No início de 2025, a mentira de que o governo cobraria uma taxa sobre transferências via Pix encontrou no Brasil uma circulação extraordinariamente eficiente. A mudança normativa da Receita Federal, que ampliava a prestação de informações por instituições financeiras e de pagamento, foi apresentada como se fosse um imposto novo sobre cada transação. Não era. Ainda assim, a falsidade não precisou vencer por ser plausível do ponto de vista técnico; venceu porque chegou a pessoas para as quais o Pix não é uma abstração bancária. É o dinheiro do almoço vendido na rua, da corrida feita por aplicativo, da manicure atendida em casa, do bico pago no fim do dia, da pequena compra anotada no balcão. A extrema direita não inventou essa precariedade. Fez algo politicamente mais útil a ela: ofereceu ao medo produzido por ela uma explicação pronta, um inimigo e uma imagem para compartilhar.

Esse episódio permite enxergar a bolha de filtro fora da definição de glossário e da imagem confortável de uma internet que apenas mostra a cada um aquilo de que gosta. O problema não é somente alguém receber mais vídeos compatíveis com suas crenças. É que plataformas organizam a experiência pública a partir de rastros privados, afetos intensos e previsões comerciais. O trabalhador que usa o celular como carteira, balcão, ferramenta de serviço, relógio de ponto e fonte de notícia deixa, em cada gesto, material para ser classificado. A tela aprende seus medos, seus horários exaustivos, suas compras parceladas, seus vínculos e suas inclinações. E, quando uma mentira política toca uma insegurança real, a máquina de recomendação possui todos os incentivos para prolongar esse contato.

O Pix virou palco porque o salário já não basta

A reação à mentira não pode ser explicada pela suposta ignorância de milhões de brasileiros. Essa fórmula, tão comum entre liberais indignados, preserva a superioridade de quem observa de fora e elimina as condições materiais que tornam a fraude convincente. Para quem trabalha sem proteção, qualquer desconto imprevisto tem peso concreto. O entregador cuja renda varia conforme a demanda e as punições invisíveis do aplicativo sabe que sua margem é curta. A professora que complementa a renda com aulas particulares, o operador de telemarketing pressionado por metas, a cozinheira que recebe encomendas pelo celular sabem que uma regra estatal pode chegar à vida delas como custo, burocracia ou ameaça. O neoliberalismo destruiu garantias, chamou a sobrevivência de empreendedorismo e depois ofereceu ao trabalhador desamparado o pânico como interpretação do mundo.

É por isso que a mentira sobre o Pix foi mais que uma mensagem enganosa: ela foi uma operação de reconhecimento perverso. Ela dizia, implicitamente: nós sabemos que você está no limite; nós sabemos que o Estado aparece para você como cobrança e não como proteção; nós sabemos que sua renda circula por meios informais porque o emprego estável foi convertido em privilégio. A conclusão oferecida, porém, era fraudulenta. Em vez de dirigir a revolta contra bancos, empresas de plataforma, patrões e políticas que comprimem a renda do trabalho, a mensagem a dirigia contra um inimigo estatal abstrato e contra o governo de turno. O bolsonarismo transforma a experiência legítima de desamparo em adesão a um projeto que aprofunda o próprio desamparo.

A recomendação automatizada dá forma à multidão

Gustave Le Bon via na multidão uma mudança na conduta individual: sob certas condições, o sujeito se torna mais suscetível à sugestão, ao contágio e à simplificação. As plataformas não substituíram essa dinâmica; deram a ela infraestrutura contínua, personalizada e mensurável. A multidão digital não precisa ocupar uma praça nem ouvir o mesmo orador no mesmo instante. Ela é montada por milhões de trajetórias individuais que recebem versões parecidas de um medo, uma indignação e uma promessa de revelação. O vídeo que afirma estar desmascarando uma cobrança escondida aparece entre uma corrida aceita, uma conversa familiar, a propaganda de crédito e a busca por clientes. A política entra na rotina não como debate, mas como interrupção afetiva.

