Qual o significado da palavra fascista? A pergunta parece pedir uma definição de dicionário, mas seu sentido político não cabe em uma lista de adjetivos como autoritário, violento ou antidemocrático. No Brasil, chamar alguém de fascista pode ser uma análise precisa ou apenas um xingamento automático. A diferença está em compreender que o fascismo não é somente a brutalidade de um governante: é uma forma de organizar o medo, a frustração e o ressentimento social em torno de um líder que promete restaurar uma ordem imaginária pela eliminação do inimigo.
Qual o significado da palavra fascista quando a crise vira método político
O fascismo aparece em momentos nos quais a sociedade capitalista atravessa uma crise que as instituições tradicionais não conseguem resolver. O desemprego, a precarização, a perda de direitos e a sensação de abandono produzem um terreno fértil para discursos que oferecem uma explicação simples: o problema não estaria na concentração de riqueza, na exploração do trabalho ou na estrutura do Estado, mas em algum inimigo interno. Comunistas, professores, imigrantes, artistas, jornalistas, militantes de esquerda, pessoas negras, indígenas e minorias sexuais podem ser empurrados para esse lugar.
O fascista não precisa abolir imediatamente todas as instituições. Ele pode disputar eleições, ocupar parlamentos e usar a linguagem da legalidade enquanto corrói as condições que tornam a democracia possível. A democracia, nesse caso, é aceita apenas como procedimento útil para conquistar o poder. Depois, suas regras passam a ser tratadas como obstáculos sempre que limitam a vontade do líder ou os interesses da classe dominante que o apoia.
É preciso distinguir fascismo histórico e neofascismo sem transformar a distinção em álibi. O fascismo italiano de Mussolini e o nazismo alemão pertencem a contextos específicos, marcados por formas próprias de organização partidária, propaganda e violência estatal. O bolsonarismo não é uma cópia mecânica desses regimes. Ainda assim, mobiliza elementos reconhecíveis da lógica fascista: o culto ao chefe, o nacionalismo agressivo, a paranoia contra inimigos internos, o desprezo pelo conhecimento, a exaltação da violência e a promessa de purificação moral da nação.
O bolsonarismo e a fabricação do inimigo
Durante o governo Jair Bolsonaro, a política brasileira foi constantemente deslocada para uma guerra moral. A destruição de direitos trabalhistas e sociais, a precarização da vida e a submissão do Estado aos interesses econômicos apareciam recobertas por uma cruzada contra o comunismo, mesmo quando o comunismo real não tinha qualquer relação com os problemas concretos enfrentados pela população. O trabalhador submetido a jornadas extensas, o entregador de aplicativo sem proteção e o professor atacado em sala de aula eram convidados a enxergar como ameaça maior uma abstração ideológica fabricada pelo discurso oficial.
Essa operação não é um simples erro de diagnóstico. Ela cumpre uma função de classe. Quando o ressentimento popular é direcionado contra grupos vulneráveis ou contra a esquerda, deixa de mirar a exploração cotidiana. A revolta do trabalhador contra a própria condição pode ser convertida em ódio ao vizinho, ao estudante, à mulher que reivindica autonomia ou ao servidor público. O sistema preserva sua estrutura enquanto oferece ao indivíduo uma compensação simbólica: sentir-se parte de uma comunidade nacional supostamente superior.
O ataque bolsonarista às urnas eletrônicas e a preparação política para desacreditar o resultado eleitoral expressam essa lógica. Não se tratava apenas de uma disputa técnica sobre equipamentos. A desconfiança era produzida como método de mobilização: se o líder perdesse, a derrota não poderia ser reconhecida como resultado político; deveria ser atribuída a uma conspiração. O acampamento diante de quartéis, a invasão das sedes dos Poderes em 8 de janeiro de 2023 e a defesa posterior dos envolvidos revelaram a disposição de uma parcela do movimento para substituir o conflito democrático pela pressão autoritária.
O líder acima da realidade
Na psicologia das multidões analisada por Gustave Le Bon, a massa tende a abandonar a deliberação individual e a se submeter à força de imagens, afetos e fórmulas repetidas. A teoria de Le Bon é insuficiente para explicar as classes sociais e as estruturas econômicas, mas ajuda a compreender um aspecto da política fascista: o líder não precisa demonstrar coerência; precisa condensar sentimentos dispersos. Sua palavra transforma medo em certeza, ressentimento em identidade e violência em prova de autenticidade.
