Nesta semana, Alysson Mascaro voltou a insistir, em entrevista ao programa Revolução Molecular, num ponto que a esquerda institucional brasileira costuma evitar ou tratar de modo envergonhado: a transformação social não passa apenas pelo arranjo das instituições, pela pedagogia moral das redes ou pela correção ilustrada das opiniões populares. Passa pela disputa da subjetividade, pelo enfrentamento ao imperialismo e pela recuperação da soberania nacional como valor politicamente mobilizador. A formulação não é acessória. Ela toca o nervo de uma conjuntura em que a extrema direita conseguiu falar em nome do país, sequestrar símbolos nacionais e, ao mesmo tempo, alinhar-se de maneira subalterna aos interesses dos Estados Unidos.
Mascaro formula o problema em termos decisivos: não se trata de imaginar que o desejo popular possa ser substituído do lado de fora, como quem troca uma peça defeituosa por outra ideologicamente correta. O desejo não é opinião avulsa, nem erro cognitivo pronto para ser retificado por uma aula de ciência política. Se parcelas populares aderem a formas conservadoras de discurso, isso não significa que seus anseios materiais e simbólicos coincidam integralmente com o programa do capital, do imperialismo ou da extrema direita. A questão, para ele, é partir de desejos já existentes — dignidade, pertencimento, fraternidade, melhoria da vida, orgulho nacional — e deslocá-los para uma direção emancipatória.
É aqui que a referência da biblioteca pessoal ilumina a notícia com precisão. O trecho fornecido critica a leitura das massas por meio das noções fixas de esquerda e direita quando essas categorias são usadas de modo intelectualista, como se a vida popular pudesse ser integralmente traduzida pelo vocabulário político das classes médias escolarizadas. O texto vai além: sugere que há, nesse uso, uma violência simbólica permanente. Em vez de compreender os constrangimentos sociais que moldam a expressão dos anseios populares, parte-se de um esquema classificatório que já condena o povo por não caber nele. O resultado é conhecido: as massas aparecem como irracionais, atrasadas, manipuláveis ou moralmente suspeitas sempre que não reproduzem a gramática esperada pelos setores ilustrados.
Essa ponte não é decorativa. Ela ajuda a entender por que a fala de Mascaro tem alcance estratégico. Quando ele diz que a esquerda não pode falar apenas para quem já compartilha de seu vocabulário, está enfrentando exatamente esse pressuposto intelectualista denunciado no texto da biblioteca. A dificuldade não está apenas em comunicar melhor uma verdade pronta; está em reconhecer que a própria forma dominante de nomear a política é socialmente situada. Chamar alguém de “direita” com base em respostas de pesquisa ou em adesões superficiais de linguagem pode ocultar mais do que revela. Pode esconder contradições reais entre a vida material dos dominados e as narrativas ideológicas que momentaneamente os capturam.
O trecho da biblioteca menciona ainda o “mito do lulismo” como expressão de uma luta de classes pela definição do que é política. Esse ponto é decisivo para ler a conjuntura. O lulismo, com todas as suas limitações e ambiguidades, foi capaz de estabelecer uma mediação concreta com o “elemento popular” porque não tratou os de baixo como abstrações estatísticas nem como alunos atrasados de um seminário universitário. O texto insiste que esse elemento popular “tem nome”, tem história e possui razões profundas para defender programas sociais quando vistos do ponto de vista dos dominados, e não da ciência liberal ou do preconceito de classe média. Essa observação conversa diretamente com a proposta de Mascaro: disputar a subjetividade popular exige abandonar a arrogância de quem imagina que o povo só entra na política quando fala a língua da intelligentsia.