O sistema não precisa declarar preferência pelo fascismo para colaborar com sua expansão. Basta privilegiar retenção, reação e compartilhamento. A acusação grave, a linguagem de urgência, a aparência de segredo revelado e a figura de um cidadão comum ameaçado são formatos adequados a esse modelo de negócio. A mentira mobiliza atenção; a contestação detalhada costuma exigir tempo, vocabulário técnico e confiança em instituições já desacreditadas. Há uma assimetria estrutural entre o conteúdo que excita e o que explica. Quando a correção chega, ela frequentemente encontra um público que já recebeu dezenas de variações da mesma suspeita, vindas de perfis diferentes e apresentadas como experiência pessoal.

A bolha de filtro não elimina a realidade social: ela seleciona quais pedaços dessa realidade serão sentidos, quem receberá a culpa por eles e qual saída parecerá possível.

Trabalhar conectado não significa participar do debate público

Há quem descreva essa situação como excesso de informação. Mas o trabalhador de plataforma não sofre simplesmente por ter informação demais. Sofre por depender de dispositivos e empresas que controlam, ao mesmo tempo, sua remuneração, sua visibilidade e seus meios de interpretar o que acontece. O aplicativo determina a corrida, calcula o pagamento, distribui pedidos e pode bloquear uma conta. As redes fornecem a notícia que ocupa os intervalos desse mesmo trabalho. A separação entre produzir, consumir e formar opinião se dissolve em favor da plataforma. O celular que permite ganhar algum dinheiro também entrega uma sequência política ajustada à captura da atenção.

Marx mostrou que a alienação não é uma falha psicológica individual; ela nasce de relações em que o trabalhador perde o controle sobre sua atividade, sobre o produto que cria e sobre o mundo social que ajuda a produzir. Na economia de plataforma, essa perda alcança a própria percepção. O trabalhador produz dados enquanto trabalha, e esses dados retornam como mecanismo de comando comercial e, indiretamente, de ordenação ideológica. Ele não escolhe soberanamente o que vê apenas porque desliza o dedo. Seu campo de escolhas já foi preparado por interesses que convertem atenção em lucro.

Debord ajuda a avançar um passo: no espetáculo, a relação social entre pessoas aparece mediada por imagens. A fraude do Pix não se consolidou porque um argumento econômico foi debatido e aprovado. Consolidou-se em vídeos curtos, rostos indignados, legendas alarmistas e performances de autenticidade. A aparência de proximidade substituiu a investigação. Um influenciador parecia falar diretamente com o pequeno trabalhador contra um poder distante; nessa cena, a mediação empresarial da plataforma desaparecia, assim como desapareciam os interesses de classe por trás da campanha. O espetáculo oferece a falsa sensação de acesso direto à verdade justamente quando torna a verdade dependente de circulação mercantil.

Enxergar o mecanismo muda o alvo da revolta

Reconhecer essa operação não obriga ninguém a confiar cegamente no Estado, nas grandes empresas de imprensa ou em qualquer governo. Ao contrário: exige uma desconfiança mais rigorosa, capaz de perguntar quem lucra com a mensagem, qual medo ela explora e por que ela chegou repetidamente àquela tela. Se uma notícia sobre pagamento, imposto ou benefício produz pânico imediato, a questão não é apenas checar se ela é verdadeira. É perceber que a vulnerabilidade financeira foi transformada em mercado de atenção e em reserva de mobilização reacionária.

Depois de enxergar a bolha como parte da organização capitalista da vida conectada, o leitor pode recusar duas armadilhas. A primeira é culpar a vítima da desinformação, como se precariedade e exaustão não moldassem a capacidade de verificar cada mensagem. A segunda é imaginar que bastaria educar indivíduos para resolver um sistema desenhado para explorar impulsos. A disputa inclui verificação, sim, mas exige também organização coletiva, trabalho com direitos, transparência sobre os critérios que distribuem conteúdo e limites ao poder das plataformas. A tela continuará tentando converter insegurança em ódio. Saber disso desloca a pergunta decisiva: não apenas se a mensagem é verdadeira, mas a serviço de qual classe ela está nos ensinando a temer.