Populismo autoritário é uma forma de organizar o descontentamento social em torno de um líder que afirma encarnar o “povo” contra inimigos internos e externos, deslocando conflitos de classe e legitimando práticas autoritárias. No bolsonarismo, trabalhadores precarizados, pequenos empresários e setores médios são reunidos numa identidade política comum, enquanto banqueiros, grandes proprietários e plataformas que se beneficiam da exploração desaparecem do centro do conflito. A revolta real contra salários baixos, insegurança e abandono estatal é convertida em guerra cultural, culto à autoridade e perseguição de inimigos escolhidos.

Origem do conceito

Ernesto Laclau analisou o populismo não como uma ideologia fechada, mas como uma lógica de construção política. Demandas sociais diferentes — por emprego, segurança, saúde, reconhecimento ou melhores condições de vida — podem ser articuladas como uma cadeia de equivalências quando passam a se opor a um mesmo poder. Surge, assim, uma fronteira entre “o povo” e “a elite”, ou entre “os de baixo” e aqueles apresentados como responsáveis por todos os problemas.

Para Laclau, o líder e certos símbolos funcionam como significantes vazios: expressões suficientemente abertas para reunir grupos distintos. “O povo”, “a liberdade”, “Deus”, “a família” e “a ordem” podem receber sentidos diferentes, mas são apresentados como se formassem uma unidade evidente. O líder aparece como a figura capaz de dar corpo a essa unidade. A representação deixa de ser uma mediação entre demandas sociais e instituições e passa a se concentrar numa pessoa que declara falar diretamente em nome da maioria.

Como opera

O populismo autoritário não inventa a insatisfação que mobiliza. Ele a captura e a reorganiza. Um entregador de aplicativo enfrenta jornadas extensas, remuneração incerta e ausência de direitos; um professor trabalha sob pressão, com recursos insuficientes e desvalorização; um operador de call center é submetido a metas, vigilância e rotatividade. Essas experiências expressam relações materiais de exploração. Contudo, a propaganda populista pode traduzi-las em ressentimento contra “vagabundos”, professores “doutrinadores”, imigrantes, jornalistas, movimentos sociais, mulheres, pessoas LGBTQIA+ ou adversários políticos.

Esse deslocamento é decisivo. Em vez de perguntar quem controla os meios de produção, quem define os salários ou quem lucra com a precarização, o discurso aponta para inimigos visíveis e culturalmente marcados. A desigualdade continua produzindo sofrimento, mas suas causas estruturais são encobertas. O trabalhador é incentivado a imaginar que seu problema não está na exploração do trabalho, e sim na existência de um grupo que supostamente recebe privilégios indevidos ou ameaça seus valores.

As plataformas digitais ampliam essa operação. Mensagens curtas, vídeos e conteúdos emocionais transformam situações complexas em narrativas de traição, ameaça e salvação. O algoritmo favorece a repetição de certezas e a formação de comunidades hostis ao contraditório. A política passa a funcionar como espetáculo permanente, no qual o líder se comunica diretamente com seguidores e trata instituições, imprensa, universidades e eleições como obstáculos sempre que não confirmam sua vontade.

O populismo autoritário no Brasil

O bolsonarismo construiu sua unidade política ao combinar ressentimentos produzidos pela crise econômica, pelo desemprego, pela pejotização e pela perda de direitos com uma agenda conservadora e punitiva. A promessa de representar o cidadão comum foi acompanhada pela defesa de armas, pela exaltação da violência policial, pelo ataque à ciência e pela desqualificação de qualquer oposição como ameaça à nação. Assim, uma liderança vinculada a interesses econômicos dominantes pôde se apresentar como inimiga do sistema e porta-voz dos que sofrem com ele.

A linguagem da guerra cultural cumpre o papel de substituir a luta social por uma guerra moral. O professor precarizado é levado a combater a “ideologia” na escola; o trabalhador sem segurança é convocado a exigir mais repressão; o pequeno comerciante endividado é orientado a desconfiar de políticas públicas e sindicatos. Enquanto isso, reformas que enfraquecem direitos e proteções trabalhistas são apresentadas como liberdade, modernização ou mérito individual.

Críticas e limites

A contribuição de Laclau ajuda a entender como diferentes insatisfações podem ser articuladas numa identidade popular e por que o líder ocupa posição central. Mas sua abordagem pode ser insuficiente quando separa essa construção discursiva das relações materiais que estruturam a sociedade capitalista. Não basta analisar quem nomeia o povo; é necessário investigar quem possui as empresas, controla o Estado, lucra com a precarização e financia a circulação de determinadas narrativas.

O populismo autoritário não é simplesmente uma manipulação externa de pessoas ignorantes. Ele se alimenta de necessidades e frustrações reais, mas oferece uma saída falsa: transforma explorados em soldados de uma disputa contra outros explorados e concentra a esperança política numa autoridade individual. Sua força nasce justamente da combinação entre alienação social, crise de representação e capacidade de dar forma simples a contradições complexas. Enfrentá-lo exige recuperar o conflito de classe, reconstruir formas coletivas de organização e disputar concretamente as condições de trabalho, renda, moradia, educação e participação política.