A necropolítica brasileira não é apenas o poder de matar exercido por uma polícia ou por um governo abertamente autoritário. Ela é uma forma de organizar a sociedade em que algumas vidas recebem proteção, tempo, cuidado e futuro, enquanto outras são empurradas para a exposição permanente à morte. O conceito formulado por Achille Mbembe permite compreender aquilo que a linguagem administrativa costuma esconder: o abandono também é uma política, e a negligência pode produzir resultados tão letais quanto a violência direta.

No Brasil, essa política aparece na combinação entre racismo, desigualdade de classe, militarização dos territórios pobres, destruição ambiental e precarização do trabalho. Não se trata de uma anomalia que surge quando as instituições deixam de funcionar. Ao contrário, a necropolítica funciona por meio de instituições que selecionam quem terá acesso à lei, ao hospital, à escola, à renda, à moradia e à própria possibilidade de ser ouvido. A morte não é um acidente externo à ordem social; para determinados grupos, ela é o resultado previsível de uma ordem que transforma pessoas em excedentes.

Necropolítica como governo do abandono

Mbembe amplia a discussão sobre soberania ao perguntar quem pode viver e quem pode ser exposto à morte. A questão não diz respeito somente à execução física. Também envolve a fabricação de mundos em que a existência se torna insustentável: territórios submetidos à fome, à violência, à doença, à contaminação ou à ausência de direitos. O poder não precisa declarar que deseja a morte de uma população para governá-la como população matável. Basta retirar proteção, normalizar o risco e apresentar o sofrimento como consequência inevitável da realidade.

É nesse ponto que a necropolítica se articula ao capitalismo. A exploração do trabalho não produz apenas mais-valia; produz também uma hierarquia de vidas cujo desgaste é considerado aceitável. O entregador que atravessa a cidade sob chuva, sem vínculo empregatício e sem garantia de renda, é celebrado como empreendedor quando suporta o risco e tratado como custo quando adoece. A plataforma não precisa ordenar sua morte. Ela desenha uma relação de trabalho em que a sobrevivência depende de aceitar perigos que o contratante não assume.

A linguagem da escolha individual encobre essa coerção. O trabalhador supostamente escolhe quando ligar o aplicativo, qual rota fazer e quanto risco correr. Mas sua liberdade é delimitada pela necessidade de pagar aluguel, comida e dívidas. O algoritmo converte a urgência material em pontuação, meta e disponibilidade. A técnica, nesse caso, não é uma ferramenta neutra que apenas facilita encontros entre oferta e demanda. Ela organiza a submissão, distribui punições e torna a exploração menos visível. O comando aparece como cálculo automático, e a violência social se apresenta como resultado de uma tela.

Do território indígena à periferia urbana

O governo Bolsonaro ofereceu uma expressão particularmente brutal dessa lógica. O negacionismo durante a pandemia não foi somente um conjunto de opiniões erradas sobre a doença. Ao desacreditar medidas de proteção, atacar a vacinação, ridicularizar o uso de máscaras e transformar a morte em espetáculo de disputa política, o bolsonarismo deslocou para os indivíduos a responsabilidade por uma crise que exigia ação coletiva. O vírus atingia a todos, mas não atingia igualmente: moradores de periferias, trabalhadores sem possibilidade de isolamento, idosos, indígenas e pessoas pobres estavam muito mais expostos.

O caso dos povos Yanomami revelou a mesma estrutura em outra escala. A invasão garimpeira, a contaminação, a fome e o colapso das condições de saúde não surgiram de uma fatalidade natural. Foram favorecidos por escolhas políticas, por discursos que relativizaram a proteção dos territórios indígenas e por uma visão de desenvolvimento que trata a vida não branca como obstáculo à exploração econômica. A ausência do Estado, quando permite que a devastação avance, não é simples vazio administrativo. É uma presença seletiva: o poder público se retrai para proteger os vulneráveis e reaparece para garantir a propriedade, o mercado e a repressão.

