O significado da palavra fascismo não se resume a uma ditadura, a um governo violento ou a qualquer político de extrema direita. Quando a palavra é reduzida a um verbete escolar, perde-se justamente aquilo que a torna necessária: o fascismo é uma forma específica de mobilização política da crise capitalista, capaz de transformar medo social, ressentimento e desorganização coletiva em obediência ao líder, ódio contra inimigos internos e violência contra toda possibilidade de emancipação.
Essa definição não serve para distribuir rótulos como insultos. Serve para compreender por que determinados movimentos aparecem quando a ordem social já não consegue convencer, mas ainda pretende governar. O fascismo não elimina o capitalismo. Ao contrário, preserva suas relações fundamentais enquanto destrói organizações populares, subordina direitos à razão de Estado e oferece à classe dominante uma saída autoritária para conflitos que ela não consegue resolver por meios liberais.
O significado da palavra fascismo está na crise, não apenas na aparência
O fascismo histórico surgiu em uma sociedade atravessada pela crise econômica, pela guerra, pelo medo da revolução e pela incapacidade das instituições liberais de recompor a autoridade burguesa. Mussolini não inventou simplesmente um estilo agressivo de governo. O fascismo italiano organizou uma política de massas que combinava nacionalismo, culto à liderança, militarização da vida pública, anticomunismo e destruição violenta da organização operária.
Essa combinação é decisiva. Um governo autoritário pode restringir liberdades sem produzir um movimento fascista. Uma ditadura pode governar por meio da polícia e da censura sem mobilizar permanentemente multidões em torno de uma fantasia nacional. O fascismo, por sua vez, pretende fazer da própria sociedade uma tropa: convoca trabalhadores precarizados, setores médios inseguros, empresários ressentidos e grupos ameaçados pela perda de privilégios para uma guerra imaginária contra comunistas, minorias, intelectuais, imigrantes ou qualquer outro inimigo conveniente.
É nesse ponto que a psicologia das multidões, discutida por Gustave Le Bon, deixa de ser uma curiosidade sobre o comportamento coletivo e se torna instrumento político. A multidão fascista não é apenas irracional; ela é produzida por uma experiência social concreta de impotência. O indivíduo que não controla o trabalho, o salário, a moradia nem o futuro encontra no líder uma sensação substituta de força. A submissão aparece como identidade, e a violência contra o outro como recuperação de uma dignidade que o capitalismo retirou.
O capitalismo produz a insegurança que o fascismo administra
A ideologia fascista desloca a origem do sofrimento. O trabalhador submetido a metas, dívidas e desemprego não é levado a enxergar a exploração, mas o vizinho que recebe uma política pública, a mulher que reivindica autonomia, o professor que critica a desigualdade ou o militante que organiza uma greve. A contradição entre capital e trabalho é convertida em conflito moral entre cidadãos de bem e supostos inimigos da nação.
Essa operação é particularmente eficaz em uma sociedade marcada pela alienação. O trabalhador não reconhece no produto de seu trabalho nem nas instituições que organiza a própria força social. Tudo aparece como poder externo: o mercado, o Estado, a plataforma, o chefe, o algoritmo e, finalmente, o líder que promete devolver ordem ao caos. A política fascista captura essa experiência e a devolve em forma de comando.
Guy Debord mostrou que a sociedade do espetáculo não é simplesmente uma sociedade cheia de imagens. É uma sociedade em que as relações sociais passam a ser mediadas por representações. A política fascista aproveita esse mecanismo para substituir organização por identificação. O cidadão não participa de um projeto coletivo; acompanha vídeos, repete slogans, compartilha inimigos e interpreta a presença do líder como participação política. A imagem do chefe ocupa o lugar da ação comum.
Por isso, o fascismo contemporâneo não depende necessariamente de uniformes, desfiles ou milícias com a estética do século passado. Ele pode circular em grupos de mensagens, transmissões ao vivo, perfis de influenciadores e campanhas permanentes de desinformação. A técnica digital amplia a velocidade da mobilização, registra preferências, segmenta ressentimentos e transforma a atenção em matéria-prima para a guerra política.
