A polarização brasileira não é apenas uma divisão entre opiniões políticas incompatíveis. Ela é uma forma de organizar a percepção social: transforma conflitos materiais em guerras morais, converte adversários em inimigos absolutos e faz da indignação uma mercadoria circulando nas plataformas. Enquanto um entregador de aplicativo disputa cada corrida para completar a renda, enquanto um professor trabalha sob metas, cobranças e salários corroídos, o debate público é empurrado para a disputa interminável entre símbolos, frases recortadas e escândalos fabricados. A sociedade se divide, mas raramente se encontra no ponto em que sua divisão é produzida.

A polarização que esconde a estrutura social

O problema não está em reconhecer conflitos políticos reais. A esquerda e a extrema direita não representam projetos equivalentes, e tratar o bolsonarismo como simples opinião divergente seria uma forma de falsificação. O bolsonarismo atacou instituições, estimulou a desconfiança contra eleições, legitimou a violência política e ofereceu uma saída autoritária para o ressentimento produzido pela crise social. A crítica precisa nomear esse fenômeno sem transformar sua existência em explicação total da vida brasileira.

A polarização funciona justamente quando ocupa todo o campo da atenção. O trabalhador é convidado a escolher entre identidades políticas prontas, enquanto as condições que determinam sua existência permanecem fora do enquadramento. O entregador pode passar o dia discutindo governo, costumes e conspirações em grupos de mensagem, mas continua submetido ao algoritmo que define sua exposição às corridas, aos riscos do trânsito e à ausência de direitos. A professora pode ser acusada de doutrinação por uma família mobilizada nas redes, ao mesmo tempo que enfrenta salas lotadas, contratos precários e uma administração escolar guiada por planilhas.

Marx chamou de alienação a separação do trabalhador em relação ao produto, ao processo e ao sentido de sua própria atividade. No capitalismo digital, essa separação também alcança a interpretação da realidade. O sujeito participa intensamente do debate público, mas não controla os meios pelos quais esse debate é distribuído. Opina, reage, compartilha e se enfurece sem decidir por que determinado assunto aparece, quem lucra com sua circulação ou quais interesses desaparecem quando todos olham para o mesmo conflito.

Da exploração à guerra cultural

As plataformas não inventaram os antagonismos sociais, mas aprenderam a monetizar sua forma mais rentável: a reação imediata. O conteúdo que provoca medo, humilhação ou raiva mantém a atenção por mais tempo e produz mais interação. A técnica aparece, então, como uma ferramenta neutra de comunicação, embora organize um mercado baseado na captura da experiência humana. Heidegger compreendia a técnica moderna não apenas como um conjunto de instrumentos, mas como um modo de revelar o mundo, tratando seres e coisas como recursos disponíveis. No ambiente das redes, até a indignação do usuário é convertida em recurso.

Essa dinâmica ajuda a explicar por que a disputa política se concentra tanto em temas culturais. A guerra contra a escola, contra universidades, contra artistas ou contra direitos reprodutivos não é apenas uma coleção de obsessões conservadoras. Ela oferece uma linguagem simples para descrever uma crise complexa. Em vez de discutir a propriedade das plataformas, a jornada de trabalho, a renda, a dívida ou a concentração econômica, o debate é reorganizado em torno do comportamento de indivíduos e grupos apresentados como ameaças à ordem.

A meritocracia cumpre função semelhante. Ela diz ao trabalhador que sua posição resulta de esforço pessoal, como se todos partissem das mesmas condições. Quando esse trabalhador fracassa, a culpa é individualizada; quando vence, sua trajetória é exibida como prova de que o sistema funciona. A polarização acrescenta uma camada emocional a essa operação: os pobres são convidados a odiar outros pobres segundo diferenças de região, religião, gênero ou preferência política, enquanto a classe dominante permanece protegida pela abstração da competência, do investimento e do mercado.

O espetáculo precisa de inimigos permanentes

Guy Debord descreveu o espetáculo como uma relação social mediada por imagens. Não se trata simplesmente de haver muita televisão ou muitas telas, mas de a experiência coletiva ser substituída por representações que se apresentam como realidade. A política espetacularizada não exige que as pessoas deixem de sofrer; exige que seu sofrimento seja narrado por imagens e personagens capazes de absorver a atenção. O conflito aparece como uma sequência de episódios: uma fala viral, uma provocação, uma denúncia, uma retratação, um novo escândalo.

