O neo fascismo brasileiro não nasceu apenas de discursos extremistas nem pode ser reduzido ao temperamento de Jair Bolsonaro. Ele se formou como resposta política à crise de uma sociedade que precariza o trabalho, desmonta expectativas e transforma a insegurança coletiva em culpa individual. Seu método consiste em oferecer inimigos visíveis para problemas produzidos por relações econômicas invisíveis: professores, jornalistas, pobres, militantes de esquerda, imigrantes, pessoas LGBTQIA+, instituições públicas e qualquer grupo que possa ser apresentado como obstáculo à restauração de uma ordem imaginária.
Essa forma política não pretende superar o capitalismo. Ao contrário, aparece quando o capitalismo já não consegue apresentar sua própria reprodução como promessa de prosperidade geral. O neo fascismo reorganiza a frustração sem tocar na propriedade, na exploração ou no poder das grandes empresas. Ele promete vingança contra os de baixo enquanto protege os que controlam riqueza, crédito, terra, meios de comunicação e plataformas digitais. Sua radicalidade é cultural e autoritária; sua economia permanece disciplinada pela acumulação.
A crise social convertida em ressentimento
A experiência cotidiana do trabalhador brasileiro fornece o material dessa conversão. O entregador de aplicativo enfrenta jornadas extensas, remuneração instável e risco permanente, mas a plataforma apresenta essa dependência como empreendedorismo. O professor submetido a metas, avaliações e desvalorização salarial é acusado de doutrinação quando denuncia a precariedade da escola. No call center, a vigilância sobre cada pausa e cada segundo de atendimento aparece como eficiência. Em todos esses casos, a exploração é individualizada: se a renda não basta, o trabalhador teria falhado; se a carreira não avança, faltaria mérito; se a vida se torna insuportável, a responsabilidade seria de escolhas pessoais.
O neoliberalismo produz essa anomia social ao enfraquecer formas coletivas de proteção e solidariedade. Quando sindicatos, serviços públicos e vínculos comunitários são corroídos, a derrota deixa de ser reconhecida como resultado de uma estrutura e passa a ser vivida como humilhação privada. A política neo fascista intervém justamente nesse ponto. Ela não oferece uma explicação material para a precarização, mas oferece uma narrativa emocional: alguém roubou o lugar que seria seu. O ressentimento, então, é organizado contra alvos que não ameaçam o poder econômico.
É por isso que a retórica bolsonarista combinou a defesa da austeridade, da privatização e da autonomia empresarial com uma linguagem de guerra moral. O trabalhador precarizado não era convidado a compreender quem se apropriava do valor produzido por seu trabalho, mas a odiar universidades, artistas, movimentos sociais e instituições de pesquisa. A raiva existente era real; o inimigo indicado era fabricado.
Neo fascismo, espetáculo e guerra cultural
Guy Debord descreveu o espetáculo não como simples excesso de imagens, mas como uma relação social mediada por imagens. A política digital radicaliza essa lógica: acontecimentos são menos importantes do que sua circulação como prova de pertencimento. Um vídeo de poucos segundos, uma frase retirada de contexto ou uma acusação sem evidência podem cumprir a função de organizar uma comunidade imaginária. O bolsonarismo compreendeu que a política contemporânea não exige coerência programática quando consegue produzir presença permanente, indignação e inimigos.
As redes sociais não criaram o autoritarismo, mas ampliaram sua capacidade de administrar afetos. O algoritmo favorece a repetição daquilo que captura atenção, e a indignação é uma mercadoria particularmente eficiente. A mentira não precisa convencer todos; basta manter um grupo em estado de mobilização contínua. Nesse ambiente, a dúvida vira traição, a apuração vira censura e a crítica vira perseguição. A figura do líder funciona como centro de uma cadeia de reconhecimento: quem repete sua linguagem demonstra que ainda pertence à comunidade dos supostamente despertos.
Aqui, a psicologia das multidões de Le Bon ajuda a compreender menos uma irracionalidade eterna das massas do que a dissolução do indivíduo crítico em uma identidade coletiva excitada. O sujeito isolado, inseguro e socialmente impotente recupera uma sensação de força ao participar de uma multidão digital. Ele pode não controlar seu salário, seu tempo ou sua moradia, mas consegue punir simbolicamente um professor, atacar uma jornalista ou exigir a eliminação de um adversário. A plataforma transforma impotência material em agressividade distribuída.