Nas periferias, a morte é administrada por operações policiais, encarceramento em massa, falta de saneamento e precariedade dos serviços públicos. A política de segurança transforma determinados bairros em zonas de exceção cotidiana, onde a presunção de inocência perde valor antes mesmo de qualquer investigação. Jovens negros são construídos como ameaça abstrata, e essa imagem autoriza abordagens, invasões e disparos que seriam considerados escândalo em regiões protegidas da cidade. A necropolítica precisa desse enquadramento: antes de matar corpos, ela desumaniza sujeitos.

O Estado não está ausente: ele seleciona quem proteger

A crítica ao Estado burguês não pode confundir desigualdade de acesso com simples incompetência. Como mostra Alysson Mascaro, o Estado capitalista apresenta-se como forma geral e impessoal, separada dos interesses particulares dos proprietários, mas sua estrutura reproduz as relações sociais do capital. A lei proclama igualdade enquanto a economia distribui proteção de maneira desigual. A repressão e a assistência não são fenômenos opostos: ambas podem operar na manutenção de uma ordem em que a propriedade possui mais estabilidade que a vida.

Por isso, a necropolítica não desaparece quando um governo troca o discurso de ódio por uma linguagem moderada. O bolsonarismo radicalizou e tornou explícita uma disposição já presente: a de abandonar os pobres à própria sorte e tratar a violência como método de governo. Mas a superação do bolsonarismo não pode significar apenas restaurar a aparência de normalidade institucional. Se continuarem intactos o racismo estrutural, a militarização, a precarização e a prioridade dada ao ajuste fiscal sobre a reprodução da vida, a máquina de descarte seguirá funcionando sob vocabulário democrático.

A democracia liberal, reduzida ao ritual eleitoral, não impede que populações inteiras sejam submetidas a condições de morte lenta. Trabalhadores podem votar e continuar sem controle sobre o próprio tempo. Comunidades podem eleger representantes e permanecer sem água, atendimento médico ou segurança. A igualdade jurídica não compensa a desigualdade concreta quando o direito de existir depende da capacidade de pagar. A forma democrática pode conviver com uma distribuição profundamente antidemocrática da vida e da morte.

A morte transformada em espetáculo

Guy Debord ajuda a compreender como essa violência é absorvida pela sociedade do espetáculo. O sofrimento aparece nas telas como imagem passageira, disputa de versões ou combustível para indignação instantânea. Uma criança morta, uma operação policial e uma fila de hospital são convertidas em conteúdo que circula, acumula reações e logo é substituído por outro acontecimento. A distância entre a imagem e a experiência permite que a sociedade consuma a morte sem interromper suas rotinas.

O espetáculo também oferece a fantasia de que a violência é sempre um excesso individual: o policial que agiu por conta própria, o político que exagerou, o aplicativo que cometeu um erro. Essa personalização impede a percepção da estrutura. A necropolítica precisa parecer uma sucessão de acidentes, porque sua eficácia depende de não ser reconhecida como política. Quando a morte é atribuída ao azar, à irresponsabilidade da vítima ou ao conflito entre indivíduos, desaparecem as decisões econômicas e institucionais que produziram sua vulnerabilidade.

Romper com essa lógica exige deslocar o centro da análise. Não basta perguntar quem puxou o gatilho ou qual autoridade fez a declaração mais abjeta. É preciso perguntar quais vidas foram previamente classificadas como sacrificáveis, quais instituições lucram com sua exposição e quais tecnologias tornam o comando impessoal. O entregador, o indígena, o jovem negro, a trabalhadora de call center e o professor submetido à produtividade não vivem situações idênticas, mas enfrentam uma mesma racionalidade: suas capacidades e seus corpos são consumidos enquanto sua proteção é tratada como despesa.

A necropolítica brasileira não é um destino cultural nem uma falha moral de indivíduos violentos. É uma engrenagem social que combina exploração, racismo, autoritarismo e indiferença administrada. Enquanto a vida for subordinada à rentabilidade, a morte continuará sendo distribuída de modo desigual. A resistência começa quando o abandono deixa de ser aceito como paisagem e passa a ser identificado pelo que é: uma decisão política sustentada por relações de classe e por um Estado que protege o capital antes de proteger quem trabalha.