Fascista, em seu significado político, não é simplesmente uma pessoa grosseira, autoritária ou inclinada a discutir aos gritos. A palavra designa uma forma de organizar a política quando a crise social é convertida em guerra contra inimigos internos, a violência aparece como solução e a defesa da propriedade se apresenta como defesa da pátria. No Brasil, o bolsonarismo deu a essa forma uma linguagem própria: armas, moralismo religioso, anticomunismo imaginário, culto ao líder e desprezo sistemático pelas instituições que não se submetem ao seu projeto.
O problema de tratar fascista como xingamento é que a banalização apaga sua função política. Se qualquer autoritário é fascista, nada se explica. A palavra deixa de indicar uma relação entre crise do capitalismo, mobilização de massas, destruição de direitos e fabricação de inimigos. O insulto pode até expressar indignação legítima, mas não basta para compreender por que milhões de pessoas são levadas a desejar a própria submissão em nome da ordem.
O significado político de fascista não cabe no dicionário
O fascismo histórico nasceu em momentos nos quais as classes dominantes já não conseguiam administrar a crise por meio das formas políticas habituais, mas tampouco aceitavam qualquer transformação social que ameaçasse a propriedade. Sua promessa é contraditória: apresenta-se como revolta contra o sistema, enquanto preserva suas estruturas fundamentais. Fala contra a elite, mas protege os proprietários; denuncia a corrupção, mas naturaliza a apropriação privada do Estado; promete liberdade, mas exige obediência ao chefe e repressão contra os derrotados.
Essa contradição ajuda a entender o bolsonarismo. Ele se alimentou do desemprego, da precarização, da insegurança e da perda de expectativas, mas não ofereceu aos trabalhadores qualquer saída coletiva. O entregador submetido ao algoritmo, a professora pressionada por metas, o funcionário de call center controlado por produtividade e o pequeno comerciante endividado foram convidados a interpretar sua própria exploração como resultado de inimigos morais: o professor doutrinador, o comunista, a imprensa, o ministro, o pobre que recebe auxílio, a mulher que reivindica autonomia.
O fascista não precisa eliminar toda insatisfação. Ele precisa desviá-la. A revolta contra a vida degradada é impedida de alcançar as relações de trabalho, a concentração de renda e o poder empresarial. Em seu lugar, instala-se uma narrativa de purificação nacional. A sociedade seria saudável se expulsasse os corruptores; a economia prosperaria se os fracos fossem disciplinados; a liberdade existiria se todos obedecessem à mesma autoridade. A exploração desaparece do campo de visão justamente quando o ressentimento se torna mais intenso.
Bolsonarismo e a fabricação do inimigo permanente
Durante a pandemia, o bolsonarismo mostrou que sua política não dependia apenas de um programa econômico ou de uma preferência eleitoral. A recusa da ciência, a sabotagem de medidas de proteção e a transformação da morte em disputa ideológica produziram uma pedagogia da crueldade. O sofrimento alheio foi apresentado como exagero, fraqueza ou conspiração. A solidariedade, que poderia criar uma experiência comum diante da catástrofe, foi substituída pela competição entre cidadãos armados de certezas.
A técnica digital ampliou esse mecanismo. Grupos de mensagens, vídeos curtos e transmissões permanentes não funcionam somente como canais neutros de informação. Eles formam ambientes de repetição, nos quais a mesma ameaça retorna até parecer evidência. A sociedade do espetáculo descrita por Guy Debord não é apenas o predomínio de imagens sobre fatos; é a transformação da relação social em representação. No bolsonarismo, a política se torna uma sequência de cenas de confronto: o líder contra o Supremo, o cidadão de bem contra o bandido, a família contra a escola, a nação contra seus supostos traidores.
O líder, nesse processo, não precisa apresentar coerência. Sua função é condensar afetos dispersos. Le Bon observou, em sua análise das multidões, como a sugestionabilidade e a identificação emocional podem substituir a argumentação individual. A crítica necessária a esse diagnóstico é que a multidão não nasce de uma irracionalidade abstrata: ela é produzida por condições concretas de isolamento, insegurança e impotência. A plataforma digital transforma indivíduos socialmente separados em uma massa conectada, capaz de compartilhar a mesma fúria sem construir uma ação coletiva contra as causas da própria miséria.
A violência fascista protege uma ordem social
O fascismo costuma ser descrito como inimigo da democracia, mas essa formulação é insuficiente quando separa a democracia de sua base material. O Estado não paira acima dos conflitos sociais. Como mostra Alysson Mascaro, sua forma jurídica universaliza indivíduos formalmente livres e iguais, ainda que a sociedade esteja organizada pela exploração e pela desigualdade. O fascismo não precisa abolir imediatamente todas as instituições; pode ocupar eleições, tribunais, leis e burocracias para restringir a igualdade política e proteger uma ordem econômica ameaçada.
É por isso que o autoritarismo bolsonarista não se resume aos ataques contra urnas, jornalistas ou ministros. Ele também aparece na defesa de reformas que ampliam a disponibilidade do trabalhador para o mercado, na criminalização da pobreza, no enfraquecimento de políticas públicas e na ideia de que cada indivíduo deve resolver sozinho problemas produzidos socialmente. A retórica da liberdade serve, então, para esconder a dependência real: o trabalhador é livre para aceitar qualquer corrida, qualquer escala, qualquer salário e qualquer risco.
Heidegger ajuda a perceber outro aspecto desse processo ao mostrar que a técnica moderna não é apenas um conjunto de ferramentas, mas uma forma de revelar o mundo como estoque disponível. No capitalismo de plataformas, pessoas, tempo e atenção são convertidos em recursos calculáveis. O fascismo acrescenta a esse enquadramento uma moral de comando: quem não produz o bastante é preguiçoso; quem adoece é fraco; quem questiona a autoridade é inimigo. A gestão algorítmica e a disciplina política se reforçam, embora não sejam a mesma coisa.
Nomear o fascismo é disputar o sentido da política
Chamar o bolsonarismo de neofascista não significa afirmar que o Brasil repete exatamente a Itália de Mussolini ou a Alemanha nazista. A história não retorna como cópia. O neofascismo contemporâneo opera em sociedades atravessadas por redes digitais, financeirização, precarização do emprego e instituições liberais ainda funcionais. Sua forma é adaptada ao presente: usa eleições, memes, igrejas, influenciadores, empresários da desinformação e a estética da espontaneidade para difundir um programa de hierarquia e exclusão.
Nomear essa forma política impede duas ilusões. A primeira é acreditar que o problema se resolve com a retirada de um indivíduo da disputa eleitoral. O líder é importante, mas expressa relações sociais que permanecem ativas. A segunda é imaginar que bastaria defender abstratamente a democracia sem enfrentar o trabalho degradado, a desigualdade e a solidão social que alimentam o ressentimento. Uma democracia esvaziada de direitos pode conservar seus rituais enquanto entrega sua substância à lógica do mercado.
O significado político de fascista, quando aplicado com rigor, não serve para distribuir certificados de pureza entre os democratas. Serve para identificar uma política que transforma a frustração social em obediência, a insegurança em ódio e a exploração em mérito. Contra ela, não basta pedir moderação aos que já perderam quase tudo. É preciso reconstruir formas coletivas de poder capazes de disputar a definição do inimigo e deslocar a revolta para suas causas reais: a propriedade concentrada, o trabalho alienado e um Estado que frequentemente chama de liberdade a liberdade do capital para comandar.
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