Por isso, o fascista não é definido apenas por defender uma opinião extrema. Ele participa de uma relação política na qual a fidelidade ao chefe vale mais do que os fatos. A mentira não precisa convencer todos de maneira racional. Basta manter o grupo em estado de excitação permanente, produzindo novos escândalos, inimigos e ameaças. A contradição deixa de ser um problema porque o objetivo não é conhecer o mundo, mas proteger a identidade coletiva construída em torno do líder.
A sociedade do espetáculo, no sentido formulado por Guy Debord, intensifica essa dinâmica. A política se apresenta como uma sucessão de imagens, confrontos e performances, enquanto as relações reais de poder ficam ocultas. A masculinidade agressiva do líder, o gesto armado, a fala obscena e a provocação permanente funcionam como mercadorias políticas. O espetáculo não distrai simplesmente as pessoas da realidade: ele reorganiza a própria percepção da realidade, fazendo a aparência de força parecer uma solução material.
Fascismo, Estado e capitalismo
Uma definição séria de fascismo também precisa escapar da ideia liberal de que tudo se reduz ao caráter de um indivíduo. Para Alysson Mascaro, o Estado não é um instrumento neutro que paira acima das classes; ele organiza juridicamente relações sociais marcadas pela exploração capitalista. O fascismo não elimina essa estrutura. Ao contrário, pode reforçá-la quando a classe dominante já não consegue administrar a crise por meio dos mecanismos políticos ordinários e aceita a violência autoritária como forma de preservar seus interesses.
Isso explica por que empresários, setores do agronegócio, grupos religiosos e parcelas do mercado podem apoiar discursos que atacam a democracia enquanto defendem a liberdade econômica. A liberdade prometida é seletiva: liberdade para contratar sem direitos, demitir sem responsabilidade, explorar plataformas de trabalho e reduzir o Estado social; repressão para quem protesta, organiza sindicato ou reivindica igualdade. O fascismo combina autoridade política e desregulamentação econômica sem enxergar contradição nisso.
Marx ajuda a compreender o núcleo material dessa operação. O trabalhador alienado encontra no mercado uma força que domina sua vida, mas não reconhece imediatamente a estrutura social que produz essa dominação. Em vez de enxergar a relação entre lucro, propriedade e exploração, pode ser levado a acreditar que seu fracasso resulta de inimigos culturais ou de uma suposta decadência moral da sociedade. A ideologia fascista oferece uma saída falsa para uma dor verdadeira.
Fascista não é sinônimo de qualquer autoritário
O uso indiscriminado da palavra enfraquece sua capacidade de nomear o perigo. Um governante autoritário, um conservador reacionário ou alguém que defenda uma política violenta não é automaticamente fascista. O conceito ganha precisão quando há uma combinação entre nacionalismo excludente, culto ao líder, mobilização de massas pelo ressentimento, fabricação sistemática de inimigos, desprezo pelos direitos universais e legitimação da violência como regeneração da comunidade.
Essa precisão não exige esperar a instalação de uma ditadura para reconhecer tendências fascistas. O fascismo pode existir como movimento, linguagem e prática antes de controlar plenamente o Estado. Ele cresce quando a violência contra adversários vira virtude, quando a mentira é tratada como lealdade e quando a desigualdade é apresentada como ordem natural. Também cresce quando instituições econômicas e políticas normalizam ataques à democracia porque o líder autoritário protege seus negócios.
O significado de fascista, no Brasil, não está encerrado no passado europeu nem deve ser reduzido a um insulto de disputa eleitoral. A palavra nomeia uma política que transforma a crise produzida pelo capitalismo em guerra contra os mais vulneráveis, substitui direitos por obediência e faz do líder a medida da verdade. Reconhecer esse mecanismo não é exagero retórico. É recusar a mentira confortável de que a violência autoritária surgiu do nada, quando ela foi preparada por anos de precarização, ressentimento organizado e destruição deliberada da imaginação democrática.
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