Extrema direita não é simplesmente uma opinião mais conservadora, uma defesa rígida da família ou um temperamento autoritário. No Brasil, ela funciona como uma forma política capaz de transformar a insegurança produzida pelo capitalismo em ódio contra inimigos convenientes. Seu truque consiste em apresentar a defesa da propriedade, da hierarquia e da exploração como se fosse uma rebelião popular contra o sistema. O bolsonarismo foi a expressão mais acabada desse mecanismo: prometeu destruir a política enquanto reorganizava, em favor das classes dominantes, a revolta de trabalhadores precarizados, pequenos empresários endividados e setores médios ressentidos.
O que a extrema direita faz com a crise social
A pergunta “extrema direita o que é” costuma receber respostas escolares: um movimento ultranacionalista, autoritário, racista e contrário à democracia liberal. A definição não está necessariamente errada, mas é insuficiente. Ela descreve traços visíveis sem explicar a função social do fenômeno. A extrema direita cresce quando a vida social se torna mais insegura e quando a esquerda deixa de oferecer uma interpretação convincente para essa insegurança.
O entregador que passa o dia na motocicleta, submetido ao algoritmo e sem garantia de renda, vive uma forma concreta de exploração. O professor que acumula aulas, deslocamentos e tarefas burocráticas sem reconhecimento também. A trabalhadora de call center controlada por metas e scripts igualmente conhece a violência cotidiana do trabalho. A extrema direita não elimina essas experiências. Ela as reorganiza ideologicamente: em vez de apontar para a relação entre capital e trabalho, indica o imigrante, o pobre, o servidor público, o artista, a universidade, o feminismo, a população negra ou qualquer outro grupo apresentado como responsável pela perda de um mundo que nunca foi igualitário.
Marx ajuda a compreender o fundamento desse deslocamento. A exploração não aparece na consciência imediata como uma relação social entre classes; aparece como salário insuficiente, dívida, fracasso individual e competição entre trabalhadores. A ideologia transforma uma estrutura histórica em destino pessoal. A extrema direita dá um passo adicional: converte a frustração individual em ressentimento coletivo, mas impede que esse coletivo se reconheça como classe. Há uma multidão enfurecida, mas não uma organização capaz de disputar o poder econômico.
Extrema direita, guerra cultural e espetáculo
O bolsonarismo compreendeu que a política contemporânea não depende apenas de programas, partidos e instituições. Depende também da produção permanente de cenas, escândalos e inimigos. Guy Debord chamou de sociedade do espetáculo a organização da vida social por representações que se autonomizam e passam a mediar a experiência comum. No ambiente digital, a guerra cultural cumpre essa função: faz a indignação circular mais depressa do que a análise e transforma cada conflito em prova de uma conspiração total.
Uma escola que discute gênero, uma exposição artística, uma decisão judicial ou uma vacina podem ser convertidas em capítulos de uma narrativa única: a nação estaria sendo roubada por uma elite cultural, por comunistas imaginários ou por instituições infiltradas. O conteúdo específico pouco importa. O que importa é manter o público mobilizado, desconfiado e disponível para obedecer ao líder que promete restaurar uma ordem perdida.
Le Bon descreveu, ainda no século XIX, como a multidão pode abandonar a ponderação individual e aderir a imagens simples, afirmações repetidas e sentimentos compartilhados. A extrema direita atual combina essa dinâmica com plataformas digitais que medem atenção, premiam a reação instantânea e segmentam públicos. A técnica não cria sozinha o fascismo, mas amplia sua capacidade de alcançar cada pessoa na intimidade de seu aparelho. O trabalhador isolado, que não encontra tempo nem espaço para organização coletiva, recebe no celular uma comunidade artificial de ressentimento.
A extrema direita oferece pertencimento sem solidariedade: une pessoas pelo ódio contra um inimigo e preserva intacta a estrutura que produz sua insegurança.
É por isso que o discurso antissistema da extrema direita costuma ser profundamente compatível com o neoliberalismo. Ele ataca partidos, universidades, sindicatos e políticas sociais, mas raramente enfrenta os monopólios, o sistema financeiro ou a concentração da propriedade. A fúria é dirigida contra a mediação política, não contra o poder econômico que define as condições materiais da existência. A promessa de liberdade significa, muitas vezes, liberdade para o empregador demitir, para a plataforma reduzir remuneração e para o Estado abandonar quem não consegue sobreviver no mercado.
