As características do imperialismo não cabem na ilustração escolar de uma potência invadindo militarmente um país mais fraco e hasteando sua bandeira sobre outro território. A invasão continua possível, e as guerras mostram que o capitalismo não abandonou esse expediente. Mas, para entender a condição brasileira, é preciso observar uma forma menos cinematográfica e mais cotidiana de dominação: o comando sobre os circuitos em que se produz, circula e realiza o lucro. Uma empresa pode não controlar formalmente o Estado brasileiro, não possuir tropas aqui e, ainda assim, decidir o ritmo, o preço, a tecnologia e a parcela de riqueza apropriada em atividades que mobilizam milhões de trabalhadores. O imperialismo contemporâneo age também pelo aplicativo que ordena entregas, pela patente que encarece um medicamento, pela plataforma que monopoliza dados e pelo capital financeiro que exige cortes sociais em nome da confiança dos mercados.

Tratar o imperialismo apenas como uma categoria do passado colonial é útil para quem deseja descrevê-lo sem confrontá-lo. Essa descrição transforma uma relação viva de exploração em capítulo encerrado do livro didático. O problema não é que o Brasil tenha deixado de ser formalmente colônia; é que sua inserção subordinada no capitalismo mundial preserva e atualiza mecanismos pelos quais riqueza produzida aqui é apropriada em outros centros de poder. A independência política, conquistada no século XIX, não aboliu a dependência econômica. Tampouco a industrialização criou por si só autonomia, pois grande parte da indústria instalada no país se integra a decisões estratégicas tomadas fora dele, sujeita a tecnologias, financiamento, patentes, cadeias de fornecimento e mercados que não controla.

Características do imperialismo além da cartilha escolar

Em sua formulação clássica, o imperialismo se liga à concentração do capital, à centralidade do capital financeiro, à disputa por mercados, matérias-primas e áreas de investimento. Esses elementos não desapareceram: foram reconfigurados por cadeias globais de valor e infraestruturas digitais. O que importa, hoje, não é apenas quem extrai minério ou monta uma mercadoria, mas quem detém a marca, o sistema operacional, a patente, o algoritmo, a logística e os meios financeiros que definem as condições da transação. As etapas de maior comando e rentabilidade tendem a se concentrar nas economias centrais e em grandes corporações transnacionais; as tarefas mais degradadas, instáveis e ambientalmente destrutivas são distribuídas pelos territórios subordinados.

Isso não significa que toda empresa estrangeira seja automaticamente uma força imperialista, nem que a burguesia brasileira seja inocente ou simplesmente vítima. As classes dominantes locais participam ativamente desse arranjo. Elas lucram com exportações primárias, privatizações, especulação imobiliária, terceirizações e rebaixamento de direitos; oferecem terras, recursos naturais, isenções e força de trabalho barata como vantagem competitiva. A dependência não é uma maldição nacional abstrata. É uma relação de classe, mantida por frações empresariais brasileiras que fazem da subordinação externa a fonte de seu próprio poder interno. A retórica patriótica de muitos desses grupos serve apenas para ocultar que seu patriotismo termina onde começa a taxa de lucro.

Marx mostrou que o capital não é uma coisa imóvel, mas uma relação social que precisa expandir-se e transformar continuamente a vida em fonte de valorização. No imperialismo, essa expansão assume uma geografia desigual. O capital procura territórios onde possa obter matérias-primas, abrir mercados, encontrar mão de obra mais barata ou deslocar custos ambientais e sociais. A desigualdade entre países não é uma falha passageira a ser corrigida pelo livre mercado; ela é uma condição funcional de um sistema que necessita de diferentes graus de poder para extrair valor. A promessa de que basta modernizar-se, empreender ou atrair investimento para alcançar os países ricos é a versão nacional da meritocracia: transfere à vítima a responsabilidade por uma estrutura que a produz como subordinada.

O entregador e a plataforma imperial

O entregador de aplicativo nas grandes cidades brasileiras oferece uma imagem precisa dessa atualização. Ele compra ou aluga a própria motocicleta, arca com combustível, manutenção, acidentes e tempo de espera. Não recebe salário garantido, férias ou proteção trabalhista compatível com a jornada que efetivamente cumpre. A plataforma apresenta a relação como oportunidade de autonomia: o trabalhador seria parceiro, microempreendedor, senhor da própria rotina. Mas é o sistema da empresa que distribui chamadas, estabelece incentivos, calcula avaliações, penaliza recusas e pode bloquear a conta sem negociação real. A liberdade anunciada é a liberdade de aceitar a corrida ruim ou ficar sem renda.

