhamento e pertencimento.

Heidegger compreendeu a técnica moderna como uma forma de revelar o mundo na qual tudo aparece como recurso disponível. Aplicada à vida social, essa lógica transforma pessoas em perfis, comportamentos em métricas e opiniões em matéria-prima para previsão e intervenção. O usuário parece exercer liberdade ao publicar e compartilhar, mas suas ações são capturadas por sistemas que ordenam sua visibilidade e aprendem a explorar suas vulnerabilidades. A autonomia política se reduz quando a formação da vontade ocorre em ambientes desenhados para maximizar reação, não compreensão.

A ultradireita sabe operar nessa infraestrutura porque sua mensagem não depende de consistência. Ela depende de repetição. O mesmo inimigo pode mudar de nome sem que a estrutura da narrativa se altere: comunistas, professores, jornalistas, artistas, ministros, feministas, indígenas, imigrantes ou organismos internacionais cumprem funções intercambiáveis. O importante é manter a fronteira entre um nós virtuoso e um eles corruptor. A plataforma fornece velocidade; a ideologia fornece direção.

É um erro imaginar que a solução esteja apenas em corrigir conteúdos falsos ou moderar perfis individuais. A questão é política e econômica. Empresas privadas controlam infraestruturas essenciais da comunicação, decidem regras de alcance e acumulam informações sobre a população. Ao mesmo tempo, trabalhadores dessas empresas e usuários submetidos à vigilância permanecem fora de qualquer controle democrático efetivo. A tecnologia aparece como ferramenta neutra justamente quando oculta as relações de poder que definem seu desenho.

O Estado aparece como inimigo quando o mercado governa

A ultradireita costuma afirmar que deseja um Estado menor, mas seu projeto nunca é simplesmente reduzir o Estado. Ela quer um Estado forte contra os trabalhadores, os pobres, os movimentos sociais e as dissidências, e permissivo diante da propriedade concentrada. A retirada de direitos convive com o aumento da vigilância, do encarceramento, da militarização e da proteção jurídica aos negócios. A fórmula é conhecida: menos Estado social, mais Estado penal e mais liberdade para a acumulação.

Alysson Mascaro demonstra que o Estado capitalista não é uma ferramenta neutra disponível para qualquer grupo, como se bastasse eleger representantes adequados para colocá-lo a serviço da maioria. Sua forma jurídica separa os indivíduos como sujeitos formalmente livres e iguais, enquanto a produção permanece organizada pela propriedade privada e pela exploração do trabalho. A ultradireita explora essa contradição. Promete igualdade entre cidadãos abstratos e, ao mesmo tempo, defende relações econômicas que produzem desigualdade concreta.

Quando o Estado garante direitos trabalhistas, regula empresas ou financia políticas públicas, a ultradireita denuncia uma suposta tutela sobre o indivíduo. Quando o mesmo Estado reprime greves, protege contratos desiguais ou transfere recursos ao setor financeiro, chama-se isso de responsabilidade. A liberdade defendida é a liberdade do capital para contratar, demitir, vigiar e extrair valor; a autoridade reivindicada é a autoridade para impedir que os explorados transformem sofrimento privado em conflito coletivo.

Os acampamentos formados diante de quartéis após a derrota eleitoral de Bolsonaro revelaram a dimensão política dessa operação. A mobilização não era apenas uma contestação jurídica ao resultado das urnas. Ela encenava a espera por uma autoridade acima da sociedade, capaz de suspender a decisão popular em nome de uma ordem moral. Bandeiras, hinos, orações e apelos às Forças Armadas produziram uma comunidade que se imaginava guardiã da nação, embora reivindicasse a ruptura da própria regra que dizia defender.

A tentativa de impedir a posse do governo eleito e os ataques de 8 de janeiro de 2023 não podem ser tratados como uma explosão irracional separada da política cotidiana. Foram a consequência de uma pedagogia prolongada de deslegitimação: eleições eram fraudulentas quando o resultado desagradava, instituições eram criminosas quando impunham limites, adversários eram tratados como inimigos absolutos e a violência era apresentada como legítima defesa. O extremismo não veio de fora do discurso; foi preparado por ele.

