Acumulação por espoliação não é uma expressão reservada aos capítulos iniciais do capitalismo, como se o roubo de terras, a destruição de comunidades e a apropriação de bens coletivos fossem práticas de um passado brutal, substituído por contratos civilizados. Em Brumadinho, Minas Gerais, a lama que rompeu a barragem da Vale em janeiro de 2019 tornou visível um mecanismo permanente: a riqueza privada depende de converter em custo social aquilo que deveria ser condição comum da vida — a água, o território, a segurança do trabalho, o tempo das famílias e a própria possibilidade de permanecer num lugar. Não se trata apenas de uma empresa que falhou em prevenir uma tragédia. Trata-se de um regime econômico para o qual a prevenção integral reduziria a rentabilidade de uma atividade organizada para extrair ao máximo e responder depois, quando responde.

O conceito formulado por David Harvey ajuda a nomear a continuidade daquilo que Marx chamou de acumulação primitiva. A origem do capital não é uma fábula de empresários poupadores e trabalhadores livres que assinam um contrato equilibrado; ela envolve cercamentos, expropriações e violência estatal. Harvey insiste que esse processo não acabou com a industrialização: ele reaparece quando direitos, bens públicos e recursos naturais são entregues à valorização privada. No Brasil mineral, a acumulação por espoliação opera sem precisar expulsar todos de uma vez com jagunços. Ela pode vir na licença ambiental flexibilizada, na dependência econômica de municípios, na compra de propriedades, no rebaixamento das exigências de segurança e na chantagem silenciosa que apresenta a mineração como único horizonte possível.

Acumulação por espoliação não termina quando a barragem se rompe

O rompimento em Brumadinho matou trabalhadores e moradores, contaminou o rio Paraopeba e desorganizou formas de vida que não cabem nas planilhas de indenização. A imagem pública do episódio costuma oscilar entre a catástrofe natural e o erro técnico. Ambas as molduras protegem o essencial. A primeira dissolve responsáveis numa paisagem hostil; a segunda reduz uma relação social a um defeito de engenharia, como se bastasse trocar sensores, aperfeiçoar protocolos e punir alguns executivos para preservar intacto o negócio. Mas barragens, minas, ferrovias e portos não são ferramentas neutras. Eles compõem uma arquitetura de poder que faz do território mineiro uma plataforma de exportação de riqueza e deixa no local os rejeitos, a dependência fiscal, a ameaça permanente e o trabalho submetido.

Os empregados soterrados no refeitório da mina são a figura mais cruel dessa lógica. A empresa não compra apenas sua força de trabalho durante uma jornada; organiza o espaço e o ritmo produtivo de tal forma que a vida se torna descartável diante da continuidade da extração. Marx mostrou que o capital não reconhece espontaneamente limites à sua fome por trabalho excedente. Na mineração, essa fome se combina à pressão por produzir, reduzir custos e garantir o fluxo de minério para o mercado mundial. A segurança aparece, então, como despesa a ser administrada, não como princípio que interrompe a acumulação. Quando o risco é conhecido ou previsível e ainda assim integrado à operação, o desastre deixa de ser acidente no sentido político do termo: é uma possibilidade distribuída desigualmente entre quem lucra e quem pode morrer.

A espoliação também alcança quem não tinha carteira assinada pela mineradora. Agricultores, pescadores, pequenos comerciantes, trabalhadores informais e populações ribeirinhas dependiam de rios, estradas, vínculos comunitários e de uma previsibilidade mínima para reproduzir sua existência. A contaminação não lhes tira apenas uma renda mensurável. Ela altera a relação com a comida, com a água, com a memória familiar e com a confiança no futuro. É precisamente essa dimensão que a linguagem empresarial tenta apagar ao converter perdas em valores indenizatórios. Dinheiro pode ser necessário para sobreviver; não restitui automaticamente um rio, uma comunidade ou um cotidiano destruído.

O Estado administra a ruína que ajudou a produzir

Seria confortável tratar o poder público como simples vítima da força econômica da Vale. Essa narrativa também é insuficiente. O Estado capitalista não fica fora do conflito entre o lucro e a vida: ele organiza juridicamente as condições em que esse conflito ocorre. Alysson Mascaro chama atenção para a forma estatal e a forma jurídica como estruturas próprias da sociabilidade capitalista, não como árbitros acima das classes. A licença, a fiscalização, a concessão, a regra de compensação e o acordo judicial parecem instrumentos técnicos; são, porém, meios pelos quais interesses inconciliáveis são traduzidos numa linguagem administrável.