Nesse modelo, o aplicativo não é uma ferramenta neutra posta nas mãos de indivíduos livres. É uma forma de organização e vigilância do trabalho. A empresa concentra dados sobre consumidores, restaurantes, trajetos e tempos; o trabalhador conhece apenas a próxima entrega. Essa assimetria é poder econômico. A plataforma transforma cada deslocamento em informação proprietária, cada avaliação em instrumento disciplinar e cada necessidade urgente de renda em disponibilidade permanente. Parte do valor produzido por milhares de corpos circulando sob chuva, calor e risco é capturada por uma arquitetura empresarial cujo centro decisório, financiamento e propriedade intelectual estão desconectados da vida do bairro onde a entrega ocorre.

Aqui se vê uma característica decisiva do imperialismo digital: a extração de valor não exige que a corporação possua a fábrica inteira, nem mesmo que assuma a figura tradicional do empregador. Ela pode comandar a circulação mediante software, marca e acesso ao mercado, deixando os custos materiais para trabalhadores, pequenos comerciantes e cidades. O município suporta trânsito, acidentes e desgaste urbano; o Sistema Único de Saúde atende feridos; famílias absorvem os períodos sem renda; o entregador assume a dívida da moto. A empresa conserva a capacidade de escalar a operação e de converter dados em ativos. A inovação, celebrada como inevitável, torna-se uma máquina de socializar custos e privatizar ganhos.

A soberania que não cabe no discurso empresarial

Quando se fala em soberania, costuma-se convocar uma abstração nacional que apaga as relações sociais internas. Não há soberania popular se a sobrevivência da maioria depende de empresas que podem alterar unilateralmente tarifas, regras e acesso ao trabalho por meio de uma atualização de sistema. Não há autonomia tecnológica quando serviços essenciais de comunicação, armazenamento, publicidade, pagamentos e informação pública ficam submetidos a infraestruturas privadas sobre as quais a sociedade não delibera. E não há desenvolvimento digno quando o horizonte oferecido à juventude trabalhadora é entregar comida sem vínculo enquanto os ganhos de comando se acumulam em plataformas e fundos de investimento.

Debord ajuda a perceber como essa dominação também se mascara em imagem. A publicidade vende a plataforma como conveniência para o consumidor e flexibilidade para o trabalhador; a tela limpa apaga o cansaço, a dívida e o acidente. O espetáculo não mente apenas quando inventa fatos: ele organiza o visível para que a relação de exploração apareça como escolha individual. A mochila nas costas vira símbolo de empreendedorismo, não de trabalho subordinado. A avaliação por estrelas parece participação democrática, não dispositivo de controle. Assim, o imperialismo ganha uma aparência amigável, personalizada e eficiente, distante da violência que sustenta sua operação.

O direito participa dessa disputa. Como observa Alysson Mascaro ao tratar da forma estatal e jurídica no capitalismo, o Estado não paira acima das classes como árbitro desinteressado. As regras jurídicas organizam e reproduzem relações de produção, ainda que sejam também terreno de luta. Quando tribunais, governos e parlamentos aceitam sem resistência a ficção de que um trabalhador permanentemente submetido ao algoritmo é apenas um empresário de si, dão forma legal à precarização. Quando se recusam a regular a opacidade dos sistemas, a tributação dos ganhos e a responsabilidade das plataformas, chamam de modernização aquilo que é desproteção organizada.

Romper a dependência é enfrentar quem lucra com ela

Não existe saída progressista na fantasia de um capitalismo nacional benigno, capaz de copiar as potências sem reproduzir exploração. Uma política efetivamente anti-imperialista precisa enfrentar a transferência de riqueza, a financeirização e o monopólio tecnológico, mas também o poder das classes locais que administram esses mecanismos. Isso inclui defender direitos trabalhistas para trabalhadores de plataforma, transparência e controle público sobre algoritmos que determinam renda, capacidade estatal em tecnologia, proteção dos serviços públicos e limites reais à chantagem do capital financeiro.

Essas medidas não esgotam a tarefa, mas deslocam o debate do orgulho nacional abstrato para a vida concreta de quem trabalha. O imperialismo não será vencido por slogans de grandeza, por bandeiras empunhadas por empresários ou pela promessa de que o mercado premiará os mais esforçados. Ele se reproduz justamente quando o trabalhador é isolado, chamado de empreendedor e levado a crer que seu fracasso é individual. Nomear a rota do valor — da entrega precária ao lucro concentrado — é um passo para recusar essa mentira e transformar a dependência em conflito político aberto.