Guerra cultural é uma estratégia política que transforma costumes, identidades, crenças e hábitos em campo de batalha permanente, fazendo-os parecer mais urgentes que a exploração do trabalho, a concentração de renda e o poder das empresas. Não significa que racismo, machismo, religião, sexualidade ou educação sejam assuntos falsos ou irrelevantes. Significa que forças políticas e econômicas podem enquadrá-los de modo inflamado para produzir inimigos, mobilizar medo e impedir que a maioria reconheça interesses materiais comuns.

De onde vem a expressão

A expressão tem antecedentes em conflitos entre Estado, Igreja e movimentos políticos, mas seu sentido contemporâneo foi consolidado sobretudo na direita estadunidense. A partir da segunda metade do século XX, grupos conservadores passaram a organizar campanhas contra feminismo, direitos LGBT, aborto, ensino público, imigração e produção cultural. Esses temas funcionavam como ponto de união para parcelas distintas da sociedade, mesmo quando sua condição econômica era diversa.

O mecanismo ganhou força porque oferece uma explicação simples e personalizada para problemas produzidos pelo capitalismo. Em vez de perguntar por que o salário não acompanha o custo de vida, por que a moradia é inacessível ou por que o trabalho se tornou instável, a guerra cultural indica um culpado visível: o professor, a artista, a pessoa trans, o imigrante, o jovem da periferia, a universidade ou uma suposta elite moral. A política deixa de discutir estruturas e passa a caçar símbolos.

Como a guerra cultural opera

Seu combustível é a fabricação de pânico moral. Um episódio isolado, uma fala retirada de contexto ou uma obra cultural são convertidos em prova de que uma comunidade inteira está sob ataque. Plataformas digitais aceleram esse processo: conteúdos indignados circulam mais facilmente, rendem audiência e transformam a reação imediata em identidade política. A discussão pública fica presa a escândalos sucessivos, sem tempo para examinar quem se beneficia da desorganização social.

A guerra cultural também produz uma falsa divisão entre trabalhadores. O entregador de aplicativo, submetido a jornadas longas e remuneração incerta, pode ser convocado a enxergar no professor de escola pública ou na estudante universitária seu adversário. O operador de call center, pressionado por metas e vigilância constante, é incentivado a atribuir seu mal-estar a mudanças nos costumes, e não à empresa que controla seu tempo, monitora suas pausas e reduz seus direitos. Assim, uma experiência real de precariedade é capturada por uma explicação falsa sobre sua causa.

Isso não ocorre apenas por manipulação externa. A insegurança material, o medo da perda de status e a sensação de abandono tornam as pessoas mais suscetíveis a discursos que prometem ordem e pertencimento. A guerra cultural oferece uma comunidade imaginária: “cidadãos de bem” contra inimigos internos. Ao mesmo tempo, preserva a comunidade real dos interesses dominantes: proprietários, rentistas e grandes empresas, que raramente aparecem como responsáveis pela crise.

No Brasil, a ofensiva bolsonarista

No Brasil, a guerra cultural foi central para o bolsonarismo. Ataques à chamada “ideologia de gênero”, à universidade, à cultura, ao debate racial, aos direitos humanos e ao suposto “marxismo cultural” organizaram uma linguagem de combate que simplificava problemas complexos. A escola foi apresentada como lugar de doutrinação; artistas, como inimigos da família; movimentos sociais, como ameaças à ordem. Com isso, políticas de austeridade, privatização, desmonte de direitos e precarização do trabalho puderam ocupar menos espaço no debate cotidiano do que polêmicas cuidadosamente alimentadas.

Essa operação não é exclusiva de um governo ou partido. Setores empresariais, veículos de comunicação, líderes religiosos, influenciadores e políticos profissionais podem lucrar, em dinheiro ou poder, com a polarização moral. A diferença é que o fascismo transforma essa lógica em método de governo: precisa de um inimigo contínuo, desumanizado e apresentado como ameaça à nação. A violência verbal prepara a tolerância à violência institucional e física.

Também seria um erro tratar toda reivindicação de mulheres, negros, indígenas ou pessoas LGBT como “guerra cultural”. Esse uso do termo serve frequentemente para deslegitimar lutas concretas contra opressões concretas. Uma crítica materialista não pede que essas lutas sejam abandonadas em nome de uma abstração chamada classe. Ela pergunta como raça, gênero, sexualidade e território organizam a exploração capitalista e como podem compor, em vez de fragmentar, uma política de emancipação.

O que a crítica precisa recuperar

Enfrentar a guerra cultural exige recusar tanto o moralismo reacionário quanto a ideia de que desigualdades materiais podem ser separadas das opressões cotidianas. A questão decisiva é quem trabalha, quem manda, quem lucra e quem paga pela crise. Quando uma polêmica sobre costumes ocupa todo o espaço, convém observar o que acontece fora do enquadramento: reformas que reduzem proteção social, aplicativos que transferem riscos ao trabalhador, escolas sem recursos, hospitais pressionados e patrimônios protegidos.

A disputa por direitos e reconhecimento não é distração quando se liga à transformação das condições de vida. Ela se torna facilmente capturada, porém, quando a política se reduz à guerra de símbolos e perde de vista a propriedade, o trabalho e a distribuição da riqueza. A guerra cultural prospera onde a indignação substitui a organização coletiva; combatê-la é recolocar a vida material da maioria no centro do conflito político.