Bolsonarismo e a atualização brasileira do fascismo
O bolsonarismo não deve ser compreendido apenas como conservadorismo religioso ou como uma candidatura populista entre outras. Sua força política combinou nostalgia autoritária, culto ao chefe, militarização do imaginário nacional, anticomunismo sem comunistas reais, negacionismo, misoginia, racismo e ataque sistemático às instituições democráticas. Essa combinação não reproduz mecanicamente o fascismo europeu, mas atualiza tendências neofascistas dentro das condições brasileiras.
O caso brasileiro torna visível a função política dessa atualização. Enquanto entregadores trabalham sob risco e sem garantias, enquanto professores enfrentam desvalorização e enquanto trabalhadores de call center são submetidos a controle minucioso por produtividade, a propaganda bolsonarista apresenta o problema social como falha moral individual. O fracasso deixa de ser produzido por relações econômicas e passa a ser atribuído ao preguiçoso, ao esquerdista, ao pobre que recebe auxílio ou ao funcionário público que teria privilégios excessivos.
A promessa de liberdade feita por esse discurso também é reveladora. Não se trata da liberdade de organizar um sindicato, interromper uma jornada abusiva ou decidir coletivamente sobre a produção. Trata-se da liberdade patronal de contratar e demitir, da liberdade do proprietário de portar armas, da liberdade da plataforma de controlar trabalhadores sem reconhecê-los como empregados e da liberdade do líder de atacar qualquer limite institucional.
O fascismo brasileiro pode, assim, defender o mercado e a intervenção autoritária ao mesmo tempo. Não há contradição. Como observa a crítica materialista do Estado, a forma política não paira acima das relações sociais: ela organiza e protege determinadas relações de poder. Quando a democracia liberal passa a limitar a ofensiva do capital ou quando setores populares conquistam direitos, a defesa abstrata da liberdade pode ser abandonada em favor da coerção aberta.
O inimigo do fascismo é a organização popular
O fascismo se apresenta como movimento contra a política, mas sua política é intensa. Ele não deseja uma sociedade sem conflitos; deseja que os conflitos sejam administrados sem que os explorados se reconheçam como classe. Daí seu ataque permanente a sindicatos, partidos de esquerda, universidades, movimentos sociais, imprensa crítica e instituições capazes de produzir alguma memória coletiva.
O trabalhador isolado é mais fácil de governar do que o trabalhador organizado. A professora tratada como empreendedora da própria carreira aceita mais facilmente a sobrecarga como desafio pessoal. O entregador convocado a ser dono do próprio negócio tende a interpretar o bloqueio no aplicativo como punição individual, não como uma decisão de uma empresa que concentra poder. A ideologia transforma dependência em autonomia imaginária e exploração em oportunidade.
O combate ao fascismo, por isso, não pode se limitar à defesa abstrata das instituições. A democracia que deixa intacta a precarização do trabalho, a concentração econômica e a violência cotidiana produz o terreno em que o autoritarismo se alimenta. Defender direitos civis é indispensável, mas insuficiente quando milhões de pessoas vivem sem controle sobre as condições materiais da própria existência.
Compreender o significado da palavra fascismo exige recusar tanto a banalização quanto a falsa prudência. Nem todo autoritarismo é fascismo, mas o fascismo tampouco começa apenas quando as liberdades já foram abolidas. Ele começa quando a frustração social é organizada contra os mais vulneráveis, quando o líder substitui a política e quando a violência passa a ser celebrada como limpeza moral da nação.
A resposta não está em pedir moderação ao discurso que transforma desigualdade em culpa e medo em programa de governo. Está em reconstruir a capacidade coletiva de nomear a exploração, disputar o Estado, enfrentar a mentira organizada e transformar a indignação dispersa em solidariedade de classe. O fascismo prospera quando os trabalhadores acreditam que estão sozinhos. Sua derrota começa quando deixam de procurar no outro o inimigo que o capital lhes ensinou a enxergar.
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