O inimigo da ultradireita é a organização dos explorados

A ultradireita não teme apenas partidos de esquerda. Ela teme qualquer forma de organização que permita aos trabalhadores reconhecerem a origem comum de seus problemas. Um entregador que se entende como empreendedor isolado negocia individualmente com uma plataforma poderosa. Entregadores que se reconhecem como trabalhadores podem reivindicar tarifa, seguro, transparência algorítmica e direito de paralisação. A passagem da identidade individual para a ação coletiva é uma ameaça direta à extração de valor.

O mesmo vale para professores, enfermeiras, trabalhadores de call center e funcionários terceirizados. Cada um pode interpretar sua exaustão como incapacidade pessoal ou como efeito de uma organização produtiva baseada em metas, intensificação e medo. A ideologia ultradireitista trabalha para bloquear a segunda interpretação. Ela acusa sindicatos de privilégios, movimentos sociais de desordem e políticas de proteção de preguiça. Desse modo, a disciplina econômica é apresentada como virtude moral.

O fascismo histórico mobilizou massas para destruir organizações operárias e recompor a ordem capitalista em crise. O neofascismo contemporâneo não repete mecanicamente as formas do século XX, mas preserva uma função: transformar desespero social em obediência e agressão contra os grupos que poderiam articular uma resposta comum. Sua novidade está na convivência entre o autoritarismo de Estado, a comunicação personalizada das plataformas e a informalidade econômica que deixa milhões sem vínculos estáveis de representação.

Isso explica por que a defesa abstrata da democracia é insuficiente. A democracia liberal pode proteger procedimentos eleitorais importantes, mas não elimina a desigualdade que permite a poucos controlar a economia, a comunicação e os aparelhos de produção de consenso. Quando a vida cotidiana é marcada por insegurança, a defesa das instituições precisa estar ligada a direitos materiais, organização popular e democratização efetiva do trabalho. Caso contrário, a democracia será percebida como uma promessa formal incapaz de tocar o abandono real.

Superar a ultradireita exige disputar a explicação do sofrimento

A resposta à ultradireita não pode consistir em humilhar seus eleitores ou tratá-los como massa irracional. Esse desprezo reproduz a distância social que a própria direita explora. Também não basta substituir um medo por outro ou responder à guerra cultural com uma guerra cultural simétrica. É preciso disputar a interpretação da experiência concreta: mostrar que a insegurança do trabalhador de aplicativo não é falha de caráter, que a exaustão docente não é falta de vocação e que a pobreza não decorre de inferioridade moral.

Essa disputa exige recuperar a linguagem do conflito de classe sem transformá-la em palavra de ordem vazia. É necessário ligar o preço dos alimentos às formas de distribuição, a dívida familiar ao sistema financeiro, o adoecimento ao ritmo produtivo, a violência à desigualdade e a precarização às decisões empresariais e estatais. Só uma explicação que reúna esses fragmentos pode enfrentar a narrativa que os separa e os converte em ressentimento.

Também é necessário retirar a tecnologia do lugar de fetiche. Não existe algoritmo acima das relações sociais. Existem empresas, proprietários, contratos, gestores, trabalhadores e instituições que definem o que será automatizado, medido e punido. A disputa por transparência, proteção de dados e direitos nas plataformas é inseparável da disputa pelo controle social da infraestrutura digital. Sem isso, cada nova ferramenta pode ampliar a capacidade de vigilância ao mesmo tempo que promete liberdade.

A ultradireita prospera quando a sociedade não consegue transformar sofrimento em solidariedade organizada. Sua força não está em oferecer uma saída para a crise, mas em impedir que a crise produza consciência coletiva. Ela administra o abandono distribuindo culpados, preserva hierarquias apresentando-as como mérito e usa a técnica para acelerar a fabricação de inimigos. Romper esse circuito significa reconstruir vínculos entre trabalhadores, recuperar a capacidade de agir em comum e revelar quem se beneficia quando os explorados brigam entre si.

O problema não é que a ultradireita tenha levado a política para longe da realidade. Ela fez o contrário: capturou a realidade mais dolorosa e a devolveu deformada, como ressentimento. O trabalho crítico começa quando essa deformação é desfeita. A pergunta decisiva deixa de ser qual inimigo merece ser destruído e passa a ser quem organiza o trabalho, quem controla a riqueza e por que aqueles que produzem a sociedade continuam sem poder sobre ela.