O bolsonarismo compreendeu essa lógica com eficiência. Sua força não dependeu apenas de um programa econômico ou de uma doutrina coerente, mas da produção contínua de inimigos: a imprensa, o Supremo Tribunal Federal, professores, artistas, comunistas imaginários, organismos internacionais e qualquer pessoa identificada como ameaça à autoridade patriarcal. A contradição entre o discurso antissistema e a defesa de interesses econômicos dominantes não precisava ser resolvida. Bastava manter o público mobilizado contra um alvo renovado.

Gustave Le Bon percebeu, ainda no século XIX, que a multidão tende a responder mais fortemente às imagens e às afirmações repetidas do que à argumentação complexa. A sociedade conectada não é uma multidão idêntica àquela analisada por ele, mas conserva esse mecanismo de simplificação afetiva. O algoritmo acelera a repetição, seleciona os estímulos mais capazes de gerar reação e recompensa a frase que reduz o adversário a uma caricatura. A massa digital pode estar dispersa em milhões de aparelhos, mas compartilha ritmos, palavras de ordem e pânicos produzidos industrialmente.

Entre o conflito real e a encenação política

O episódio de 8 de janeiro de 2023 mostrou o ponto em que a política-espetáculo pode atravessar a tela e atingir as instituições. A invasão e a depredação das sedes dos poderes não foram uma simples explosão espontânea de irracionalidade popular. Houve uma pedagogia prolongada da desconfiança, a fabricação de uma fraude eleitoral sem prova e a transformação da derrota política em autorização moral para a violência. A mobilização foi alimentada por redes, mas não nasceu delas: expressou uma crise de representação e uma ofensiva autoritária que encontrou nas plataformas um meio de coordenação e amplificação.

Responder a esse fenômeno apenas com censura moral às massas é insuficiente. A multidão não surge do nada. Ela é formada por inseguranças concretas, pela perda de referências coletivas, pelo medo da queda social e pela promessa de recuperar uma ordem que nunca existiu para todos. A extrema direita canaliza essas frustrações para o ressentimento, mas o ressentimento tem bases sociais. Quando a esquerda abandona a disputa por trabalho, moradia, serviços públicos e poder econômico, deixa livre o terreno para que o autoritarismo traduza a precariedade em ódio contra minorias e instituições.

É nesse ponto que a análise de Alysson Mascaro sobre o Estado ajuda a deslocar o debate. O Estado capitalista não é um árbitro acima da sociedade, ainda que apareça como mediador universal. Ele organiza juridicamente relações sociais fundadas na exploração e na propriedade privada. A democracia pode garantir direitos e abrir espaços de luta, mas não dissolve essa estrutura. Esperar que a simples administração institucional cure a polarização significa ignorar as condições que tornam a frustração social disponível para projetos autoritários.

Recompor a política para além do espetáculo

Superar a polarização não significa buscar um centro abstrato onde todos concordem. Esse centro costuma ser apenas o nome elegante para preservar a ordem existente e interditar conflitos que ameaçam privilégios. O caminho é recuperar a materialidade do conflito: quem trabalha, quem decide, quem controla os dados, quem define as metas, quem se apropria do valor produzido e quem paga o custo das crises.

Uma política anticapitalista não precisa escolher entre a denúncia da extrema direita e a crítica das instituições. Precisa compreender como ambas se relacionam com a estrutura social. O combate ao fascismo exige defender a democracia contra a violência bolsonarista, mas também ampliar a democracia para o local onde ela quase não existe: a empresa, a plataforma, o contrato de trabalho, o acesso à moradia e a distribuição da riqueza.

Quando a política volta a falar da jornada do entregador, da autonomia do professor, do sofrimento no call center e do controle exercido pelos sistemas de produtividade, a polarização perde parte de seu poder hipnótico. Não porque as diferenças desapareçam, mas porque deixam de ser administradas apenas como espetáculo. O objetivo não é produzir consenso entre explorados e exploradores. É tornar visível o antagonismo que a indústria da atenção tenta esconder e transformar essa visibilidade em organização coletiva.