Há, nesse ponto, uma crítica severa ao modo como a esfera pública brasileira foi organizada. O texto da biblioteca lembra que mercado, Estado e esfera pública não foram criados pelos dominados nem servem a seus interesses. A fala de Mascaro, ao criticar o Judiciário, os grandes meios de comunicação e a subordinação geopolítica do país, recoloca o problema no seu terreno material. A subjetividade popular não é produzida num vazio. Ela é moldada por aparelhos ideológicos, por formas de sociabilidade mercantil, por experiências de precariedade e por uma maquinaria midiática que oferece identificação nacional esvaziada de conteúdo soberano. O patriotismo de camiseta amarela, quando articulado à vassalagem diante de Washington, não é contradição acidental: é uma forma ideológica típica do capitalismo dependente.
Por isso a soberania nacional aparece, na entrevista, não como ornamento retórico nem como desvio nacionalista de esquerda, mas como ponto de condensação de desejos difusos. Se o povo gosta do Brasil, como diz Mascaro, a tarefa não é zombar desse afeto em nome de um cosmopolitismo abstrato, e sim demonstrar sua incompatibilidade com a submissão imperial. A extrema direita ocupou esse terreno de modo farsesco: falou em pátria enquanto aceitava a posição periférica do país, celebrava potências estrangeiras e aprofundava a destruição material da vida popular. O trabalho da esquerda, então, não é denunciar o amor ao país como falsa consciência em bloco, mas arrancá-lo das mãos do inimigo e reinscrevê-lo numa política anti-imperialista.
Quando Mascaro evoca a experiência chinesa e a memória da humilhação imposta pelas potências estrangeiras, o ponto central não está em importar modelos históricos de maneira mecânica. Está em perceber que projetos de transformação conseguem mobilizar quando oferecem às massas uma imagem concreta de futuro vinculada à dignidade coletiva. A frase segundo a qual a China não voltaria a ser dominada por potência imperialista sintetiza um mecanismo político profundo: desejos populares se organizam com mais força quando encontram forma histórica, horizonte comum e nomeação de inimigos reais. Não se trata de substituir a luta de classes pela nação, mas de entender que, em formações dependentes como o Brasil, a soberania é um dos terrenos em que a luta de classes se trava.
O texto da biblioteca também adverte contra dois erros simétricos. De um lado, o medo elitista da massa, vista como “besta horizontal”; de outro, a romantização condescendente do povo como pureza espontânea. Mascaro evita ambos. Seu argumento não santifica as classes populares nem as condena. Reconhece que seus desejos são contraditórios, socialmente produzidos e disputados. Justamente por isso, a política não pode ser reduzida nem a gerenciamento institucional nem a catequese moral. A pergunta não é como corrigir indivíduos desviantes, mas como alterar as condições materiais e simbólicas em que certos desejos se tornam verossímeis, agregadores e historicamente eficazes.
Essa discussão revela algo mais amplo sobre o capitalismo brasileiro de hoje. A extrema direita cresce não apenas porque mente melhor ou porque domina algoritmos, mas porque ocupa o vazio deixado por uma esquerda que frequentemente fala a partir das categorias da classe média progressista e supõe que o povo deva adequar-se a elas. Quando a política se converte em policiamento de linguagem, a vida concreta dos dominados desaparece. Quando soberania, trabalho, carestia, humilhação nacional e dependência econômica saem de cena, a indignação popular fica disponível para captura reacionária. O capital agradece: preserva-se a ordem, muda-se a embalagem afetiva.
Ler a entrevista de Mascaro à luz do trecho da biblioteca é perceber que a disputa da subjetividade não é um capítulo secundário da luta política, mas o nome contemporâneo da própria luta de classes em sua dimensão ideológica. Pensar do ponto de vista dos dominados, como reivindica o texto, não significa repetir tudo o que eles dizem num dado momento, e sim compreender por que dizem, em que mundo foram levados a dizer e quais possibilidades latentes existem nesse mesmo terreno. A esquerda só voltará a ser perigosa para a ordem quando abandonar o conforto de falar para si mesma e enfrentar o problema decisivo: transformar desejo social difuso em projeto organizado de soberania, anti-imperialismo e emancipação material.
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