Essa é a função da guerra cultural: deslocar o conflito social do terreno da exploração para o terreno dos costumes, da moral e da identidade nacional. Não se trata de negar que disputas culturais tenham consequências materiais. Trata-se de observar que, no neo fascismo, elas são instrumentalizadas para impedir que a desigualdade seja politizada. A família é defendida contra direitos sociais; a liberdade é invocada para proteger a autoridade patronal; a nação é celebrada enquanto sua riqueza é submetida ao capital financeiro e aos interesses externos.
O autoritarismo como defesa da ordem existente
As mobilizações bolsonaristas após a derrota eleitoral de 2022 evidenciaram essa estrutura. Acampamentos diante de quartéis, bloqueios de estradas e a invasão das sedes dos Poderes em 8 de janeiro de 2023 não foram simples explosões espontâneas de irracionalidade. Foram tentativas de converter a derrota eleitoral em crise de regime, sustentadas pela ideia de que a vontade do líder estaria acima das regras institucionais. A violência aparecia como defesa da pátria, da família e da liberdade, embora pretendesse abolir o resultado de uma eleição e intimidar as instituições.
O episódio também revelou os limites e a força do neo fascismo. Ele não precisa conquistar integralmente o Estado para alterar o campo político. Pode normalizar ameaças, testar a tolerância das instituições, deslocar o centro do debate e tornar aceitável o que antes seria escandaloso. A violência de seus militantes não é um acidente externo à política; é uma linguagem de pressão quando a mobilização eleitoral já não basta. Ao mesmo tempo, sua dependência de frações empresariais, redes de comunicação e segmentos das forças de segurança mostra que não se trata de uma revolta antissistêmica. O objetivo é reordenar o Estado para aprofundar a ordem social existente.
A formulação de Alysson Mascaro sobre o Estado ajuda a evitar um erro recorrente: imaginar que as instituições estariam acima das classes e que o autoritarismo seria apenas uma invasão externa à democracia. O Estado capitalista organiza juridicamente relações de exploração e garante as condições gerais da acumulação. A democracia liberal pode ampliar direitos e permitir conquistas populares, mas não elimina essa estrutura. O fascismo surge quando as formas ordinárias de conciliação entram em crise e a classe dominante, ou setores dela, aceita restringir liberdades para preservar sua ordem.
Contra a fábrica de inimigos
Combater o neo fascismo exige mais do que denunciar seus absurdos ou disputar sua estética nas redes. A disputa precisa reconectar a revolta à sua causa material. O entregador não precisa de uma guerra contra a universidade; precisa de direitos, remuneração estável, proteção previdenciária e controle sobre a plataforma. O professor não precisa ser defendido apenas como indivíduo virtuoso; precisa de condições coletivas de trabalho e de uma escola pública que não seja tratada como depósito de crises sociais. A crítica ao autoritarismo só se torna consequente quando enfrenta as relações que produzem a vulnerabilidade explorada por ele.
Também não basta celebrar a democracia como procedimento abstrato. A democracia perde legitimidade quando convive com a insegurança permanente, com o endividamento e com a sensação de que decisões fundamentais são tomadas por mercados, empresas e sistemas automatizados inacessíveis. Se a esquerda deixa esse sofrimento sem linguagem política, a extrema direita o preencherá com conspiracionismo, racismo e culto à autoridade. A resposta não é suavizar o conflito, mas deslocá-lo para quem se beneficia da precariedade.
O neo fascismo prospera ao transformar a derrota social em ódio horizontal. Sua operação ideológica é fazer o explorado enxergar outro explorado como ameaça, enquanto o poder econômico desaparece atrás de símbolos patrióticos, sermões morais e batalhas digitais. Romper essa operação significa reconstruir a capacidade de organização coletiva e nomear o adversário real: não a diferença que o autoritário aprendeu a odiar, mas a estrutura que precisa da divisão para continuar explorando. Sem essa reconstrução, cada crise produzirá novos inimigos e deixará intacta a ordem que os fabrica.
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