Depois de Brumadinho, a reparação foi cercada por procedimentos, perícias, cadastros, negociações e decisões institucionais. Nada disso é irrelevante: sem organização popular e disputa judicial, a empresa teria ainda mais liberdade para fugir das consequências. O problema é outro. Quando a reparação se concentra em gerir o dano, ela pode transformar a destruição em uma nova frente de negócios: obras contratadas, fundos administrados, consultorias, compensações calculadas e publicidade corporativa sobre responsabilidade. A corporação que devastou ganha tempo para recompor sua legitimidade, enquanto as pessoas atingidas precisam provar repetidamente que foram atingidas, enquadrar sua dor em formulários e aceitar ritmos que não escolheram.

Essa assimetria é parte do espólio. A empresa possui departamentos jurídicos, técnicos e comunicacionais; o morador atingido dispõe, muitas vezes, apenas de sua experiência devastada e da necessidade urgente de pagar as contas. A forma jurídica promete equivalência — um dano, uma compensação; uma obrigação, uma quitação — onde houve uma desigualdade material extrema. Não significa recusar o direito ou abandonar a luta por indenização. Significa não confundir a vitória parcial num processo com a superação da relação que tornou o crime rentável e a reparação necessária.

A mineração vende progresso e entrega dependência

Minas Gerais foi treinada a ouvir que minério significa desenvolvimento. A palavra funciona como ideologia porque toma a circulação de riqueza pela criação de bem-estar. Uma mina pode elevar exportações, movimentar fornecedores e ampliar receitas sem alterar a dependência estrutural de uma região; pode mesmo aprofundá-la, pois subordina a economia local a um ciclo extrativo decidido por preços internacionais e por acionistas distantes. Quando a população é levada a escolher entre emprego e proteção ambiental, a escolha já foi fraudada. A pergunta correta é por que o direito ao trabalho aparece condicionado à aceitação de risco, poluição e devastação.

O discurso do progresso também mobiliza o espetáculo, no sentido de Guy Debord: a relação social mediada por imagens. Vídeos institucionais de inovação, relatórios de sustentabilidade e promessas de “mineração responsável” oferecem uma representação pacificada da atividade. A lama, os corpos e o Paraopeba entram como episódios excepcionais a serem superados por uma empresa renovada. A publicidade não é um adorno posterior; ela ajuda a separar o produto de suas condições de produção, o minério da montanha aberta, o lucro da morte, o dividendo da água contaminada. O consumidor global vê uma commodity. Quem vive no território vê o preço material da commodity.

Há ainda uma dimensão imperialista que não pode ser suavizada. O minério extraído em grande escala integra cadeias internacionais de indústria, infraestrutura e tecnologia, enquanto os custos ambientais e humanos permanecem concentrados nas periferias do capitalismo. Não basta que a empresa tenha sede brasileira ou pague tributos no país para que a relação deixe de ser colonial. O ponto decisivo é quem controla o excedente, quem determina o ritmo de extração e quem arca com os passivos. A economia exportadora de recursos naturais preserva a velha posição subordinada: envia matéria bruta, importa dependência tecnológica e naturaliza a destruição de seus próprios territórios.

Reparar exige disputar o controle sobre o território

Chamar Brumadinho de crime ambiental é correto, mas ainda pouco se a fórmula não revelar o antagonismo de classe que ela contém. O ambiente não é uma abstração verde separada do trabalho. É a base material da reprodução da classe trabalhadora: água para beber, terra para plantar, rios para pescar, caminhos para circular, ar para respirar. Quando esses bens são sacrificados à mineração, a expropriação invade a vida fora da fábrica. O capital não explora somente o trabalhador no momento da jornada; ele corrói as condições coletivas que permitem que esse trabalhador e sua comunidade existam.

A resposta não pode ser uma confiança passiva numa mineração mais “humana”, certificada por auditorias e embalada por novos slogans. Controle público efetivo, fiscalização independente, transparência radical, poder deliberativo das populações atingidas e responsabilização integral das empresas são exigências imediatas. Mas elas apontam para uma disputa maior: retirar das corporações a prerrogativa de decidir, em nome da rentabilidade, quais territórios podem ser sacrificados. Enquanto a riqueza mineral for tratada como propriedade disponível ao capital e o dano como custo negociável, cada promessa de segurança carregará a sombra da próxima barragem. A lama de Brumadinho não é uma falha lateral do modelo. É a verdade social de um modelo que acumula porque espolia.