A busca por uma definição de facismo — grafia frequente de fascismo — costuma levar a textos corretos, mas insuficientes: listas de características, datas europeias, nomes de líderes e a afirmação tranquilizadora de que se trata de um fenômeno encerrado em 1945. O problema dessa explicação escolar é que ela transforma o fascismo em peça de museu. A questão decisiva não é apenas o que foram Mussolini e Hitler, mas que função o fascismo cumpre quando a sociedade capitalista entra em crise, as classes dominantes temem perder o controle e parcelas da população trabalhadora passam a enxergar na violência uma promessa de proteção.

Fascismo não é simplesmente qualquer governo autoritário, nem um xingamento para toda posição reacionária. Ele é uma forma particular de mobilização política: organiza ressentimentos reais produzidos pela desigualdade, desloca sua causa para inimigos escolhidos e oferece a restauração de uma ordem imaginária por meio da força. Em vez de enfrentar a exploração, aponta o dedo para o pobre, o migrante, a mulher que reivindica autonomia, a população negra, o movimento social, o professor, o artista, o comunista ou qualquer grupo que possa ser convertido em ameaça. Seu discurso promete acabar com o conflito social; na prática, preserva a propriedade e radicaliza a guerra contra quem vive do trabalho.

Definição de facismo começa pela sua função de classe

Uma definição materialista não procura a essência do fascismo apenas nas palavras de seus chefes. Ela pergunta: quem é protegido, quem é perseguido e quais relações sociais permanecem intocadas? Marx mostrou que as ideias dominantes não pairam acima da vida material: elas nascem em sociedades divididas por classes e podem servir para tornar aceitável uma dominação concreta. O fascismo aparece quando a ordem capitalista já não consegue obter consentimento apenas pela promessa liberal de ascensão individual, mas ainda precisa impedir que a crise se transforme em organização popular contra o capital.

Nesse ponto, a frustração de quem trabalha é real. O salário não alcança o mês, o aluguel absorve a renda, o emprego estável desaparece, a jornada se estende pelo celular e o futuro parece uma ameaça. Mas o fascismo trabalha para falsificar a origem dessa experiência. A exploração promovida por empresas, bancos e grandes proprietários é recoberta por uma narrativa moral: o trabalhador estaria pobre porque há gente “folgada”, porque os direitos seriam excessivos, porque servidores públicos teriam privilégios, porque a universidade corromperia os jovens ou porque uma minoria teria tomado o país.

É assim que a revolta contra a precarização pode ser desviada para a defesa de quem precariza. O entregador de aplicativo, submetido a metas opacas, bloqueios sem explicação e remuneração definida por plataforma, é convidado a se imaginar antes de tudo como empreendedor. Se sua renda cai, a culpa não é do modelo de negócio que transfere custos e riscos ao trabalhador; será da regulação, do imposto, do “comunismo”, de um político abstrato ou de outro trabalhador que disputa a mesma corrida. A linguagem fascistizante não elimina o sofrimento: ela administra sua direção política.

O inimigo fabricado substitui a crítica da exploração

O fascismo precisa de uma comunidade nacional imaginária, apresentada como naturalmente homogênea e ameaçada por elementos internos. Nessa fantasia, patrão e empregado, banqueiro e endividado, latifundiário e trabalhador rural pertenceriam ao mesmo corpo nacional. A desigualdade deixa de ser um problema estrutural e passa a ser detalhe secundário diante da necessidade de defender a pátria, a família, a religião ou a ordem. A luta de classes é negada justamente para que a classe dominante não precise ser nomeada.

Essa operação depende da fabricação contínua de inimigos. Não basta discordar de um adversário político; é preciso descrevê-lo como parasita, criminoso, degenerado, traidor ou ameaça existencial. A violência, então, deixa de parecer violência: torna-se limpeza, defesa, correção. O fascismo produz uma moral em que a crueldade contra certos grupos pode ser celebrada como coragem. É por isso que o seu vocabulário tem obsessão por punição, armamento, eliminação, humilhação pública e autoridade sem limite.

O fascismo não convence a maioria de que ela ganhará mais direitos. Convence parte dela de que terá o direito de ver alguém situado abaixo sofrer menos proteção.

Gustave Le Bon observou que as multidões podem agir sob forte contágio emocional, simplificação e sugestão. O uso fascista dessa dinâmica não está numa massa irracional por natureza, como se o povo fosse incapaz de pensar. Está na organização industrial de afetos que reduz problemas complexos a imagens simples: o criminoso a ser abatido, o professor doutrinador, o pobre fraudador, o político inimigo da nação. Nas plataformas digitais, esse mecanismo ganha velocidade. Vídeos curtos, correntes, cortes descontextualizados e indignação programada criam a sensação de que todos já concordam com a brutalidade que se quer normalizar.