O caso brasileiro e a fabricação do inimigo
No Brasil, Jair Bolsonaro não inventou o autoritarismo, o anticomunismo ou o racismo estrutural. Ele articulou elementos antigos em uma linguagem adequada à crise do presente. Seu discurso reuniu nostalgia da ditadura, militarização da vida pública, fundamentalismo religioso, misoginia, negacionismo e defesa agressiva da propriedade. A novidade não estava em cada componente isolado, mas na capacidade de conectá-los a uma experiência social marcada por desemprego, endividamento, desindustrialização e perda de perspectivas.
Quando o bolsonarismo atacou urnas eletrônicas, jornalistas, professores e ministros do Supremo Tribunal Federal, não estava apenas emitindo opiniões extremas. Estava produzindo uma realidade paralela na qual qualquer derrota eleitoral poderia ser interpretada como fraude e qualquer limite institucional como perseguição. Os ataques de 8 de janeiro de 2023 demonstraram a consequência prática dessa fabricação: a mobilização contra a democracia não se sustentava em um projeto de igualdade, mas na exigência de que a vontade do líder substituísse o resultado do voto.
A extrema direita também se alimenta da seletividade do Estado. Para o trabalhador pobre que protesta, aparecem repressão, vigilância e criminalização. Para a elite econômica, aparecem crédito, renúncia fiscal e proteção patrimonial. Alysson Mascaro mostra que o Estado não é um árbitro neutro situado acima das classes; sua forma jurídica organiza relações sociais capitalistas e garante a circulação da propriedade e dos contratos. A extrema direita pode atacar determinadas instituições estatais, mas não abandona essa estrutura. Ela quer um Estado mais duro para os de baixo e mais dócil para os proprietários.
Essa contradição explica sua força. O extremista pode se apresentar como inimigo do Estado enquanto exige polícia, censura, militarização e punição para os grupos considerados desviantes. Pode denunciar privilégios enquanto defende a concentração de renda. Pode falar em mérito enquanto celebra herdeiros, grandes proprietários e empresários protegidos por políticas públicas. A meritocracia, nesse contexto, não descreve a sociedade; serve para culpar quem fracassa dentro de uma competição previamente desigual.
Não basta derrotar o líder
A derrota eleitoral de um dirigente não dissolve as condições que produziram a extrema direita. Enquanto a vida continuar organizada pela insegurança, pela competição e pela destruição dos vínculos coletivos, o ressentimento permanecerá disponível para novas lideranças. A tecnologia de plataforma agrava o problema ao converter atenção em mercadoria e solidão em oportunidade de segmentação política.
Combater a extrema direita exige mais do que denunciar suas mentiras, embora a denúncia seja necessária. É preciso disputar a interpretação da crise. O entregador não é um empreendedor fracassado; é um trabalhador submetido a uma empresa que controla seu acesso à renda sem assumir plenamente os custos da relação de emprego. O professor não é inimigo da família; é um trabalhador submetido à precarização de um serviço essencial. A trabalhadora de call center não precisa de treinamento motivacional, mas de tempo, salário, proteção e poder coletivo.
A alternativa à extrema direita não pode ser a defesa resignada de uma normalidade que já produzia abandono. Se a democracia liberal se limitar a administrar a precarização, ela deixará intacta a matéria social do autoritarismo. A resposta anticapitalista não consiste em trocar um espetáculo nacionalista por um espetáculo progressista, mas em reconstruir formas concretas de solidariedade, organização e controle popular sobre o trabalho e a riqueza.
A extrema direita quer que a sociedade olhe para o lado enquanto a exploração continua no centro. Sua política é a distração armada de uma ordem social em crise. Romper com ela significa recusar os inimigos fabricados e reconhecer a origem material do sofrimento: não está no colega que recebe um benefício, na mulher que reivindica autonomia ou no professor que ensina pensamento crítico, mas em uma sociedade que transforma tudo em mercadoria e depois chama de fracasso a miséria que produz.
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