O bolsonarismo mostrou o fascismo em condições brasileiras

O bolsonarismo não foi uma cópia mecânica dos fascismos europeus, e tratá-lo como mera repetição histórica impede compreender sua força específica. Ele articulou militarismo, anticomunismo, fundamentalismo religioso, culto à violência policial, desprezo pelos direitos humanos e uma máquina digital de ressentimento. Também soube falar a setores socialmente golpeados pela crise, oferecendo reconhecimento simbólico a quem se sentia abandonado. Esse reconhecimento, contudo, vinha acompanhado da exigência de ódio: para pertencer, era necessário escolher inimigos e aceitar que sua eliminação política ou social fosse desejável.

O traço fascista não estava somente em declarações agressivas ou em figuras grotescas. Estava no ataque sistemático à legitimidade das instituições quando elas não obedeciam ao chefe; na tentativa de converter derrota eleitoral em prova de conspiração; na hostilidade à imprensa, à universidade e aos movimentos populares; na celebração de uma masculinidade armada; e na disposição de submeter a vida coletiva a uma fantasia de guerra permanente. Os ataques de 8 de janeiro de 2023 foram a expressão concentrada dessa pedagogia: uma parcela mobilizada contra o próprio resultado eleitoral, em nome de uma ordem que só poderia sobreviver suspendendo a soberania popular.

Mas seria confortável demais atribuir tudo a uma anomalia individual ou a uma horda ignorante. O bolsonarismo floresceu num terreno preparado por décadas de neoliberalismo. A ideologia meritocrática ensinou que cada pessoa é responsável isoladamente por seu destino; a concorrência converteu colegas em rivais; o desmonte de direitos enfraqueceu formas de solidariedade; e a insegurança material tornou a autoridade uma mercadoria política. Quando o trabalhador de call center tem cada minuto monitorado, quando o professor acumula turmas e burocracias, quando a pessoa desempregada é tratada como fracasso pessoal, a promessa de ordem pode parecer mais imediata do que a construção paciente de igualdade.

Não há fascismo sem espetáculo e técnica de comando

Debord escreveu que o espetáculo não é apenas um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. O fascismo contemporâneo compreendeu essa condição. A política se torna transmissão ao vivo, provocação calculada, escândalo diário e disputa por atenção. O líder aparece como produto que encarna a cólera do público; seus seguidores recebem a ilusão de participação ao compartilhar slogans e atacar alvos. Enquanto isso, a exploração cotidiana continua menos visível que a polêmica da hora.

Heidegger alertava que a técnica moderna não é neutra quando passa a enquadrar tudo como recurso disponível. Sob o capitalismo de plataformas, pessoas, dados e emoções são capturados como matéria-prima de lucro e controle. Algoritmos não criam o fascismo por conta própria, mas podem recompensar conteúdos que retêm atenção pela raiva, pelo medo e pela humilhação. A extrema direita aprendeu a operar essa infraestrutura, fazendo da mentira uma experiência coletiva e da repetição uma aparência de verdade.

Reconhecer isso impede dois erros. O primeiro é imaginar que basta censurar uma palavra para derrotar uma política de ódio. O segundo é tratar a tecnologia como destino inevitável. A disputa é sobre as relações sociais que organizam a técnica, o trabalho e a circulação da informação. Sem enfrentar a precarização, a concentração de riqueza e o abandono dos vínculos coletivos, o terreno do fascismo permanece fértil, mesmo quando seus símbolos mais explícitos são rejeitados.

Chamar fascismo pelo nome é recusar sua normalização

A definição de fascismo só é útil se impedir que sua linguagem seja absorvida como opinião comum. Não se trata de dizer que toda direita é fascista, nem de reduzir a luta política a um vocabulário policial. Trata-se de identificar uma prática que mobiliza massas contra a igualdade, organiza o medo como método de governo, santifica a violência e protege a estrutura de classe por trás de uma falsa unidade nacional. Onde a democracia é aceita apenas quando confirma o comando de um grupo, onde o adversário deve ser destruído e não derrotado, onde direitos são apresentados como obstáculos à ordem, o fascismo deixa de ser passado.

Combatê-lo exige mais do que defender instituições em abstrato. Exige reconstruir poder coletivo no local de trabalho, nos bairros, nas escolas e nas organizações populares; devolver à indignação seu alvo verdadeiro; e demonstrar que a vida precária não é falha moral de quem a suporta. A alternativa ao fascismo não é uma conciliação que peça calma aos explorados. É uma política de igualdade material capaz de transformar medo em solidariedade e revolta dispersa em luta contra as condições que tornam a barbárie sedutora.